A SABEDORIA DA CRUZ

FRANCISCO FAUS

A LOUCURA DA CRUZ

A DOR QUE SORRI

Nunca me esquecerei de um pequeno episódio da vida real, que pode ser contado em poucas linhas. Faz bastantes anos, alguém visitou no hospital um colega de trabalho, jovem, atacado por uma doença incurável e muito dolorosa. Mesmo sem poder disfarçar algum trejeito de dor, o doente sorria sempre, estava alegre e falava de maneira serena e otimista, de tal modo que confortava e reanimava os que o iam visitar. Comentou-lhe o amigo:

– Fico contente de ver que os médicos conseguiram aliviar um pouco a sua dor…

– Não conseguiram – respondeu o outro com simplicidade –. Mas eu rezo sempre, e digo a Deus: Sofro porque me dói, sorrio porque Te amo.

Esta frase tão breve parece-me que encerra uma sabedoria mais profunda –sabedoria da cruz – do que as páginas de muitos livros. E é preciso reconhecer que há livros excelentes que abordam com seriedade e altura o sentido humano e cristão do sofrimento; em horas em que as dores físicas ou morais apertam, podem trazer-nos luz e consolo. Mas, se queremos aprender a fundo a ciência da cruz, creio que só existem duas cátedras que no-la podem ensinar, na prática, e metê-la no coração: a cátedra da experiência cristã – da própria e da alheia, sobretudo a dos santos – e a cátedra divina da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus.

O QUE JÓ APRENDEU

Jó é o máximo sofredor do Antigo Testamento. Desde o começo do Livro de Jó, aparece-nos como um homem de fé forte e integridade de conduta. A dor abate-se sobre ele como uma montanha que desaba: perde todos os filhos e todos os bens, perde a saúde e a honra, fica como um mendigo leproso que apodrece solitário no monturo.

E qual foi a reação de Jó? Não foi uma. Foram duas, uma após a outra.

A primeira foi a reação de um autêntico adorador de Deus, de um homem de fé inabalável, que nos deixa boquiabertos: O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor […]. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? (Jó 1, 21 e 2, 10).

A segunda reação foi a própria de um homem sincero, acostumado a falar com Deus de coração aberto. Reduzido a um trapo, Jó recebe a visita de três amigos, penalizados, aos quais se une depois um quarto. Todos eles tentam “explicar-lhe” com muitos argumentos o porquê da avalanche brutal dos seus sofrimentos, interpretando-os fundamentalmente como um ato de justiça de Deus, que estaria assim punindo Jó por culpas que ele não percebeu ou não reconhece. Assumem, assim, a função de “advogados defensores de Deus”, um papel que o Senhor Deus não lhes havia confiado.

Diante dessa interpretação simplista e distorcida, Jó se insurge: revolta-se, brada, prorrompe em lamentos dilacerantes, increpa Deus e convoca-o para “discutir” com ele; seus gritos chegam a raiar a blasfêmia. Mas, na realidade, são os brados sinceros e agoniados de um homem de fé absoluta, que não entende o que está acontecendo. Jó crê em Deus acima de tudo no mundo, e não pode imaginar que Ele seja injusto e o castigue como se fosse culpado por crimes que não cometeu. Os amigos escandalizam-se da sua fala. Mas Jó insiste. E, no fim, quando a discussão atinge o clímax, Deus em pessoa intervém. E o que faz o Senhor? Depois de repreender Jó pelos seus excessos verbais, dá-lhe razão, concorda commeu servo Jó e indigna-se contra os amigos sabichões, que se metem a dar lições sobre o que não sabem.

Com palavras faiscantes de poesia, Deus mostra a Jó e aos amigos indiscretos quão longe estão de compreender os planos da sabedoria, da justiça e da bondade de Deus:

Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra? […]

Quem fechou com portas o mar,

quando brotou do seio maternal,

quando lhe dei as nuvens por vestimenta

e o enfaixava com névoas tenebrosas? […]

Algum dia na vida deste ordens à manhã?

(Jó 38, 4 e segs.)

Indicaste à aurora o seu lugar?

Também Jesus teve que desfazer certa vez as interpretações erradas que os seus Apóstolos faziam sobre o sofrimento. São João conta-nos uma cena que presenciou em Jerusalém: Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: – Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: – Nem este pecou, nem seus pais, mas foi assim para que nele se manifestassem as obras de Deus. Logo a seguir, fez o milagre de abrir os olhos àquele homem (Jo 8, 1-7).

A primeira coisa que os discípulos pensaram foi que o sofrimento era um castigo, como os amigos de Jó. Nós também. Aparece um sofrimento inesperado, uma doença, um revés, e logo nos queixamos: “Por que Deus faz isto comigo? Por que me castiga? Eu não mereço este sofrimento!”

Sempre que pensamos assim, não entendemos que, em muitíssimos casos, a dor, nesta terra, não é um castigo de Deus, mas tem outra finalidade, mais profunda, divina e positiva: É para que se manifestem as obras de Deus. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos: Meus pensamentos não são os vossos (Is 55, 8). Nós partimos do preconceito de que a dor é um mal e só pode ser castigo, e Deus não pensa assim.

Sim, a dor tem um papel misterioso e altíssimo nos planos divinos, é algo que ultrapassa de longe os esquemas mentais e as perspectivas dos humanos. Foi por isso que Deus deu razão a Jó, o homem reto que não aceitava explicações baratas nem lógicas surradas. Jó acabou percebendo o que Deus queria dizer, e por isso calou-se, pôs a mão na boca, e reconheceu: Falei, sem compreendê-las, maravilhas que me superam e que não conheço (Jó 39, 34 e 42, 3).

Em matéria de dor, a atitude mais sábia é a de Jó: calar-se, ser humilde e ouvir a Deus.

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I – Blog: um meio para aproximações e encontros

 

A internet realmente proporciona coisas maravilhosas.  Recentemente, entrou em contato comigo o Anderson Reis, fundador da Comunidade Católica Escravos de Maria [vejam aqui a comunidade que eles têm no Orkut]. Ele me conheceu através do blog e propôs que nos encontrássemos – já que ele viria de São Paulo a Pernambuco para pregar um retiro. Topei a ideia e, assim, o encontro aconteceu. Conversamos, trocamos presente, rezamos e adoramos o Santíssimo Sacramento na simpática e acolhedora Capela de uma das casas da Obra de Maria. Gilberto Gomes Barbosa, fundador da Obra, também se fez presente e nos acolheu com alegria e muita hospitalidade. Este encontro me trouxe uma grande satisfação por saber que o gérmen desta aproximação entre mim e Anderson se deu a partir deste veículo de comunicação, o blog. Quam bonum est et jucundum, habitare fratres in unum!

 

II – “Bem aventurados os misericordiosos”

 

O Padre Álvaro Corcuera, L.C., diretor geral dos Legionários de Cristo e do Movimento Regnum Christi, escreveu – por ocasião da Quaresma de 2010 – uma carta aos membros e amigos do Movimento. No último dia de Cristo Rei, também postei aqui uma carta lavrada pela pena de Pe. Álvaro. Naquela ocasião, eu dizia que “embora dirigida a um grupo específico, penso que a carta seja de grande utilidade a todos”.  Penso o mesmo desta sua alocução sobre a Quaresma: serve aos católicos em geral [afinal, ele apresenta uma doutrina e uma espiritualidade que, antes de tudo, são genuinamente católicas]. Ao discorrer sobre uma das bem-aventuranças [“Bem aventurados os misericordiosos”], o Superior da Legião de Cristo propõe [e o faz com maestria] uma meditação sobre um tema apropriadíssimo a este tempo de conversão e penitência que vivemos: a Misericórdia. A carta encontra-se disponível neste link.

 

III – “Tolices beato-marxistas”

 

O Percival Puggina escreveu um artigo sobre a Campanha da Fraternidade. Jorge Ferraz, mencionando o texto do Puggina, destacou: “Perdoem-me os mais benevolentes que eu. Mas ano após ano, servindo-nos sempre um pouco mais do mesmo lero-lero beato-marxista e um pouco menos da palavra de Deus, a CNBB já foi bem além da minha capacidade de tolerância. Ao longo dos anos, foi perfeitamente possível encontrar impressões digitais e carimbos das suas pastorais sociais em documentos que deixavam claro que o Reino de Deus tinha partido político na Terra. Ou não?”. Sem comentários…

              I – Papa, Facebook, Conselhos aos Jovens

 

              Há uma comunidade no Facebook criada com o intuito de congregar todos quantos desejam se informar e se preparar para a próxima Jornada Mundial da Juventude, que ocorrerá em Madrid o ano que vem. Nesta comunidade, encontram-se postados 10 conselhos que o Santo Padre, em abril de 2006, deu aos jovens. Penso que seja bom e útil revê-los. São eles:

 

1)       Conversar com Deus

2)       Contar-lhe as penas e alegrias

3)       Não desconfiar de Cristo

4)       Estar alegres: querer ser santos

5)       Deus: tema de conversa com os amigos

6)       No Domingo, ir à Missa

7)       Demonstrar que Deus não é triste

8)       Conhecer a Fé

9)       Ajudar: ser útil

10)   Ler a Bíblia

 

             Aconselho veementemente a todos que me estiverem lendo que vão á página do Facebook e leiam os breves comentários feitos pelo Papa ao dar cada conselho. O Santo Padre, naquela ocasião, concluiu seu pronunciamento aos jovens com estas palavras:

 

“Construir a vida sobre Cristo, acolhendo com alegria a palavra e pondo em prática a doutrina: eis aqui, jovens do terceiro milênio, o que deve ser o vosso programa! É urgente que surja uma nova geração de apóstolos enraizados na palavra de Cristo, capazes de responder aos desafios do nosso tempo e dispostos a difundir o Evangelho por toda a parte. Isto é o que o Senhor vos pede, a isto vos convida a Igreja, isto é o que o mundo – ainda que não saiba – espera de vós! E se Jesus vos chama, não tenhais medo de responder-lhe com generosidade, especialmente quando vos propõe segui-lo na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Não tenhais medo; confiai n’Ele e não ficareis decepcionados”.

BENTO XVI

9 de Abril de 2006

 

 

              II – Assembléia Pastoral Arquidiocesana de Olinda e Recife

 

             Como a maioria dos católicos da Arquidiocese de Olinda e Recife já deve saber, está acontecendo – em atenção à convocação feita por D. Fernando Saburido – a Assembléia Pastoral Arquidiocesana. No site da Arquidiocese, encontrei uma matéria que trazia estes comentários a respeito da Assembléia:

 

“Padres, diáconos, religiosos e leigos esperam que esta seja o inicio de uma renovação na igreja particular de Olinda e Recife”.

“Para o Arcebispo, Dom Antônio Fernando Saburido, a descentralização das atividades arquidiocesanas, principal objetivo deste evento, refletirá em uma reestruturação eclesial e pastoral dando um novo ânimo para todos”.

             

               Eu acho realmente prejudicial esta linguagem que vem sendo empregada para se referir a tudo aquilo que diz respeito à Arquidiocese de Olinda e Recife. Tem-se falado sempre em “renovação”, “novo ânimo”, “reestruturação”, etc. Vejo nisso uma crítica velada [ou expressa?] à administração de D. José Cardoso Sobrinho. É como se a era de D. José fosse “velha, desanimada e desestruturada” [o que implica numa “necessidade de desfazer” tudo o que D. José fez]. Por causa desta terminologia infeliz as pessoas são levadas a crer que o arcebispo emérito, na época de sua gestão, “sufocou” a Arquidiocese – que agora “respira aliviada” sob o cajado de S. Excª. D. Fernando Saburido. Isso é uma GRANDE injustiça. Pronto. Disse.

              Antes que eu esqueça: o encerramento da Assembléia ocorrerá com uma celebração ecumênica…

 

              III – Anglicanos: conversão massiva e maciça

 

               Vejam que trecho maravilhoso de uma reportagem publicada por Zenit [grifos meus]:

A comunidade de anglicanos Foward in Faith, que tem sua sede principal na Austrália, poderia ser o primeiro caso de adesão coletiva à plena comunhão com a Igreja Católica depois da publicação da constituição Anglicanorum Coetibus, no último dia 4 de novembro.

Assim deu a conhecer o bispo anglicano David Robarts OAM, em declarações ao jornal australiano The Daily Telegraph, publicadas na terça-feira.

[…] Durante uma reunião realizada no último final de semana, cerca de 200 membros votaram unanimemente por voltar à plena e visível comunhão com a Igreja Católica.

 

             Quem sabe “fazer ecumenismo” é o Papa. Isso é inegável.  Enquanto alguns sacerdotes, bispos e até conferências episcopais inteiras acham que ecumenismo é cada um “ficar no seu canto” [como se todos estivessem certos, i.e., com a Verdade], o Romano Pontífice atrai para Cristo os filhos dispersos da Santa Mãe Igreja. Viva! Um amigo me lembrava hoje um “ditado” do professor Felipe Aquino – referindo-se ao Papa Bento XVI: “Eu confio no meu Pastor Alemão!” Eu também, professor! 😉

 

               IV – Padre Paulo Ricardo e Quarta-Feira de Cinzas

 

              Ultimamente [reconheço!] tenho citado bastante o Padre Paulo Ricardo. É que – permitam-me dizer – dia após dia me convenço de que Pe. Paulo é uma das mentes mais brilhantes da Igreja no Brasil. Assim sendo, permitam-me – ainda que com um pouco de atraso – recomendar este brevíssimo vídeo com mais um de seus comentários. Desta feita, ele discorre sobre o sentido da Quarta-Feira de Cinzas. Muito legal, de verdade!

Unamo-nos ao canto da Santa Mãe Igreja e supliquemos, neste início de Quaresma, que Deus – Nosso Senhor – nos ouça e se apiede de nós!

Attende Domine, et miserere, quia peccavimus tibi.

Ad te Rex summe, omnium Redemptor,
oculos nostros sublevamus flentes:
exaudi, Christe, supplicantum preces.

Dextera Patris, lapis angularis,
via salutis, ianua caelestis,
ablue nostri maculas delicti.

Rogamus, Deus, tuam maiestatem:
auribus sacris gemitus exaudi:
crimina nostra placidus indulge.

Tibi fatemur crimina admissa:
contrito corde pandimus occulta:
tua, Redemptor, pietas ignoscat.

Innocens captus, nec repugnans ductus;
testibus falsis pro impiis damnatus
quos redemisti, tu conserva, Christe.

 

 

Tradução [Fonte: Gregoriano]

 

Ouve, Senhor, e tem piedade, porque pecamos contra ti!

 

A ti, Rei Supremo, Redentor de todos,

Levantamos nossos olhos em pranto:

Escuta, ó Cristo, as preces dos que Te suplicam.

Mão direita do Pai, pedra angular,

Caminho da salvação, porta do céu:

Lava as manchas do nosso pecado.

Pedimos à Tua Majestade, ó Deus:

Escuta, com ouvidos sagrados, nossos gemidos

Perdoa, Benigno, nossos crimes.

Nós Te confessamos os pecados cometidos,

Com coração arrependido Te manifestamos os ocultos:

Que Tua Misericórdia perdoe, ó Redentor.

Preso inocentemente, conduzido sem fugir,

Condenado, em favor dos pecadores, por falsas testemunhas:

Conserva, ó Cristo, aqueles que salvaste!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Terça-feira, 03 de fevereiro de 2009, 10h00
Papa divulga mensagem para a Quaresma

Da Redação, Rádio Vaticano
Foi divulgada hoje, 3, a mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2009, com o tema “Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome”.

Participaram da apresentação, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o Presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”, Cardeal Paul Josef Cordes, o secretário do Conselho, Monsenhor Karel Kasteel, o vice-secretário, Monsenhor Giampietro Dal Toso, e Josette Sheeran, diretora executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU.

Leia a íntregra:

Queridos irmãos e irmãs!

No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia nos propõe três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal, “derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz” (Hino pascal). Na habitual mensagem quaresmal, gostaria de refletir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De fato a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no Evangelho: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demônio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome” (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Horeb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador.

Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: “Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás” (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que “o jejum foi ordenado no Paraíso”, e “o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão”. Portanto, ele conclui: “O ‘não comas’ e, portanto, a lei do jejum e da abstinência” (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum nos é oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar “para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus” (8, 21). O Onipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua proteção. O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: “Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?” (3, 9). Então Deus viu as suas obras e os poupou.

No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete o Mestre Divino também em outras partes, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual “vê no oculto, te recompensará” (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o “verdadeiro alimento”, que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor “de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal”, com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia.

Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do “velho Adão”, e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: “O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica” (Sermo 43; PL 52, 320.332).

Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma “terapia” para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição Apostólica Paenitemini de 1966, o servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a “não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e… também a viver pelos irmãos” (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas contidas na citada Constituição Apostólica, valorizando o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).

A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas, as definia como “nó complicado e emaranhado” (Confissões, II, 10.18). Em seu tratado “A utilidade do jejum”, escrevia: “Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura” (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.

Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: “Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?” (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo da comunidade cristã, na qual eram feitas coletas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal.

Do que disse, sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: “Utamur ergo parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius / perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes”.

Queridos irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação ativa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no esforço de libertar o nosso coração da escravidão do pecado para o tornar cada vez mais “tabernáculo vivo de Deus”. Com estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 11 de Dezembro de 2008.

Benedictus PP. XVI