Ontem tomei conhecimento dessa música através de uns amigos. Trata-se de um Pai Nosso composto segundo a mentalidade da Teologia da Libertação. A música mistura uma simulação de canto gregoriano com um pouco de música no estilo indígena [com direito a flautas peruanas e tudo!]. Eu achei tosca. Prefiro o Pater Noster… Mas ouçam e tentem rezar o Pai Nosso, se conseguirem…

 

Diversas pessoas já me perguntaram – em vista de alguns dos meus posts aqui no blog – em que consiste, exatamente, a Teologia da Libertação. Em geral, estas pessoas querem saber por que eu a combato [ou pelo menos tento combatê-la] com tanta virulência. É como se dissessem: “Que há de tão danoso na TL?” Para dar uma resposta satisfatória e à altura a estas pessoas, trago aqui apenas trechos de um artigo escrito em 1984 pelo então Cardeal Joseph Ratzinger. O artigo chama-se “Eu vos explico a Teologia da Libertação” e está postado integralmente na página do Veritatis SplendorBom seria que todos lessem a exposição de Ratzinger por completo. Mantive os destaques que a equipe do Veritatis fez ao sublinhar pontos importantes do texto. Boa leitura!

 

[…]

Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental para a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida. Além disso, o erro não se poderia apropriar daquela parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada ali onde é o seu lugar, isto é, na fé da Igreja. Por isso, ao lado da demonstração do erro e do perigo da teologia da libertação, é preciso sempre acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recuperá-la plenamente? 

A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de vista:

a) Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão e de realização do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo, muda todas as formas da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese, as opções morais;

 […]

 Como se chegou a esta orientação completamente nova do pensamento teológico, que se exprime na teologia da libertação? Vejo principalmente três fatores que a tornaram possível:

  1. Após o Concílio [Vaticano II], produziu-se uma situação teológica nova:

a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não era mais aceitável e, por conseguinte, se deviam procurar, a partir da Escritura e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais totalmente novas;

b) A idéia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se freqüentemente em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências humanas como um novo evangelho, sem querer reconhecer os seus limites e problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista da história foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão;

c) A critica da tradição por parte da exegese evangélica moderna, especialmente a de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma instância teológica inamovível que barrou a estrada às formas até então válidas da teologia, encorajando assim também novas construções.

  1. A situação teológica assim transformada coincidiu com uma situação da historia espiritual também ela modificada. Ao final da fase de reconstrução após a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o término do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sensível vazio de significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga não estava em condições de dar alguma resposta. Nesta situação, as diferentes formas do neo-marxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que parecia quase irresistível à juventude universal. O marxismo, com as acentuações religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de rigor científico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos de ação com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio da miséria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da mensagem bíblica.
  2. O desafio moral da pobreza e da opressão não se podia mais ignorar, no momento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até então desconhecida. Este desafio exigia evidentemente novas respostas, que não se podiam encontrar na tradição existente até aquele momento. A situação teológica e filosófica mudada convidava expressamente a buscar a resposta em um cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperança, aparentemente fundados cientificamente, das filosofias marxistas.

b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na América Latina, mas não é, de modo algum, fenômeno exclusivamente latino-americano. Não se pode pensá-la sem a influência determinante de teólogos europeus e também norte-americanos. Além do mais, existe também na Índia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na África – embora nesta última esteja em primeiro plano a busca de uma “teologia africana”. A união dos teólogos do Terceiro Mundo é fortemente caracterizada pela atenção prestada aos temas da teologia da libertação;

c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Um dos mais conhecidos representantes da teologia da libertação, Hugo Assman, era sacerdote católico e ensina hoje como professor em uma Faculdade protestante, mas continua a se apresentar com o pretensão de estar acima das fronteiras confessionais. A teologia da libertação procura criar, já desde as suas premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separações clássicas da Igreja devem perder a sua importância.

 

             Na semana passada eu tive a felicidade de assistir ao programa Escola da Fé, na TV Canção Nova, no qual o professor Felipe Aquino convidou o Padre Paulo Ricardo a discorrer um pouco sobre a Teologia da Libertação. É desnecessário dizer que os comentário do Pe. Paulo, bem como do Prof. Felipe, foram brilhantes, extremamente elucidativos. Mas o que, de verdade, me chamou a atenção foi quando o sacerdote – com voz firme – reivindicou o direito de concordar com o Papa; o direito de assinar abaixo de todas e cada uma das palavras do Sumo pontífice.  De fato, parece que, sistematicamente, o direito de dar o assentimento da fé vem sendo “abafado”, verdadeiramente “sufocado” em alguns casos.

             Por vezes esta perseguição vem de “fora da Igreja”.  Esta não é de causar preocupação. Afinal, é natural que os filhos das trevas odeiem a luz. Mas é triste perceber que, em alguns casos, a perseguição vem de dentro da Igreja… Católicos que ouvem e seguem os passos do Pastor Supremo da Igreja são taxados de radicais, conservadores [como se conservar o que é bom fosse algo ruim], ultrapassados, etc. Se eu tivesse a oportunidade de conversar pessoalmente com um destes bispos, padres ou agentes de pastoral [Argh! detesto usar esse termo. Jargão inócuo] que desejam tolher o direito dos fiéis de anuir ao que diz e pede o Bispo de Roma, diria a ele(s) – em nome de todos nós, “católicos alienados”, o seguinte:

             Concordamos com o Santo Padre porque o ensino que vem de Roma não é “mais uma visão teológica”, como alguns podem – erroneamente – pensar. O Catecismo não é um “conjunto de teologias” às quais podemos nos afeiçoar ou não.

             Concordamos com o Santo Padre não por falta de opinião própria, mas porque temos uma opinião comum. Não queremos reinventar a Fé porque ela – tal como o papa a apresenta – sacia plenamente o nosso anseio pela Verdade, responde satisfatoriamente as nossas perguntas, e nos ensina magnificamente a viver e a morrer.

             Concordamos com o Santo Padre porque confiamos na assistência que o Espírito Santo lhe dá para ensinar com segurança as Verdades da Fé. Sabemos que Deus “não pode se enganar nem nos enganar”.

             Concordamos com o Santo Padre porque – em meio aos tantos ventos de doutrina que sopram neste mundo confuso e obscuro – ele nos aponta que a Verdade está na Unidade da Igreja. A multiplicidade de “interpretações” não constitui garantia de autenticidade [ou melhor: atesta a falsidade]. A proclamação solene e universal da verdade feita pelo Sucessor de Pedro, esta sim, nos orienta com segurança rumo à Pátria Celeste.

             Não queremos crer na Teologia da Libertação [como a apregoam Boff e comparsas], mas na Teologia da Redenção – ensinada continuamente pelo Príncipe dos Apóstolos. Temos consciência de que este “vale de lágrimas” – como rezamos na Salve Rainhanunca se transformará numa “terra sem males” se não tivermos os olhos fitos no Céu.

            “Queremos ver Jesus”, sim. Mas não apenas no irmão “pobre e sofredor”. Queremos ver Jesus face a face! E para alcançar isto é preciso preparar-se para o Alto. Atingir a justiça econômica não nos fará escapar da Justiça Divina.

             Concordamos com o Santo Padre porque queremos ser obedientes a ele. E a nossa obediência se traduz em ato justamente no momento em que damos adesão às suas palavras. Prefirimos uma obediência surreal a uma desobediência real. Não vivemos “de aparência”.

             Concordamos com o Santo Padre, porque cremos na sabedoria dos Padres da Igreja que – desde os primórdios – consagrou a expressão “Roma locuta, causa finita” [“Roma falou, questão encerrada”].

              Por fim, deixem-nos cometer a suprema ousadia de fazer nossas as palavras do Papa.

            1 – No Fratres in Unum encontra-se uma carta absurda escrita por um padre da Diocese de Limeira em defesa da  Missa de Paulo VI e contrária ao Rito de São Pio V. O reverendíssimo sacerdote a chega a dizer a seguinte bobagem: “O excesso de ritualismos, que acabava tirando a atenção da essência (que dá o ser a uma realidade) deveria dar lugar a uma liturgia mais envolvente, participativa e ligada à vida do povo”. Como não bastasse esse comentário infeliz do Padre Marcos Radaéllii, a Coordenação das CEB’s (sim, infelizmente elas ainda da existem!) da Diocese de Limeira complementou, e piorou, a asneira do padre. Em Nota Oficial de apoio a D. Vilson Dias, bispo daquela diocese, a organização TL diz (grifos e comentários entre parêntesis meus):

                   (…) As CEB’s, fiel aos ensinamentos do Cristo (piada, né?) e assumindo sua missão profética contemporânea quer colaborar nesta reflexão. Embora respeitemos o direito de expressão e organização dos aludidos cidadãos e cidadãs, estamos convencidos que a Santa Missa deve continuar sendo celebrada no idioma de cada comunidade. E mais: ao contrário do que defendem os referidos cidadãos, a catequese de nossa santa igreja evoluiu consideravelmente ao incluir elementos culturais dos nossos irmãos indígenas e afro-descendentes (afirmação gratuita de quem não tem a mínima noção da realidade em que a Igreja vive).

                   Embora a Missa celebrada em latim resgate a tradição tridentina, objetivo maior dos seus defensores, certamente seu ritual distanciará nossos irmãos da compreensão do amor salvífico do Pai e de nosso compromisso com seu reino (afirmação blasfema e herética! Quanta petulância!). É na Santa Missa que nos encontramos para, ao redor do altar, celebrarmos o amor de Deus por nós. No ritual, oferecemos a Deus o fruto do trabalho humano, para em seguida, consagrado no corpo de cristo, partilharmos o pão/corpo de cristo. Esta aí a catequese máxima: Se partilharmos anteciparemos o Reino de Deus (que visão medíocre do Evangelho… é lamentável!). É necessário que esta mensagem seja assimilada pelos nossos irmãos, caso aspiremos de fato o Reino de Deus entre nós. Agora, para que possamos compreender a mensagem é necessário que ela nos seja clara, perfeitamente audível e compreensível para o nosso irmão mais simples que não pode sequer freqüentar uma escola, que dirá conhecer outro idioma.

               Cabe ao profeta a missão de evangelizar. Para evangelizar é necessária uma comunicação eficiente, a exemplo de Paulo, o arauto do Evangelho. Agora, somente haverá comunicação eficiente quando nos despirmos de uma pseudo-erudição extemporânea, para falar a língua que todos possamos compreender. (tsc, tsc, tsc) (…)

 

            2 – No site da Montfort uma curiosa entrevista com o padre Héry que, segundo a própria Montfort é “uma das figuras das mais significativas do Instituto do Bom Pastor, do qual ele  é um dos fundadores, protagonista dos acordos com a Santa-Sé e da convenção entre o IBP e o Cardeal Ricard em Bordeaux”

Da entrevista destaco o seguinte trecho:

 

D.T. –Como uma tal «crítica construtiva » do Concílio será possível, já que o Vaticano II é um ato do magistério autêntico, na prática intocável?  

 

Abbé Hery – Certamente, o Concílio é um ato do magistério autêntico. Mas ele não é intocável, visto que a «autêntica recepção» do Concílio, conforme o Santo Padre, ainda não aconteceu, ou não é ainda satisfatória; portanto, ele é retocável, por via do processo de interpretação. Há um espaço de liberdade deixado à controvérsia teológica sobre o texto do magistério conciliar, mantendo salva a Tradição dogmática e apostólica…

 

D.T. –Isso não é colocar a Tradição acima do magistério? 

 

Abbé Hery — A Tradição não está nem acima, nem abaixo do Magistério. Nesse mesmo discurso de 25/12/2005, nosso Papa fustigou «a hermenêutica da descontinuidade», que opõe o magistério conciliar à  Tradição. Com efeito, o magistério autêntico não utiliza jamais a Tradição a seu capricho e não está acima dela: quando ele estatue de modo infalível, ele é o que chamo a Tradição «em ato». Quando ele não estatue de modo infalível, como a maior parte do Vaticano II faz, o magistério (ainda que autêntico) deve ser interpretado e recebido, sem ruptura com a Tradição, portanto à  luz dela.

 

D.T.– O senhor pode precisar em que a recepção de um Concílio permite fazer dele uma crítica construtiva?

 

Abbé Hery — O problema posto pelo Vaticano II é que ele não se parece em nada com os Concílios precedentes. Estes apresentavam ensinamentos, definições do dogma, condenações de erros opostos, que obrigavam a fé. Ao contrário, renunciando por princípio pastoral à toda pretensão dogmática (exceto a repetição de alguns pontos anteriormente definidos pelo magistério solene), o Vaticano II não se impõe à Igreja como objeto de obediência absoluta para a fé (cfr. Cânon 749), mas como objeto de «recepção».

Ora, a recepção induz a um processo de interpretação. Para um tal corpus de textos, a recepção exige trabalho, e sobretudo tempo. O Cardeal Jean-Pierre Ricard, em Lourdes, em 4 de Novembro de 2006, notou: «O Concílio está ainda para ser recebido» (isto é, para ser reinterpretado). E ele indicou a direção a seguir: aplicar-se à «uma releitura calma de nossa recepção do Concílio» e não «uma leitura ideológica», notadamente para «verificar os pontos que merecem ainda ser levados em conta.» O que significa uma vasta operação de colocar em questão (no sentido escolástico) de esclarecimento (no sentido de triagem) entre o que precisa ser salvo e o que não deve ser salvo; e, mais ainda, uma interpretação correta do que pode ou deve ser guardado.

 

 

            3 – Ainda sobre Anjos e Demônios, o Márcio Campos escreveu alguns comentários. No Tubo de Ensaio ele escreveu:

 

            “(…) Meu maior problema com livros e filmes do tipo Anjos e Demônios é que, ao misturar ficção e realidade, a tendência é que tudo seja absorvido pelo público como realidade. Não é como os livros do Jô Soares, que são comédias usando personagens históricos. Dan Brown se pretende sério; coloca “listas de fatos” no começo de seus livros. A pessoa vai ao cinema ver Anjos e Demônios e sai realmente achando que Galileu e Bernini eram Illuminati, que Copérnico morreu assassinado, que a Igreja atrapalha a ciência, que Pio IX era um maníaco que atravessava o Vaticano de martelo na mão, que a Igreja “marcou” quatro Illuminati (Langdon reprova o chefe da Guarda Suíça, perguntando se os católicos não lêem sua própria história. Bom, nós lemos; é que La purga não é história, é invenção de Dan Brown), que os cientistas querem refazer o momento da criação, que Galileu escreveu o tal Diagramma e por aí vai. Isso é um desserviço considerável à verdade histórica, e também à ciência”.

 

            No Blog do Veritatis, o mesmo Márcio Campos complementou:

 

            “Fora essa tentativa absurda de jogar lama na reputação da Igreja, o filme ainda tem um punhado de erros. Pelamordedeus, tivemos um conclave real em 2005! Nunca se escreveu tanto, nunca se explicou tanto na imprensa como funciona a eleição de um Papa. E conseguem fazer um zilhão de coisas erradas. Tudo bem que o livro foi escrito em 2000, mas ainda assim temos uma série de aberrações. Tem cardeal citando a Romano Pontifice Eligendo, de Paulo VI, que foi abolida em 1996 pela Universi Dominici Gregis, de João Paulo II; tem cardeal propondo eleição por aclamação, quando ela foi abolida por João Paulo II no mesmo documento; o filme coloca muito mais de 120 cardeais na Capela Sistina; inventa um cargo de “cardeal grande eleitor”, inelegível, que não existe. Será que Dan Brown não sabia que o camerlengo é necessariamente um cardeal? Que não existe restrição à eleição de não-cardeais ao papado? O pior é que dá para perceber que foi, sim, feita pesquisa. Há detalhes como as cédulas sendo costuradas depois da votação, o “extra omnes”, coisa que só quem estudou o assunto conhece. E ainda assim cometem essas barbaridades.

            Mas isso é o de menos comparado à difamação da Igreja, retratada como cruel adversária da ciência, quando na verdade ela foi uma grande incentivadora da pesquisa científica. De fato, só por isso não valeria a pena gastar dinheiro com o filme. Se um ingresso cair do céu, ou se um dia passar na televisão, até seria uma oportunidade para evangelizar alguém, explicar o que está errado. Mas financiar a calúnia, aí não sei não…”

            Hoje li esta notícia comentada no Deus lo vult!  Trata-se do fato de que a missa do primeiro dia de maio, na Catedral de São Paulo, será celebrada apenas para os empregados: a participação do empresariado na celebração foi vetada por resistência da Pastoral Operária. Pastoral Operária, é como a Pastoral da Terra, cheira a TL…

            A notícia, em si, já foi muito bem comentada por Jorge Ferraz. Quero apenas me deter nos aspectos de fundo dela, nas entrelinhas do que foi publicado. Primeiro, permitam-me os profissionais e estudantes de direito, dizer algo que me atravessa a garganta há muito tempo e que, apesar disso, eu nunca tive a coragem de dizer nem de escrever: a visão de o empregador como o “demônio” (que, portanto, não deve ter acesso à missa) é de origem marxista, e se reflete sobremaneira no Direito do Trabalho (ramo do direito que, aliás, existe em pouquíssimos países). Especialmente no Direito brasileiro, a lógica embutida é a seguinte:

 

1 – Todo empregador é intrinsecamente mau; cresceu oprimindo os mais fracos;

2 – Todo empregado é vítima de sua dependência econômica do emprego; e é “tapado” a ponto de não poder reagir às barbáries a que o patrão lhe submete.

           

            As duas afirmações, obviamente, são falsas. Há bons e maus empregadores, como também há bons e maus empregados. Por que então essa necessidade de segregar? É simples:  a dicotomia – qualquer que seja ela: ricos-pobres, bons-maus, oprimidos-opressores – não só faz parte da doutrina marxista, como é condição sine qua non para a existência da mesma.

            A Teologia da Libertação – distorcendo o termo evangélico “pobres” – pretende “evangelizar” apenas os miseráveis. A doutrina TL é mais ou menos assim: quem tem muito dinheiro certamente o obteve ilicitamente (oprimindo os pobres); e quem não tem dinheiro, é porque não teve oportunidade de crescer na vida (já que foi a vida inteira oprimido pelos ricos, pelos marajás, burgueses, etc,). Esse raciocínio, contudo, faz parte de um ciclo mortífero. Explico: digamos que ao miserável sejam dadas as oportunidades para crescer profissionalmente e ganhar dinheiro. Tão logo consiga uns trocados a mais, a TL não mais o “evangelizará” sob alegação de que ele passou para o lado dos opressores, dos que têm grana. Para se manter em vigor, para que os seus corolários continuem sendo verdadeiros, o marxismo (que norteia as bases da TL) precisa que existam classes totalmente díspares e imiscíveis: como haverá luta de classes se não houver, no mínimo, duas delas em oposição? A TL, para subsistir, precisa de um sistema de castas: quem é pobre deve morrer pobre; e quem é rico que morra rico (e, depois, vá para o inferno!).

            Essa distorção lógica (repito: advinda do marxismo) acaba se infiltrando na Igreja por meio de uma gente sem noção que quer fazer da Igreja de Cristo palco para apresentação de doutrinas diversas, em substituição à Sã Doutrina da Salvação. O mais danoso é que esse discurso, que se reveste de “compaixão pelos pobres” engana a muita gente. Ele é sofismático: faz crer que é verdadeiro, motivado por “boas intenções”, mas – em essência – é completamente equivocado.

            E quando essa “lógica” toma a forma de protesto contra a hierarquia da Igreja? Aí é a desgraça completa! A Santa Sé é vista como uma espécie de palanque onde os poderosos ostentam sua potestade. A púrpura cardinalícia é vista não como sinal de dignidade, mas como sinal de poder; O Papa é visto apenas como Chefe da Igreja, e não como Servo dos servos de Deus. Roma é tida como uma sede administrativa. E só. Esquecem-se de que foi em Roma que morreram Pedro e Paulo, colunas da Igreja; foi em Roma que milhares de cristãos, no início do cristianismo, derramaram seu sangue em honra de Nosso Senhor e por amor à Santa Igreja; esquecem-se de que Roma foi a cidade que, após tanto perseguir a Igreja, teve que se curvar ao poder da mão de Deus: Roma é, para a Igreja, quase um despojo de guerra! Portanto, ter sua sede em Roma é providencial! Se a Igreja é católica (=universal), podemos dizer que o epicentro desta universalidade é Roma. Então porque querer criar duas Igrejas (a “de Roma” e a “do Povo”)? Não deixou Nosso Senhor tão somente uma Igreja? Não é única a Esposa de Cristo?

            A noção de “povo” também é por mais distorcida. Quando falam em povo, os teologistas da libertinagem querem se referir a um “conglomerado de pessoas (pobres)”. “Povo”, entretanto, é uma terminologia que está associada à idéia de “nação”: o povo é uma nação que está subordinada a um poder estatal. E que, em paralelo a isso, conserva os mesmos costumes, a mesma língua, a mesma religião, as mesmas tradições, etc. Como conciliar isso com o fato de que a diversidade é um princípio fundamental da TL? Definitivamente, eles não sabem o que dizem!

            Ainda bem que a Igreja é sábia, é mãe,e  obedece ao mandato de Cristo, que disse: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28,19).

          

            Li agora há pouco uma matéria a respeito do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que ocorreu em no mês passado. Decidi comentar apenas as partes mais esdrúxulas da reportagem. Ei-la na íntegra (com as minhas inferências)

 

            Na apresentação da mesa-redonda “Direitos Humanos e Teologia” na tarde do dia 23 de janeiro durante o III Fórum Mundial de Teologia e Libertação que está sendo realizado na cidade de Belém, capital do estado do Pará, refletiu-se sobre a possibilidade de construirmos novas teologias que viessem superar o profundo racionalismo cartesiano que se estabelece na mentalidade de muitos teólogos e teólogas, mesmo nesta nossa tão querida América Latina. Tratou-se da necessidade evangélica de um novo contexto de promoção dos sonhos e utopias, bem como do enfrentamento aos novos instrumentos de barbárie que estão se solidificando na sociedade.

            Sob a coordenação de Felício Pontes, Procurador da República no Estado do Pará, iniciou-se um momento forte e rico de experiências, de fé e de testemunho daqueles que estão no fazer – teológico da práxis, do cotidiano e que sentem a realidade dos povos em suas mais diferentes atuações, sejam elas pastorais, educacionais, políticas ou culturais. O Procurador Felício Pontes é um jovem animado pelas experiências que conduziram sua caminhada dentro dos movimentos sociais o que o torna sensível ao clamor dos pobres e daqueles que se encontram em situações que podemos chamar de “desumanas”.

 

            Após a saudação introdutória do Procurador da República Felício Pontes, deu-se início alguns testemunhos de teólogos e agentes de pastorais, entre os quais: um teólogo mexicano, um teólogo boliviano, um teólogo quilombola do Brasil, um teólogo coreano, um teólogo brasileiro da Igreja Batista, um padre brasileiro ameaçado de morte em Santarém – PA e um pastor evangélico de Cuba que terminou os testemunhos com uma oração de louvor e ação de graças à Revolução Cubana e destacou: “Dez presidentes yanques – norte-americanos – passaram e a Revolução continua!” E, houve um imenso aplauso para as palavras desse franzino pastor cubano chamado Raúl. Contudo, um testemunho chamou-me a atenção pelo motivo de que os problemas apresentados estão sendo vivenciados em terras brasileiras, a saber: O testemunho de Dom José Luis Azcona, bispo do Marajó, religioso agostiniano que vive como missionário no Brasil há muitos anos e que em nossos dias sofre conseqüentes ameaças de morte.

 

            Comentário: Dos males o menor: pelo menos quem elevou a Deus a prece em ação de graças pela revolução cubana foi um pastor e não um padre. Pergunto: que revolução continua? Cuba está arruinada! Muito sugestivo que o nome deste pastor seja Raúl… Qual será o sobrenome? Castro?

 

            A situação no estado do Pará em relação à violação dos direitos humanos foi denunciada pelo bispo do Marajó, Dom José Luis Azcona, em especial, violação dos direitos das mulheres, crianças, adolescentes, camponeses e indígenas. A crítica foi realizada ao poder público que se encontra em estado amorfo, sem nenhuma ação concreta de combate aos mais variados tipos de exploração humana. O poder judiciário se encontra complacente com a situação e problemática de exploração sexual onde crianças, adolescentes e jovens são “coisificados” pela cobiça do prazer e do capital por um grande esquema de exploração sexual que envolve desde políticos até membros da elite dominante do estado do Pará.

 

            Mulheres são enviadas para prostituição em outros países, concretamente, na Guiana Francesa o que caracteriza uma violação dos direitos humanos já que se constataram casos concretos de tráfico humano. O tráfico humano de mulheres coincide com a exploração sexual constante de crianças e adolescente em todo Estado, em especial, na ilha do Marajó, território onde se localiza a Prelazia.

           

            Além do bispo do Marajó, Dom José Luis Azcona, outros dois bispos do Pará estão ameaçados de morte. Dom Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba e Dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu onde se encontra a cidade de Anapu na qual Irmã Dorothy Stang foi brutalmente assassinada por defender os povos indígenas, os trabalhadores rurais e a floresta.  Na defesa dos povos indígenas realizada pelo bispo do Xingu se percebe o compromisso com o Evangelho e com os direitos dos índios e da floresta. Na defesa da garota menor que se encontrava trancada numa prisão com vários homens, o bispo de Abaetetuba sofre conseqüentes ameaças de morte. Trata-se de uma situação concreta de anúncio profético da Igreja na Amazônia e de denúncia das injustiças sociais contra os mais oprimidos da sociedade. As ameaças realizadas são porque os referidos bispos fizeram o compromisso com uma causa que afeta os interesses de uma elite dominante, a mesma que pratica crimes ambientais e ecológicos contra a floresta e, principalmente, contra os povos da Amazônia. Além dos três bispos, segundo Dom Azcona, mais de 200 pessoas se encontram ameaçadas pelo capital hegemônico incorporado por meio de empresas, latifundiários, transnacionais, madeireiros, traficantes de pessoas e de drogas, entre outros.

 

            Em plena realização do III Fórum Social Mundial na cidade de Belém, na mesa-redonda sobre “Direitos Humanos e Teologia”, Dom José Luis Azcona apresentou algumas questões que nos faz pensar o que-fazer teológico de todos os participantes deste Fórum. Evidentemente, suas palavras estavam cheias de “paixão” pela causa do Reino e pela causa dos pobres. Como disse claramente o bispo do Marajó: “Teologia da Libertação não se faz em gabinetes, mas em ações concretas”.

            Também nos apresentou algumas características concretas do estado do Pará e dos pobres que se encontram em situação de “cooptação” por parte de programas paliativos e compensatórios do Governo brasileiro, entre eles, Bolsa-Família. Estão cooptados porque estão despolitizados completamente, sem nenhuma noção de seus direitos e totalmente silenciados para almejar um processo de luta contra o sistema que os escraviza.

 

            Comentário: Enfim, um comentário sensato: disse o que tinha de dizer do Bolsa-Família. Eu teria sido um pouco mais radical: teria dito que esse programa não passa de uma esmola que tem formado a muitos na escola da vadiagem!

 

            Dom Azcona, crítica a situação de descaso do Estado em suas relações econômicas que forçam as pessoas a permanecerem num estado de escravidão. Por causa do Evangelho e dessa esperança de um mundo melhor é que, segundo Dom Azcona, se ousa lutar contra a lógica perversa de um sistema que cria e recria constantemente a “cultura de morte”.  Tais ameaças estão pautadas a partir de três principais questões, a saber: Denuncia de prostituição infantil, trabalho escravo e camponeses; tráfico humano para Guiana; Cultura da morte: falta de dignidade humana; Contexto de desumanidade: falta de direitos humanos mínimos.

 

            Segundo Dom Azcona, perguntaram-lhe os jornalistas recentemente: “O Sr. não tem medo de morrer?” Trata-se de uma pergunta chave. Pela causa do Evangelho e da dignidade humana, dos direitos elementares do ser humano e em defesa da Amazônia e de suas populações que vivem ainda no atraso social e totalmente despolitizado deixando o banquete nas mãos de pequenos estamentos patrimonialistas que se formam nas cidades inseridas nas matas do Marajó (…) Por causa disso, está preparado para seguir o testemunho de Jesus e defender com a vida suas convicções. O bispo, com uma voz profunda de profeta, diz sentir uma profunda alegria nestes momentos de tormenta em sua vida. E pede a todas as comunidades: “(…) rezem para que não seja covarde, para que siga na defesa dessas crianças, das mulheres e dos injustiçados”.

 

            Comentário: “Voz profunda de profeta”. Pensei que apelar para o sentimentalismo fosse exclusividade de certos carismáticos… Mas, ao que me parece, à TL se rendeu a uma pouco de emotividade… É como se isso ajudasse a criar uma aura de mártir. Argh!!!

 

            Dom Azcona, lançou um desafio ao III Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Que se fizesse um Manifesto a partir do Fórum Mundial para que desse visibilidade internacional aos problemas apresentados e que servisse para sensibilizar os poderes instituídos na sociedade brasileira: executivo, legislação e judiciário. E afirmou com toda

veemência: “Podemos fazer uma teologia combativa que não seja teologia de gabinete”. O Manifesto possibilitaria mostrar ao mundo inteiro a falta de direitos humanos no Brasil e no estado do Pará, pois até o momento ninguém foi investigado. Por fim, Dom Azcona não hesitou em afirmar: “Não tem libertação, não tem teologia, se não vai à história”.

 

            Comentário: Manifesto Comunista, o retorno!    Teologia combativa para mim é um claro incentivo à luta de classes. É a maneira mais explícita de dizer: “somos discípulos de Marx”.  Fique claro uma coisa: protestar contra uma injustiça – qualquer que seja ela – é digno, justo e bom. O que não creio ser correto é usar a teologia para isso. Querer “desenvolver” (isto é: inventar) uma teologia que sirva às nossas pretensões é desonestidade. É como iniciar uma pesquisa científica com uma conclusão pré-fabricada; é ir a campo querendo apenas coletar dados que corroborem o resultado que se quer obter. Além disso, que raios é teologia de gabinete?  Porque se for concordata política não tem nada a ver com teologia. “Não tem libertação, não tem teologia, se não vai à história”. D. Azcona, não se tem libertação se não se chega ao céu!

 

 

            Que Teologia da Libertação temos e queremos? Que Teologia da Libertação se espera? As palavras de Dom José Luis Azcona nos colocam questões fundamentais para que possamos refletir sobre o sentido epistemológico, mas também, profético da teologia hoje. Penso que a teologia se faz a partir da práxis das comunidades, dos movimentos sociais e pastorais das igrejas e do testemunho profético, emergencialmente necessário para construirmos outro mundo possível e uma teologia encarnada na realidade de tantos clamores de sujeitos que não possuem voz e vez na sociedade idolátrica onde até mesmo seres humanos estão sendo consumidos como “coisas descartáveis” com a omissão dos poderes públicos.

 

            Comentário:     Este é um acréscimo do autor da reportagem, Claudemiro Godoy do Nascimento, que é professor da Universidade Federal do Tocantins. Se eu tivesse que responder às perguntas deste senhor, eu diria:

 

            – Que teologia da Libertação temos?

            – Uma teologia comunista e antropocêntrica (que incoerência).

 

            – Que teologia da libertação (…) queremos?

            – Uma que se identifique a Teologia da Redenção. Essa sim é a verdadeira libertação do homem: desvencilhar-se das garras do pecado correspondendo à graça de Deus que o chama à santidade.