setembro 2008


 

É muito freqüente ouvirmos as pessoas falarem em respeito. Seja à mulher, ao negro, à criança ou ao idoso, essa palavra está na ordem do dia. Inúmeros seminários, debates, palestras, entrevistas e artigos (inclusive este que você está lendo) tratam da questão. Também está na ordem do dia o tema “discriminação” que, de certo modo, envolve o respeito. Porém, é preciso rever as premissas das quais estamos partindo para compreender e discutir o respeito, e também o desrespeito.

Antes de mais nada, é preciso entender que estamos lidando com uma via de mão dupla: todos temos o direito de ser respeitados, e o dever de respeitar. Contudo, o que significa respeitar? Será que é tratar com extremo cuidado, como quem pisa em ovos com medo de quebrá-los? Será que é poupar as críticas com receio de que sejam levadas para o lado pessoal?  Será que é suavizar a cor negra, enbranquecendo-a para nos agradar? Chamar negro de “moreno” é respeito ou discriminação? E respeito se reduz a não discriminar?

Uma observação: o chamado “decoro parlamentar”, que deveria instituir o respeito nas relações entre os representantes políticos da Nação, não passa de uma piada. Uma farsa. Um arrumadinho em que “eu não digo o que devo, para não ouvir o que não quero”. Um mecanismo de proteção à corrupção. Isso não é respeito (decoro). É um faz-de-conta. Uma indecência decorrente da amoralidade que reina em nossas instituições.

O respeito implica a não-agressão (verbal e física), a não-humilhação, a não-exclusão. Respeito é sinal de amizade. Mas amizade sincera: aquela que não aplaude o erro, mas, pelo contrário, o corrige para o bem do outro. O respeito pode ser entendido:

 

·                          Em latu sensu, como é o caso do respeito à natureza, o qual se traduz na preservação do que é bom (porque criado por Deus) e útil dentro da ordem natural;

·                          Ou em strictu sensu, como é o caso do respeito aos pais, o qual implica – especificamente – na obediência que os filhos lhes devem; e do respeito que deve existir entre namorados, o qual está orientado para as vias da castidade, necessária à construção de um relacionamento sadio e duradouro.

 

Respeitar não significa legitimar o que, por natureza, é falso. Portanto há um erro quando se diz: “as pessoas fazem suas opções sexuais, portanto, devemos respeitar o homossexualismo”. Não! É verdade que o homossexual deve ser respeitado. Não por ser homossexual, mas por ser humano. Porém, não podemos deixar de mostrar a ele o que é certo, segundo Deus, com a desculpa de que ele é livre e faz o que quer. Liberdade é fazer o bem, não fazer o que se quer. Isso é libertinagem. Se nós não lhe esclarecermos, pecamos por omissão. E isso é gravíssimo, pois São Paulo diz que os efeminados não herdarão o reino de Deus (ICor 6, 9-10). Pode ser que um homossexual vá para o inferno por causa da nossa apatia, covardia e falso moralismo! 

Há quem diga: “Sou idoso, logo, mereço respeito”. Ledo engano. O idoso – assim como a criança, a mulher e o negro – merece respeito porque é um ser humano, criatura de Deus, feita à imagem e semelhança do Senhor. Estou querendo dizer que devemos respeitar as pessoas pelo simples fato de elas serem pessoas e não por qualquer outro motivo, ainda que pareça nobre ou justo.O respeito prescinde de qualquer fator pessoal.

 Um desses fatores pessoais – e, talvez o mais problemático – é o credo religioso que cada um professa. Essa distorção quanto à noção de respeito assume proporções INACEITÁVEIS quando se está falando de opção religiosa: “cada um crê de um jeito”, “devemos respeitar a religião de cada um”. Errado! O religioso deve ser respeitado – reafirmo -, não por ter essa ou aquela crença, mas por ser humano. Além disso, o respeito que se deve ao religioso não se estende à religião dele (assim como o respeito ao homossexual não se estende ao homossexualismo; e o respeito à mulher, não se estende ao feminismo). Perguntar-me-ão: e é possível discordar de algo sem ofender alguém? Devolvo a pergunta: acaso os pais deixariam de repreender (ou mesmo de castigar) seus filhos, com receio de ofendê-los? O agricultor pouparia a erva daninha, que destrói toda a sua plantação, em “respeito” à natureza? E o pastor deixaria de ferir o lobo, que ameaça suas ovelhas, para não machucá-lo? A Verdade precisa ser dita – com convicção, coerência e mansidão – doa a quem doer. Só se sentirão desrespeitados pela verdade os mentirosos, os quais são por ela desmascarados.

E por que o respeito deve fazer parte da nossa conduta ética e moral? Porque Deus nos respeita: “Eis que estou à porta e bato: quem ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo”(Ap 3, 20). Deus não invade a privacidade de ninguém. O Senhor também não discrimina ninguém, pois “não faz distinção de pessoas” (Rm 2,11). Deus não agride nem violenta as decisões de ninguém. Permite que o homem escolha seu próprio caminho (ainda que o homem não escolha O Caminho), mas nunca deixa de denunciar as práticas abomináveis dos homens (Dt 18, 9-13). Deus ama o pecador, todavia não aprova o pecado dele. Antes quer tirá-lo do caminho errado e da vida morta a que este o conduz.

Talvez não sejamos mais profetas, neste mundo dilacerado pela hipocrisia, porque não temos bem certeza daquilo em que dizemos crer. Perdemos o senso do que é a Verdade e a substituímos por um relativismo maldito que tudo legitima em nome do “jeito de cada entender as coisas”. Não vou deixar de criticar a reencarnação por medo de ofender os espíritas. Se eles crêem, paciência. Eu não acredito e dou testemunho público disso. Não vou aprovar a doutrina antimariológica dos protestantes em “respeito” a opinião deles. O Príncipe dos Apóstolos recomenda: “Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito” (IPd 3,15). Não vou deixar de defender – por amor e com amor – a fé da Igreja, a única fé (Ef 4,5), por medo de “desrespeitar” quem quer que seja.

O Mal está gritando e gargalhando enquanto nós, por conta de uma compreensão errada, estamos fazendo um minuto de silêncio em “respeito” aos mortos pelos pecado. Que absurdo!

 

Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.

 

 

  

“Sabemos que Deus nos ama e cremos no seu amor”

 

 

 

A liturgia nos reserva essa profunda meditação acerca do amor de Deus por nós. Para entendê-la é preciso separar as duas partes que a compõem.

 

 “Sabemos que Deus nos ama…”.

 

O conhecimento do amor de Deus é peça fundamental no processo de conversão de qualquer ser humano. A razão nos diz que Deus nos ama. Os gregos não conseguiam conciliar essa visão e amor com a de sofrimento. Pensavam eles: Se Deus nos ama, por que não nos livra do sofrimento?

Hipótese 1: Deus não quer nos livrar. Se essa hipótese fosse verdadeira, então Deus não nos ama. Ora que tipo de Pai observaria passivamente o sofrimento de um filho? Se Deus nos amasse não assistiria ao nosso sofrimento mas, pelo contrário, nos assistiria e cooperaria para a nossa salvação.

Hipótese 2: Deus não pode nos livrar do sofrimento. Se essa hipótese fosse verdadeira, então Deus não teria o atributo da Onipotência, logo, não seria Deus.

 

Por que a aversão ao sofrer?

 

Santos como Santa Terezinha do Menino Jesus diziam: Um dia sem sacrifício nada vale. Outro santo dizia: “Quem me dera descrever o tesouro tão divino que o Grande Deus, Uno e Trino, colocou no padecer”. E mais adiante: “Quão feliz o coração que na cruz abandonado se consome em Santo Amor entre os amplexos do amado”. Há uma riqueza imensa oculta no sofrer.

Por não querer sofrer é que mulheres abortam crianças. Para elas, o filho seria um peso, um sofrimento para o resto da vida [e não mais uma bênção divina]. Para elas, os atos de amor que uma mãe.

Por não querer sofrer é que os filhos [os que conseguiram escapar ao aborto], põem os pais em asilos e não raro propõem a morte de seus pais com a desculpa de que não querem vê-los sofrer. Alguns até invocam à própria morte (a maldita eutanásia!).

É difícil discutir essa questão do aborto e da eutanásia porque as pessoas imaginam que isso é um “direito adquirido”: “Tenho o direito de matar um filho não planejado”. “Tenho o direito de matar a mim mesmo ou aos meus pais se julgar que a vida não vale mais a pena”. Pergunto: quem nos legou o direito de matar? A vida está sendo ameaçada e podada em suas extremidades: no início pelo aborto, e no fim pela eutanásia. Defender a eutanásia é fazer apologia ao suicídio. Primeiro elas acham esse tipo de decisão sensata, lógica. Depois elas passaram a achar justo, nobre. E por último elas acham bom isso. E aí é o fim. É a completa inversão de valores: o que é essencialmente mau se traveste de bondade, de justiça de sensatez, de nobreza.

O problema é que sofrer é difícil. Que o diga o Cristo Crucificado! Num mundo em que tudo é fácil porque optar pelo difícil? Qual a vantagem que há em sofrer, em sacrificar-se e, pior, permitir ser sacrificado?

 

Em outra oportunidade já escrevi a respeito do pouco valor que nós damos ao céu. A grande vantagem que há em sofrer é o Céu. O preço é ato, mas já foi pago! São Paulo diz que os sofrimentos da vida presente não têm comparação com a Glória Futura. O Apóstolo dos gentios enxerga longe…Ou será que nós é que não enxergamos? Pior: será que nós não queremos enxergar?

Será que não lemos a história de Lázaro? Que após ter recebido em vida os males foi gozar da Eterna Alegria no reino dos Céus?

E que dizer frente à injustiça e à impunidade reinantes nesta Terra de Santa Cruz? E quanto à violência, à fome e aos tantos outros males que os homens causam aos homens? Por que Deus não os impede? Por que assiste passivamente ao espetáculo da dor?

Que dizer dos desastres naturais (enxurradas, tornados, terremotos e afins)? Deus – que controla a natureza – seria o culpado?

 

“E cremos no seu amor”

 

Essa é uma parte fundamental. Saber é diferente de crer. Posso, com a razão, entender que Deus me ama. Mas, apesar disso, posso não dar minha adesão a esse amor (ou seja, ter fé nele; orientar meus atos segundo essa crença). Deus espera de nós uma resposta. E não nos coage para obtê-la, pois o amor age em liberdade. O amor tem necessidade de ser correspondido [embora a correspondência não seja condição para a existência e conservação do amor].

Sofrer por culpa de um ato insensato (meu ou dos outros) é conseqüência. Sofrer por causa de uma situação não prevista (como os desastres naturais) às vezes é negligência e às vezes fatalidade. Mas sofrer por opção é amor. E essa é a novidade que os santos nos convidam a anunciar.

O protestantismo tem aversão ao sofrimento. Para enfrentá-lo, teólogos protestantes criaram a Teologia da Prosperidade. “Deus me livrará de todos os males”. Jesus nos ensina a rezar dizendo: “livrai-nos do mal”. Esse mal (com “l”) se refere ao Maligno, ao Tentador, a Satanás que quer a nossa perdição. Não tem nenhuma relação com os males que nos afligem neste vale de lágrimas. Não se refere aquilo que é mau (àquilo que não é bom).

            Não só eles – os protestantes – mas todas nós temos medo do sofrimento. A diferença está em como respondemos a esse medo. Como Jesus – com determinação – ou como Pedro que, com medo de sofrer, negou a Jesus três vezes? Maria encarou a crucifixão e morte de seu filho [que se convertia em seu sofrimento] de pé. Suportou calada (mais que isso: resignada!) a espada da dor transpassar-lhe a alma. Tomou em seus braços o Filho morto e O contemplou. Parecia um verme e não um homem…

            Alguém me dirá: “desejar o sofrimento não é masoquismo?”. A resposta é não. Provocar o sofrimento, sim, é masoquismo. Mas desejá-lo, e aceitá-lo quando ele vem, é querer provar o amor (em todos os sentidos que se possa intuir dessa frase).

Caríssimos, “A cruz permanece firme, o mundo dá voltas”. Abracemo-nos, pois, a ela. E fixemos nosso olhar no Eterno, porque “tudo passa (inclusive o sofrimento). Só Deus basta” (Santa Tereza d’Ávila).

 

 

 

 

 

        “Mas era preciso que aquela alma santíssima se separasse daquele corpo sacratíssimo. Deixou-o e uniu-se à alma de seu Filho, ela que era uma luz criada uniu-se à luz que não teve princípio. E o seu corpo, depois de ter ficado algum tempo debaixo da terra, também ele foi levado ao céu. Era preciso, com efeito, que ele passasse por todos os caminhos que o Salvador tinha percorrido, que resplandecesse para os vivos e para os mortos, que santificasse a natureza em todos os aspectos e que, em seguida, recebesse o lugar que lhe convinha. Por isso, o túmulo o abrigou durante algum tempo; depois, o céu acolheu aquela terra nova, aquele corpo espiritual, mais digno do que os anjos, mais santo do que os arcanjos. E o trono foi entregue ao rei, o paraíso à árvore da vida, o mundo à luz, a árvore ao seu fruto, a Mãe ao Filho; ela era perfeitamente digna, pois que ela o tinha gerado” (São Nicolau Cabasilas – 1320-1363 – teólogo leigo grego. Homilia sobre a Dormição da Mãe de Deus).

        Celebramos hoje a Assunção de Nossa Senhora. No Brasil, cujo calendário civil não prescreve como feriado esta gloriosa data, a celebração desta festa é transferida para o Domingo. Para mais amar, honrar e tornar conhecida a Santíssima Virgem, decidi escrever este pequeno resumo da Assunção.

         O fato da Assunção de Nossa Senhora foi-nos transmitido pela Tradição da Igreja. Segundo uma antiga versão (disponível aqui), aos 72 anos, ocorreu a dormição de Nossa Senhora. Os apóstolos foram miraculosamente levados – todos! – a Jerusalém na noite anterior ao fato; os fiéis de Jerusalém, assim que souberam, acorreram ao lugar onde se encontrava o seu corpo para reverenciar e prestar as últimas homenagens à Mãe de Deus. Três dias depois da “morte” de Maria, conta-se que São Tomé (sim, ele mesmo, de novo!) pediu para ver o corpo. Ao removerem a pedra do túmulo, não encontraram a Virgem. Do túmulo, exalava um perfume maravilhoso, fragrância divina deixada como presente, lembrança e sinal pela Rainha do Céu. Desse relato, não há uma linha sequer na Sagrada Escritura.

         A festa foi instituída oficialmente, junto com a proclamação do Dogma da Assunção de Nossa Senhora, em 01 de novembro de 1950, pelo Santo Padre, o Papa Pio XII.

         A data foi estabelecida com base nos escritos de São Jerônimo que afirma ter a Virgem sido elevada ao Céu no dia 18 das calendas de setembro – o que equivale a 15 de Agosto.

         A lógica – mais consistente e simples – que justifica a dormição de Nossa Senhora é a seguinte: São Paulo afirma na Carta aos Romanos que a morte é o salário do pecado (6, 23). Como é sabido, a Virgem Santíssima não cometeu nenhum pecado (nem venial, nem mortal). Assim sendo, seria injusto que ela recebesse a recompensa por algo que não fez. Que morresse da exata mesma forma que os pecadores. Deus então, na sua infinita Bondade e Justiça, concedeu-Lhe [à Maria] uma “morte suave”, e como Lhe envolvesse num sono leve atraiu a Si o corpo e a alma da Virgem. Santo Agostinho enumera três razões para explicar a dormição e assunção de Nossa Senhora, a saber:

 

 

1 – Como foi Nossa Senhora que “outorgou” a Cristo a carne humana (carne essa que foi poupada da corrupção e da deterioração provocada pelos vermes), o corpo de Maria, com a Ressurreição de Jesus, participa da incorruptibilidade do corpo de Cristo;

2 – Mais do que qualquer outro corpo, o de Nossa Senhora foi autêntico Tabernáculo de Cristo. Deste modo, é mais digno e adequado guardar esse tesouro no Céu que na Terra;

3 – Para dar continuidade à integridade que a Virgem sempre preservou durante toda a sua vida. O Bispo de Hipona afirma: “a pena da corrupção não deve ser conhecida por aquela que não teve sua integridade corrompida quando gerou seu filho. Será sempre incorrupta aquela que foi cumulada de tantas graças, que viveu íntegra, que gerou vida em total e perfeita integridade, que deve ficar junto daquele a quem carregou em seu útero, a quem gerou, aqueceu, nutriu”. (Veja aqui o artigo fonte deste excerto)

       

        Em resumo, Jesus quis honrar sua Sacratíssima Mãe elevando-a sobre todas as criaturas, e revestindo-a de glóelevando-a sobre todas as criaturas, revestindo-a de gl a sua vida. ria e esplendor. E nós, Seus filhos por adoção, devemos também venerá-la para, seguindo os passos de São Luiz de Montfort, manifestar esta devoção que, segundo ele, é indispensável, não opcional, fundamental à vida cristã.

 

Rainha assunta ao Céu,

Rogai por nós!

 

Gustavo Souza

 

 

            “Quis putas est fidelis servus et prudens, quem constituit dominus supra familiam suam, ut det illis cibum in tempore? Beatus ille servus, quem cum venerit dominus eius, invenerit sic facientem. Amen dico vobis quoniam super omnia bona sua constituet eum” (Mt 24, 45-47).

 

            “Quem julgais que é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua família para os alimentar a seu tempo? Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo: Há-de confiar-lhe todos os seus bens” (Mt 24, 45-47).

 

            Ainda no espírito do Evangelho de domingo passado (Mt 16,13-20), o qual nos apresenta a instituição da Igreja e do Papado, decidi tecer alguns comentários a respeito de uma figura que vem sendo sistematicamente vilipendiada pelos meios de comunicação: o Papa. Mártir devido a inúmeras incompreensões e perseguições.

            A mídia [em especial, a do Brasil] tenta passar para o povo a imagem segundo a qual Bento XVI seria um inquisidor (já que, quando cardeal, Joseph Ratzinger presidiu a Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Santo Ofício). Naquele malfadado episódio da Universidade de Ratisbona, na Alemanha, os meios de comunicação tentaram disseminar que o Romano Pontífice era um anti-semita que não tinha nenhum respeito ao Islã. Depois, ainda, quando o Santo Padre declarou que os casais de segunda união representavam uma “piaga”, isto é, uma “chaga” na sociedade moderna, tentou-se mostrar que o Sucessor de Pedro tinha dado uma demonstração cabal de sua personalidade anacrônica que – “sem abertura ao novo” – considerava tais casais uma “praga”. Na visita ao Brasil, em maio de 2006, a imprensa esperava um Papa sisudo, com ares puritanos [na realidade, encontrou um homem dócil, afável, um verdadeiro pastor, disposto a largar noventa e nove ovelhas para buscar aquela que se perdeu (Mt 18, 12-13)]. Uma fábrica de cerveja alemã chegou a usar a imagem do Santo Padre, o papa Bento XVI, para fabricar rótulos da bebida. Sem contar os foliões que – a despeito das festividades do carnaval – vestem-se de papa, causando escândalo e praticando orgias que insinuam as pessoas a pensar que o Papa é, como eles, devasso. Enfim, os ataques são muitos e de todos os lados. Mas, diante de tantos episódios tristes de ataque ao Servo dos Servos de Deus percebemos duas coisas:

 

   O ministério petrino precisa ser melhor compreendido.

– Cumprem-se as promessas de perseguição que Jesus fez no Evangelho segundo São Marcos (10, 30).

            Face a tantas interpretações maldosas – e mal feitas – a supracitada passagem do Evangelho de São Mateus nos convida a um questionamento muito pertinente: Quem é o Santo Padre? Como ele deve agir?

            As diretrizes da ação do papa – que acabam se tornando suas características – é Jesus mesmo quem descreve, no Evangelho. Espera-se que ele seja:

 

Fiel – fiel às tradições da Igreja, leal a Jesus Cristo e à sua Boa Nova. A fidelidade tem um quê de coerência e, sobretudo, de comprometimento com a verdade. Também de dentro da Igreja, muitas vezes surgem críticas ao Santo Padre. Muitos grupos “tradicionalistas” já ousaram [e alguns ainda ousam] dizer o Papa filiou-se ao modernismo; que já não faz as coisas de “sempre”. A pretensão de certos “fiéis” é tanta, que muitos se esquecem que Jesus roga pelo Seu Servo para que a fé dele não desfaleça e, assim, ele possa confirmar a fé de seus irmãos (Lc 22, 32). A fidelidade do Papa é um dom que Deus concede em atenção a Jesus.

 

 

Prudente – o Santo Padre deve ser prudente. Mesmo quando acusado de antiquado, retrógrado ou qualquer adjetivo semelhante, ele deve estar atento às palavras do apóstolo Paulo: “(…) virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas. Tu, porém, sê prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a missão de pregador do Evangelho, consagra-te ao teu ministério” (2Tm 4, 3-5). Jesus já havia aconselhado: “Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10,16).

            Além disso, o Papa deve ser amado por ter uma vocação única entre todos os homens do mundo. Alguns podem dizer: “ah, Jesus poderia ter escolhido qualquer um”. De fato, a vontade divina é soberana e poderia ter escolhido qualquer um. Mas esse “qualquer” – que foi escolhido – vai sempre carregar o selo da eleição divina. Quem quer que seja, a partir do momento em que Deus o chama, passa a ser “o escolhido”. Assim como os judeus, mesmo tendo rejeitado Nosso Senhor, nunca vão deixar de ser o povo amado em primeiro lugar. A eleição é sinal de amor. Se Deus ama o Papa, por que nós não o amaremos?

            Ainda olhando para o trecho bíblico de S. Mateus que encabeça este texto, podemos contemplar a figura do Santo Padre como guardião dos sagrados mistérios, em especial a Santíssima Eucaristia. A eucaristia é o alimento com o qual Deus nutre a nossa alma. E, diga-se de passagem, o Papa Bento XVI tem exercido o ofício de guardião do Mysterium Fidei de modo magistral. Primeiro, através do moto próprio Summorum Pontificum, no qual se estabeleceu que a rica liturgia tridentina deve ser tratada como Rito Romano Extraordinário, podendo ser celebrada por qualquer sacerdote que deseje, sem necessidade de indulto por parte do Ordinário local. Depois, escrevendo aquela magnífica exortação apostólica chamada Sacramentum Caritatis, na qual o mistério da Eucaristia é aprofundado (mas não esgotado), em continuidade com a Encíclica Ecclesia de Eucharistia, de autoria do Papa João Paulo II, de felicíssima memória. Além disso, as atitudes mais recentes do Chefe da Igreja Universal têm mostrado o grande apreço que ele tem ao Santo Sacrifício: a comunhão de joelhos que tem feito questão de administrar nas celebrações em Roma, mostram a piedade eucarística de Bento XVI.

            Em suma, o “servo fiel e prudente” é o Papa. E ele tem feito o seu papel. Ponhamo-nos nós, leigos, no nosso lugar, e desprezemos os juízos maldosos que muitas vezes são feitos a respeito da pessoa e do ministério do Sucessor de Pedro. Roguemos a Santa Catarina de Sena que nos ensine e nos ajude a amar o “Doce Cristo na Terra”. Que possamos afirmar com os Padres da Igreja: “Cum Petrus, et sub Petrus” (Com Pedro, e sob Pedro).

 

 

Gustavo Souza

 

 

 

 

 

            Candidatos debatendo-se: foi o que se viu ontem no primeiro debate oficial entre os candidatos à Prefeitura da Cidade do Recife. O evento marcou (realmente, marcou) a abertura da 6ª Semana de Integração Universidade Católica & Sociedade (SIUCS).

            Vou tentar relatar os melhores momentos do debate. Mas, que o leitor não se iluda: os “melhores” momentos não são necessariamente “bons”. Avante!

            O auditório do Bloco G da Unicap estava lotado. Eram 17h. Quando já não cabia mais ninguém (nem em pé!) a coordenação da SIUCS aconselhou que as pessoas que estivessem chegando se deslocassem para um outro auditório – no mesmo andar – de onde o debate poderia ser assistido através de um telão. Acontece que o outro auditório, na verdade não era auditório: O telão transmitia apenas as imagens, sem som!

            No meio das considerações inicias – em que cada candidato dispunha de 5 minutos – surge uma mulher que se aproxima da bancada em que se encontram os prefeituráveis e começa a fazer gestos obscenos. Tenta partir para cima dos candidatos, fala alto, e… onde estão os seguranças? Guardando a perigosíssima porta de entrada. Fico me perguntando por onde será que aquela mulher passou para entrar?…Esta senhora interrompeu o debate por mais ou menos 1 hora! A cada nova incursão dela os presentes riam, vaiavam, xingavam, e – os mais sensatos – tentavam silenciar a multidão gritando: SILÊNCIO!!! Ou, então: psssiiiiiiiiiiiuuuuuuu!!! Ou ainda: CALA A BOCA!!! 

            Nisso, um homem, ou ébrio ou louco, começou a pular por cima das cadeiras onde as pessoas estavam sentadas. Mais uma vez, risos, vaias, e interrupção do debate.

            Afora isso, havia, nas paredes, faixas de um movimento que luta pela “liberdade” dos animais não-humanos. Algo como: não matem as baratas, deixem os ratos correrem livremente no seu quintal, não ponham coleira nos cachorros (mesmo que seja um pitty bull); Coma apenas vegetal, pois não é justo que animais inocentes e indefesos morram para matar sua fome! Convenhamos, salada de alface é muito mais gostoso que bife! Só me inquieta uma coisa: como se sabe que o grau de crueldade na morte de uma vaca é maior que o do assassinato de uma alface?

             Afogados num mar de perguntas capciosas, e pressionados pelos olhares desconfiados dos estudantes, restava aos candidatos apenas debater-se. Para não sucumbir, agarravam-se – como náufragos desesperados – às mesmas bóias de sempre: passado sofrido, marcado normalmente por uma infância pobre e uma adolescência permeada de perseguições e torturas na época da ditadura. Pobrezinhos: merecem um voto de confiança!

            Alguns corajosos jornalistas tentaram [se] debater com os honoráveis prefeituráveis da nossa Veneza Brasileira. Foi algo mais ou menos assim:

           

            Você, Cadoca, nas últimas eleições presidenciais apoiou o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Hoje, você faz parte da base do governo e conta com o apoio do presidente Lula. Como você acha que o eleitor vai entender essa sua mudança?

           

             – Veja bem, tudo foi feito com muita transparência. Eu tirei uma camisa, vesti outra, mas continuo fiel aos meus ideais.

           

 

 

            Você, João da Costa, acha que o Orçamento Participativo é realmente participativo?    

           

            Sim, 2% do orçamento da prefeitura é discutido com o povo.

           

            E as obras da Avenida Conde da Boa Vista foram discutidas com o povo?

           

            – Veja, bem, essa parte estava dentro dos outros 98%…

           

            Você, Kátia Teles, está preparada para governar Recife?

           

            – Sim. Tenho grande experiência na luta sindical.

           

            E o que a senhora acha que é preciso fazer para mudar o cenário da nossa cidade?       

           

            Precisamos primeiro mudar o mundo, para, DEPOIS, mudar Recife.

           

            Candidata, a senhora afirmou que nenhum candidato aqui presente era capaz de governar democraticamente e, ao mesmo tempo, obedecer à Lei de Responsabilidade Fiscal. Como a senhora pretende enfrentar esse desafio?

           

            – É simples: vou desobedecer a Lei. Viva a Anarquia!

           

            Você, Raul Henry, criticou a obra da Avenida Boa Viagem. Mas, onde é que o senhor mora mesmo?

           

            – Sim, é um absurdo gastar 50 milhões na orla de Boa Viagem. Mas que eu adorei, adorei!

           

            Você, Numeriano, quais são suas propostas para a cidade do Recife?

 

            – Ah, eu tenho um sonho para esta cidade. E, nesse sonho, o 1% de intenções de voto que as pesquisas me dão, podem se transformar em 2%, e depois em 10%, em 20%, em 30%… Enfim, o meu sonho pode se transformar no sonho de muitas pessoas.

           

            Você Mendonça, o que pretende fazer, quanto à questão da saúde na cidade de Recife?

 

            As condições do sistema de saúde da cidade do Recife são realmente precárias, lamentáveis. Faltam médicos especialistas, como: ginecologistas, neurologistas, cardiologistas, ortopedistas, pediatras, etc. E faltam também remédios. Aliás, remédio é qualidade de vida! Nós precisamos ampliar a verba destinada a aquisição de medicação hospitalar. Outro problema grande do sistema de saúde dessa nossa querida cidade, problema que atual gestão não enfrentou e, conseqüentemente, não resolveu, é a falta de ambulâncias… Candidato, falta um minuto para o senhor concluir sua fala. Como dizia, pretendo construir 3 policlínicas, credenciar 200 médicos, comprar 25 ambulâncias… Candidato, tempo esgotado. Pretendo ainda, ampliar as atribuições dos agentes comunitários de saúde, para que elas auxiliem na erradicação de doenças como a rubéola, a dengue. Candidato, por favor, seu tempo esgotou! Concluo, quando eu for prefeito dessa cidade… Argh! Time is over, candidato!

           

 

 

            E você, Edílson, quais são suas propostas?

           

            Bem, ao lado da ex-senadora Heloísa Helena, e de todos que fazem parte do PSOL, pretendemos implantar em Recife uma nova maneira de governar. Uma maneira que não atende aos interesses dos imperialistas burgueses, que não atende às pressões do FMI, e que não se vende às grandes potências opressoras da classe trabalhadora como os Estados Unidos, blá, blá, blá, blá, blá…

           

            Enfim, “nada de novo sob o sol”. Quem foi ao debate assistiu a um show de populismo. Quem foi ao debate pode se deliciar com um banquete de argumentos non sense, com uma coletânea de episódios toscos. Na corrida eleitoreira vale tudo! Ainda bem que eu tinha um bote e não precise [me] debater…

          “Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também” (Lc 6,38).

 

 

            Um dos nossos grandes pecados é medir. Medir pela medida que nós julgamos ser a mais justa, a mais correta, a mais sensata.

Costumamos utilizar vários padrões para medir as pessoas. O dinheiro é um dos padrões que mais usamos. Quem nunca ouviu – ou pronunciou – a expressão: “o homem vale o que tem no bolso”. Isso reflete perfeitamente o que o mundo moderno pensa a respeito do homem: se tem dinheiro, é valioso; se não tem, não vale nada. Aliás, fala-se que na Idade Antiga e na Idade Média prevalecia o Teocentrismo, enquanto hoje na ciência, na cultura, nas artes e no pensamento do mundo moderno (contemporâneo) prevalece o Antropocentrismo. Isto se fala com ar de alívio e, ironicamente, dando graças a Deus. Mas, que tipo de Antropocentrismo é esse que mede o homem pelo saldo de sua conta bancária? Quem está no centro: o homem ou o dinheiro do homem?

            Medimos as pessoas pelas roupas que elas usam. Sem nos lembrarmos daquela simples e grandiosa verdade que Jó constatou: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei” (Jó 1, 21).

            Outro padrão muito utilizado é o de Conhecimento. Quem se mostra inteligente, culto, perspicaz, astuto, vale muito. Quem não têm essas capacidades em nível satisfatório, é taxado de burro, ignorante, inculto. A propósito é inconcebível dizer que alguém é inculto dado que um ser humano – vivendo em sociedade – absorve a cultura da mesma, seja ela qual for. Portanto, ninguém pode ser considerado sem cultura.

E o padrão da idade… Esse que desemprega (e mantém no desemprego) tanta gente. Acaso nos esquecemos de Simeão, de Ana, a profetisa, de Eleazar e de tantos outros homem de grande maturidade na fé? Esquecemos que a velhice confere autoridade e os cabelos brancos outorgam prestígio (II Mac 6,23)?

 Essa discussão em torno dos padrões (unidades) de medida desemboca na questão dos valores da sociedade que, por sua vez, conduz ao problema do pré-conceito, que nos leva a outro debate, e assim por diante. Mas, afinal de contas, por que é pecado medir?

É simples: porque Deus não nos mediu! Quando Cristo deu sua vida na cruz, ele a deu por todos, sem distinção, pagando um único preço por todos. E o preço foi o seu sangue derramado. Eu, com meus pecados, valho o preço do sangue de Cristo. E você, com todas as suas virtudes, vale o mesmo preço que eu! São Pedro diz uma frase muito interessante: “Deus não faz distinção de pessoas” (At 10, 34) Em outras palavras, Deus não é pré-conceituoso, e nem pode sê-lo, pois conhece todas as coisas desde o princípio e até mesmo antes de elas existirem.

 

 

             Quem já não se deparou com a expressão: “Fulano não vale nada”. Quem somos nós para dizer isso? Quem somos nós para atribuirmos ou deixarmos de atribuir valor a alguém. Quem cria é que tem o direito de atribuir valor. Um artista que passou dias, semanas, meses pintando um quadro não vende sua obra a preço de banana. Ele sabe o quanto ela lhe custou! Nós custamos a vida do Filho de Deus! Num de seus salmos Davi se interroga: “que é o homem Senhor para dele te lembrares?” (Sl 8,5). E, mesmo sabendo que o homem é pó, o Salmista continua: “Pouco abaixo de um deus o fizeste [o homem], coroando-o de glória e esplendor” (Sl 8,6). Deus é quem sabe a medida exata do homem. Deus é quem sabe o valor da sua obra de arte. Deus é que é justo para dizer o que cada um é, em essência, desconsiderando totalmente aquilo que mais nos chama a atenção: a aparência. Lembram-se do Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”? Quando queremos medir os outros, nos arvoramos em deuses, juízes do mundo. É a ilusão que conduziu ao pecado original: a de querer ser Deus. Pecamos por que nossa balança é injusta! Porque nossos olhos são cegos para o essencial! Porque não aprendemos que os defeitos que enxergamos nos outros são o reflexo das nossas fragilidades e incapacidades!

Preocupamo-nos em medir, em julgar, e não em conhecer. Já reparou que quem mede algo está interessado apenas no resultado final da medição. Por exemplo: Se você vai ao supermercado e pede pra um funcionário pesar um quilo de batata, ele não vai se preocupar com que tipo de batata está indo na sua sacola. O que interessa é o peso da sacola, não o que está dentro!

            A expressão de Jesus é forte: “com a mesma medida com que medirdes, sereis vós medidos também” (Lc 6,38). Em certo sentido, é como se Jesus resgatasse a Lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Mas, na verdade, nós é que escolhemos assim. Se passamos a vida inteira medindo os outros, é porque acreditamos que essa é a melhor maneira de saber quem é o outro. Preferimos leis desumanas e padrões injustos em detrimento do diálogo misericordioso. Deus, que sempre respeita nossas opções, usará do método que nós mesmos escolhemos para nos julgar.

São Francisco dizia que “ninguém é mais nem menos do que é aos olhos de Deus”. Ele entendeu perfeitamente que Deus é quem tem o direito e a autoridade de medir e julgar cada ser humano. E que a medida do Senhor é a justa medida. Aprendamos com ele, São Francisco, e com a Virgem Mãe de Deus, a não medir senão a nós mesmos!

 

 

            “Dizei somente: sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno” (Mt 5,37).  Essa é uma das recomendações de Jesus no sermão da montanha. Para vivê-la é necessário um dom que atualmente quase se perdeu entre os cristãos, principalmente entre os nossos jovens: o de decidir, escolher, optar. Dizer sim quando é sim, e não quando é não, revela a capacidade de discernir entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, entre o amor e o não-amor.

            Jovens, especificamente, sentem dificuldade na hora de escolher namorado (a), o que fazer no vestibular, em quem votar, que roupa vestir ao sair com os amigos (as), etc. Tudo parece exigir uma decisão e tudo parece convergir em incerteza, insegurança…

            Contudo, sabemos que o ser humano – jovem ou não – é capaz não só de tomar uma decisão, como também de perseverar nela. A isso Santa Terezinha chamava decisão decidida (aliás, Santa Terezinha decidiu-se por ser carmelita ainda criança e ingressou no Carmelo aos 15 anos!). Na história da Igreja temos muitos santos cuja atitude foi de coerência com a sua fé, de opção incondicional por Jesus: São Domingos Sávio, que se santificou quando ainda era muito jovem, costumava dizer: “É preferível morrer a pecar!”. Partindo disso, ele decidiu-se a lutar acirradamente contra o pecado.

            É interessante perceber que toda a decisão implica renúncia. Dizer sim a Deus é dizer não ao Mal(igno) e a si mesmo. E a renúncia dói! Exige muita força de vontade da nossa parte. Que o diga Jesus: decidiu amar os homens até o fim, e por isso teve que renunciar à própria vida. É preciso renunciar para escolher a “melhor parte” (Lc 10,42). Não é fácil, mas também não é impossível.

Além disso, sim e não são palavras fortes que demonstram atitudes resolutas. Por isso, costumamos evitá-las. No mês das vocações somos convidados a perceber a íntima relação que há entre essas palavras e a vocação do homem: ao contraírem matrimônio os noivos dizem sim um ao outro, aceitando-se mutuamente (do jeito que são!) Por conseguinte, estão previamente renunciando – ou seja, dizendo não a todas as possibilidades de relacionamento que possam surgir. É o amor de Cristo Crucificado que os move a isso. Por outro lado, aqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vocação religiosa, dizem sim à Igreja e não aos seus objetivos pessoais. Seus sonhos serão os de Cristo, seus projetos serão os da Santa Mãe Igreja. Com liberdade, decidiram que seu direito é não ter direito algum!

            Afinal, o que nos impede de decidir [por Deus]?

Certa vez, um jovem perguntou a Jesus o que devia fazer para ser feliz. Jesus lhe respondeu que seguisse os mandamentos e certamente ele alcançaria a felicidade. O jovem, com um pouco de orgulho talvez, falou que já obedecia à Lei de Deus e, ainda assim, tinha sede de ser feliz. Jesus então, fixou nele olhar, amou-o (Mc 10,21) e o convidou a tomar uma decisão radical: vender todos os seus bens em favor dos pobres, e depois segui-lo. Que fez o jovem? Infelizmente apegou-se às suas riquezas e foi embora. Não quis decidir por Jesus, e por isso partiu. Riquíssimo, mas infeliz!

            Que essa história nos alerte e ajude, para que nada nos atrapalhe na hora de decidir por Cristo. Digamos-Lhe sim como Maria. Não façamos como aquele jovem rico que se prendeu aos seus bens. Pelo contrário: como São Francisco de Assis, desprezemos nossas riquezas por amor aos pobres e optemos por Deus que é “nosso Bem, nosso Único Bem, nosso Sumo Bem”.

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