[Na sequência de publicações do livro “O Inferno existe”, de autoria do Padre André Beltrami, SDB, trago-lhes o sétimo capítulo desta obra, publicada em 1897].


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CAPÍTULO VII

A vida futura é um programa insolúvel, um programa talvez invencível

São as fórmulas estereotipadas que a impiedade põe na bôca dos que seguem a estrada do vício. No entanto, como se enganam! O problema da vida futura foi plenamente resolvido pela revelação divina e não nos deixa a menor dúvida. Não um homem sujeito a erros, mas o mesmo Deus nos deu a conhecer o que nos espera depois da morte, Deus, a verdade por essência, que não pode enganar-se, nem enganar.

Mas suponhamos por um instante que haja alguma dúvida, e que a existência dos eternos suplícios seja tão somente provável; eu pergunto a quem tem um pouquinho de juízo, se alguém apoiando-se num talvez, pode expôr-se ao perigo de cair naquele fogo terrível. Não é verdadeira loucura arriscar a salvação eterna? Não conviria até neste caso fazer penitência para evitar o perigo provável de ser infeliz para sempre? Não seria prudente o caminho mais seguro?

Dois incréus entraram um dia na cela dum anacoreta e vendo uns instrumentos de penitência, perguntaram-lhe porque vivia assim tão austeramente.

– Para merecer o paraíso, respondeu o anacoreta.

– Bom Padre, lhe disseram êles sorrindo, V. R. sairá logrado se depois da morte não houver mais nada.

E o santo homem olhando-os com ar de compaixão:

– Maior o logro de vossas senhorias, se depois da morte houver alguma coisa!

Narra o Padre Schouppe, que um jovem, pertencente a uma família católica da Holanda, por causa de leituras perigosas, teve a desgraça de perder o tesouro da fé e cair em completa indiferença; pelo que seus pais, e especialmente sua mãe, mulher de grande piedade, estavam tristíssimos. Debalde lhe repetia, qual nova Mônica, as mais graves verdades da nossa Fé, em vão o exortava com as lágrimas nos olhos a volta a Deus; êle se torna surdo e insensível a tudo.

Mas, só para agradar a mãe, resolveu passar uns dias numa casa religiosa para fazer retiro espiritual, ou, como êle mesmo dizia, retirar-se um pouco para fumar mais sossegado. Ouvia muito distraidamente os sermões que se faziam aos retirantes; logo depois ia fumar, pouco se importando de meditar no que ouvira. Veio a meditação sôbre o inferno, que parecia ter êle ouvido como as outras, mas voltando para a cela, enquanto fumava como de costume, surgiu-lhe na mente, mau grado seu, essa reflexão:

– “Se de fato existe evidentemente será para mim… e afinal de contas, como sei que não existe? Devo confessar que não tenho nenhuma certeza a êsse respeito, que para estribar as minhas idéias não tenho senão um talvez. Isso de expôr-se por um talvez ao perigo de sofrer por tôda a eternidade é mesmo uma extravagância sem limites; se há tais néscios, não quero imitar.”

Dessas reflexões passa à oração; a graça penetra na sua alma, dissipam-se-lhe as dúvidas e levanta-se convertido.

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[Na sequência de publicações do livro “O Inferno existe”, de autoria do Padre André Beltrami, SDB, trago-lhes o sexto capítulo desta obra, publicada em 1897].


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CAPÍTULO VI

Não voltou ninguém do outro mundo para nos dizer que existe a eternidade

Não há tal. Se consultardes a História, vereis como frequentes vezes Deus permitiu, em todos os tempos viesse alguém dizer-nos da existência das verdades que Ele revelou. Muito de indústria êsses doutores da impiedade omitem o estudo dos fatos; e depois sentenciam do alto de suas cátedras que nunca ninguém levantou a cabeça da sepultura para nos dizer que existe algo depois da morte.

A história da Igreja na Polônia registra um fato importantíssimo, sucedido em 1070, com Santo Estanislau, bispo de Cracóvia. Trata-se duma prodigiosa ressurreição, perante muita gente, numeroso clero e magistrados.

Boleslau, rei ímpio e cruel, movera contra o santo bispo Estanislau uma feroz perseguição; entre outras coisas, acirrou de ódio contra o Bispo os herdeiros de um Pedro Miles, que tinha morrido três anos antes, deixando para a Igreja uma de suas terras. Os herdeiros, certos do apoio do rei, processaram o santo, e tendo subornado ou intimidado as testemunhas, conseguiram que Estanislau fosse condenado à restituição do terreno. O santo, vendo que falhava a justiça dos homens, apelou confiantemente para a de Deus e conseguiu suspender a condenação, prometeu chamaria como testemunha o próprio testador que jazia havia três anos na sepultura. Com efeito, depois de três dias de jejum e orações, o santo Bispo se dirige com todo o clero à sepultura de Pedro Miles.

Aberto o túmulo, encontraram, como se previa, poucos ossos num monte de pó, e já os adversários se alegravam, certos da vitória. Mas o santo com voz majestosa ordena ao cadáver que ressuscite, em nome d‟Aquele que é ressurreição e vida; e num pronto aquêles ossos se aproximam, cobrem-se de carne, na presença de uma imensa multidão possuída de grande terror.

O Bispo tomou-o pela mão e o levou diante de Boleslau para certificar a verdade da doação feita, confundindo destarte o rei e os herdeiros. Perguntou-lhe depois se preferia voltar à sepultura ou viver ainda alguns anos na terra; êle respondeu que, conquanto pelos seus inúmeros pecados estivesse no purgatório, onde sofria muito, preferia tornar a morrer do que ficar nesta terra tão miserável em que poderia sempre ocorrer o perigo de se condenar eternamente. Suplicando as orações do santo bispo para se libertar logo do purgatório, foi levado processionalmente ao seu sepulcro, aí entrou e ficou no estado de antes.

Na vida de S. Bruno, fundador dos Cartuxos, lê-se a ressurreição momentânea de uma personagem respeitável para atestar diante de muita gente a própria condenação. París e tôda a França ficaram horrorizados com êsse acontecimento; foi, então, que Bruno temendo os juízos divinos retirou-se para a Cartuxa a fim de lavar vida austerríssima.

Morreu Raimundo Diocres, doutor de Sorbona, homem conceituadíssimo pela sua vasta ciência, não menos por uma aparência de virtude. Depois de três dias, o seu corpo, revestido das insígnias doutorais, foi transportado solenemente para ser sepultado; acompanhavam-no o colégio dos professores, grande número de estudantes e teoria de clero. As exéquias celebraram-se na catedral, revestida de luto, entre luzes e muitas inscrições que lembravam a insígne ciência e as virtudes do ilustre extinto. Mas quando o coro dos cantores chegou àquele trecho do ofício: Responde mihi: quantas habeo iniquitates et peccata; scélera mea et delicta ostende mihi; onde o santo Job roga a Deus lhe faça conhecer as suas culpas, o cadáver levantou a cabeça e féretro e com voz lastimosa exclamou: Por justo juízo de Deus sou acusado: dito isto, tornou a repousar a cabeça, como dantes.

Apoderou-se dos assistentes um terror geral, e resolveram deixar para o outro dia os funerais. Neste dia foi muito maior a concorrência; recomeçou-se o ofício, e ao chegar às mesmas palavras, tornou o cadáver a erguer a cabaça e a exclamar com voz esforçada e mais lastimosa: Por justo juízo de Deus estou julgado.

Subiu de ponto o pasmo e o espanto. Resolveram diferir a inumação para o terceiro dia. Nesta foi imenso o concurso; deu-se princípio ao ofício, como nos precedentes; quando se cantavam as mesmas palavras, levantou o defunto a cabeça, e em voz horrível e espantosa exclamou: Não careço de orações; por justo juízo de Deus estou condenado ao fogo eterno.

É fácil compreender a impressão que faria nos ânimos um acontecimento tão extraordinário. Achava-se Bruno presente a êste espetáculo; tão fortemente se emocionou com êle que, retirando-se horrorizado, resolveu deixar quanto tinha e enterrar-se em algum espantoso deserto para ali passar a vida entregue unicamente aos rigores da mortificação e da penitência. Parecia necessário um sucesso tão trágico para uma resolução tão generosa.

O nosso século foi também fecundo de aparições de além-túmulo e já narramos algumas. A que vamos agora narrar com as palavras de Monsenhor Ségur, foi confirmada por um sinal deixado numa porta, sinal êsse que até ora se conserva religiosamente. Quem não crê, pode ir ao lugar onde o fato se deu e interrogar as testemunhas oculares que ainda vivem. (*Aqui e em outros lugares o Autor fala de testemunhas ainda vivas, as quais podem ser consultadas: é bom notar que o Servo de Deus André Beltrami viveu no século XIX e o presente opúsculo foi escrito em 1897). Parece que Deus na sua bondade, como crescer da incredulidade e da libertinagem, aumenta os testemunhos das verdades terríveis do juízo e do inferno, para confirmar na fé os cristãos e preservá-los da impiedade.

A 4 de novembro de 1859, morreu de apoplexia fulminante no convento da Franciscanas de Foligno uma boa irmã, camada Teresa Gestas, que por muitos anos fôra mestra das noviças e ao mesmo tempo encarregada de superintender à pobre rouparia do convento. Nascera na Córsega em 1797 e entrara na Ordem em fevereiro de 1826; fôra supérfulo dizer que estava convenientemente preparada para a morte.

Doze dias depois, precisamente aos 16 de novembro, uma irmã, de nome Ana Felicidade, que a substituiria no cargo, subiu à rouparia e estava para entrar quando ouviu gemidos que pareciam vir do interior do quarto. Um tanto assustada, abriu a porta, ninguém! mas, ouviu novos gemidos e tão distintos que apesar de sua coragem comum, a irmã ficou com mêdo.

“Jesus! Maria! Gritou ela, que é isso?”

Não acabou de falar quando ouviu uma voz que dizia: – “Ó meu Deus, quanto sofro!”

A irmã, atônita, reconheceu a voz da irmã Teresa. Então o quarto se encheu de fumaça densa, e a sombra da irmã Teresa apareceu em ato de se dirigir para a porta arrastando-se ao logo da parede; e chagando à porta disse: – “Eis um sinal da misericórdia de Deus”; e assim falando, tocou com a palma da mão a porta e a deixou impressa em traço carbonizado; e desapareceu.

Irmã Ana Felicidade, toda nervosa, morrendo de mêdo, começou a gritar e pedir socorro. Correu uma de suas irmãs de hábito, outra, depois tôda a comunidade; fizeram-lhe roda, incomodadas, com os gritos e com o tresandar de madeira queimada. Irmã Ana contou o que tinha sucedido e mostrou a forma da mão da irmã Teresa, que era bem pequena; então aterrorizadas, mais que depressa foram a igreja para rezarem pela defunta, e pela mesma intenção passaram a noite na oração e na penitência, e na manhã seguinte receberam a Comunhão. A notícia espalhou-se fora de casa e diversas comunidades religiosas daquela cidade uniram suas orações às das Franciscanas.

No dia seguinte, 18 de novembro, irmã Ana Felicidade, entrando na cela para o repouso, ouviu que a chamavam pelo nome e reconheceu a voz de irmã Teresa; viu então aparecer um globo de luz, iluminando o quarto como se fôra meio-dia, e ouviu distintamente a voz de irmã Teresa, que jubilosa lhe falou: – “Morri numa sexta-feira, dia dedicado à paixão e numa sexta-feira vou para a glória: sêde forte no levar a vossa cruz, sêde corajosa no suportá-la; amai a pobreza; e com muito afeto ajuntou: – “adeus! adeus! adeus!” Dito isto, transfigura-se em uma nuvem leve, branca, deslumbrante, alteia-se para o céu e desaparece.

O bispo de Foligno e os magistrados da cidade procederam a um inquérito canônico para averiguar o fato, e no dia 23 de novembro, na presença de muitas testemunhas, aberto o túmulo de irmã Teresa reconheceram que o sinal gravado com o fogo na porta era plenamente conforme a mão da defunta. O resultado dêsse inquérito foi uma declaração oficial, a qual atestava a certeza e a autenticidade do que referimos. A porta com o sinal se conserva com veneração no convento para testemunhar a aparição.

[Na sequência de publicações do livro “O Inferno existe”, de autoria do Padre André Beltrami, SDB, trago-lhes o quinto capítulo desta obra, publicada em 1897].

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CAPÍTULO V

Eu não creio em nada

– Eu não creio em nada, dizia-me duma feita um dêsses doutores da impiedade, com empáfia.

– Como? Vós não credes em nada? repliquei. Então não credes na existência da América, da Oceania…

– Oh! Certamente que sim; queria dizer, não creio em nenhuma coisa sobrenatural.

– Mas, porque credes na existência da América e da Oceania, que nunca vistes?

– Tem graça! Creio porque o afirmam os geógrafos e muitas pessoas que perlustraram essas regiões.

– E se credes na existência de coisas que nunca vistes, só porque o dizem os homens, porque não credes na existência do inferno, do juízo, revelada pela palavra infalível de Deus, confirmada pela razão e proclamada pela voz de todos os povos?

O livre pensador deu de ombros e não soube responder; mas, nem por isso se converteu. Custava-lhe tanto deixar sua vida desregrada e praticar a virtude!

Como são dignos de compaixão êsses libertinos! Pretendem destruir o inferno, negando-lhe a existência; mas, quem nega uma coisa não consegue eliminá-la. Se eu negasse a existência da América ou da África, não conseguiria riscá-las da face do globo, mas subsistiriam, não obstante minha negação. Negai, negai quanto quiserdes a existência do inferno, que apesar disso o inferno continuará a existir e a queimar as suas vítimas, e um dia se abrirá para vós e vos sepultará naquelas chamas, se vos não corrigirdes de vossas desordens. A vossa fanfarrice e a vossa negação estulta não apagarão certamente aqueles ardores sempiternos, ao contrário, servirão para os aumentar e fazer-vos afundar mais naquele abismo. Quanto mais vos obstinardes na infidelidade e na negação do inferno, tanto mais acumulareis pecados e culpas para expiar na eterna prisão.

Uma ocasião, um infeliz, a quem se meteu na cabeça que não havia mais cárcere, nem tribunal, começou a roubar e praticar iniquidades. Avisado várias vezes pelos parentes e amigos, e ameaçado de prisão, replicava sempre que não havia mais cárcere nem tribunal.

Sabeis o que aconteceu? o que já se esperava: dois policiais o prendem; é processado e condenado às galés por tôda a vida.

Eis aí a história de todos os ímpios; abandonam-se aos vícios, acariciam as paixões, cometem pecados e mais pecados, dizendo que tudo acaba com a morte e, no entanto, caem no eterno abismo. E Santa Tereza viu que caíam em grande número, como flócos de neve em dias de inverno!

Monsenhor Ségur conta um fato bastante curioso, acontecido na escola militar de S. Ciro, nos últimos anos da Restauração.

O Padre Rigolot, capelão do estabelecimento, prègava um retiro espiritual aos alunos, que se reuniam por isso tôdas as tardes na capela, antes de subir ao dormitório. Uma das tardes, em que o bom do padre falara do inferno, terminada a função, tomou a lanterna e se retirou para o seu aposento; e quando abria a porta do quarto, percebeu que o chamava alguém que o seguia pela escada. Era um velho capitão de bigode grisalho e de maneiras pouco gentis.

– Desculpe, sr. Padre, lhe falou com ar de zombaria; V. R. fez-nos agora pouco um magnífico discurso sôbre o inferno. Mas se esqueceu de nos dizer se lá nós seremos cozidos, assados ou fritos. Poderia dizer-me?

O capelão, percebendo que se tratava de um zoilo, fitou-o sériamente, e depois enfiando-lhe sob o nariz a lanterna que trazia, respondeu com tôda a calma:

– Haveis de ver, sr. capitão.

Dito isto, fechou a porta; sem poder refrear o riso pela figura ridícula daquele estróina.

Não pensou mais nisso, mas daí por diante notou que o capitão fugia dêle.

Entretanto, veio a revolução de julho e extintas as capelanias militares, o Arcebispo de París nomeou o Padre Rigolot para outro cargo, não menos importante.

Passados quase vinte anos, o venerando sacerdote entretinha-se com os amigos numa tertúlia, quando um velho de bigode, branco, fazendo-se encontradiço, cumprimentou-o e perguntou se era o Padre Rigolot, ex-capelão da escola de S. Ciro. Obtida resposta afirmativa:

– Oh! Senhor padre, diz-lhe comovido o velho militar, permita-me que lhe aperte a mão e que exprima o meu reconhecimento; o senhor me salvou.

– Eu?! de que modo?

– Oh! não me conhece mais? Não se lembra do ocorrido naquela noite, que um capitão, instrutor da escola, a propósito de seu discurso sôbre o inferno, lhe fez uma pergunta estúpida e V. R., pondo-lhe a lanterna sob o nariz respondeu: – “Haveis de ver, capitão?” Aquele capitão sou eu; sabia que desde aquela ocasião suas palavras não me saíram mais da mente, como não me abandonou mais o pensamento que eu devia ir para o inferno. Lutei contra mim mesmo por dez anos; ao cabo dos quais, rendi-me a Deus, confessei-me e agora tornei-me cristão e cristão à militar, isto é, franco, sem respeito humano. A V. R. sou devedor de tanta ventura e folgo muito de poder encontrá-lo para manifestar-lhe o meu reconhecimento.

O Padre Bach, na vida de S. Francisco de Jerônimo, narra a triste sorte duma mulher incrédula que zombava do inferno e dos novíssimos. O fato não deixa nenhuma dúvida, pois foi juridicamente provado no processo de canonização do santo, e atestado com juramento por muitas testemunhas oculares.

No ano de 1707, S. Francisco de Jerônimo prègava, como de costume, nos arrabaldes de Nápoles, falando sôbre o inferno e os terríveis castigos reservados aos pecadores obstinados. Uma mulher insolente, morava na redondeza, aborrecida com aqueles sermões, que lhe acordavam no coração amargos remorsos, procurou molestá-lo com chascos e gritos, desde a janela de sua casa; uma vez, o santo lhe disse: – Ai de ti, filha, se resistes à graça! não passarão oito dias, sem que Deus te castigue.

A desaforada mulher não se perturbou por aquela ameaça e continuou a com suas más intenções. Passaram-se oito dias, e o santo foi prègar de novo perto daquela casa, mas desta vez as janelas estavam fachadas e ninguém o importunava. Os vizinhos que ouviam consternados lhe disseram que Catarina (tal era o nome daquela péssima mulher) tinha morrido de improviso, pouco antes.

– Morreu? disse o servo de Deus; pois bem, agora nos diga de que valeu zombar do inferno; vamos perguntar-lhe.

Os ouvintes sentiram que essas palavras o santo as pronunciara com inspiração, e por isso todos esperaram um milagre. Acompanhado da multidão subiu à sala, convertida em câmara ardente, e após breve oração, descobriu o rosto da morta e:

– Catarina, gritou, diz-nos onde estás!

A esta ordem, a defunta ergue a cabeça, abre os olhos, toma côr o seu rosto, e em atitude de horrível desespêro, profere com voz lúgubre estas palavras:

– No inferno! eu estou no inferno!

Imediatamente cai e volta ao estado de frio cadáver.

Eu estava presente ao fato, afirma uma das testemunhas que depuseram no tribunal apostólico, mas não saberia explicar a impressão que causou em mim e nos circunstantes; ainda hoje, passando perto daquela casa e olhando a tal janela, fico muito impressionado. Quando vejo aquela funesta moradia, parece-me ouvir a lúgubre voz: – No inferno! eu estou no inferno!

[Na sequência de publicações do livro “O Inferno existe”, de autoria do Padre André Beltrami, SDB, trago-lhes o quarto capítulo desta obra, publicada em 1897].

CAPÍTULO IV

Horrendos suplícios do inferno

Nenhuma língua humana é capaz de exprimir os tormentos atrozes daquele lugar de desespêro. Como descrever aquêle fogo medonho aceso pela ira de Deus? os remorsos cruéis que dilaceram o mísero preceito? a eternidade sem fim, com o terrível sempre e o terrível nunca? Diz Santo Agostinho que o fogo da terra comparado com o do inferno, parece um fogo pintado; e S. Vicente Ferrer diz que em confronto com aquêle, o nosso é frio.

Gastemos embora páginas e livros inteiros falando do inferno, acumulemos males sôbre males, sofrimentos sôbre sofrimentos, desgraças sôbre desgraças, chamemos em nosso auxílio as fantasias fecundas dos poetas, para idear penas atrozes, peçamos aos tiranos da História as torturas que inventaram para seviciar as suas vítimas e, apesar de tudo isso, chegaremos à conclusão de que infinitamente maiores são os suplícios do inferno.

Santa Tereza foi um dia arrebatada em êxtase e levada ao inferno para ver o seu lugar, caso não se emendasse de certo defeito. Ela mesma conta em sua autobiografia:

“Estando um dia em oração, fui transportada, sem saber como, em corpo e alma, ao inferno. Compreendi que Deus queria mostrar-me o lugar que ocuparia, se não mudasse de vida. Não tenho palavras que possam dar uma pequena idéia desse tormento incompreensível. Sentia em minha alma um fogo que me devorava e o corpo sofria dores insuportáveis. Dúrante minha vida passei por duros sofrimentos, mas, nem se comparavam com os que tive naquela ocasião; e ainda êsses subiam de ponto, ao pensar que seriam eternos e sem o menor alívio. Mas, apesar de as torturas do corpo serem atrozes, não tinham comparação com as agonias da alma. Ao mesmo tempo, sentia-me queimar e partir em pedaços, sofria tôdas as angústias da morte e os horrores do desespêro. Num raio de esperança e de consolação naquela moradia, aí se respira um odor pestilencial, que sufoca; nem um raio de luz, mas tudo são trevas da mais densa escuridão; contudo, oh! mistério, mesmo naquele escuro se distingue o que de mais penoso há para a vista. Em suma, tudo o que ouvi dizer ou li sôbre as penas do inferno é insignificante em confronto com a realidade; entre aquelas penas e estas há a mesma diferença entre uma pessoa e o seu retrato. Ai! o fogo dêste mundo por mais ardente que seja, é como o fogo pintado, comparado com aquêle que atormenta os réprobos no inferno. Há dez anos que tive esta visão, mas estou ainda agora tão espantada, que, enquanto escrevo, o mêdo gela-me o sangue nas veias. Em meio às provocações e dores que tenho, trago à mente esta visão e de aí tiro fôrça para tudo suportar”.

Vicente de Beauvais, no livro 25 de sua História, refere o seguinte fato, acontecido pleno ano 1000. Dois libertinos fizeram uma combinação: o primeiro a morrer viria à terra participar ao companheiro em que estado se achava. Morreu um deles, e Deus permitiu aparecesse ao amigo: era horrendo, parecia sofrer duramente e suava em bicas. Enxugou a fronte com a mão e deixou cair uma gota de suor no braço do companheiro, dizendo-lhe:

– Eis qual é o suor do inferno; dêle terás um vestígio até à morte.

E assim foi, pois aquêle suor infernal queimou-lhe o braço, penetrando na carne com dores inauditas. Bom para êle que soube aproveitar-se de tão terrível lição e retirou-se para o convento.

Em 1873, Nova Iorque foi teatro de um incêndio, cujas circunstâncias apresentam a imagem do inferno. O Circo Baunum foi assaltado pelo fogo; tigres, ursos, leões e outras feras foram queimadas vivas nas suas jaulas. À medida que o fogo se propagava, crescia o desespêro das feras, sobretudo os tigres e ursos tornavam-se cada vez mais furiosos. Atiraram-se com supremo esfôrço contra as grades, já incandescentes, da prisão, e eram rechaçados quais massas inertes, para de novo se arrojarem contra o insuportável obstáculo que os aprisionava. Os rugidos dos leões, os urros dos tigres e o aulidos das outras feras se misturavam formando um som pavoroso, que parecia reproduzirem aquêle que devem ouvir os condenados no inferno. Mas as notas deste tétrico concêrto aos poucos foram-se enfraquecendo, até que, quando o leão soltou o último urro, ao medonho alarido sucedeu o silencio da morte. Imaginemos, agora, nestas jaulas de ferro candente, não as feras, mas homens; e homens que em vez de morrerem no fogo continuam a viver, e teremos uma idéia do inferno, idéia, aliás, muito imperfeita.

A história registrou, para perpétua execração, as truculências de alguns tiranos, que mais do que homens pareciam monstros. Fálaris, tirano de Siracusa, confeccionou um touro de bronze para prender dentro os rebeldes e fazê-los morrer a fogo lento, aceso ao redor. Quem pode descrever os espasmos do supliciado? Gritava, debatia-se naquelas estreitas paredes, que se tornavam candentes e tormentos indescritíveis!… Todavia, essas penas terminavam; o condenado terá suplícios infinitamente maiores e por tôda a eternidade.

Nero mandava que se cobrissem os corpos dos cristãos com pixe e outros combustíveis, e depois, colocados nos postes, ao longo das alamedas, eram acendidos à tarde, para iluminar, enquanto êle passeava no coche, insultando-os bàrbaramente nos padecimentos. Maxêncio amarrava as suas vítima a cadáveres, rosto com rosto, tronco com tronco, membros com membros, e as deixava nesse horrível estado até que o mau cheiro das carnes corrompidas lhes acabasse com a vida. Astiáges, rei da Armênia, condenou S. Bartolomeu Apóstolo a ser esfolado vivo. Não menos horrível o suplício a que foi submetido o diácono S. Lourenço. Estenderam-no sôbre uma grelha e por baixo espalharam brasas, de maneira que aos poucos fosse sentindo os ardores e mais longa e vivamente durasse o tormento. Cozida uma parte do corpo, voltaram-no do outro lado, para que cada membro tivesse seu sofrimento; e assim neste lento e atroz martírio, rendeu a alma a Deus.

São talvez êsses os suplícios do inferno? Qual! apenas a sombra, uma pálida idéia.

Fala-nos o Padre Nierenberg de um jovem que levava uma vida aparentemente cristã, mas odiava a um inimigo; e conquanto frequentasse os Sacramentos, nutria para com êle sentimentos de vingança, que Jesus Cristo obrigava depor.

Morrendo, apareceu ao pai, todo envolvido em chamas, e disse-lhe que se condenara por não ter perdoado ao seu inimigo, e chorando exclamou:

– Ah! se tôdas as estrêlas do céu fossem como línguas de fogo, não traduziriam os tormentos que sofro.

Os dois fatos seguintes se referem pròpriamente ao fogo do purgatório, mas não vêem fora de propósito, já que os teólogos afirmam que o mesmo fogo que atormenta os condenados no inferno, purifica também as santas almas do purgatório, e que o purgatório é um inferno temporário.

Na vida de Frei Estanislau Chosca, dominicano polonês, lê-se que um dia, quando estava rezando pelos finados, viu uma alma tôda devorada pelas chamas. Compreendeu que se tratava de uma alma do purgatório que implorava suflágios, e a interrogou se aquêle fogo era mais penetrante que o nosso.

– Ai de mim! respondeu a mísera, todo o fogo da terra, comparado com o do purgatório é como um sôpro de ar fresquíssimo.

– Mas, isto é impossível! exclamou o frade. Desejaria mesmo experimentar, com a condição de que isto aproveite para me fazer descontar aqui uma parte das penas que terei de sofrer, um dia, no purgatório.

– Nenhum mortal, replicou então aquela alma, poderia suportar-lhe a mínima parte, sem morrer no mesmo instante, se Deus não o sustentasse. Se queres converter-te, estende a tua mão.

O dominicano, em vez de intimidar-se ofereceu a mão: e o defunto deixou cair sôbre ela uma gota de suor. Estanislau desmaiou no mesmo instante, soltando gritos agudos. Acudiram logo os frades assustados e o encontraram desfalecido e com a mão chagada. Levado para cama e medicado, recobrou os sentidos; mas não se levantou mais, sempre atormentado por terríveis dores causadas pela chaga na mão; e morreu depois de um ano, durante o qual não cessou de exortar os irmãos à penitência para evitarem os rigores da justiça divina.

A aparição que estou para referir é narrada na vida de S. Domingos, escrita por Fernando de Castelha, e comprovada por um profundo sinal deixado numa mesa.

Em Zamorra, cidade da província de Leão, na Espanha, vivia num convento de Dominicanos um bom religioso, ligado em santa amizade com um Franciscano, homem como êle, de grande virtude.

Um dia que se entretinha sôbre coisas espirituais, prometeram recìprocamente que o primeiro a morrer, se Deus lho permitisse, apareceria ao outro, para informá-lo da sorte alcançada no outro mundo. (*Julgo prudente observar que não convém fazer tais acordos; ou pelo menos é preciso consultar o confessor.)

Morreu o Franciscano e, fiel à sua promessa, apareceu ao Dominicano, quando êste arrumava a mesa. Depois de tê-lo cumprimentado com extraordinária benevolência disse-lhe que estava salvo, mas, tinha, outrossim, ainda muito que sofrer por algumas pequenas faltas das quais não se tinha arrependido bastante em vida. Em seguida ajuntou: – “Nada existe sôbre a terra, que possa dar uma idéia das minhas penas”. E para que o Dominicano tivesse disto uma prova, estendeu a mão sôbre a mesa do refeitório, deixando na madeira a queimadura como se a mão fôra um ferro em brasa, tirado então da forja.

Imagine-se a comoção do Dominicano a este espetáculo!

A mesa guardou-se religiosamente em Zamora, até o fim do século XVIII, no qual as revoluções políticas a fizeram desaparecer, como a outras muitas relíquias piedosas de que era rica a Europa.

Até agora temos falado das penas do sentido; e que dizer das penas do dano? Que dizer da privação de Deus? A privação da vista de Deus é o que pròpriamente constitui o inferno. Não fazem o inferno as trevas, o mau cheiro, o alarido, o fogo; a pena que faz o inferno é a pena de ter perdido a Deus. Se Deus mostrasse a face aos condenados, êles não sentiriam mais nenhuma dôr, e o inferno seria um paraíso.

Apenas a alma rompe os vínculos do corpo, sente imediatamente que foi criada para Deus e se atira a Êle como uma flecha vôa para sua meta, como a agulha imantada livre do empecilho volta-se para o solo; mas, estando manchada com o pecado, será repelida e precipitada no inferno.

Um caçador fez uma vez esta experiência: amarrou o seu galgo com uma grande corrente, dentro do jardim murado, e depois soltou uma lebre. Apenas a viu, o cão avançou para adentá-la

mas é impedido pela corrente. Que raiva, vê-la correr pelo jardim e não poder apanhá-la! Ladra, gane, dana-se, morde a corrente para despedaçá-la, atira-se contra o animalejo que foge dum lado para outro. Fez tanto esfôrço que pouco depois caiu morto.

A alma tentará contínuamente lançar-se para Deus, para o qual foi criada, mas o pecado é aquela corrente que não a deixará sair das chamas cruéis.

Um virtuoso sacerdote, enquanto estava exorcizando um energúmeno, perguntou ao demônio que penas sofria no inferno. A resposta foi esta:

– Um fogo eterno, uma maldição eterna, uma raiva eterna e um desespêro cruel por não poder mais ver Aquele que me criou.

– Que farias para que te fosse concedido ver a Deus?

– Para vê-lo, mesmo por um instante, estaria pronto a sofrer num minuto tôdas as penas que devo sofrer em dez mil anos… Mas, vãos desejos, hei de sofrer sempre e não O tornarei mais a ver.

E foi tal o tormento e o desespêro com que pronunciou estas palavras, que deixou funda impressão naquelas que assistiam aos exorcismos.

Trago abaixo o primeiro capítulo do livro “O Inferno Existe”, escrito em 1897 e publicado em 1945. A autoria é do Servo de Deus, o padre André Beltrami, SDB. Quão rica é necessária é essa argumentação! Quão importante é recordar esta verdade da nossa Fé!

CAPÍTULO I

A revelação divina demonstra a existência do inferno

Não há verdade tão inculcada na Sagrada Escritura como a da existência do inferno. Escritores inspirados falam dêle continuamente, para que os homens, horrorizados com as penas que aí se sofrem abandonem o vício e se dêem à prática da virtude.

Os protestantes, que de nossa santa religião negaram quase tôdas as verdades mais difíceis de crer e praticar não souberam desfazer-se do dogma do inferno, pelo fato de ser frequentemente recordado nas Sagradas Letras. Por êste motivo, uma senhora católica, importunada por dois ministros protestantes a passar para a reforma, saiu-se com esta sensata resposta: – “Senhores, fizestes na verdade uma bela reforma, suprimistes o jejum, a confissão, o purgatório; infelizmente, porém, conservastes os inferno. Tirai também êste e eu serei dos vossos.”

Para não multiplicarmos as citações, deixaremos o Antigo Testamento e viremos logo ao Evangelho, para ouvir a palavra de Jesus Cristo, que por bem quinze vezes proclama êste lugar de tormentas. E para causar em nós um temor salutar e dar-nos uma idéia justa do inferno, Êle o chama fogo inextinguível, trevas exteriores, onde haverá pranto e ranger de dentes, lugar de tormentos, fornalha de fogo, geena de fogo.

A geena era um vale perto de Jerusalém, onde alguns maldosos hebreus apóstatas de sua religião, sacrificavam a Moloc os tenros filhos, expondo-os antes ao fogo. O piedoso rei Josias, para abolir êsse bárbaro costume, fêz aterrar o vale, ordenando que se lançasse aí a imundície da cidade e os cadáveres aos quais fosse negada a sepultura; e como medida profilática, conservava-se sempre aceso o fogo. O nosso Divino Salvador, para tornar mais sensível a idéia do inferno, tomou a imagem dêsse vale, que os hebreus abominavam, dando-lhe precisamente o nome de geena.

Na parábola do rico epulão, tão fecunda de ensinamentos e que é tão importuna aos ricos gozadores do mundo, Jesus nos ensinou que o mau uso das riquezas conduz inevitàvelmente ao inferno, enquanto as dificuldades e as privações suportadas por amor de Deus levam ao lugar de eterna felicidade.

“Havia um homem rico, que se vestia de púrpura, e de linho e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um mendigo, chamado Lázaro, o qual coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava; mas os cães vinham lamber-lhe as chagas.

“Ora, sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado no inferno. E, quando estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio; e, gritando disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama. E Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os bens em tua vida e Lázaro, ao contrário, males por isso êle é agora consolado e tu és atormentado. E, além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de aí passar para cá. E disse: Rogo-te pois, ó pai, que mandes à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos para que os advirta disto e não suceda virem também êles para êste lugar de tormentos. E Abraão disse-lhe: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Ele, porém disse-lhe: Não, Pai Abraão, mas se algum dos mortos for ter com êles, farão penitência. E êle disse-lhe: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco acreditarão ainda que ressuscitaste algum dos mortos”. (S. Lucas, XVI, 19-31).

Eis aí descrito com vivas côres aquêle reino de dor, onde um fogo abrasador e horrível atormentará sem um instante de trégua o mísero condenado: uma gôta, só uma gôta de água pedia o epulão para mitigar os ardores insuportáveis da sêde, e essa gôta foi-lhe negada sem dó! Ai! quem de vós, branda aos ímpios o Profeta Isaías, cheio de espanto, quem de vós poderá habitar nesse fogo devorador? nesses ardores sempiternos?

Ao final da parábola, acena-se à repugnante incredulidade de tantos infelizes que vivem engolfados nos vícios, não fazendo caso das verdades eternas, nas quais não creriam nem mesmo se aparecesse algum réprobo para lhes atestar a existência do inferno. Qual não será o seu desespero ao verem-se um dia sepultados naquele abismo de tormentos, sem a mínima esperança de saírem de lá?

Alhures, Jesus Cristo descreve o juízo universal que êle fará no fim do mundo, e a sentença de eterna condenação que pronunciará contra aqueles que não praticarem as obras de misericórdia para com os seus irmãos, e que serão precipitados no fogo inextinguível, preparado para o demônio e seus sequazes. Quanto temor não causa à alma a consideração dêste trecho do Evangelho! Ah! se os libertinos, que negam com tanto atrevimento a vida futura, refletissem um pouco, certamente mudariam de vida! Fruto desta meditação foi aquela poesia tão sublime do Dies irae, que é o gemido de uma alma tôda compenetrada do terror do juízo divino e da sorte eterna que a espera depois.

“Quando vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com Ele, então se sentará sôbre o trono da sua majestade, e serão tôdas as gentes congregadas diante dêle, e separará uns dos outros como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E porá as ovelhas à sua direita, e os cabritos à esquerda.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sêde, e destes-me de beber; era peregrino e recolhestes-me; nu, e me vestistes; enfêrmo, e me visitastes; estava no cárcere e fostes visitar-me. Então lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto e te demos de comer; sequioso e te demos de beber? E quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? Ou quando te vimos enfêrmo, ou no cárcere e fomos visitar-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Na verdade vos digo que tôdas as vezes que vós fizestes isto a um dêstes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e para os seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sêde, e não me destes de beber; era peregrino, e não me recolhestes; nu, e não me vestistes; enfêrmo e no cárcere e não me visitastes. Então êles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, ou sequioso, ou peregrino, ou nu, ou enfêrmo, ou no cárcere, e não te assistimos? Então lhes responderá, dizendo: Na verdade vos digo: tôdas as vezes que o não fizestes a um destes mais pequeninos, a mim não o fizestes. E êstes irão para o suplício; e os justos para a vida eterna.” (S. Mateus, XXV, 31-46).

E para tornar entre o povo mais familiar, diria quase visível o pensamento do inferno, usa a comparação dos rebentos e da videira.

“Eu sou a videira e vós os rebentos. O que permanece em mim e eu nêle, êsse dá muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora como o rebento, e secará, e enfeixá-lo-ão, e o lançarão no fogo, e arderá.” (S. João, XV, 5-6).

Falando depois, dos escândalos, o nosso bendito Salvador, de ordinário cheio de doçura e mansidão toma um tom terrível e os ameaça de condenação eterna.

“Ai do mundo por causa dos escândalos! Porque é necessário que sucedem escândalos; mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo! E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor te é entrar na vida manco, do que, tendo duas mãos, ir para o Inferno, para o fogo inextinguível, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.

E se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo, do que, tendo dois pés, ser lançado no inferno, num fogo inextinguível, onde seu verme não morre, e o fogo não se apaga.

“E se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de Deus sem um ôlho, do que tendo dois, ser lançado no fogo do inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. Porque todo o homem será salgado pelo fogo, e tôda vítima será salgada com sal”. (S. Marcos, IX, 42-48).

Santo Tomaz explica que êsse verme que não morre é o remorso da consciência, que para sempre há de atormentar o condenado no inferno; remorso pelo grande bem que perdeu, êle que tinha tantos meios de se salvar.

A expressão será salgado pelo fogo significa que, assim, como o sal conserva as coisas, assim o fogo, no qual os condenados serão imersos, ao mesmo tempo que crucia atrozmente os conserva sempre em vida. Aí o fogo consome, diz S. Bernardo, para conservar sempre. Neste trecho faz-se alusão manifesta aos sacrifícios legais que os hebreus tinham sempre diante dos olhos, e onde estava prescrito que se aspergisse com sal a vítima que era oferecida a Deus: na verdade, os condenados são como vítimas da divina justiça.

Eis como Jesus Cristo, prevendo os assaltos que os incrédulos e libertinos dariam ao dogma do inferno, o proclama continuamente no Evangelho. Quanto a nós, permaneçamos inabaláveis em nossa crença, certos da existência do inferno, como da existência do sol, da lua e das outras coisas que nos rodeiam. Deus nô-lo revelou e ensina por meio da Igreja, e a palavra de Deus não falha.

               I – Lenda urbana

 

             Saiu na Folha:

O pastor norte-americano Bill Wiese afirma, em “23 Minutos no Inferno”, que às 3h da manhã de 23 de novembro de 1988 foi tragado pelo chão. A história descrita no livro se tornou um best-seller do jornal “New York Times”.

Quando acordou, estava completamente nu em uma cela de pedra, com temperatura insuportável. “Ainda não havia me dado conta do que estava acontecendo,” diz Wiese no livro. “Mas acabara de ser lançado no Inferno”.

             Esperamos em Deus que isto não seja nenhum sinal, nem prefiguração de coisa alguma… 😉 Agora, uma dúvida inquietante: como ele contou o tempo? No inferno há temporalidade? Meio estranho…

 

                II – “A piada de Fidel” ou “Fidel: a piada”?

 

              Está no El País:

“Jamás Cuba ha ordenado el asesinato de un adversario”. Así lo asegura Fidel Castro en un artículo leído por un locutor en la televisión nacional, con el que el líder cubano sale al paso de las críticas internacionales contra el Gobierno de la isla por la polémica muerte del opositor Orlando Zapata, fallecido la semana pasada al cabo de 85 días en huelga de hambre. En la nota, el ex presidente cubano defiende especialmente al mandatario brasileño, Luiz Inácio Lula da Silva, a quien en los últimos días se ha acusado de ignorar el caso de Zapata en su reciente visita a La Habana . “Algunos envidiosos de su prestigio y de su gloria, y peor aún, los que están al servicio del imperio (EE UU), lo criticaron por visitar Cuba”, escribe. Pero “Lula conoce desde hace muchos años que en nuestro país jamás se torturó a nadie, jamás se ordenó el asesinato de un adversario, jamás se mintió al pueblo. Tiene la seguridad de que la verdad es compañera inseparable de sus amigos cubanos”, agrega.

             Obviamente, Fidel não poderia deixar o “companheiro Lula” de fora dessa piada. Afinal, quem é o presidente mais bem-humorado da América Latina?