janeiro 2010


[Já que ontem postei um vídeo sobre “corpos incorruptos”, resolvi [re]publicar hoje a tradução de um texto homilético de autoria do Fr. Raniero Cantalamessa. O texto versa sobre a morte na perspectiva cristã. Um paradoxo: tenebroso, mas esclarecedor].

 

Decidi traduzir esta excelente meditação do pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, para o Dia de Finados. Do livro Gettate le Reti – Riflessione sui Vangeli, Anno A. páginas 391 a 396.

 

2 de Novembro: Comemoração de todos os fiéis defuntos

Sb 3, 1-9; Ap 21, 1-5.6-7; Mt 5, 1-12

 

            Tudo, neste dia, nos convida a refletir sobre o tema austero, mas salutar, da morte. Na Escritura lemos esta solene declaração:

 

            “Deus não criou a morte e não se delicia com a ruína dos vivos. Ele, de fato, criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é reina sobre a terra porque a justiça é imortal. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 1, 13-15. 23-24a).

 

            Esta palavra nos dá a chave para entender porque a morte suscita em nós tanta repulsa. O motivo é que não é “natural”. Assim como a experimentamos na presente ordem das coisas, é algo de estranho à nossa natureza, fruto da inveja do diabo. Por isto lutamos contra ela com todas as forças. Esta irreprimível recusa à morte é a melhor prova de que nós não somos feitos para ela e que não pode ser ela a ter a última palavra. Isto mesmo assegura a primeira leitura de hoje:

 

            “As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aos olhos dos insensatos parecem mortos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles é cheia de imortalidade” (Sb 3, 1-4).

 

            Hoje é ocasião para uma reflexão existencial, não só da fé, sobre a morte. Se não temos coragem de encarar esta realidade num dia como hoje, quando o faremos? Um historiador antigo narra que o rei Damocle quis um dia mostrar como vive um rei, a um súdito que inveja a sua condição. Convidou-o à sua mesa e lhe fez servir um grande banquete. A vida na corte parecia-lhe cada vez mais invejável. Mas a um certo ponto o rei o convida a elevar o olhar acima de si, o que vê o servo? Uma espada pendia sobre a sua testa com a ponta para baixo, presa a uma crina de cavalo! Assustado, pálido, de queixo caído, começou a tremer. Assim, queria dizer Damocle, vive um rei: com uma espada que pende noite e dia sobre a sua cabeça.

 

            Mas não só o rei, também nós. Uma espada de Damocle pende sobre a testa de todos os homens, ninguém está excluído. Só que esses tendem a ser destruídos, como o são todos os seus trabalhos e distrações. Esta espada se chama morte. “Quando nasce um homem, dizia Santo Agostinho, podem-se levantar duas hipóteses: ou será belo, ou feio; ou será rico, ou pobre; ou viverá muito, ou não. Mas de ninguém se dirá: ou morrerá, ou não morrerá. Esta é a única coisa absolutamente certa da vida. Quando sentíamos que alguém está acometido de hidropsia (no tempo do santo esta era uma doença incurável), dizemos: Pobrezinho, deve morrer; está condenado, não há remédio!” Mas não devemos dizer a mesma coisa de cada homem que nasce? “Pobrezinho, deve morrer, não há remédio”.

            Dir-se-á: mas já não estamos bastante enfastiados do pensamento de morte? Que necessidade temos de enfiar a faca na ferida? É verdade. O medo da morte é o conflito mais profundo de cada ser humano, e começa a manifestar-se confusamente logo que a criança chega à idade da razão e da consciência. A angústia da morte, disse um grande psicólogo, é um “verme no centro” (no centro de cada pensamento); essa é a expressão imediata do mais forte dos instintos humanos, o instinto de autoconservação (William James).  Houve quem quisesse trazer para todas as atividades humanas o instinto sexual e explicar tudo com ele, a arte e a religião. Porém, mais forte que o instinto sexual é aquele do conflito da morte, da qual a mesma sensualidade não é mais que uma manifestação, quase um tentativa de subtrair-se à morte. Se se pudesse ouvir o grito que sai da humanidade inteira, se escutaria o urro tremendo: não quero morrer.

            Deste modo, por que convidar os homens a pensar na morte, se essa já está tão presente entre nós? É simples. Porque nós homens escolhemos remover o pensamento da morte. De fazer de conta que ela não existe, ou que existe só para os outros, não para nós. Planejamos, corremos, nos exasperamos por causa de nada, como se num certo momento não devêssemos largar tudo e partir. Em uma grande cidade da Itália é criado, depois da guerra, um novo bairro residencial de luxo. Os construtores haviam decidido que não deveria existir nele nenhuma Igreja e o motivo era que o toque dos sinos para a visita aos mortos e aos funerais poderiam perturbar a tranqüilidade dos inquilinos.

            Mas o pensamento da morte não é deixar de lado ou remover com estes pequenos passos. Agora não basta reprimi-lo como a maioria de nós faz. Reprimi-lo a custo de fadigas, atenção constante, um contínuo esforço psicológico, como para fechar uma tampa que tende sempre a sobrepor-se. Nós empenhamos uma parte considerável das nossas energias para manter longe de nós o pensamento da morte. Alguns ostentam segurança a este respeito, dizem que sabem que devem morrer, mas que não se preocupam excessivamente; que pensam na vida e não na morte… Mas são o retrato de um homem secularizado; na realidade este não é o único dos tantos modos com os quais se tenta exorcizar o medo.

            Que respostas o homem tem encontrado para o problema da morte? Os poetas foram os mais sinceros. Não havendo soluções a propor, eles nos ajudam a ao menos tomar consciência da nossa situação. Um poeta espanhol do século XVIII, Gustavo Bécquer, fala de uma onda gigante que o vento sopra sobre o mar, que avança como um redemoinho que passa, sem saber sobre qual praia vai quebrar; de uma luz próxima de apagar-se que brilha em círculos trêmulos, ignorando qual destes brilhará por último; e conclui dizendo: Assim são os que, a passeio, vagam pelo mundo sem pensar em de onde vêm, nem para onde os meus passos me conduzem.

            Os filósofos ao contrário tentaram explicar a morte. Um destes, Epicuro, afirmou que a morte é um falso problema porque – dizia – “quando nós existimos a morte não existe ainda, e quando a morte existe, nós já não existimos mais”.  Também o marxismo tentou eliminar o problema da morte. A morte, disse, é própria das pessoas. E, demonstra que não se deve levar em conta a pessoa humana, mas a sociedade, a espécie que não morre. O homem sobrevive na sociedade que ajudou a construir. O marxismo, porém, acabou, e o problema da morte continua. Antes mesmo da corrida armamentista e dos mercados mundiais, o comunismo já havia perdido a sua batalha nos corações. Não soube fazer algo para enfrentar a morte, senão construir grandes mausoléus: a Lênin e a Stálin.

            Um filósofo moderno, Heidegger, explicou que a morte não é um incidente que põe fim à vida, mas é a substância mesma dessa vida. Nós não podemos viver se não morrendo. Cada momento que passa é u, fragmento retirado da nossa vida. O dito “morro a cada dia um pouco” (quotidie morior), é verdadeiro ao pé da letra.

            Os homens não pararam, desde que o mundo é mundo, de buscar remédios contra a morte. Um destes, típico do antigo testamento, se chama a prole: sobreviver nos filhos. Um outro é a fama. “Não morrerei de um todo” canta o poeta pagão (non omnis moriar); “Erguerei um monumento mais duradouro que o bronze” (aere perennius) (Orácio).

 

 

 

 

            Nos nossos dias têm se desenvolvido um novo pseudo-remédio: a doutrina da reencarnação. Mas:

 

            “É estabelecido que os homens morram uma só vez, depois disso vem o juízo” (Hb 9,27)

 

            Uma só vez! A doutrina da reencarnação é incompatível com a fé cristã, que por seu lado professa a ressurreição da morte. Alguém se lembra daquilo que foi ou fez na vida passada? Acaso se pode dizer que é a mesma pessoa a renascer, se não há a consciência de ser a mesma pessoa; se o “eu” mesmo foi trocado?

            Tal como é proposta a reencarnação no Ocidente é fruto, entre outros, de um grave equívoco. Nas origens, e em quase todas as religiões em que é professada como parte integrante do próprio credo, a reencarnação não significa um suplemento de vida, mas de sofrimento; não e motivo de consolação, mas de desespero. Com essa se veio dizer ao homem: “Ainda que você faça o mal, você vaio renascer para expiá-lo!”. É como dizer a um encarcerado, ao fim de sua detenção, que a sua pena foi duplicada e deve recomeçar do início.

            Limitamo-nos, como disse, a algumas reflexões gerais sobre a morte, sem adentrar nas respostas da fé. Só para tomar consciência do fato e não nos deixarmos pegar de surpresa, despreparados. Mas para que serve pensar na morte? É mesmo necessário fazê-lo? Sim, é útil e necessário. Serve antes de tudo para nos prepararmos para morrer bem. O galho que pende de uma árvore, uma vez cortado, cairá. Mas serve também, e mais, para viver bem, com mais calam e sabedoria:

 

“Ensinai-nos a contar os nossos dias, e obteremos a sabedoria do coração” (Sl 89,12).

 

            Não existe ponto melhor no qual colocar-se para ver o mundo, na verdade de todos os seus acontecimentos, que a morte. ? Há angústias pelos problemas, dificuldades, contrastes? Prossegui, colocando-se num ponto de observação estratégico, olha estas coisas como te aparecem naquele momento e verás como as coisas ganharão nova dimensão. Não se caí na depressão e na inatividade; ao contrário, se faz mais e melhora as coisas, porque se está mais calmo, mais bem posicionado.

            Lembro uma espécie de rima, ingênua mas cheia de sabedoria, que a gente cantava no dia dos mortos, e que nunca perdeu sua validade:

 

“Se já se passaram cem anos,

Sem penas e sem afãs,

Que será a morte?

Tudo é vaidade”.

Não lembro se já postei aqui no blog algo sobre isso. Mas acho bem legal este vídeo: ele traz imagens de santos cujos corpos não sofreram a corrupção da morte! 😉 Está no Youtube:

 

 

[Ao terminar a leitura deste texto, fique ciente de que você não mais está em ignorância invencível no que tange à maldade intrínseca do Socialismo ;)]
 
Fonte: Sociedade Católica
 
 
 
A Cruz e a Foice-e-Martelo
A Cruz e a Foice-e-Martelo

por Pedro Ravazzano

O marxismo conquistou um grande número de seguidores dentro da Igreja. Esse posicionamento ideológico além de contrariar os ensinamentos do Magistério, gerou um forte braço da esquerda principalmente na América Latina. A teologia da libertação, nascida do encontro de heresias teológicas européias com a metodologia comunista no Novo Mundo, frutificou, tornando-se uma grande arma do socialismo mundial.

A Igreja já havia dito que “Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro” (Quadragesimo Anno, nº 117 a 120), mas isso não impediu que religiosos em rebeldia plena com o Magistério afirmassem que “o Reino de Deus é concretamente o socialismo” (L. Boff e Cl. Boff. Da Libertação, p. 96). Genésio Boff disse ao Jornal do Brasil que o proposto pelos seus irmãos em Marx “não é Teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da Teologia”.

Essa falta de amor ao ensinado pela Igreja, que não condenou o socialismo por motivos pequenos e mesquinhos, mas pela sua incongruência com a Revelação cristã, atingiu seu ápice quando em 1968, religiosos, que já traziam de outrora suas heresias ideológicas, comungaram e ratificaram atitudes terroristas e revolucionárias. Frei Betto, e seus comparsas, aliados a Carlos Marighela, levantaram pontos ao longo da Rodovia Belém-Brasília para implementar uma guerrilha rural, usando o Convento do Araguaia como o centro logístico. Nesse momento os dominicanos se transformaram, Frei Ivo, virou Pedro, Frei Osvaldo, Sérgio ou Gaspar I, Frei Magno, Leonardo ou Gaspar, Frei Beto, Vítor ou Ronaldo, tudo isso para que pudessem contactar Marighela e Joaquim Câmara Ferreira, os cérebros do Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP), que depois virou Ação Libertadora Nacional (ALN).

Esse grupo terrorista tinha como financiador o governo cubano. O presidente, Carlos Marighela, fundou o AC/SP depois que foi expulso do PCB. Interessante que sua obra, Minimanual do Guerrilheiro Urbano, transformou-se em norte de vários grupos fanáticos de esquerda, como Brigadas Vermelhas, da Itália, e Baader-Meinhoff, da Alemanha. A ALN assaltou trens-pagadores (o roubo de Santos-Jundiaí rendeu NCr$ 108 milhões), seqüestrou homens de importância, como o embaixador americano, em conjunto com o MR-8 (de Franklin Martins e Fernando Gabeira). Depois da morte de Marighela, em 1969 (por delação do Frei Fernando), a ALN passou a ser liderada por Joaquim Câmara Ferreira, que viajou para a Cuba com o fim de receber ordens de Fidel Castro. Além desse extenso currículo, a ALN se envolveu em centenas de assassinatos, tanto com a ação solo, como em parceria com outros grupos terroristas; VAR-Palmares (de Dilma Rousseff), PCBR, MOLIPO, Tendência Leninista (esses dois últimos gerados da própria ALN). Tudo isso com a participação, ou no mínimo conhecimento, de religiosos dominicanos.

Os terroristas não lutavam por liberdade, mas sim para que houvesse o triunfo da revolução comunista no Brasil. No regime militar o número de mortos chegou a aproximadamente 400 (lembrando que os guerrilheiros de esquerda cometeram cerca de 200 assassinatos), enquanto o histórico do marxismo mundial beirava os 100 milhões de mortos. Alguns casos são bastante significativos; na China 65 milhões morreram depois que Mao Tse Tung iniciou o “Grande Salto para a Frente”, um desastroso projeto. Na URSS, só de 1917 a 1953, o regime bolchevique havia matado 20 milhões de pessoas, muitos deles religiosos da igreja ortodoxa russa que cometiam o crime de serem cristãos. Na Coréia do Norte, que até hoje vive no jugo do regime comunista, o número chegou a 2 milhões de mortos. No Camboja, o Khmer Vermelho matou em três anos 1/3 da população. Na América Latina, países como Cuba, Nicarágua e Peru, que estavam intrinsecamente ligados nas arquitetações comunistas, carregam cerca de 150 mil mortos. A ilha de Fidel ainda tem cerca de 2,2 milhões de pessoas, 20% da população de Cuba, de refugiados, principalmente nos EUA. Outros números; África, 1,7 milhão, entre Etiópia, Angola e Moçambique, Afeganistão 1,5 milhão, Vietnã 1 milhão.

É bastante pertinente o ocorrido na Guerra Civil espanhola. O historiador Hugh Thomas diz que “Em tempo algum no curso da história da Europa, Talvez mesmo de todo o mundo, viu-se um ódio tão apaixonado à religião e suas obras.” Tanto na Espanha quando no Brasil os marxistas tinham apoio direto da URSS, a diferença era que na península ibérica os religiosos eram martirizados e perseguidos, enquanto aqui se convertiam à barbárie comunista. Só nos meses precedentes a guerra 160 Igrejas foram depredadas e 270 religiosos mortos. É célebre a foto onde o Cristo Redentor é “fuzilado” por atiradores comunistas, além disso, outros monumentos católicos eram profanados, como a histórica imagem de Nossa Senhora de Granada que tinha que ser chutada para o alistamento na Frente Popular. Os processos da canonização são sempre grandiosos; 61 mártires de Cartagena, 47 Irmãos Maristas, 226 de Valença, 500 foram beatificados a pouco tempo por S.S Bento XVI. O número de mártires chega aos milhares.

Enquanto Frei Betto, e seus companheiros religiosos, se levantavam contra os abusos cometidos pelo regime militar, que combatia comunistas com a intenção de instaurar no Brasil uma ditadura marxista, em Cuba se fuzilava entre 15 mil e 17 mil pessoas. A consciência era limpa (ou hipócrita?), não se incomodavam em receber dinheiro e treinamento de militantes castritas. A falta de percepção era tão acentuada que se lançavam numa luta contra um inimigo que tinha apenas a pretensão de combater os futuros fuzilamentos, genocídios, e massacres, que ocorreriam no possível Brasil vermelho. URSS, China e Cuba eram os financiadores dos guerrilheiros que diziam lutar por liberdade mais que eram sustentados por regimes genocidas.

Não se perturbavam quando seus ícones falavam barbaridades como “Fuzilamentos, sim, temos fuzilado, fuzilamos e continuaremos fuzilando enquanto seja necessário. Nossa luta é uma luta de morte”. (Che Guevara, na Assembléia Geral da ONU em 11 de dezembro de 1964) ou “Não sou Cristo nem filantropo; sou todo o contrário de Cristo” (“Che” Guevara em carta familiar).

A teologia da libertação tem sua presença no meio religioso reduzida, mas ainda é ativa na política da América Latina. O próprio PT surgiu nas sacristias das igrejas TL, e ainda hoje Frei Betto, Boff, e companhia, são ativos e essenciais na articulação esquerdista nacional e internacional. O frade dominicano tem relações amistosas com Fidel Castro, seu mentor político, as FARC, tendo o comandante da narcoguerrilha, Raul Reyes, informado que um dos seus maiores contatos junto ao governo do PT era o religioso católico, e com diversos partidos marxistas do continente, sendo um dos membros principais do Foro de São Paulo, dirigindo sua revista quadrimestral, “America Libre”. Ele sem nenhuma timidez ou receio barbarizou ao dizer em pleno II Fórum Social Mundial, que “a sociedade do futuro mais livre, mais igualitária e mais solidária se define em uma só palavra: socialismo. Pediu uma salva de palmas para Karl Marx e disse que o homem novo deve ser filho do casamento de Ernesto Che Guevara e Santa Teresa de Jesus”, como pontuou Carlos I. S. Azambuja.

A heresia do modernismo deu um grande impulso aos religiosos que já tinham o germe heterodoxo. A massificação foi tão grande que conseguiram corromper toda a Ação Católica, passando a ser um braço dos partidos marxistas. Nessa época os grandes Bispos de destaque do país estavam em consonância com tais abusos e profanações, fornecendo uma densa e forte proteção aos religiosos que se comportavam diametralmente opostos ao ensinado pelo Magistério. Nesse contexto, é bastante pertinente a figura do ex-frade Leonardo Boff, que diferente de Frei Betto, tinha uma bagagem cultural e teológica de peso. Ele conseguiu fornecer a teologia da libertação um fundamento sólido e que poderia se passar facilmente como ortodoxa pelos desavisados. Sua figura caiu para segundo plano quando ainda religioso se envolveu com uma mulher casada, o que além de acarretar sua saída da vida franciscana por vontade própria, lançou para um patamar abaixo a sua importância na teologia americana. Mesmo com essa queda, suas sementes já haviam sido plantadas em muitos setores da Igreja.

A teologia da libertação foi posteriormente condenada através do documento Libertatis Nuntius, que afirmou entre outras coisas, que ela causava “uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé.” Isso se somou às condenações ao marxismo feitas por Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Em Puebla, o documento do CELAM frisou que “(…) A libertação cristã usa ‘meios evangélicos’, com a sua eficácia peculiar e não recorre a nenhum tipo de violência, nem à dialética da luta de classes (…)” (nº 486) “ou à praxis ou análise marxista” (nº 8).

O Magistério em toda a sua riqueza é claro quanto à condenação ao socialismo, e a própria teologia da libertação. Esta, além da metodologia comunista cai em outras heresias, como o modernismo, gnosticismo (ambas intrínsecas), mas também milenarismo, se fomos analisar a perspectiva socialista de redenção, montanismo, com a sua percepção eclesiológica deturpada, e outras heterodoxias. Essas heresias podem gerar diversas outras, como berenguarianismo (nascido da visão de que o Sacerdote detém o poder enquanto os fiéis são desprovidos, daí a negação da presença real de Cristo na eucaristia), ou então o embrião dessa heterodoxia; a afirmação de que a comunidade celebra junto ao Padre. Em ambos os casos o erro surge da necessidade de um igualitarismo entre fiéis e religiosos. Além dessas heresias, a teologia da libertação descamba para a defesa do aborto, homossexualismo, etc. Nas palavras de Frei Betto; “O Estado é laico e deve ter o direito de defender a vida das mulheres pobres não incriminando mais o aborto, o que não significa ser a seu favor.” e “Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização em certos casos (…) Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento.” (Frei Betto, A Questão do Aborto). O religioso só esquece do ensinamento canônico da Igreja; , “Cânone 1398 Quem procurar o aborto seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae (automática)”, condenação que também recai aos defensores do infanticídio.

A teologia da libertação conseguiu entrar nos seminários e noviciados, com isso se impregnou justamente na fonte de formação. O apoio de grandes Bispos no passado foi essencial para o fortalecimento dessa linha herética. Ambos os fatores somados deram a TL uma estrutura sólida e grandiosa. A sua presença na Igreja brasileira foi tão enfática que conseguiam abafar todas as condenações que viam de Roma, continuando intocados e atuantes. Com o surgimento do movimento carismático, e associações fiéis e ortodoxas (Legionários de Cristo, Opus Dei, Comunhão e Libertação, Arautos do Evangelho, etc), a teologia da libertação passou a presenciar a sua degradação. Só conseguiam fornecer aos seus seguidores um discurso político e centrado na dialética marxista, tudo convergia para a “justiça social” e luta de classes; Maria a mulher da caminhada, Jesus o revolucionário, etc. Isso gerava o empobrecimento espiritual dos homens, algo tão necessário na vivência cristã. Esses novos movimentos começaram justamente a resgatar o cristocentrismo, vendo no conforto social apenas uma conseqüência da comunhão com Deus, e não a causa.

A TL foi sendo assim minada, sua influência reduzida. Cavaram a própria cova quando afastaram a piedade e religiosidade dos fiéis, com isso secavam as fontes de vocações, enquanto os movimentos aversos a essa metodologia dialética e herética apinhavam os seminários e noviciados de jovens. Dessa forma uma nova geração de religiosos foi sendo formada, com fidelidade ao Magistério e ortodoxa no seguimento da doutrina. Serão os futuros padres, freis, monges, Bispos, aqueles que irão execrar por um todo a teologia da libertação da Igreja, e coloca-la no seu devido lugar, nos livros de história como uma heresia ao lado das tantas outras.

O professor Felipe Aquino, no seu site, replicou um texto – escrito por um promotor de justiça do estado do Espírito Santo – acerca do 3PNDH. O breve artigo traz questionamentos simples, mas imprescindíveis, para que se observe este malfadado projeto sob a ótica do Direito e da Moral. Ei-lo:

 

Por Luiz Antônio de Souza Silva
PROMOTOR DE JUSTIÇA NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

              Foi recentemente assinado o decreto presidencial que instituiu o Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos no Brasil, alvo de inúmeras críticas, das quais, sem desconsiderar outras, ressalto a relacionada ao “apoio à aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre os seus corpos”.

              De acordo com o Plano, trata-se de um objetivo estratégico previsto na Diretriz afeta ao combate às desigualdades estruturais.

               Que efetivamente é necessária a garantia de meios para o alcance da plena cidadania das mulheres isso é indiscutível. A questão é se o caminho passa pela colisão com o que se considera o direito humano mais fundamental de todos, qual seja, o direito à vida.

              Parece um terrível paradoxo, se observarmos que a via traçada consta de um plano nacional de direitos humanos.

             Quando se trata de políticas relacionadas à legítima promoção da mulher, há muito a maternidade e a infância são duramente castigados, não obstante a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos estabeleça que ambas gozam do direito a cuidados e assistência especiais.

             E geralmente sintetizam discussões estabelecendo posições contrárias à política abortiva como exclusivamente religiosa, quando, na verdade, ela encontra subsídio em normas jurídicas, como a nossa Constituição Federal, que, em seu artigo 5°, estabelece a inviolabilidade do direito à vida, para não mencionarmos outros dispositivos, em sintonia.

              A Convenção Americana de Direitos Humanos, também conhecida como “Pacto de São José da Costa Rica”, Tratado Internacional do qual o Brasil é um de seus signatários, protege o direito à vida desde a concepção, de acordo com a leitura de seus artigos 1° (n° 2), 3° e 4° (n° 1).

             Da mesma forma, o início da vida humana, desde o momento da concepção, é questão científica, como discorre, dentre tantos, o Prof. Jerôme Lejeune, conhecido como o “pai da genética moderna”, em cujo currículo consta a descoberta da causa genética da Síndrome de Down, entre outras significativas contribuições prestadas à humanidade.

              Convidado pelo Senado Americano, no dia 23.04.81, disse ele: “Quando começa um ser humano? Desejo trazer a essa questão a resposta mais exata que a ciência atualmente pode fornecer (…). Aceitar o fato de que, após a fecundação, um novo indivíduo começou a existir, já não é questão de gosto ou opinião. A natureza humana do ser humano, desde a concepção até a velhice, não é uma hipótese metafísica, mas sim uma evidência experimental.”

              A rigor, tecnicamente, como contraponto, nenhuma heresia jurídica seria se o Código Penal fosse alterado para que o aborto passasse a ser apenado tal qual a um homicídio, com o gravame da qualificadora que é prevista quando utilizado recurso que torne impossível a defesa da vítima.

              Afinal, que defesa tem esse novo indivíduo, o mais frágil de todos, diante do contexto?

              Enfim, as desigualdades biológicas fazem do homem e da mulher seres que jamais serão iguais.

              Sem respeito e promoção mútua, em suas diferenças, qualquer vitória é triste. E como se a aquarela pudesse ser a mesma sem o menino que caminha, a astronave, sem pedir licença, vai mudando a nossa vida e depois nos convida a rir ou chorar…

Publicado no Jornal “A Tribuna”, Vitória-ES, 20.01.2010, p. 23

Encontrei no Youtube um vídeo com um trecho do discurso que o Sumo Pontífice, Bento XVI, pronunciou dirigindo-se aos jovens congregados no estádio do Pacaembu, em São Paulo, por ocasião de sua visita ao Brasil, em 2007. Emocionei-me ao recordar que tive a graça de ouvir – de viva voz – as palavras do Sucessor de Pedro. Bons momentos 🙂

Chamo a vossa atenção para um detalhe: o homem que fala àquela multidão reunida no estádio é bem diferente daquele que a mídia apresenta como “Ratzinger, o Inquisidor”. Dócil, voz firme, alegre, eloquente, santo: assim é Bento XVI. Espero que este vídeo vos renda bastantes frutos espirituais. Particularmente, percebi que hoje compreendo melhor o que Papa quis dizer quando afirmou [nos alertando] que “Deus não nos tira nada,  ao contrário, ele nos dá tudo“!

 

“Cristo salva” – entrevista do Pe. Laguerie

Maria Carolina Abe,
Folha de São Paulo

 

A retomada da missa tradicional, com partes rezadas em latim e o padre de costas para o público, atrairá mais fiéis para a Igreja Católica. Ao menos é o que afirma o padre francês Philippe Laguérie, que conversou com a Folha na quarta-feira, em São Paulo.

Se as missas fossem feitas no modo tradicional, as igrejas estariam cheias. Toda vez que a liturgia é deteriorada, as igrejas se esvaziam“, diz Laguérie, nomeado pelo Vaticano como fundador e superior geral do Instituto Bom Pastor.

O órgão foi criado pelo papa Bento 16 em setembro do ano passado, com sede na Arquidiocese de Bordeaux, na França. No início deste mês, o Vaticano divulgou um “Motu Proprio” -documento que o papa escreve por iniciativa própria, e não como resposta a uma solicitação- assinado por Bento 16 que facilita aos padres de todo o mundo celebrarem a missa tradicional, baseada na liturgia estabelecida pelo papa João 23, em 1962.

Essa missa tradicional (ou tridentina) era rezada antes das mudanças feitas pelo Concílio Vaticano 2ø (1962-65), que introduziu a nova forma de celebrar a missa, com a possibilidade de uso do idioma local.

A missa tradicional em latim nunca foi oficialmente suspensa, mais caiu em desuso. Em 1982, João Paulo 2ø decretou que, para rezá-la, seria necessário pedir permissão ao bispo da diocese.

Leia a seguir entrevista com o padre Philippe Laguérie.



FOLHA – A retomada da missa tradicional causou grande repercussão devido a um trecho em que cita os judeus. Como avalia a polêmica?


PHILIPPE LAGUÉRIE – Na missa propriamente dita, essa que é celebrada todos os dias, não há nada, nenhuma referência aos judeus. Existia uma referência aos judeus na liturgia da Sexta-feira Santa, que não é uma missa. Reclamava-se de um texto que falava dos “pérfidos judeus“, mas ele foi suprimido pelo papa João 23, justamente a missa que o papa acaba de ressuscitar. Então, essa é uma falsa questão.

FOLHA – Mas a liturgia da Sexta-feira Santa ainda mantém a afirmação de que os judeus necessitam ser esclarecidos sobre Jesus Cristo [“Oremos pelos judeus, para que Deus retire o véu que cobre seus corações e lhes faça conhecer nosso senhor Jesus Cristo”].


LAGUÉRIE – Certamente, eles têm de ser esclarecidos sobre a divindade de Jesus Cristo. Pede-se que os judeus, os muçulmanos, os infiéis de maneira geral sejam esclarecidos sobre Jesus Cristo. Fala-se de 15 categorias de pessoas -os catecúmenos, os hereges, os cismáticos, os pagãos-, pede-se a todos que conheçam a luz de Cristo. Pede-se até que sejam esclarecidos o papa, os bispos e todo o clero a respeito da divindade de Cristo, que conheçam a luz de Cristo. Então, não há nenhuma referência especial aos judeus.

FOLHA – Na terça passada, o Vaticano publicou outro documento, que traz a idéia de superioridade da Igreja Católica sobre as demais igrejas cristãs, ao afirmar que a igreja de Cristo é a Igreja Católica. O sr. pode esclarecer esse ponto?


LAGUÉRIE – O que o papa diz no documento é que a afirmação do Concílio de que “a Igreja Católica subsiste na igreja de Cristo” significa “a Igreja Católica é a igreja de Cristo” ainda com mais força. Não só diz que a Igreja Católica é a igreja de Cristo atualmente mas que sempre o foi, desde o início. Além disso, o papa define quem a Igreja Católica reconhece como igreja. Ele admite que se chamem de igrejas as ortodoxas, porque elas conservaram o sacerdócio, a sucessão apostólica [o fato de os padres serem ordenados uns pelos outros] e a missa católica.  Embora possam ser chamadas de igreja, não são igrejas de Cristo, porque não têm a comunhão com Roma, condição essencial para ser igreja de Cristo. Porém o papa não reconhece o nome de igreja a todos os movimentos surgidos da Reforma protestante, porque eles não têm a doutrina católica. Não é o objetivo do documento estabelecer um “hit parade” das igrejas, dizer qual é a melhor, mas definir quem é igreja ou não segundo o Vaticano.

FOLHA – Como será tomada a decisão de rezar a missa tradicional?

LAGUÉRIE – Existe a liberdade de qualquer padre decidir rezar a missa antiga. Ele pode receber fiéis para assistir à missa, mas continua sendo uma missa privada [missa que o padre reza por iniciativa própria e que não pertence à programação oficial da igreja, mesmo tendo público]. Para que haja uma missa na paróquia, uma missa pública, é preciso que um grupo de fiéis estável faça o pedido. Se o pároco não atender a esse pedido dos fiéis, eles devem procurar o bispo, que deve fazer todo o possível para atender aos fiéis. Caso isso não ocorra, então se deve recorrer à Comissão Ecclesia Dei, em Roma.

FOLHA – Quais as principais diferenças entre a missa tradicional e a missa rezada hoje?

LAGUÉRIE – Há muita, muita, muita diferença. Em primeiro lugar, na missa antiga, todos rezam voltados para Deus e voltados para o Oriente, onde nasce o sol, que simboliza a luz de Cristo e o surgimento da verdade. Somente na explicação do Evangelho, nas leituras e no sermão, o padre se volta para o povo, pois está se dirigindo a ele. Na missa nova, o padre reza sempre voltado para o povo. A segunda diferença é a língua sagrada, o latim. Nós não nos dirigimos a Deus na mesma língua que usamos nas compras, nos negócios, no dia-a-dia. Sempre houve na igreja, mesmo no Oriente, uma língua sagrada para falar com Deus. Na Síria, rezava-se a missa em aramaico; na Judéia, rezava-se a missa em siríaco.  Em terceiro lugar, os próprios textos da missa são diferentes: na missa nova não se fala mais do sacrifício nem do pecado nem da vida eterna nem da redenção.

FOLHA – Essa volta à missa antiga pode ser vista como exemplo de um retorno da Igreja Católica, sob Bento 16, ao conservadorismo?

LAGUÉRIE – A nova missa corresponde à teologia dos anos 1960. A missa antiga, a uma teologia que foi eterna na Igreja Católica.

FOLHA – Existe alguma estimativa do número de católicos adeptos desse rito antigo?

LAGUÉRIE – Duas pesquisas feitas na França em maio, por institutos não-católicos, constataram que 68% dos franceses, mesmo não-católicos, se diziam adeptos da missa tradicional.

FOLHA – A idéia que se tem é justamente a inversa: que a missa rezada em latim pode afastar os fiéis. Como o sr. explica isso?

LAGUÉRIE – O papa disse que, de fato, recuou muito o conhecimento do latim e que isso pode diminuir a demanda pela missa tradicional. Mas não é preciso conhecer latim para apreciar a missa antiga. Além disso, o papa nota que, quando se suprimiu a missa tradicional, acreditava-se que as pessoas que seguiam ligadas a ela eram velhos, nostálgicos.
Mas o que se vê é justamente o contrário: há uma preponderância de jovens pedindo a volta da missa antiga.

FOLHA – Hoje, no Brasil, as missas tradicionais acontecem somente com autorização dos bispos?

LAGUÉRIE – Sim, existem algumas missas privadas. Sempre há missas em Campos (RJ), onde há um instituto de padres que rezam a missa antiga. O Instituto Bom Pastor está justamente procurando igrejas para transformar em paróquias pessoais [paróquias que têm controle sobre um grupo de pessoas, e não sobre uma área geográfica, como ocorre com as paróquias convencionais].

FOLHA – Nesse contexto de mudanças na Igreja Católica, qual o papel do Instituto Bom Pastor, ao qual o sr. pertence?

LAGUÉRIE – O instituto é um balão de ensaio do “Motu Proprio” e também uma chamada para a reaproximação com a fraternidade de São Pio X, dado que todos os membros iniciais do instituto vieram desse grupo.


p.s.: A entrevista acima foi concedida em 15 de julho de 2007.

Fonte: Associação Cultural Montfort
 

[Este texto foi escrito a quatro mãos por Jorge Ferraz e eu. A publicação original foi feita no Deus lo Vult!, em 29/08/2008 . Trago-o novamente para vossa apreciação].

 

“Quis putas est fidelis servus et prudens, quem constituit dominus supra familiam suam, ut det illis cibum in tempore? Beatus ille servus, quem cum venerit dominus eius, invenerit sic facientem. Amen dico vobis quoniam super omnia bona sua constituet eum”.


“Quem julgais que é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua família para os alimentar a seu tempo? Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo: Há-de confiar-lhe todos os seus bens”
(Mt 24, 45-47).

Ainda no espírito do Evangelho de domingo passado (Mt 16,13-20), o qual nos apresenta a instituição da Igreja e do Papado, teceremos alguns comentários a respeito de uma figura que sempre foi sistematicamente vilipendiada pelos meios de comunicação: o Papa, verdadeiro mártir devido às inúmeras incompreensões e perseguições que sofre nos dias de hoje.

A mídia [em especial, a do Brasil] tenta sempre passar para o povo uma imagem o mais negativa possível do Sucessor de Pedro. No início do seu pontificado, o “espantalho” preferido dos meios de comunicação anticlericais era aquele segundo o qual Bento XVI seria um inquisidor (já que, quando cardeal, Joseph Ratzinger presidiu a Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Santo Ofício). Depois, naquele malfadado episódio sobre o discurso do Papa na Universidade de Ratisbona, na Alemanha, os meios de comunicação tentaram disseminar que o Romano Pontífice era um preconceituoso “eurocêntrico” que não tinha nenhum respeito ao Islã. Depois, ainda, quando o Santo Padre declarou que os casais de segunda união representavam uma “piaga”, isto é, uma “chaga” na sociedade moderna, tentou-se mostrar que o Sucessor de Pedro tinha dado uma demonstração cabal de sua personalidade anacrônica que – “sem abertura ao novo” – considerava tais casais uma “praga”. Na visita ao Brasil, em maio de 2007, a imprensa esperava um Papa sisudo, com ares puritanos [na realidade, encontrou um homem dócil, afável, um verdadeiro pastor, disposto a largar noventa e nove ovelhas para buscar aquela que se perdeu (Mt 18, 12-13)]. Sem contar os foliões que – por ocasião das festividades do carnaval – vestem-se de papa, debochando do líder católico e, não raro, causando escândalo e praticando orgias que insinuam às pessoas ser o Papa, como eles, devasso. Enfim, os ataques são muitos e de todos os lados. Mas, diante de tantos episódios tristes de ataque ao Servo dos Servos de Deus percebemos duas coisas:

– o ministério petrino precisa ser melhor compreendido;

– cumprem-se as promessas de perseguição que Jesus fez no Evangelho de São Marcos (Mc 10, 30).

Em face de tantas interpretações maldosas – e mal feitas -, a supracitada passagem do Evangelho de São Mateus (em epígrafe) nos convida a um questionamento muito pertinente: Quem é o Santo Padre? Como ele deve agir?

As diretrizes da ação do papa – que acabam se tornando suas características – é Jesus mesmo quem descreve, no Evangelho. Espera-se que ele seja Fiel e Prudente. Comentando este Evangelho, São João Crisóstomo vai nos dizer:

“Duas coisas o Senhor exige de semelhante servo, a saber, prudência e fidelidade. Chama em verdade fiel àquele que não se apropria de nada do que pertença a seu Senhor, nem gasta inutilmente as Suas coisas. E chama prudente àquele que conhece o modo com o qual convém administrar o que lhe foi confiado” [Homiliae in Matthaeum, hom. 77,3, in Catena Aurea, tradução livre]

Olhemos estas duas características mais a fundo:

Fiel – fiel às tradições da Igreja, leal a Jesus Cristo e à sua Boa Nova. A fidelidade tem um quê de coerência e, sobretudo, de comprometimento com a Verdade; o Papa não pode se apropriar daquilo que pertence a Deus e usar ao seu arbítrio aquilo que lhe foi confiado para defender e propagar! Também de dentro da Igreja, muitas vezes surgem críticas ao Santo Padre. Muitos grupos “tradicionalistas” já ousaram [e alguns ainda ousam] dizer o Papa filiou-se ao modernismo; que já não faz as coisas “de sempre”. A pretensão de certos “fiéis” chega a tanto que muitos acabam por se esquecer de que Jesus roga pelo Seu Servo a fim de que a Fé dele não desfaleça e, assim, ele possa confirmar a Fé de seus irmãos (Lc 22, 32). A fidelidade do Papa é um dom que Deus concede em atenção à oração de Seu Filho Jesus.

Prudente – o Santo Padre deve ser prudente. Mesmo quando acusado de antiquado, retrógrado ou qualquer adjetivo semelhante, ele deve estar atento às palavras do apóstolo Paulo: “(…) virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas. Tu, porém, sê prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a missão de pregador do Evangelho, consagra-te ao teu ministério” (2Tm 4, 3-5). Ao mesmo tempo, deve ter o discernimento para saber como convém anunciar a Boa Nova, segundo as variedades das pessoas, dos tempos e dos lugares, de acordo com o conselho do mesmo São Paulo (Hb 5, 12-14). Jesus já havia aconselhado: “Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10, 16).

O Papa, portanto, precisa ser ao mesmo tempo Fiel e Prudente. Alguns ditos “católicos” não percebem isto e, dissociando uma dessas características da outra, terminam por exigir que o Papa se comporte segundo a caricatura pontifícia por eles criada. Os modernistas, por exemplo, querem um Papa “somente prudente” que, em nome do politicamente correto, trabalhe incessantemente para evitar as discórdias e adaptar a Igreja às exigências do mundo moderno – mesmo que isso implique em sacrificar a Verdade. Já os rad-trads, no extremo oposto, negam ao Papa o direito de se exprimir da maneira que ele julgar mais conveniente – mesmo que, com isso, dificultem que a Boa Nova chegue ao conhecimento de todos os homens -, considerando que a menor alteração na forma como são ditas as verdades de Fé implica numa traição ao Depósito da Fé. Quando o Papa fala, pois, é duplamente atacado: os modernistas de um lado o chamam de imprudente e os rad-trads, do outro, de infiel. Levantando-se e fazendo frente aos dois erros opostos, todavia, ergue-se o Sumo Pontífice, coluna da Igreja, referencial seguro da Verdade Eterna, o servus servorum Dei. A expressão – que já era cara a São Gregório Magno – indica-nos qual é exatamente a natureza da função do Papa na Igreja de Cristo [“Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servidor (διάκονος); e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos” (Mc 10, 43-44)] e completa-nos a definição de quem é o Papa: est fidelis servus et prudens.

Além disso, o Papa deve ser amado por ter uma vocação única entre todos os homens do mundo. Alguns podem dizer: “ah, Jesus poderia ter escolhido qualquer um”. De fato, a vontade divina é soberana e poderia ter escolhido qualquer um. Mas este, precisamente o que foi escolhido, vai sempre carregar o selo da eleição divina. Quem quer que seja, a partir do momento em que Deus o chama, passa a ser “o escolhido”. A eleição é sinal de amor. Se Deus ama o Papa, por que nós não o amaremos?

Ainda olhando para o trecho bíblico de S. Mateus que encabeça este texto, podemos contemplar a figura do Santo Padre como guardião dos Sagrados Mistérios, administrador e dispensador dos tesouros da Igreja, em especial a Santíssima Eucaristia. A Eucaristia é o alimento com o qual Deus nutre a nossa alma. E o Papa Bento XVI tem exercido o ofício de guardião deste Mistério de modo magistral. Primeiro, escrevendo aquela magnífica exortação apostólica chamada Sacramentum Caritatis, na qual o mistério da Eucaristia é aprofundado (mas não esgotado), em continuidade com a Encíclica Ecclesia de Eucharistia, de autoria do Papa João Paulo II, de felicíssima memória. Depois, através do motu proprio Summorum Pontificum, no qual se estabeleceu que a rica liturgia tridentina deve ser tratada como Forma Extraordinária do Rito Romano, podendo ser celebrada por qualquer sacerdote que o deseje, sem necessidade de indulto por parte do Ordinário local. Além disso, as atitudes mais recentes do Chefe da Igreja Universal têm mostrado o grande apreço que ele tem ao Santo Sacrifício: a comunhão de joelhos que tem feito questão de administrar nas celebrações em Roma, por exemplo, mostram a piedade eucarística de Bento XVI. A Igreja vive da Eucaristia – como esperar, então, que aquele que foi colocado como Cabeça Visível da Igreja (para alimentar a família de Deus no tempo oportuno) pudesse não ser profundamente devoto deste tão sublime Sacramento?

Em suma, o “servo fiel e prudente” é – de maneira especialíssima – o Papa. E ele tem feito o seu papel. Ponhamo-nos nós, leigos, no nosso lugar, e desprezemos os juízos maldosos que muitas vezes são feitos a respeito da pessoa e do ministério do Sucessor de Pedro. Roguemos a Santa Catarina de Sena que nos ensine e nos ajude a amar o “Doce Cristo na Terra”. Que possamos afirmar com os Padres da Igreja: é somente “cum Petrus et sub Petrus” (com Pedro, e sob Pedro) que queremos marchar neste Vale de Lágrimas rumo à Pátria Celeste .

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