I – Sobre a Caminhada pela Vida, que ocorreu domingo p.p, na Avenida Boa Viagem:


As pessoas que estavam na praia paravam para olhar a caminhada. Dos prédios na beira-mar, alguns moradores se debruçavam das janelas para verem a multidão passar gritando “não” ao aborto. Muitas pessoas que simplesmente estavam por lá juntavam-se aos manifestantes, para também darem o seu “sim” à vida. E o evento atingiu o seu objetivo: fez com que fosse ouvida a nossa voz, a voz do povo brasileiro, que é visceralmente contra o assassinato de crianças no ventre de suas mães. Parabéns aos que dedicaram a sua manhã de domingo para participarem desta importante manifestação pública! Que a Virgem Santíssima os possa recompensar com generosidade.

Fonte: Deus lo vult!

É bom ressaltar que o senhor Arcebispo de Olinda e Recife, D. Fernando Saburido, afirmou em alto e bom tom que a Arquidiocese não tem candidatos próprios. A Igreja, segundo ele, não recomenda nenhum candidato em particular. O Arcebispo – como era de se esperar – orientou os católicos a votar em candidatos que sejam a favor da Vida [sincera e declaradamente, é claro]. Segundo alguns ouvintes da Rádio Olinda, D. Fernando já havia feito as mesmas declarações naquele canal de comunicação. Com tais afirmativas partindo do nosso Metropolita, fica evidente que a Comunidade Obra de Maria mentiu ao divulgar um cartaz entre os seus colaboradores em que se dizia que a Igreja havia “pensado, rezado e escolhido” determinados candidatos. Lamentável é ver a falta de humildade da mesma Comunidade que, embora ciente de seu erro, silenciou e não teve a ombridade de reconhecer a sua falha, de pedir desculpas e de retratar-se de alguma forma. A O.M. não respondeu aos e-mails de protesto que lhe foram enviados, não publicou nota de esclarecimento em jornal e, sinceramente, não me surpreenderá se no próximo jornal mensal da Comunidade não constar nem mesmo uma notinha de rodapé mixuruca a título de “errata”. É triste mas o orgulho, inevitavelmente, precede a ruína. Graças a Deus tivemos um Pastor para defender o nome da Igreja Particular de Olinda e Recife e a honra da Imaculada Esposa de Cristo :).

Não deixem de acessar o Deus lo vult! para ver algumas fotos da Caminhada pela Vida e ler a íntegra da matéria que Jorge escreveu.

En passant: O Diário de Pernambuco divulgou que havia 60.000 presentes na Caminhada. Segundo um amigo, o Jornal do Commércio [tradicionalmente inimigo da Igreja] afirmou que havia apenas 4.000 presentes [seguramente esses cálculos foram feitos com uma calculadora paraguaia, comprada a R$ 1,00]. Na matéria veiculada no site do JC [acesso público, i.e., para não assinantes] eles abstiveram de citar os números do evento. Tiveram que engolir goela abaixo a multidão de pró-vidas. A Igreja lhes mostrou uma força contra a qual não puderam resistir: a da Fé, a da Vida.

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II – Notícia estarrecedora (I)

Projeto autoriza uso de órgãos de crianças anencéfalas em transplantes

Aguarda decisão da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) projeto da senadora Serys Slhessarenko (PT-MT) que permite o uso de órgãos de criança anencéfala em transplantes. A proposição está sendo relatada pelo senador Augusto Botelho (Sem partido-RR), que apresentou voto favorável à matéria.

A proposta (PLS 405/05) altera a lei que trata da remoção de órgão e tecidos do corpo humano com fins de tratamento médico (Lei 9.434/97) para permitir a remoção de tecidos, órgãos ou partes do corpo de criança anencéfala e seu uso em transplantes.

O relator observa que a atual legislação estabelece que a retirada de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para transplantes deve ser precedida do diagnóstico de morte encefálica. No entanto, essa exigência legal impede que o recém-nascido anencéfalo seja considerado um potencial doador, pois não haveria como diagnosticar morte encefálica na ausência de encéfalo.

Pela proposta, o procedimento de retirada dos órgãos da criança poderá ser efetivado a partir de diagnóstico de anencefalia feito por dois médicos não-participantes das equipes de remoção e transplante. O projeto também estabelece que a remoção dos tecidos só será permitida quando a manutenção das atividades cardiorrespiratórias da criança se der somente por meio artificial, ou quando comprovada a impossibilidade de manutenção da vida, respeitados os critérios clínicos e tecnológicos definidos por resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Em seu relatório, Augusto Botelho, que é médico, explica que a anencefalia é uma má-formação fetal que impossibilita a vida fora do útero. Normalmente o recém-nascido anencéfalo não sobrevive mais que algumas horas, diz o senador, podendo permanecer vivo, em raras ocasiões, por até três dias. A anencefalia caracteriza-se pela ausência dos hemisférios cerebrais e dos ossos da calota craniana, explica Botelho. Em muitos casos, a morte do anencéfalo ocorre durante a gravidez, acarretando aborto ou parto prematuro, destacou.

Recentemente, no entanto, a menina Marcela de Jesus Ferreira, nascida em Patrocínio Paulista (SP) e diagnosticada com anencefalia, viveu um ano e oito meses, falecendo em 2008. Na época, alguns médicos contestaram o diagnóstico.

Fonte: Senado

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III – Notícia estarrecedora (II)

Dia pela Despenalização do Aborto na América Latina e Caribe

O dia 28 de setembro marca a luta pela descriminalização do aborto na América Latina e Caribe. A Coordenação Regional da “Campanha do 28 de setembro” lançou um manifesto em defesa do direito ao aborto legal e seguro.

“Chega de violações dos nossos direitos” é a chamada escolhida para a campanha deste ano, que está sendo puxada pela coordenação regional, com sede na Nicarágua, e apoiada pela Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe e pela Rede Feminista de Saúde.

No dia 15 de setembro, foi lançado o Manifesto de 2009, denominado “Luzes e sombras”. O manifesto faz um apanhado de avanços e retrocessos na garantia dos direitos das mulheres à interrupção voluntária da gravidez na América Latina e no Caribe. Declara também seu apoio aos esforços dos movimentos de mulheres no sentido de consolidar os avanços conquistados recentemente em cada país.

O manifesto afirma que milhões de mulheres continuam sofrendo lesões e traumas por conta da legislação proibitiva, que as coloca na posição de realizar abortos de maneira ilegal e insegura. Muitas outras são ainda criminalizadas e presas.

Fonte: Observatório de Gênero

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[O artigo abaixo é da lavra de D. Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife. Foi publicado no Jornal do Commércio, em sua edição de 18.04.2010. Tendo sido interpelado pela imprensa e pelos católicos por sua “falta de clareza” em uma entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, D. Fernando procurou – com este artigo – corroborar o seu posicionamento [já destacado em Nota de Esclarecimento] acerca do aborto e da pedofilia. Sua Excelência demonstra total adesão à Doutrina Moral da Igreja que, como todos sabem, é veementemente contra o aborto e a pedofilia].


Dois assuntos polêmicos têm aparecido na mídia nos últimos dias: aborto e pedofilia na Igreja. Aborto, por conta da menina de 10 anos, grávida do seu padrasto que vinha mantendo relações sexuais com a criança. Pedofilia, devido aos escândalos internacionais e nacionais publicados nos últimos meses.

Com relação ao primeiro caso, que também é conseqüência de pedofilia, é do conhecimento de todos a posição da Igreja que, em hipótese alguma, aceita o aborto, posição esta com o que estou de acordo plena e incondicionalmente. Em nosso País, é legalmente permitido o aborto em casos específicos. A Igreja não concorda com essa lei, pois vai de encontro à suprema lei de Deus, que é o autor da vida e somente a Ele cabe tirá-la.

Fui, insistentemente, procurado pela imprensa local, para falar sobre o pensamento da Igreja, no caso da menina de Jaboatão dos Guararapes, grávida aos 10 anos de idade. Como bispo, expressei então o meu pensamento em defesa da vida, não admitindo o aborto, em nenhuma circunstância. No caso específico desta criança, a gravidez poderia ter sido levada adiante, com os devidos cuidados médicos, até o momento do parto cesariano, no esforço de preservar a vida do bebê e da mãe. Certamente, não faltaria família que adotasse a criança, caso a avó e a mãe assim desejassem. Lamentei, profundamente, o desfecho do caso.

Quanto à questão da presença da pedofilia na Igreja, parece até que está havendo uma orquestração com o intuito de manchar a imagem de uma milenar instituição de grande confiança popular. É claro que nos envergonham os fatos vindos à tona, mesmo sendo, a maioria deles, “requentados” como dizia nosso irmão Frei Aloísio Fragoso, em artigo recente.

A pedofilia na Igreja, uma vez comprovada, deverá ser combatida com urgência e determinação para evitar maiores prejuízos. O que não se admite é querer colocar como causa o celibato religioso e sacerdotal, exigido pela Igreja para os que se consagram. O celibato é uma vocação, dom de Deus, assumido espontaneamente para que haja total disponibilidade para o serviço do reino. Não é a Igreja que acolhe pedófilos. Estas pessoas com disfunções psicológicas ingressam na Igreja e, no celibato, tentam encobrir suas tendências e maus hábitos.

É sabido que apenas 0,6% do total dos padres, em todo o mundo, estão envolvidos em problemas desta natureza. É preciso render graças a Deus pela grande maioria de presbíteros que edificam a Igreja por uma vida santa. Por outro lado, é necessário entender que este problema não está apenas na Igreja Católica. É um problema social muito grave que se encontra em todas as esferas da sociedade. Com isto, não desejamos absolutamente amenizar nossa culpa.

Os padres são líderes espirituais e, como tal, deveriam dar o bom exemplo e não escandalizar. É lamentável, sobretudo, a pressão que tem sido feita à pessoa do santo padre, acusando-o de acobertar casos de pedofilia, quando arcebispo na Alemanha ou presidente da Congregação da Doutrina da Fé em Roma. Exatamente Bento XVI, que tem demonstrado grande sensibilidade para estas questões, escrevendo orientações para as Igrejas em todo o mundo ou dialogando e indo ao encontro das mais envolvidas, como Estados Unidos e Irlanda.

A Igreja tem passado, ao longo da história, por muitas tribulações e esta não será a última. Ela é formada por homens e mulheres cheios de virtudes e também de pecados. Acima de tudo, porém, está a graça de Deus que a guia pela ação do Espírito Santo. É preciso, então, levantar a cabeça e seguir adiante, esforçando-se para corrigir os erros e crescer na santidade, dom mais precioso de Deus, que recebemos no batismo.

              A tal ponto chegou a maldade dos homens que mesmo o direito natural a vida tem que ser reivindicado nos tribunais.  Fico imaginando com que rigor julgará Deus os homens que se arvoram em juízes da existência dos outros… Pobre bebê: entre os seus adversários está a própria mãe!

 

Fonte:  JC ONLINE

Internacional // Inglaterra

Pai entra na Justiça para manter filho vivo

Publicado em 02.11.2009, às 15h52

               Um pai deu início nesta segunda-feira (2) a uma batalha judicial contra um hospital britânico que planeja desligar os aparelhos que mantém seu filho, de um ano, vivo.

               O menino, conhecido apenas como bebê RB, por razões legais, nasceu com uma rara condição muscular conhecida como Síndrome Miastênica Congênita, que torna difícil para ele respirar sem a ajuda de aparelhos.

               Segundo a imprensa britânica, a mãe está do lado do hospital, que defende o desligamento dos aparelhos.

               Os pais comparecem nesta segunda-feira à Suprema Corte, para o início da disputa.

               Os advogados do pai argumentam que o cérebro do menino não é afetado pela doença, o que significa que ele pode ver, ouvir, interagir e brincar.

               Apesar de estar no hospital desde que nasceu e depender de um aparelho de ventilação para respirar, o bebê gosta de ouvir histórias infantis e de ouvir música, dizem eles.

               Os advogados estão submetendo fitas de vídeo para a corte, que, segundo eles, mostram o menino brincando.

               Leia a matéria completa na BBC Brasil

 

            Para os que não tiveram acesso ou oportunidade de ler, reproduzo aqui um artigo de autoria do Prof. José Luiz Delgado, publicado no Jornal do Commercio há dois dias (01/09). A meu ver, o texto de Delgado expõe de maneira muito feliz quais as principais “forças atuantes” na Arquidiocese de Olinda e Recife, e quais as suas reais motivações. Leiam:

 

 Via dolorosa

Publicado em 01.09.2009

José Luiz Delgado

jlmdelgado@terra.com.br

 

             Do livro que Elcias Ferreira da Costa acaba de publicar, D. José Cardoso – a vitória da fé, o mínimo a dizer é que é impressionante. Pelo conjunto de informações que apresenta. Pela vasta, quase absolutamente completa, documentação. E mais ainda: como retrato dolorido da página que estivemos a viver nesta Arquidiocese de Olinda e Recife.

            Tensões, divergências, fricções terão sido talvez constantes na história da Igreja. Basta lembrar a crise do modernismo, condenado por sucessivos papas, sobretudo Pio IX e Pio X. Um modernismo latente teria sido contido, nos tempos de Pio XII, pela sabedoria e pela nitidez do grande papa. Pode ser que alguma coisa das tendências reprimidas se tenha soltado durante o formidável e recente Concílio. Em decorrência do qual, muitas “aberturas” se verificaram, e até chegaram a cardeal alguns dos teólogos antes “suspeitos”. Mas as tensões e divergências continuaram, falando-se, numa má terminologia, de divisão entre “progressistas” e “conservadores”.

            Em nenhum outro lugar, porém, as fricções terão atingido os extremos a que chegaram entre nós. Elcias Ferreira da Costa dá, desses extremos, a descrição exata, com documentos, escândalos, absurdos, que tanto horrorizaram o pequenino povo fiel. Leigos ilustres agredindo o bispo? Órgãos oficiais diocesanos voltando-se contra seu próprio superior? Até sacerdotes, pastores, detratando o pastor, no entanto aprovado por Roma? Insubordinando-se contra o arcebispo legítimo? Inventando uma igreja “nascida das bases”, de tal sorte que só valeriam – na Igreja católica?? – as opções tomadas por assembléias populares? O quadro, trágico, dantesco, evidencia somente o grau de decomposição do senso católico e do sentimento religioso que se instalou na arquidiocese antes do governo do bispo que acaba de se aposentar, após 24 anos de heroísmo e martírio.

            Quadro, é claro, instalado aqui à sombra de dom Helder, mas à revelia de dom Helder. Não era, de forma alguma lição de dom Helder, mas foi infelizmente a mentalidade que se engendrou sob seu pastoreio. Veja-se episódio ao mesmo tempo edificante e expressivo da alma católica do famoso arcebispo, que leio numa de suas circulares conciliares. Não saindo vitorioso certo ponto de vista, numa das primeiras votações do Concílio, seus defensores ficaram cabisbaixos e arrasados. E assim continuavam, ao se reunirem em seguida, quando justamente dom Helder levantou o ânimo de todos provocando-os com indagação esplendidamente católica: “Que história é esta de proclamar que o Espírito Santo dirige o Concílio só quando tudo corre do nosso agrado?” Essa docilidade a Deus, e, portanto, à Igreja, era a marca do ser mais profundo de Dom Helder – jamais a subversão que se alojou aqui e iria explodir contra o seu sucessor.

            Se dom Cardoso tiver conseguido conter, ou ao menos substancialmente reduzir, aquela mentalidade de autonomia, de desconhecimento e até afronta à autoridade diocesana, não apenas de eventuais divergências silenciosas e respeitosas, mas agressões virulentas, primeiro pressões para revogar as determinações do bispo, depois acintes e injúrias para afastá-lo da diocese, – se Dom Cardoso tiver conseguido recompor o catolicismo nestas terras, terá aplainado magnificamente o caminho para que Dom Fernando possa exercer o seu múnus episcopal da forma tranquila e feliz como todos esperamos. Ou seja, no autêntico espírito de Dom Helder, que nunca foi o de achar que a Igreja só estaria certa quando adotasse minhas opiniões e meus caprichos individuais.

  

» José Luiz Delgado é professor universitário

            Eis aqui a quarta – e última – parte da entrevista concedida por D. José Cardoso Sobrinho ao jornalista Ivanildo Sampaio, no início do ano de 1990. Extramente atuais e oportunas são as colocações do Sr. Bispo. A temática das três perguntas agora é Teologia da Libertação.

             JC: Qual a sua posição a respeito da Teologia da Libertação?

             Dom José: A expressão “Teologia da Libertação” tornou-se hoje quase um slogan. Uma espécie de panacéia que serviria para curar todos os males. Mas, no sentido cristão autêntico e tradicional, a Teologia da Libertação nada tem de novidade e designa a essência mesma do Cristianismo. Libertação na Bíblia é sinônimo de salvação e de redenção. E não há nada de mais autêntico no Cristianismo do que a invocação de “Cristo Redentor” ou simplesmente “Salvador”. No entanto, na América Latina, a palavra “Libertador” tem freqüentemente um sentido político. A expressão “Teologia da Libertação” é profundamente ambígua porque recobre uma variedade imensa e profundamente contraditória de teologias e ideologias. A Santa sé promulgou dois documentos sobre a Teologia da Libertação. Um, sobre seus aspectos negativos (Libertatis nuntius); outro, mais positivo, sobre a verdade cristã e a libertação (libertatis conscientia). Assim, podemos dizer que apesar da pluralidade das Teologias da Libertação todas elas podem ser reduzidas a dois grupos; um dominado por ideologias inaceitáveis e falsas; outro, plenamente válido por se constituir uma nova etapa daquela reflexão teológica que veio formar o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja.

 

            JC: Qual seria a falsa Teologia da Libertação?

             Dom José: É aquela que se encerra no âmbito político, terreno, econômico e material, e não se abre para a libertação eterna e transcendente. Isso não quer dizer que essa Teologia não tenha surgido de um desejo sincero de fazer o bem e acabar com a opressão. As gritantes desigualdades entre países ricos e pobres já não são mais toleradas. A fome, a miséria, a dívida

externa do Terceiro Mundo, o neocolonialismo são uma calamidade insuportável. Nessa conjuntura é natural que surjam movimentos político-sociais para realizar transformações radicais, que poriam fim à opressão e à miséria do povo, até mesmo com recursos a meios violentos. É nesse contexto que surgiu a nova interpretação do Cristianismo e da Teologia. Em face da urgência de pôr um termo à exploração dos pobres e marginalizados, alguns teólogos chegaram a pensar que a luta necessária para obter justiça e liberdade humanas, entendidas no sentido econômico e político, constituía o essencial e a totalidade da salvação cristã. Para eles, o evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre. Conceitos tomados por empréstimo à ideologia marxista e o recurso a uma hermenêutica bíblica marcada pelo racionalismo encontram-se na raiz desta modalidade da Teologia da Libertação.

 

            JC: E qual seria a Teologia da Libertação oportuna e necessária?

            Dom José: Se a visão puramente política da Teologia da Libertação deve ser rejeitada, há uma outra que representa um verdadeiro progresso e deve ser aceita sem restrições e com entusiasmo. É aquela que não valoriza apenas a salvação das nossas almas, mas a libertação integral do homem. Uma teologia com raízes bíblicas, identificada plenamente com a Doutrina Social da Igreja, como a Teologia da Libertação parte de uma reflexão teológica sobre a realidade social e seus fundamentos antropológicos. Não é lugar aqui para analisar todos esses grandes temas da autêntica Teologia da Libertação. Vamos nos contentar com elencar apenas alguns tópicos: As dimensões do homem à luz da Revelação. O anseio do homem. O sentido da humanidade. O sentido da Comunidade. Pessoa e sociedade. Dignidade da pessoa. Dignidade do pobre. Prevalência do bem comum. A idolatria da riqueza e do poder. Natureza de missão social da Igreja. Igreja e política. Igreja e liberdade temporais. A atitude de Jesus ante a opressão romana. O compromisso com os pobres. A denúncia da riqueza. As diversas relações humanas. Relações homem-mulher. O sentido da reciprocidade e solidariedade. Princípios de uma nova ordem econômica. A primazia da comunidade sobre a sociedade. A propriedade privada e a hipoteca social. A repartição a nível de empresa. Os direitos do trabalhador. A reforma agrária e a reforma da empresa. A violência. A libertação cultural. O problema na América Latina. Aspecto sóciopolítico. A opressão econômica. As opressões externas. A dívida externa. A deterioração da democracia. A mutação cultural. Impacto sobre os meios de comunicação. Impacto sobre a comunidade de trabalho. Impacto sobre a família. Impacto sobre a vida religiosa. O desequilíbrio cultural. A crise da valorização industrial. A concentração urbana. O descalabro moral. A agressão da fé do povo latino-americano, a proliferação das seitas, as comunidades de base e a conscientização dos pobres. A esperança cristã. Opção pelos pobres. As comunidades eclesiais de base. Opção pelos jovens. Pastoral Social. Pastoral Familiar. A formação da consciência. A comunicação dos bens. Todos esses temas, e muitos outros não mencionados aqui, que constituem a preocupação constante da “Doutrina Social da Igreja”, se identificam com a “Teologia da Libertação” que, por conseguinte, é “oportuna e necessária” como diz o papa João Paulo II.

             Estava planejando postar esta entrevista em, no máximo, 3 partes; contudo, não será possível: é muito extensa! Então adianto mais duas perguntas feitas ao senhor Arcebispo pelo jornalista do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio. Tratam da questão da “opção preferencial pelos pobres”, e do termo “Igreja do povo”. Esta última argüição feita a Dom José é de <<fundamental importância>> para que nós, católicos, [re]formulemos a nossa visão a respeito da Igreja. São palavras realmente esclarecedoras!

 

            JC: O senhor foi apresentado perante a opinião pública como inimigo dos pobres… aceita a “opção preferencial pelos pobres”?

             Dom José: Uma das ofensas mais graves que se pode dirigir a um bispo é acusá-lo de ser inimigo dos pobres. No dia da minha sagração episcopal, jurei solenemente sobre o túmulo do Apóstolo Pedro, “mostrar-me sempre afável e misericordioso para com os pobres e peregrinos e todos os necessitados” (Ritual da sagração). Tanto na primeira diocese que me foi confiada, como nesta Arquidiocese, tenho procurado cumprir fielmente este grave dever de consciência. Ao chegar aqui, recomendei imediatamente aos meus assessores que dispensassem sempre a todos aqueles que nos procurassem um tratamento cordial e caridoso. Esta tem sido sempre minha atitude pessoal. Tenho acolhido sem qualquer protocolo as inúmeras pessoas que me procuram. Na mesma sala de audiências tenho recebido, indistintamente, pobre, ricos, ministros e governantes, e, habitualmente, os irmãos carentes do “Banco da Providência”. A este mesmo “Banco” – que é o centro arquidiocesano de atendimento aos pobres e de promoção humana – já encaminhei através de um grupo de amigos do Canadá. Tenho feito tudo isso sem alarde, sem convocar a televisão para registrar o evento. A acusação a que você se refere teve origem em 1988, quando a presidência do Regional Nordeste II aprovou a exoneração de uma equipe que estava encarregada da Pastoral Rural. Quando o assunto foi levado aos jornais com uma versão distorcida, publiquei uma nota declarando à opinião pública que os motivos daquela exoneração eram de ordem disciplinar, isto é, irregularidades na administração financeira, independência na elaboração e execução de projetos, etc. Então meus opositores se encarregaram de divulgar, nacional e internacionalmente, aquela versão falsa e inverossímil de que eu não aceito a opção pelos pobres e teria destituído aquelas pessoas precisamente porque estavam engajadas nas atividades de defesa dos pobres. O resultado desta campanha difamatória foi uma verdadeira avalanche de mensagens de protestos provenientes do Brasil e de vários outros países. Os responsáveis por esta infâmia haverão de prestar contas a Deus. Nenhuma pessoa de bom senso haverá de acreditar que alguém foi punido porque estava defendendo os pobres ou simplesmente porque era fiel aos apelos do Vaticano II, de Medellín e Puebla. Repito ainda o que já declarei em mais de uma ocasião: a defesa da dignidade humana dos deserdados, dos oprimidos e perseguidos, não é e não pode ser uma mera “opção preferencial”; é dever grave de justiça que pesa sobre toda consciência humana e cristã; é fundamental empenho da nossa Arquidiocese.

 

            JC: Hoje se fala muito em diversos modelos de Igreja. Qual o modelo que o senhor aceita? Por que o senhor não aceita a Igreja que, como se diz na atualidade, vem do povo?

             Dom José: Hoje se fala muito de modelos de Igreja. É uma expressão infeliz. A Igreja é um mistério de graça e liberdade. A palavra “modelo” designa uma realidade física necessária. Ora, a Igreja não é uma realidade natural, é um mistério histórico-salvífico e como tal se situa num horizonte de liberdade onde entram tantos fatores aleatórios, desde a liberdade do Espírito de Deus agindo na história e na liberdade do homem respondendo livremente os apelos da graça, até a riqueza imensa das conjunturas imprevisíveis e dos choques das culturas com as variações quase ilimitadas das aculturações que marcam a história das civilizações nas quais se encarnou a Igreja por dois mil anos. Seria mais acertado usar a metáfora “estilo” em vez de “modelo”. A expressão “Igreja popular”, que “nasce do povo”, foi criticada pela primeira vez pelo Papa João Paulo II, no discurso inaugural de Puebla: “Percebe-se um certo mal-estar com respeito à interpretação da natureza e missão da Igreja institucional ou oficial, qualificada como alienante, à qual se oporia outra Igreja popular, que nasce do povo e se concretiza nos pobres. Esta concepção de Igreja é ideológica e fruto dos magistérios paralelos”, disse o Papa. Os bispos de Puebla retomaram e aprofundaram a questão. O Documento de Puebla distingue dois sentidos da expressão “Igreja que nasce do povo”. O problema da Igreja popular, que nasce do povo, apresenta diversos aspectos. Se se entende Igreja popular como aquela que procura encarnar-se nos meios populares do nosso Continente e que, por isso mesmo, surge da resposta de fé que os grupos do povo dão ao Senhor, evita-se o grande obstáculo: a negação da verdade fundamental, que ensina que a Igreja sempre nasce de uma primeira iniciativa que “vem do Alto”, isto é, do Espírito Santo. Mesmo assim esta expressão é pouco feliz. Muitas vezes a Igreja popular aparece como distinta de outra identificada como a Igreja “oficial” acusada de “alienante”. Isso implicaria uma divisão no interior da Igreja e uma negação inaceitável da função da hierarquia. Tais posições, de acordo, com João Paulo II, poderiam ser inspiradas por conhecidos condicionamentos ideológicos.

             Caríssimos, essa é a segunda parte da entrevista feita por um jornalista do Jornal do Commercio com D. José Cardoso Sobrinho, Arcebispo de Olinda e Recife, em 1990. Desta feita os destaques são para o esclarecimento dos  temas polêmicos da época: fechamento do Instituo Teológico do Recife (ITER), o caso do Padre Reginaldo Veloso (já entrevistado por mim aqui), e outras situações próprias daquele momento da vida da Igreja em Olinda e Recife. Creio que seja importante conhecer a história tal como ela ocorreu, e não como contam uns e outros…

 

            JC: O senhor poderia citar um exemplo de versões que foram passadas aos jornais e que não correspondem à verdade?

             Dom José: O caso mais clamoroso é o da invasão do Palácio dos Manguinhos. Uma típica invasão de domicílio. Veja você que, na hora do almoço, eu sou surpreendido por um grupo de pessoas arrogantes, que chegaram de surpresa e foram logo avisando que chegaram para ficar. Iam acampar no Palácio. Em cada uma das portas do prédio, sentaram três homens ao chão. Eu tentei dialogar e não consegui. O pessoal da casa, que trabalha comigo, foi insultado e agredido com palavrões. O objetivo dos invasores, que usavam a mesma arma de chantagem usada por terroristas e seqüestradores, era coagir o Arcebispo a revogar uma decisão tomada (a transferência de um padre). Como a minha casa, o meu domicílio foi ocupado pela força, eu tive que pedir à polícia que retirasse os invasores. A versão da então diretoria da Comissão de Justiça e Paz, passada para o mundo inteiro, é falsa e caluniosa. Diz que “um grupo de humildes camponeses que desejava apenas falar com o Arcebispo foi repelido pela Polícia”. Essa versão – infamante, falsa, caluniosa – foi mandada, através de circular, para várias partes do mundo, acrescentando que “o Arcebispo não gosta de pobres”. Isso é uma mentira, uma indignidade. Tenho recebido cartas de religiosos, de leigos do mundo inteiro, protestando contra a minha suposta atitude, baseando-se na informação mentirosa e distorcida que a antiga diretoria da Comissão de Justiça e Paz se encarregou de divulgar pelo mundo.

 

            JC: Que medidas o senhor tomou contra a Comissão?

             Dom José: Destituí a sua diretoria. Um órgão da Arquidiocese, que deveria atuar sob responsabilidade do Arcebispo, não pode trabalhar contra o Arcebsipo. É como se, no seu jornal, houvesse um grupo trabalhando contra a diretoria da empresa. É uma inversão de valores. A Comissão de Justiça e Paz tem por objetivo expor, defender e ilustrar a doutrina social da Igreja e a aplicação prática dessa doutrina na defesa dos direitos humanos. A antiga diretoria estava muito mais preocupada em fazer política partidária.

 

            JC: Por falar em política partidária, houve um engajamento muito grande da ala progressista do clero nas últimas eleições. Como o senhor viu isso?

             Dom José: Atribui-se a João XXIII uma frase que diz o seguinte: “Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere”. Ou seja, “ver tudo, dissimular muito, corrigir pouco”. Houve realmente, um envolvimento político-partidário muito grande por parte de padres, freiras, religiosos nessas últimas eleições. Na eleição anterior, os Bispos de Pernambuco redigiram um documento, assinado por unanimidade, no qual eram citadas fontes da Igreja, da CNBB, de Puebla, etc. proibindo aos padres o envolvimento político-partidário. Nas últimas eleições, para escolha do Presidente da República, o decreto foi emitido novamente. Mas, muitos desobedeceram a esse Decreto. E o que fez o Arcebispo? Tolerou. Fechou os olhos. Seguiu o conselho de João XXIII. Não é possível nem é prudente corrigir sempre todos os erros. Muitas vezes é melhor tolerar. Se eu fosse corrigir todos os erros dos quais tenho conhecimento a vida se tornaria impossível. Mas houve um forte envolvimento político-partidário por parte de padres, freiras e agentes pastorais nas últimas eleições.

 

            JC: Dom José, atribuem também ao senhor a responsabilidade pelo fechamento do Seminário Regional Nordeste II (SERENE) e do Instituto Teológico do Recife (ITER). É verdade que a decisão do fechamento foi sua?

             Dom José: Essa é outra história parecida com aquela dos camponeses. A primeira visita apostólica recebida pelas duas instituições data de 1981 e foi feita pelo bispo Dom Oscar Scheid. Esses visitadores são uma espécie de auditores, designados diretamente pelo Vaticano para ver como funcionam suas instituições pelo mundo. Pois bem, já em 1981 – quando eu sequer sonhava em vir a ser um dia o Arcebispo de Olinda e Recife – o visitador dom Oscar Scheid mostrava preocupação com o Serene II. Em 1986, Roma enviou uma carta ao Regional Nordeste II. Essa carta, remetida pela Congregação da Educação Católica, depois de descrever o que o Concílio entende por Seminário Maior, convida os bispos a instituir um Seminário Maior propriamente dito e diz: “Nutrimos viva esperança de que o Serene II se converta dentro de pouco tempo num centro de formação eclesial segundo o Concílio Vaticano II”. Em novembro daquele ano, 1986, foi realizada uma Assembléia Extraordinária dos Bispos do Nordeste II, no Seminário de Olinda, com a presença de 18 bispos, para tratar do assunto mencionado na carta enviada pela Santa Sé. Em Março de 1988 foi celebrada outra Assembléia dos Bispos, em Lagoa Seca, diocese de Campina Grande, na qual, por unanimidade, os Bispos declararam que estavam dispostos a acatar qualquer decisão da Santa Sé, a respeito do Serene e do ITER. No segundo semestre de 1988, foi realizada nova visita apostólica, pelo Arcebispo Coadjutor de Belém do Pará, dom Vicente Joaquim Zico. O relatório do visitador à Santa Sé foi sigiloso. Em julho de 1989, as principais autoridades da Congregação da Educação Católica vieram à Brasília e realizaram um encontro de dois dias, na sede da CNBB nacional, com todos os visitadores dos Seminários no Brasil. Os assuntos tratados nesse encontro permaneceram em sigilo. Em 12 de agosto de 1989, a Congregação da Educação Católica expediu documento no qual se determina o fechamento do ITER e do Serene II. Assim, não se pode atribuir ao Arcebispo de Olinda e Recife a responsabilidade pelo fechamento das duas instituições.

 

            JC: A decisão não foi do senhor, foi da Santa Sé. Mas, o senhor concorda com a decisão?

             Dom José: Sim, concordo. Demonstrei meu pensamento a esse respeito em 1986, ou seja, três anos antes do fechamento, quando retirei os alunos da Arquidiocese de ambas as instituições e reabri o Seminário de Olinda.

 

            JC: E o problema da Igreja do Morro da Conceição? Como está sendo conduzido o caso do Padre Reginaldo Veloso?

             Dom José: O padre Reginaldo se encontra entre aqueles que citei no início da entrevista. Foi um dos primeiros a ser convidado pelo Arcebispo para um colóquio aqui na Arquidiocese. Conversamos reservadamente sobre os problemas de sua Igreja. Mas o padre Reginaldo é daqueles que escrevem ao seu arcebispo através dos jornais. Ele me envia uma carta e os leitores dos jornais têm conhecimento do teor dessa carta primeiro do que eu, que sou o destinatário. E isso eu não posso aceitar. Aliás, no momento está acontecendo um fenômeno anômalo em relação à Igreja do Morro da Conceição. Um grupo de integrantes do Conselho Paroquial apossou-se da chave da Igreja e não quer permitir a posse do novo vigário. Eu poderia invocar a lei para reintegração de posse. Não o fiz ainda porque não quero acirrar ânimos.