Achismos


Domingo passado eu estava assistindo ao Provocações, na TV Cultura. Gostaria de compartilhar aqui – embora já com algum atraso – algo que me chamou a atenção nesta edição do programa. O entrevistado era Roberto Cordovani, ator e diretor de teatro. Cordovani é brasileiro e há 25 anos mora fora do Brasil. Naturalizou-se português e, atualmente, vive na região da Galícia (Espanha). Em uma rápida busca no Youtube encontrei apenas a primeira parte da entrevista neste link.

Eu, apesar de não conhecer o Roberto Cordovani, assisti à entrevista e me impressionei quando o Abujamra, apresentador do programa, perguntou-lhe o que ele esperava encontrar depois da morte (note-se que o Abu faz toda uma “encenação” para perguntar, de maneira claramente atéia,  sempre a mesma coisa). Esta pergunta, costumeiramente, é respondida com alguma bobagem. Dessa vez, a resposta foi: um texto! Sim, senhores: o indivíduo afirmou que espera encontrar do outro lado desta vida o mesmo que encontra neste vale de lágrimas! Aquilo que hoje lhe serve como instrumento de trabalho é, isso mesmo, objeto de sua esperança no futuro após a morte. Nem Deus, nem Satanás, nem a Virgem, nem os Santos, nem os seus familiares, nem coisa alguma que remeta à dimensão de um encontro transcendental. Simplesmente um texto: letra morta, palavras inteiramente desnecessárias quando se está diante d’Aquele que é a Palavra, o Justo Juiz!

Fiquei impressionado com a mediocridade da colocação de Roberto Cordovani. Pelo desenrolar da entrevista percebi que não podia esperar muita coisa dele. Mas não imaginava que ele diria algo tão estúpido. Pensar na eternidade desta maneira é minimizar ao extremo (eu diria até ridicularizar) aquilo que Deus nos tem preparado [se vivermos na Sua Graça, obedientes à Sua Lei]. “O que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam” [1Cor 2,9]. Entretanto, no fundo eu senti pena do Cordovani: talvez ele não tenha sido catequizado, talvez ninguém lhe tenha dito que a vida não é uma encenação, mas uma realidade; que o mundo é mais que o palco; que o Eterno é mais que o Tempo…  Pensando nisso, entristeci-me pelo mundo que dia após dia perde a esperança porque não sabe em quem colocá-la. Percebi, uma vez mais, que este mundo afunda porque não olha para o alto… Lembrei, por fim, que São Pedro, na Sagrada Escritura, fala em “novos céus e nova terra” [2Pd 3,13]. Ah, se o mundo escutasse a voz de Pedro! Se o mundo percebesse que esta vida é passageira talvez não perdesse tempo em tentar eternizá-la.

O trabalho de um jornalista está causando polêmica na França: Laurent Richard, chefe de redação de um programa de TV chamado “Les Infliltrés” [em português: “Os Infiltrados”], usou fakes [personagens virtuais-fictícios] para atrair pedófilos e viciados em pornografia. Com essa tática, Richard matou dois coelhos em uma única caixa d’água [ou será dois coelhos com uma cajadada só? Sei lá!]: conseguiu compor uma matéria interessante e realista sobre pedofilia e pornografia, bem como colaborou com a prisão de 22 pessoas supostamente envolvidas com esse tipo de prática. A jornalista Daniela Fernandes, correspondente da BBC Brasil, escreveu uma matéria apresentando a discussão que está de desenvolvendo nos meios jornalísticos acerca da conduta de Laurent [recomendo que se leia a matéria da BBC antes de prosseguir com a leitura destas minhas divagações…]. É um velho dilema ético: em que circunstâncias se pode quebrar o sigilo das fontes sem estar indo contra os princípios éticos profissionais do jornalismo?

Acaso se separa o “cidadão” do “jornalista”? A discussão é interessante. Fazendo um paralelo com outra área – que não a de comunicação – sabe-se que no Brasil, por exemplo, o princípio da inércia do judiciário impede que um juiz saia por aí sentenciando sobres situações e coisas que não foi instado a julgar. Em outras palavras [mais técnicas], o juiz deve ser “provocado” antes de ser pronunciar. Partindo disso, alguém poderia alegar: “se o juiz – mesmo diante de um erro flagrante e evidente – não pode atuar sem antes ter sido ‘provocado’, então é como se, para exercer com isenção a sua autoridade de julgar, ele ‘abdicasse’ de seu dever cívico de denunciar o crime”. Assim sendo, poder-se-ia dizer ainda que criaram uma espécie “omissão justificada” aplicável exclusivamente aos magistrados? Ou será que eles exercem os seus deveres cívicos a seu modo? Será que o jornalista deve proceder de forma semelhante à do magistrado para tentar alcançar a quimérica imparcialidade? Bom, são divagações. Na verdade, não tenho resposta nem opinião formada para nenhum destes questionamentos. Que se pronunciem os excelentíssimos juristas – e amantes do Direito – leitores deste blog!

Um fato, digamos, “inovador” que emerge do caso do jornalista francês em questão é que ele se interessou por investigar a pedofilia “em geral”, isto é, ele não se restringiu a descobrir e delatar pedófilos no seio do clero católico. A visão dele ampliou-se para além dos muros eclesiásticos. Infelizmente há muitos jornalistas concentrados em trabalhar a divulgação dos erros de *alguns* sacerdotes católicos. Ora, a pedofilia é algo escandaloso de per si! Quem quer que cometa esse pecado [crime, para a lei civil] – seja sacerdote ou não – está ferindo gravemente a Lei de Deus e, portanto, merece ser punido pela lei dos homens enquanto aguarda a justiça de Deus. Evidentemente o padre, por força de seu compromisso para com a vida celibatária, acaba cometendo um pecado a mais: o de sacrilégio. O corpo de alguém consagrado a Deus goza de maior sacralidade que o corpo de um não-consagrado. Logo, de certo modo, ele “profana” o próprio corpo quando comete um ato homossexual ou de pedofilia. Mas essa análise de gravidade é uma questão estritamente religiosa – pertencente à esfera da Moral Católica. A imprensa não está nem aí para isso. Ora, então como se justifica que a mídia dê tanta ênfase aos casos de pederastia [e afins] por parte de padres? A meu ver, só uma resposta satisfaz esse questionamento: a finalidade não é denunciar um indivíduo, mas sim colocar em descrédito toda a instituição [a Igreja]. E pondo a sociedade contra a Igreja tenta-se, embalde, afundá-la.

Voltando a discussão jurídica sobre a matéria do jornalista Laurent Richard: penso que esse é um ponto controverso em termos de lei positiva. Mas será que, sob a ótica da Moral e da Lei Natural, se encontra algum argumento que possa dissolver o dilema ético que envolve a proteção do sigilo das fontes?

Um outro detalhe: a finalidade da matéria foi apenas divulgar a existência de pedófilos que usam a internet como um de seus tentáculos para aliciar e capturar vítimas? Ou terá sido dar o ponta-pé inicial numa investigação aberta ao público? Eu, sinceramente, deploro a atitude de um jornalista que quer “divulgar por divulgar”. Ora, ninguém precisa de uma matéria no jornal ou na televisão para saber que abusos sexuais existem e se propagam valendo-se da engenhosidade dos criminosos e das facilidades que os recursos tecnológicos proporcionam!

O jornalista, diferentemente de um sacerdote confessor, não está obrigado – por direito divino – a guardar segredo. O sigilo das fontes, penso eu, é matéria exclusiva do direito positivo. Não há – eu pelo menos não enxergo – nenhum respaldo desse sigilo no Direito Natural. Logo, resguardar em segredo a identidade de quem forneceu informações trata-se de um “acordo de cavalheiros”. Pergunto: é lícito manter um acordo [tácito] desses quando o cavalheiro com quem se trata é um canalha, pedófilo, viciado em pornografia e criminoso contumaz? Filosofem e comentem. Vou dormir. Afinal, são duas horas da manhã!

A propósito, leia-se:

O artigo do Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho comentando os lamentáveis equívocos que a imprensa tem gerado – e fomentado – ao tratar de maneira leviana as notícias que envolvem abusos de ordem sexual cometidos por homens da Igreja.

A declaração do Cardeal Tarcísio Bertone que, em visita oficial ao Chile, reiterou energicamente que nem ele nem o Papa encobriram abusos.

Os comentários de um escritor [judeu, diga-se de passagem] sobre a campanha difamatória – orquestradamente perpetrada pela mídia – contra o Santo Padre e a Igreja.

Recentemente, o programa Conexão Repórter, do SBT, trouxe o caso de um Monsenhor de Arapiraca [AL] que mantinha relações sexuais com os acólitos de sua paróquia. A matéria, produzida pela jornalista Roberto Cabrini, foi tema de tópico na Comunidade Católicos [no Orkut] e pode ser assistida no Youtube [atenção: há algumas cenas bastante fortes].

Ainda ontem eu discutia esse assunto com alguns amigos. E nos perguntávamos o que leva um sacerdote de longa experiência pastoral e boa formação religiosa a cometer um pecado tão horrendo como a pedofilia? O que leva um homem que se entregou plenamente a Deus, em um ato de extrema generosidade, a dar causa a tamanho escândalo perante a Igreja e a sociedade? Misterium iniquitatis. Dificilmente conseguiríamos dar uma resposta exata a esta pergunta. Contudo, é preciso recordar que a fragilidade humana associada aos constantes ataques do demônio [que, diz São Pedro, ruge como um leão em torno a nós] estão, sem dúvida, ligadas a este tipo de ocorrência [embora não o justifiquem].

Bem, acho que essa reflexão é oportuna e necessária. Mas cabe, igualmente, fazer algumas considerações sobre as entrelinhas da divulgação desses episódios na mídia. Será que os profissionais de comunicação estão, de fato, interessados em contribuir para que se faça justiça a estes episódios tão tristes e inaceitáveis? Será que há uma preocupação em expor os reais números da pedofilia? Por que restringir a divulgação dos casos de pedofilia aqueles cometidos por sacerdotes católicos? Pastores protestantes e monges budistas também não o cometem? E quanto a homens casados que molestam suas filhas e enteadas? Isso não existe? Por que tanto interesse em fuçar com uma lupa a vida do Santo Padre, enquanto arcebispo de Munique, para tentar descobrir algum caso de pedofilia que ele supostamente tenha “acobertado”?

Bem, façam suas considerações. Mais tarde eu posto o resto das minhas. 😉

              Pessoalmente, eu definiria as CEB’s como sendo unidades marxistas destinadas a destruir a fé das pessoas e instigá-la à luta de classes. Para mim elas são núcleos de divulgação da [herética] teologia da libertação. Visam formar mini-sindicatos e dar a eles o título de “comunidades de fé”. Nelas o Evangelho é lido e explicado às avessas. Como bem disse o Padre Paulo Ricardo, no “Evangelho segundo os TL’s” a cura do leproso nunca é um milagre: trata-se apenas de inclusão social. A multiplicação dos pães nunca é uma prefiguração da Eucaristia. É, simplesmente, uma demonstração das maravilhas que “a partilha e a solidariedade” podem operar. Enfim, as CEB’s são uma desgraça. O que mais me inquieta – e a muitos outros católicos – é que há bispos apoiando o “relançamento” desta bobagem. As Santas Missões Populares [impulsionadas pelo Documento de Aparecida] têm, entre outros objetivos, a finalidade de retomar a criação e a proliferação das CEB’s. Eu sinceramente não gostaria que isso acontecesse. Afinal, queremos fazer missões como São Francisco Xavier e não como D. Pedro Casaldáliga!

              A título de curiosidade [e para que não digam que não sou “aberto a outras visões”] trouxe aqui algumas definições de CEB’s dadas por aqueles que fazem apologia às mesmas. Ei-las:

 

O teólogo Benedito Ferraro afirmou, nesta quarta-feira, 22, que as Comunidades Eclesiais de Base são o “jeito normal de ser Igreja”. Desde que foram fundadas, as CEBs se identificam como “novo jeito de ser Igreja”. A nova expressão, segundo Ferraro, foi cunhada por dom Pedro Casaldáliga, grande defensor das CEBs.

“O modo normal de ser igreja é a ligação da fé com a vida”, disse o teólogo durante a coletiva de imprensa organizada pela assessoria do 12º Encontro Intereclesial das CEBs, aberto ontem na capital de Rondônia. “Por isso, as CEBs são o jeito normal de ser Igreja”, afirmou, referindo-se à participação das CEBs nas lutas sociais e políticas da sociedade.

             Fonte: CNBB

 

A Teologia da Libertação tem se caracterizado por uma crítica radical à modernização urbano-industrial e ao progresso técnico por entender que esse modelo de desenvolvimento econômico favorece um grupo minoritário da burguesia e se dá à custa da exclusão dos pobres. Nessa conjuntura, “as CEBs seriam uma tentativa de fazer reviver o sentido da comunidade, tanto na sociedade quanto na Igreja” (Wanderley, 2007:89).

[…]

O Documento da referida Conferência [a de Aparecida], na sua versão não alterada, isto é, aquela aprovada pela assembléia dos bispos, diz que “na experiência eclesial da América Latina e Caribe, as Comunidades Eclesiais de Base foram, com freqüência, verdadeiras escolas que formaram discípulos e missionários do Senhor, como testemunha a entrega generosa, até derramar o próprio sangue, de tantos de seus membros. Elas arrancam da experiência das primeiras comunidades, como estão descritas em Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47).

              Fonte: CEB’s SUL 1

 

As Comunidades Eclesiais de Base (CEB) são comunidades ligadas principalmente à Igreja Católica que, incentivadas pelo Concílio Vaticano II (19621965), se espalharam principalmente nos anos 1970 e 80 no Brasil e na América Latina. Consistem em comunidades reunidas geralmente em função da proximidade territorial, compostas principalmente por membros das classes populares, vinculadas a uma igreja, cujo objetivo é a leitura bíblica em articulação com a vida. Através do método ver-julgar-agir buscam olhar a realidade em que vivem (VER), julgá-la com os olhos da fé (JULGAR) e encontrar caminhos de ação impulsionados por este mesmo juízo á luz da fé (AGIR).

             Fonte: Wikipédia

 

São pequenos grupos que se reúnem continuamente e buscam na Bíblia a luz para iluminar cada momento da realidade. Animados pela fé e pela oração, os membros assumem decididamente o processo de libertação pessoal e social. Sentem-se agentes da construção de uma vida mais digna e humana, conforme o projeto de Jesus.

              Fonte: Exsurge [site homônimo a este blog]

              É mole? Agora me responde:

 

 

A propósito: leiam aqui um interessante debate entre D. Estevão Bittencourt e Leonardo Boff.

              É fato que o nível de pessimismo no mundo tem aumentado. Dia após dia a propaganda desgracista – perpetrada pelos veículos de comunicação social – atrelada ao banimento de Deus [obra empreendia com afinco pela filosofia moderna e pela teoria marxista] quer nos fazer crer que tudo está perdido. E isso com um objetivo muito claro: promover o retorno do carpe diem. É como na época de Noé – em que as pessoas diziam: “comamos e bebamos pois amanhã morreremos”. A ideia é fazer com que nos entreguemos à vivência dos prazeres temporais como compensação pelos tantos sofrimentos pelos quais passamos. A proposta é que nos entreguemos à gula e à luxúria como “cura” dos nossos problemas. E nós, infelizmente, muitas vezes nos deixamos engabelar por este discurso…

              O problema é que as consequências dessa propaganda desgracista são diversas e todas muito danosas. Entre elas:

  • Prejudica a imagem que se tem de Deus  – como um pai bondoso e misericordioso. À procura de um bode expiatório, as pessoas começam a culpar Deus pela ocorrência dos males [sobretudo os desastres naturais]. É sabido que o homem tem a desonesta mania de querer desvencilhar-se de suas responsabilidades atribuindo a um inocente a culpa pelos seus infortúnios. Deus, então, passa a ser visto como o malvado causador de problemas. Por isso a “morte de Deus”, tese defendida por Nietsche, passa a ser cada vez mais desejada.
  • Ensina um erro com relação à compreensão de “mundo”. O mundo passa a ser visto como intrinsecamente mau, problemático, ofensivo ao homem. Ora, segundo o livro do Gênesis, tudo o que Deus criou é bom. O problema é que, infelizmente, a teoria de Rousseau nunca saiu de moda: “o que corrompe é o meio”…
  • Propaga uma visão extremamente horizontal da vida. É como se apenas importasse o bem-estar neste mundo. Assim Deus, o Céu, e tudo aquilo que é transcendente é lançado nos porões do esquecimento.
  • Priva da capacidade de enxergar o bem na medida em que o ofusca focando na divulgação dos males.

 

              Penso que não seja lícito ao cristão aderir ao pessimismo como sua filosofia de vida. É contrário à esperança cristã. Devemos, sim, nos concentrar no sábio ensinamento de Santo Agostinho. De acordo com ele Deus não permitiria um mal se não fosse capaz de extrair dele um bem maior. Se esta compreensão estivesse bem solidificada em nossa mente, duvido muito que o monstro da depressão tivesse toda essa força que tem hoje. A doença do futuro? Depende de nós. Importa, antes de qualquer coisa, obedecer à ordem de São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos”.

             Na semana passada eu tive a felicidade de assistir ao programa Escola da Fé, na TV Canção Nova, no qual o professor Felipe Aquino convidou o Padre Paulo Ricardo a discorrer um pouco sobre a Teologia da Libertação. É desnecessário dizer que os comentário do Pe. Paulo, bem como do Prof. Felipe, foram brilhantes, extremamente elucidativos. Mas o que, de verdade, me chamou a atenção foi quando o sacerdote – com voz firme – reivindicou o direito de concordar com o Papa; o direito de assinar abaixo de todas e cada uma das palavras do Sumo pontífice.  De fato, parece que, sistematicamente, o direito de dar o assentimento da fé vem sendo “abafado”, verdadeiramente “sufocado” em alguns casos.

             Por vezes esta perseguição vem de “fora da Igreja”.  Esta não é de causar preocupação. Afinal, é natural que os filhos das trevas odeiem a luz. Mas é triste perceber que, em alguns casos, a perseguição vem de dentro da Igreja… Católicos que ouvem e seguem os passos do Pastor Supremo da Igreja são taxados de radicais, conservadores [como se conservar o que é bom fosse algo ruim], ultrapassados, etc. Se eu tivesse a oportunidade de conversar pessoalmente com um destes bispos, padres ou agentes de pastoral [Argh! detesto usar esse termo. Jargão inócuo] que desejam tolher o direito dos fiéis de anuir ao que diz e pede o Bispo de Roma, diria a ele(s) – em nome de todos nós, “católicos alienados”, o seguinte:

             Concordamos com o Santo Padre porque o ensino que vem de Roma não é “mais uma visão teológica”, como alguns podem – erroneamente – pensar. O Catecismo não é um “conjunto de teologias” às quais podemos nos afeiçoar ou não.

             Concordamos com o Santo Padre não por falta de opinião própria, mas porque temos uma opinião comum. Não queremos reinventar a Fé porque ela – tal como o papa a apresenta – sacia plenamente o nosso anseio pela Verdade, responde satisfatoriamente as nossas perguntas, e nos ensina magnificamente a viver e a morrer.

             Concordamos com o Santo Padre porque confiamos na assistência que o Espírito Santo lhe dá para ensinar com segurança as Verdades da Fé. Sabemos que Deus “não pode se enganar nem nos enganar”.

             Concordamos com o Santo Padre porque – em meio aos tantos ventos de doutrina que sopram neste mundo confuso e obscuro – ele nos aponta que a Verdade está na Unidade da Igreja. A multiplicidade de “interpretações” não constitui garantia de autenticidade [ou melhor: atesta a falsidade]. A proclamação solene e universal da verdade feita pelo Sucessor de Pedro, esta sim, nos orienta com segurança rumo à Pátria Celeste.

             Não queremos crer na Teologia da Libertação [como a apregoam Boff e comparsas], mas na Teologia da Redenção – ensinada continuamente pelo Príncipe dos Apóstolos. Temos consciência de que este “vale de lágrimas” – como rezamos na Salve Rainhanunca se transformará numa “terra sem males” se não tivermos os olhos fitos no Céu.

            “Queremos ver Jesus”, sim. Mas não apenas no irmão “pobre e sofredor”. Queremos ver Jesus face a face! E para alcançar isto é preciso preparar-se para o Alto. Atingir a justiça econômica não nos fará escapar da Justiça Divina.

             Concordamos com o Santo Padre porque queremos ser obedientes a ele. E a nossa obediência se traduz em ato justamente no momento em que damos adesão às suas palavras. Prefirimos uma obediência surreal a uma desobediência real. Não vivemos “de aparência”.

             Concordamos com o Santo Padre, porque cremos na sabedoria dos Padres da Igreja que – desde os primórdios – consagrou a expressão “Roma locuta, causa finita” [“Roma falou, questão encerrada”].

              Por fim, deixem-nos cometer a suprema ousadia de fazer nossas as palavras do Papa.

 

Há algum tempo escrevi aqui no blog um texto intitulado “Virtus in Medio”. Esta expressão latina – amplamente utilizada pelos Padres da Igreja e muitas vezes repetida pelos mestres de espiritualidade – sempre me fascinou sobremaneira. Dizer que “a virtude está no meio” é recordar a importância de cultivar a prudência [o equilíbrio, o juízo reto, o discernimento justo] como base alcançar e aprofundar as demais virtudes. Decerto não é fácil pensar e viver de modo justo, prudente e equilibrado. Entretanto, não nos é permitido ceder à tentação de “extremizar”. Nos termos do antigo testamento, desviar-se – quer para a direita, quer para a esquerda – acaba nos afastando do caminho de Deus [que é reto].

Mas seria o caso de nos perguntarmos: Tudo no mundo é absoluto? Ou tudo é relativo? Há quem responda “sim” a uma e a outra pergunta. Ambos enganados. Ambos enganando-se.

Sua Santidade, o papa Bento XVI – ora reinante – por diversas vezes teceu duras críticas ao relativismo alertando para o perigo que esta “ditadura do relativismo” pode causar à humanidade. Como se pode ler nesta matéria da Folha, já na missa Pro Eligendo Pontifice o então cardeal Ratzinger lançava as bases de sua crítica. Eis aqui algumas de suas declarações ao jornalista Dag Tessore no livro “Bento XVI – questões de fé, ética e pensamento” (Claridade, 2005):

 

Em “nossa época […] a verdade é substituída pela decisão de maioria. […] a cultura é contraposta à verdade. Este relativismo, que se tornou hoje o sentimento base da pessoa ‘iluminada’ e afeta até a teologia, é o maior problema da nossa época”.

E:

“A verdadeira presunção aparece quando queremos tomar o lugar de Deus, para estabelecer quem somos, o que podemos decidir, o que queremos fazer de nós mesmos e do mundo”.

 

Tradicionalistas [não os normais, mas sim os radicais] julgam que tudo é absoluto, tudo é lógico, tudo é empírico. Para eles, o mundo é matemática. Quem deles discorda [num tema em que a divergência é permitida] é taxado de sofista. Só eles têm argumentos. Os outros? Só falácias. Usam São Tomás de Aquino para justificar suas sandices e elucubrações sem sentido; tentam justificar sua falta de caridade e de humildade, alegando que é preciso “corrigir os errados”. Ora, será que – justo eles – nunca ouviram falar em questio disputata [na qual a resposta ainda está em construção]?

Por outro lado, temos os relativistas propriamente ditos [já não sei se os chamo de “modernistas”, “modernosos” ou “modernizantes”…]. Acham que podem opinar sobre tudo. Tudo está sujeito ao juízo deles. É comum ouvi-los dizer que “o diabo só existe para quem nele acredita”. E o demônio segue feliz da vida com a “brilhante” conclusão a que os relativistas chegaram sobre a sua vil existência… É como se a resposta para a arguição de Shakespeare [“To be or not to be? That is the question!”] fosse: depende… Reticentes e imprecisos. Assim são os reis do “depende”. Usam-no para tudo.   

Antes de mais nada, é preciso entender uma coisa: em si mesma a expressão “relativo” [e afins] designa algo que carece de um padrão [de um referencial] para ser analisado. Algo que por si só não pode ser julgado. O erro dos relativistas, portanto, é achar que isto se aplica a tudo e [pior!] escolher os padrões errados para julgar as coisas. Os rad-trads, por sua vez, têm grande dificuldade de admitir a existência de elementos subjetivos, relativos. Alguém pode questionar: “mas em quê, concretamente falando, nós podemos discordar e apresentar pontos-de-vista sem nos tornar relativistas?”. As questões morais e doutrinais não estão sujeitas aos achismos de quem quer que seja. Ainda na obra de Dag Tessore, diz o papa (idem):

 

“A fé é justamente o contrário de uma “consolação subjetiva”: ela é centrada na busca existencial da verdade”.

“Os dogmas e os princípios morais católicos nada mais são do que os pilares desta verdade objetiva”.

 

Não é preciso ter uma inteligência Einsteiniana para saber que existem coisas que são passíveis de análise, e existem outras que não são. Várias vezes o direito canônico [e também a simples prática pastoral], por exemplo, recomenda que o ordinário local analise certas situações “caso a caso”. Ora, ao fazer tal recomendação o direito está atestando a existência daquilo que tira o sono dos tradicionalistas [radicais]: o famigerado “depende”.

Como bem colocou D. Antônio Carlos Rossi Keller neste artigo publicado no Veritatis, replicando o catecismo, a Teologia Moral da Igreja apresenta como a moralidade dos atos depende, entre outras coisas, do elemento “circunstâncias”. Ela pode ser um agravante ou um atenuante no julgamento do ato.

Em suma, em juízos de valor acerca de coisas que – em si – são desprovidas de moralidade, nos é permitido, sim, opinar. Por exemplo, o fato de alguém gostar de samba e odiar rock é perfeitamente conciliável com o fato de outra pessoa gostar de rock e detestar samba. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A música em si é desprovida de moralidade, isto é, analisada em si mesma não se pode dizer que é boa ou ruim. Não se lhe pode atribuir valor moral algum. Este tipo de discordância é legítima e, portanto, não constitui relativismo [em sentido negativo].

É preciso perceber que nem tudo é preto no branco… Afinal, as realidades cinzentas também existem. Frise-se: a verdade não é relativa, é absoluta. É única e não admite concorrência. Mas quando falo em “relativismo sadio” estou me baseando na liberdade humana para dizer que – no julgamento de temas que, em si, são desprovidos de moralidade – o ser humano pode, sim, opinar e apresentar conclusões divergentes sem que isto constitua um erro.

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