Estou postando aqui apenas a primeira parte desta palestra de Pe. Paulo Ricardo sobre o Marxismo Cultural. Com isso, gostaria de estimular e recomendar veementemente que todos assistam [ouçam] a íntegra desta palestra. O tema é atualíssimo e, diga-se de passagem,  bastante preocupante… Os leigos [e também os sacerdotes] católicos que desejam se insurgir contra o sistema anticristão que está sendo implantado na sociedade devem, a meu ver, se inteirar desta questão.

 

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[Ao terminar a leitura deste texto, fique ciente de que você não mais está em ignorância invencível no que tange à maldade intrínseca do Socialismo ;)]
 
 
 
 
A Cruz e a Foice-e-Martelo
A Cruz e a Foice-e-Martelo

por Pedro Ravazzano

O marxismo conquistou um grande número de seguidores dentro da Igreja. Esse posicionamento ideológico além de contrariar os ensinamentos do Magistério, gerou um forte braço da esquerda principalmente na América Latina. A teologia da libertação, nascida do encontro de heresias teológicas européias com a metodologia comunista no Novo Mundo, frutificou, tornando-se uma grande arma do socialismo mundial.

A Igreja já havia dito que “Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro” (Quadragesimo Anno, nº 117 a 120), mas isso não impediu que religiosos em rebeldia plena com o Magistério afirmassem que “o Reino de Deus é concretamente o socialismo” (L. Boff e Cl. Boff. Da Libertação, p. 96). Genésio Boff disse ao Jornal do Brasil que o proposto pelos seus irmãos em Marx “não é Teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da Teologia”.

Essa falta de amor ao ensinado pela Igreja, que não condenou o socialismo por motivos pequenos e mesquinhos, mas pela sua incongruência com a Revelação cristã, atingiu seu ápice quando em 1968, religiosos, que já traziam de outrora suas heresias ideológicas, comungaram e ratificaram atitudes terroristas e revolucionárias. Frei Betto, e seus comparsas, aliados a Carlos Marighela, levantaram pontos ao longo da Rodovia Belém-Brasília para implementar uma guerrilha rural, usando o Convento do Araguaia como o centro logístico. Nesse momento os dominicanos se transformaram, Frei Ivo, virou Pedro, Frei Osvaldo, Sérgio ou Gaspar I, Frei Magno, Leonardo ou Gaspar, Frei Beto, Vítor ou Ronaldo, tudo isso para que pudessem contactar Marighela e Joaquim Câmara Ferreira, os cérebros do Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP), que depois virou Ação Libertadora Nacional (ALN).

Esse grupo terrorista tinha como financiador o governo cubano. O presidente, Carlos Marighela, fundou o AC/SP depois que foi expulso do PCB. Interessante que sua obra, Minimanual do Guerrilheiro Urbano, transformou-se em norte de vários grupos fanáticos de esquerda, como Brigadas Vermelhas, da Itália, e Baader-Meinhoff, da Alemanha. A ALN assaltou trens-pagadores (o roubo de Santos-Jundiaí rendeu NCr$ 108 milhões), seqüestrou homens de importância, como o embaixador americano, em conjunto com o MR-8 (de Franklin Martins e Fernando Gabeira). Depois da morte de Marighela, em 1969 (por delação do Frei Fernando), a ALN passou a ser liderada por Joaquim Câmara Ferreira, que viajou para a Cuba com o fim de receber ordens de Fidel Castro. Além desse extenso currículo, a ALN se envolveu em centenas de assassinatos, tanto com a ação solo, como em parceria com outros grupos terroristas; VAR-Palmares (de Dilma Rousseff), PCBR, MOLIPO, Tendência Leninista (esses dois últimos gerados da própria ALN). Tudo isso com a participação, ou no mínimo conhecimento, de religiosos dominicanos.

Os terroristas não lutavam por liberdade, mas sim para que houvesse o triunfo da revolução comunista no Brasil. No regime militar o número de mortos chegou a aproximadamente 400 (lembrando que os guerrilheiros de esquerda cometeram cerca de 200 assassinatos), enquanto o histórico do marxismo mundial beirava os 100 milhões de mortos. Alguns casos são bastante significativos; na China 65 milhões morreram depois que Mao Tse Tung iniciou o “Grande Salto para a Frente”, um desastroso projeto. Na URSS, só de 1917 a 1953, o regime bolchevique havia matado 20 milhões de pessoas, muitos deles religiosos da igreja ortodoxa russa que cometiam o crime de serem cristãos. Na Coréia do Norte, que até hoje vive no jugo do regime comunista, o número chegou a 2 milhões de mortos. No Camboja, o Khmer Vermelho matou em três anos 1/3 da população. Na América Latina, países como Cuba, Nicarágua e Peru, que estavam intrinsecamente ligados nas arquitetações comunistas, carregam cerca de 150 mil mortos. A ilha de Fidel ainda tem cerca de 2,2 milhões de pessoas, 20% da população de Cuba, de refugiados, principalmente nos EUA. Outros números; África, 1,7 milhão, entre Etiópia, Angola e Moçambique, Afeganistão 1,5 milhão, Vietnã 1 milhão.

É bastante pertinente o ocorrido na Guerra Civil espanhola. O historiador Hugh Thomas diz que “Em tempo algum no curso da história da Europa, Talvez mesmo de todo o mundo, viu-se um ódio tão apaixonado à religião e suas obras.” Tanto na Espanha quando no Brasil os marxistas tinham apoio direto da URSS, a diferença era que na península ibérica os religiosos eram martirizados e perseguidos, enquanto aqui se convertiam à barbárie comunista. Só nos meses precedentes a guerra 160 Igrejas foram depredadas e 270 religiosos mortos. É célebre a foto onde o Cristo Redentor é “fuzilado” por atiradores comunistas, além disso, outros monumentos católicos eram profanados, como a histórica imagem de Nossa Senhora de Granada que tinha que ser chutada para o alistamento na Frente Popular. Os processos da canonização são sempre grandiosos; 61 mártires de Cartagena, 47 Irmãos Maristas, 226 de Valença, 500 foram beatificados a pouco tempo por S.S Bento XVI. O número de mártires chega aos milhares.

Enquanto Frei Betto, e seus companheiros religiosos, se levantavam contra os abusos cometidos pelo regime militar, que combatia comunistas com a intenção de instaurar no Brasil uma ditadura marxista, em Cuba se fuzilava entre 15 mil e 17 mil pessoas. A consciência era limpa (ou hipócrita?), não se incomodavam em receber dinheiro e treinamento de militantes castritas. A falta de percepção era tão acentuada que se lançavam numa luta contra um inimigo que tinha apenas a pretensão de combater os futuros fuzilamentos, genocídios, e massacres, que ocorreriam no possível Brasil vermelho. URSS, China e Cuba eram os financiadores dos guerrilheiros que diziam lutar por liberdade mais que eram sustentados por regimes genocidas.

Não se perturbavam quando seus ícones falavam barbaridades como “Fuzilamentos, sim, temos fuzilado, fuzilamos e continuaremos fuzilando enquanto seja necessário. Nossa luta é uma luta de morte”. (Che Guevara, na Assembléia Geral da ONU em 11 de dezembro de 1964) ou “Não sou Cristo nem filantropo; sou todo o contrário de Cristo” (“Che” Guevara em carta familiar).

A teologia da libertação tem sua presença no meio religioso reduzida, mas ainda é ativa na política da América Latina. O próprio PT surgiu nas sacristias das igrejas TL, e ainda hoje Frei Betto, Boff, e companhia, são ativos e essenciais na articulação esquerdista nacional e internacional. O frade dominicano tem relações amistosas com Fidel Castro, seu mentor político, as FARC, tendo o comandante da narcoguerrilha, Raul Reyes, informado que um dos seus maiores contatos junto ao governo do PT era o religioso católico, e com diversos partidos marxistas do continente, sendo um dos membros principais do Foro de São Paulo, dirigindo sua revista quadrimestral, “America Libre”. Ele sem nenhuma timidez ou receio barbarizou ao dizer em pleno II Fórum Social Mundial, que “a sociedade do futuro mais livre, mais igualitária e mais solidária se define em uma só palavra: socialismo. Pediu uma salva de palmas para Karl Marx e disse que o homem novo deve ser filho do casamento de Ernesto Che Guevara e Santa Teresa de Jesus”, como pontuou Carlos I. S. Azambuja.

A heresia do modernismo deu um grande impulso aos religiosos que já tinham o germe heterodoxo. A massificação foi tão grande que conseguiram corromper toda a Ação Católica, passando a ser um braço dos partidos marxistas. Nessa época os grandes Bispos de destaque do país estavam em consonância com tais abusos e profanações, fornecendo uma densa e forte proteção aos religiosos que se comportavam diametralmente opostos ao ensinado pelo Magistério. Nesse contexto, é bastante pertinente a figura do ex-frade Leonardo Boff, que diferente de Frei Betto, tinha uma bagagem cultural e teológica de peso. Ele conseguiu fornecer a teologia da libertação um fundamento sólido e que poderia se passar facilmente como ortodoxa pelos desavisados. Sua figura caiu para segundo plano quando ainda religioso se envolveu com uma mulher casada, o que além de acarretar sua saída da vida franciscana por vontade própria, lançou para um patamar abaixo a sua importância na teologia americana. Mesmo com essa queda, suas sementes já haviam sido plantadas em muitos setores da Igreja.

A teologia da libertação foi posteriormente condenada através do documento Libertatis Nuntius, que afirmou entre outras coisas, que ela causava “uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé.” Isso se somou às condenações ao marxismo feitas por Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Em Puebla, o documento do CELAM frisou que “(…) A libertação cristã usa ‘meios evangélicos’, com a sua eficácia peculiar e não recorre a nenhum tipo de violência, nem à dialética da luta de classes (…)” (nº 486) “ou à praxis ou análise marxista” (nº 8).

O Magistério em toda a sua riqueza é claro quanto à condenação ao socialismo, e a própria teologia da libertação. Esta, além da metodologia comunista cai em outras heresias, como o modernismo, gnosticismo (ambas intrínsecas), mas também milenarismo, se fomos analisar a perspectiva socialista de redenção, montanismo, com a sua percepção eclesiológica deturpada, e outras heterodoxias. Essas heresias podem gerar diversas outras, como berenguarianismo (nascido da visão de que o Sacerdote detém o poder enquanto os fiéis são desprovidos, daí a negação da presença real de Cristo na eucaristia), ou então o embrião dessa heterodoxia; a afirmação de que a comunidade celebra junto ao Padre. Em ambos os casos o erro surge da necessidade de um igualitarismo entre fiéis e religiosos. Além dessas heresias, a teologia da libertação descamba para a defesa do aborto, homossexualismo, etc. Nas palavras de Frei Betto; “O Estado é laico e deve ter o direito de defender a vida das mulheres pobres não incriminando mais o aborto, o que não significa ser a seu favor.” e “Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização em certos casos (…) Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento.” (Frei Betto, A Questão do Aborto). O religioso só esquece do ensinamento canônico da Igreja; , “Cânone 1398 Quem procurar o aborto seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae (automática)”, condenação que também recai aos defensores do infanticídio.

A teologia da libertação conseguiu entrar nos seminários e noviciados, com isso se impregnou justamente na fonte de formação. O apoio de grandes Bispos no passado foi essencial para o fortalecimento dessa linha herética. Ambos os fatores somados deram a TL uma estrutura sólida e grandiosa. A sua presença na Igreja brasileira foi tão enfática que conseguiam abafar todas as condenações que viam de Roma, continuando intocados e atuantes. Com o surgimento do movimento carismático, e associações fiéis e ortodoxas (Legionários de Cristo, Opus Dei, Comunhão e Libertação, Arautos do Evangelho, etc), a teologia da libertação passou a presenciar a sua degradação. Só conseguiam fornecer aos seus seguidores um discurso político e centrado na dialética marxista, tudo convergia para a “justiça social” e luta de classes; Maria a mulher da caminhada, Jesus o revolucionário, etc. Isso gerava o empobrecimento espiritual dos homens, algo tão necessário na vivência cristã. Esses novos movimentos começaram justamente a resgatar o cristocentrismo, vendo no conforto social apenas uma conseqüência da comunhão com Deus, e não a causa.

A TL foi sendo assim minada, sua influência reduzida. Cavaram a própria cova quando afastaram a piedade e religiosidade dos fiéis, com isso secavam as fontes de vocações, enquanto os movimentos aversos a essa metodologia dialética e herética apinhavam os seminários e noviciados de jovens. Dessa forma uma nova geração de religiosos foi sendo formada, com fidelidade ao Magistério e ortodoxa no seguimento da doutrina. Serão os futuros padres, freis, monges, Bispos, aqueles que irão execrar por um todo a teologia da libertação da Igreja, e coloca-la no seu devido lugar, nos livros de história como uma heresia ao lado das tantas outras.

            Hoje li esta notícia comentada no Deus lo vult!  Trata-se do fato de que a missa do primeiro dia de maio, na Catedral de São Paulo, será celebrada apenas para os empregados: a participação do empresariado na celebração foi vetada por resistência da Pastoral Operária. Pastoral Operária, é como a Pastoral da Terra, cheira a TL…

            A notícia, em si, já foi muito bem comentada por Jorge Ferraz. Quero apenas me deter nos aspectos de fundo dela, nas entrelinhas do que foi publicado. Primeiro, permitam-me os profissionais e estudantes de direito, dizer algo que me atravessa a garganta há muito tempo e que, apesar disso, eu nunca tive a coragem de dizer nem de escrever: a visão de o empregador como o “demônio” (que, portanto, não deve ter acesso à missa) é de origem marxista, e se reflete sobremaneira no Direito do Trabalho (ramo do direito que, aliás, existe em pouquíssimos países). Especialmente no Direito brasileiro, a lógica embutida é a seguinte:

 

1 – Todo empregador é intrinsecamente mau; cresceu oprimindo os mais fracos;

2 – Todo empregado é vítima de sua dependência econômica do emprego; e é “tapado” a ponto de não poder reagir às barbáries a que o patrão lhe submete.

           

            As duas afirmações, obviamente, são falsas. Há bons e maus empregadores, como também há bons e maus empregados. Por que então essa necessidade de segregar? É simples:  a dicotomia – qualquer que seja ela: ricos-pobres, bons-maus, oprimidos-opressores – não só faz parte da doutrina marxista, como é condição sine qua non para a existência da mesma.

            A Teologia da Libertação – distorcendo o termo evangélico “pobres” – pretende “evangelizar” apenas os miseráveis. A doutrina TL é mais ou menos assim: quem tem muito dinheiro certamente o obteve ilicitamente (oprimindo os pobres); e quem não tem dinheiro, é porque não teve oportunidade de crescer na vida (já que foi a vida inteira oprimido pelos ricos, pelos marajás, burgueses, etc,). Esse raciocínio, contudo, faz parte de um ciclo mortífero. Explico: digamos que ao miserável sejam dadas as oportunidades para crescer profissionalmente e ganhar dinheiro. Tão logo consiga uns trocados a mais, a TL não mais o “evangelizará” sob alegação de que ele passou para o lado dos opressores, dos que têm grana. Para se manter em vigor, para que os seus corolários continuem sendo verdadeiros, o marxismo (que norteia as bases da TL) precisa que existam classes totalmente díspares e imiscíveis: como haverá luta de classes se não houver, no mínimo, duas delas em oposição? A TL, para subsistir, precisa de um sistema de castas: quem é pobre deve morrer pobre; e quem é rico que morra rico (e, depois, vá para o inferno!).

            Essa distorção lógica (repito: advinda do marxismo) acaba se infiltrando na Igreja por meio de uma gente sem noção que quer fazer da Igreja de Cristo palco para apresentação de doutrinas diversas, em substituição à Sã Doutrina da Salvação. O mais danoso é que esse discurso, que se reveste de “compaixão pelos pobres” engana a muita gente. Ele é sofismático: faz crer que é verdadeiro, motivado por “boas intenções”, mas – em essência – é completamente equivocado.

            E quando essa “lógica” toma a forma de protesto contra a hierarquia da Igreja? Aí é a desgraça completa! A Santa Sé é vista como uma espécie de palanque onde os poderosos ostentam sua potestade. A púrpura cardinalícia é vista não como sinal de dignidade, mas como sinal de poder; O Papa é visto apenas como Chefe da Igreja, e não como Servo dos servos de Deus. Roma é tida como uma sede administrativa. E só. Esquecem-se de que foi em Roma que morreram Pedro e Paulo, colunas da Igreja; foi em Roma que milhares de cristãos, no início do cristianismo, derramaram seu sangue em honra de Nosso Senhor e por amor à Santa Igreja; esquecem-se de que Roma foi a cidade que, após tanto perseguir a Igreja, teve que se curvar ao poder da mão de Deus: Roma é, para a Igreja, quase um despojo de guerra! Portanto, ter sua sede em Roma é providencial! Se a Igreja é católica (=universal), podemos dizer que o epicentro desta universalidade é Roma. Então porque querer criar duas Igrejas (a “de Roma” e a “do Povo”)? Não deixou Nosso Senhor tão somente uma Igreja? Não é única a Esposa de Cristo?

            A noção de “povo” também é por mais distorcida. Quando falam em povo, os teologistas da libertinagem querem se referir a um “conglomerado de pessoas (pobres)”. “Povo”, entretanto, é uma terminologia que está associada à idéia de “nação”: o povo é uma nação que está subordinada a um poder estatal. E que, em paralelo a isso, conserva os mesmos costumes, a mesma língua, a mesma religião, as mesmas tradições, etc. Como conciliar isso com o fato de que a diversidade é um princípio fundamental da TL? Definitivamente, eles não sabem o que dizem!

            Ainda bem que a Igreja é sábia, é mãe,e  obedece ao mandato de Cristo, que disse: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28,19).

            Ricardo Carpena fez uma breve entrevista (disponível aqui) com o presidente Lula. Duas perguntas, particularmente, me chamaram a atenção. Teci, então, ligeiros comentários às palavras do iletradíssimo (digo, ilustríssimo) chefe da República Federativa do Brasil. Todos os grifos são meus; e os comentários que fiz estão entre colchetes e em itálico, no corpo do próprio texto.

 

 

            O que acontece no interior de um dirigente de esquerda que hoje é um exemplo de pragmatismo? Que mudanças se produziram em seu interior?

            Nunca fui marxista. Nunca. Desse mal não sofri. Minha origem política foi o movimento sindical, nas comunidades de base [Eis o que consta na certidão de nascimento: filho da TL…tsc, tsc.] e no movimento social. Sempre me considerei um socialista; [Ele fala como se fosse um orgulho afinar-se a uma ideologia socialista. Bobinho… No fundo dá no mesmo: Marxismo e Socialismo são os dois lados de uma mesma moeda…] Porém, o PT jamais definiu um tipo de socialismo porque isso era impossível. Estava o exemplo da União Soviética: esse era o modelo de socialismo que queríamos? Não, eu não queria isso porque não concebo um socialismo sem liberdade democrática, sem direito de greve, sem alternância de poder. Essa é minha ideologia. Houve um momento, nos anos setenta, em que a esquerda brasileira me dizia que eu era de direita. E a direita dizia que eu era de esquerda. Essa postura eras importante porque considerava que estava no caminho do meio. A realidade é que o trabalho que fizemos no movimento sindical me permitiu reunir um grupo muito grande de brasileiros que, nos anos setenta, participavam da luta armada, um grande número de intelectuais, os melhores que tínhamos no Brasil; um grande número de sindicalistas, com o apoio muito forte dos movimentos sociais das comunidades. Nunca tive um trauma por ter mudado de postura [Caro leitor, não se espante: daqui a algumas linhas ele vai dizer exatamente o contrário disso] por ver a política com um grande pragmatismo. Na política se faz o que se pode fazer. No discurso podemos dizer o que se quer, porém no momento de executar, o limite é o possível. [Nossa! Quanta coerência! “Moral” da história: enquanto candidato, prometa o impossível; depois de eleito, faça só o que der!] Eu fui eleito com um programa muito claro, firmei um compromisso com o povo brasileiro e por isso me elegeram presidente da República. E estou cumprindo. Duvido que haja em outro lugar do mundo uma relação entre o presidente e os movimentos sociais como a que existe aqui no Brasil. Eu falo com os dirigentes sindicais, com os que vivem na rua, com os travestis, com os homossexuais e tudo sem preconceitos [ninguém tinha tocado nesse assunto… Por que, entre os tantos grupos sociais existentes, mencionar justo esses? Quer angariar a simpatia (=votos; apoio, etc.) deles é?]. Por isso é que, no fundo, não mudei [Finalmente, mudou ou não mudou?]. Cresci e assumi mais responsabilidades. Quando somos oposição, dizemos o que cremos e pensamos que deve ser feito; porém, quando somos governo, não cremos e nem pensamos nada: fazemos ou não fazemos. E eu fui eleito para fazer.

            Existem pessoas que dizem que o senhor e Michelle Bachelet são parte de uma esquerda racional e que Chávez e Evo Morales são mais populistas. É isso mesmo? Em todo caso, como situaria a Kirchner nesse espectro?

            Não vejo dessa forma. A coisa não é tão simplista. Evo Morales é o que é devido á sua cultura política, devido às pessoas as quais ele representa. Chávez também é o que é por sua cultura política. E Kirchner o mesmo. Qualquer pessoa pode ter suas diferenças com Kirchner; porém, a verdade é que depois de muitos anos, Argentina voltou a ser um país, voltou a crescer, a gerar empregos e a ser mais respeitada. Podemos gostar ou não; porém, o dado concreto é esse. Kirchner foi o princípio de uma nova era para a Argentina, que tem sua continuidade com Cristina. Meu orgulho é que, depois de deixar o governo, teremos outro paradigma de governabilidade nesse país. E isso também é válido para Chávez. Quando escutamos as pessoas criticarem a Chávez teríamos que perguntar-lhes como era a Venezuela antes de que ele governasse. Se o povo vivia melhor, então, sem dúvida, ele seria o ‘bandido’ da história; porém, isso não é verdade. Chávez melhorou muitíssimo a vida dos pobres, exerce a democracia… [a questão que me inquieta é: como se vive ‘melhor’ se não se é livre? Pão e circo é o que o povo precisa? E só?] Eu, pessoalmente, não agüentaria disputar tantas eleições como ele. Um referendo hoje, um referendo amanhã? Eu não agüentaria. [Deus existe! Bendito seja Deus para sempre!] Se aprendemos a respeitar a soberania de cada país, seus hábitos culturais e políticos, a história, sofreremos menos, teremos menos inimigos. Quando Evo Morales começou a brigar com o Brasil, os setores mais conservadores queriam que eu o ameaçasse. Sempre o tratei como se trata um companheiro. Eu sabia que o gás era dele e sabia que algum dia a situação seria compreendida, que ele mesmo perceberia que havia coisas distintas para fazer. Isso é o que está acontecendo: está muito mais maduro; conseguiu organizar sua equipe. Porque para ser governo temos que montar uma equipe. Obama não pode eleger o segundo homem de sua equipe econômica porque tem que passar pelo Partido Republicano. Por mais inteligentes que sejamos, por mais importante que seja o país, existe um tempo para amadurecer. Espero que a América Latina nunca mais retroceda.