Santos


Neste dia de São Bento, deparei-me com o seguinte trecho da sua Regra (grifos meus):

Capítulo 62 – Dos Sacerdotes do Mosteiro

[1] Se o Abade quiser pedir que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para si, escolha dentre os seus, quem seja digno de desempenhar o sacerdócio. [2]Acautele-se o que tiver sido ordenado contra o orgulho ou soberba [3] e não presuma fazer senão o que for mandado pelo Abade, sabendo que deverá submeter-se muito mais à disciplina regular. [4] E não se esqueça, por causa do sacerdócio, da obediência e da disciplina da Regra, mas progrida mais e mais para Deus.

[5] Atente sempre para o lugar em que entrou no mosteiro, [6] exceto no ofício do altar, mesmo que, pelo mérito de sua vida, o quiserem promover a escolha da comunidade e a vontade do Abade. [7] Saiba, no entanto, observar de sua parte a Regra constituída para os Decanos e Priores. [8] E se presumir proceder de outro modo, seja julgado não como sacerdote, mas como rebelde[9] e se, admoestado muitas vezes, não se corrigir, chame-se também o bispo em testemunho. [10] Se nem assim se emendar, sendo claras as suas faltas, seja expulso do mosteiro[11] mas isso no caso de ser tal a sua contumácia, que não queira submeter-se ou obedecer à Regra.

Fonte: Regra de São Bento


Impressionou-me particularmente a veemência das declarações, e a admissão de uma espécie de “foro privilegiado” para os sacerdotes (em contraposição ao juízo dos “rebeldes”). Esta discussão a respeito dos tribunais eclesiásticos já foi objeto de elucubrações mil. Várias vezes debati com amigos sobre esse assunto, sem saber que o argumento de que os sacerdotes não são homens “quaisquer” encontra-se referendado nos escritos do Santo Monge! Mas isso é tema para outra ocasião. Hoje, importa rezar a Oração de São Bento, e voltar o olhar para o seu exemplo de santidade e dedicação a Deus.

São Bento, rogai por nós!

Para assistir à homilia feita pelo Pe. Mateus Maria, FMDJ, neste XV Domingo do Tempo Comum, ano C, clique aqui.

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Fonte: Filotéia –  Parte III – São Francisco de Sales
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“Estejas sempre de sobreaviso para afastar logo de ti tudo o que te possa inclinar à sensualidade; pois este mal se vai alastrando insensivelmente e de pequenos princípios faz rápidos progressos. Numa palavra, é mais fácil fugir-lhe que curá-lo.
Parecem-se os corpos humanos com os vidros, que não se pode levar juntos, tocando-se, sem correr perigo de se quebrarem, e com as frutas, que, embora inteiras e bem maduras, recebem manchas, chocando umas com as outras. A água mais fresca que se quer conservar num vaso perde logo a sua frescura mal um animal a toca.
Nunca permitas, Filotéia, nem a outros nem a ti mesma, todos esse tocar exterior das mãos igualmente cotra a modéstia cristã e contra o respeito que se deve à qualidade e à virtude duma pessoa; pois, ainda que não seja de todo impossível conservar o coração puro entre essas ações mais levianas que maliciosas, todavia sempre se recebe daí algum dano; nem falo aqui desses tactos desonestos que arruinam por completo a castidade.
A castidade depende do coração, quanto à sua origem, mas sua prática exterior consiste em moderar e purificar os sentidos; por isso podemos perdê-la tanto pelos sentidos exteriores como por pensamentos e desejos do coração. É impudicícia olhar, ouvir, falar, cheirar, palpar coisas desonestas, quando nisso o coração se demora e toma gosto. S. Paulo chega a dizer: “Meus irmãos, a fornicação nem se nomeie entre vós”.
As abelhas não só não pousam num cadáver corrompido, mas até fogem do mau cheiro que exala.
Observe o que a Sagrada Escritura nos diz da Esposa dos Cantares: “Tudo aí é místico: suas mãos destilam mirra e este líquido, como sabes, perserva da corrupção; seus lábios são fitas de rubim vermelho, o que nos indica o seu pudor até à palavra menos desonestas; seus olhos são comparados aos olhos da pomba, por causa da sua inocência; suas orelhas têm brincos de ouro, desse metal precioso que significa a pureza; seu nariz é comparado ao cedro do Libano, cujo odor é suavíssimo e que tem uma madeira incorruptível.”
Que quer dizer tudo isso? A alma devota deve ser casta, inocente, pura e honesta em todos os sentidos exteriores.
Nunca trates com pessoa de induvitáveis costumes corrompidos, sobretudo se forem também imprudentes, como quase sempre o são.
Diz-se que os cabritos, tocando com a língua nas amendoeiras doces, tornam os seus frutos amargos; e essas almas brutais e infectas, falando a pessoas do mesmo sexo ou de sexo diferente, causam grande dano ao pudor, assemelhando-se também aos basiliscos, que têm o veneno nos lábios e no hálito.
Ao contrário, procura a companhia de pessoas castas e virtuosas; ocupa-te muitas vezes com a leitura da Sagrada Escritura; porque a palavra de Deus é casta e torna castos os que a amam. Daí vem que Davi a compara a esta pedra preciosa que se chama topázio e que tem a propriedade especial de mitigar o ardor da concupiscência.
Conserva-te ao lado de Jesus Cristo crucificado, quer espiritualmente — pela meditação, quer real e corporalmente — na santa comunhão. Sabes de certo que os que se deitam sobre aquela erva agnus castus vão tomando insensivelmente disposições favoráveis à castidade; estejas certa que, se teu coração descansar em Nosso Senhor, que é realmente o Cordeiro Imaculado, bem depressa purificarás tua alma, teu coração e teus sentidos, inteiramente, de todos os prazeres sensuais.

O gloriosíssimo São José

O gloriosíssimo São José

“Ite ad Ioseph” é o convite que a Igreja nos faz hoje: “Ide a José!”.  Freqüentemente a Igreja recomendou que os Seus filhos recorressem  a São José, Patrono da Igreja Universal, para que ele nos ensine suas múltiplas virtudes e nos socorra em nossas muitíssimas necessidades. Gosto de uma antiga analogia que compara o Casto Esposo de Maria com uma árvore criada  “não para dar frutos, mas para dar sombra”. De fato, ao glorioso São José sempre foi associada a função de protetor, de guardião. Por isso invocamo-lo sob o título de “custos pudíce Virginis” [casto guarda da Virgem]; e: “Christi defénsor sédule” [zeloso defensor de Cristo]; e ainda: “protector Sanctae Ecclesiae” [protetor da Santa Igreja]. Uma antiga ladainha diz ainda [em referência a São José]: “Constítuit eum dóminum domus suae. Et príncipem omnis possessiónis suae” [Ele constituiu-o Senhor da sua casa. E fê-lo príncipe de todos os seus bens]. Que bonito: José é também administrador das graças divinas [bens], assim como Nossa Senhora é a dispensadora dessas graças. Que ele nos ensine seu silêncio, seu sorriso e sua sabedoria. E, como eu não podia deixar de pedir, que pela poderosíssima intercessão daquele que é “exemplar opíficum” [modelo dos operários], convertam-se os TL’s e os comunistas 😉

Oração I

Ó Deus, que por admirável disposição da vossa Providência Vos dignastes escolher o bem-aventurado José para esposo da Vossa Mãe Santíssima, fazei que mereçamos ter no Céu como advogado aquele que na terra veneramos como protetor. Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.

Oração II

Guarda e Pai das Virgens, São José, a cuja fiel proteção foram confiados Jesus Cristo, a mesma inocência, e Maria, Virgem das Virgens, em nome de Jesus e de Maria, esse duplo depósito que tão caro vos foi, vos rogo e suplico que me conserveis isento de toda a impureza, para que, com espírito puro e corpo casto, sempre sirva fielmente a Jesus e a Maria. Amém.

Abaixo um pequeno texto de São Josémaria Escrivá sobre São José:

“Ide a José e encontrareis Jesus”

Ama muito S. José, quer-lhe com toda a tua alma, porque é a pessoa que, com Jesus, mais amou Santa Maria e quem mais conviveu com Deus: quem mais o amou, depois da Nossa Mãe. Merece o teu carinho e convém-te dar-te com ele, porque é Mestre de vida interior e pode muito ante Nosso Senhor e ante a Mãe de Deus. (Forja, 554)

José foi, no aspecto humano, mestre de Jesus; conviveu com Ele diariamente, com carinho delicado, e cuidou dele com abnegação alegre. Não será esta uma boa razão para considerarmos este varão justo, este Santo Patriarca, no qual culmina a Fé da Antiga Aliança, Mestre de vida interior? A vida interior não é outra coisa senão o convívio assíduo e intimo com Cristo, para nos identificarmos com Ele. E José saberá dizer-nos muitas coisas sobre Jesus. Por isso, não deixeis nunca de conviver com ele; ite ad Joseph, como diz a tradição cristã com uma frase tomada do Antigo Testamento.

Mestre da vida interior, trabalhador empenhado no seu trabalho, servidor fiel de Deus em relação contínua com Jesus: este é José. Ite ad Joseph.Com S. José o cristão aprende o que é ser Deus e estar plenamente entre os homens, santificando o mundo. Ide a José e encontrareis Jesus. Ide a José e encontrareis Maria, que encheu sempre de paz a amável oficina de Nazaré. (Cristo que passa, nn. 56)

A Igreja inteira reconhece S. José como seu protetor e padroeiro. Ao longo dos séculos tem-se falado dele, sublinhando diversos aspectos da sua vida, sempre fiel à missão que Deus lhe confiara. Por isso, desde há muitos anos, me agrada invocá-lo com um título carinhoso: Nosso Pai e Senhor.

S. José é realmente Pai e Senhor, protegendo e acompanhando no seu caminho terreno aqueles que o veneram, como protegeu e acompanhou Jesus enquanto crescia e se fazia homem. (Cristo que passa, nn. 39).


[Já que ontem postei um vídeo sobre “corpos incorruptos”, resolvi [re]publicar hoje a tradução de um texto homilético de autoria do Fr. Raniero Cantalamessa. O texto versa sobre a morte na perspectiva cristã. Um paradoxo: tenebroso, mas esclarecedor].

 

Decidi traduzir esta excelente meditação do pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, para o Dia de Finados. Do livro Gettate le Reti – Riflessione sui Vangeli, Anno A. páginas 391 a 396.

 

2 de Novembro: Comemoração de todos os fiéis defuntos

Sb 3, 1-9; Ap 21, 1-5.6-7; Mt 5, 1-12

 

            Tudo, neste dia, nos convida a refletir sobre o tema austero, mas salutar, da morte. Na Escritura lemos esta solene declaração:

 

            “Deus não criou a morte e não se delicia com a ruína dos vivos. Ele, de fato, criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é reina sobre a terra porque a justiça é imortal. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 1, 13-15. 23-24a).

 

            Esta palavra nos dá a chave para entender porque a morte suscita em nós tanta repulsa. O motivo é que não é “natural”. Assim como a experimentamos na presente ordem das coisas, é algo de estranho à nossa natureza, fruto da inveja do diabo. Por isto lutamos contra ela com todas as forças. Esta irreprimível recusa à morte é a melhor prova de que nós não somos feitos para ela e que não pode ser ela a ter a última palavra. Isto mesmo assegura a primeira leitura de hoje:

 

            “As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aos olhos dos insensatos parecem mortos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles é cheia de imortalidade” (Sb 3, 1-4).

 

            Hoje é ocasião para uma reflexão existencial, não só da fé, sobre a morte. Se não temos coragem de encarar esta realidade num dia como hoje, quando o faremos? Um historiador antigo narra que o rei Damocle quis um dia mostrar como vive um rei, a um súdito que inveja a sua condição. Convidou-o à sua mesa e lhe fez servir um grande banquete. A vida na corte parecia-lhe cada vez mais invejável. Mas a um certo ponto o rei o convida a elevar o olhar acima de si, o que vê o servo? Uma espada pendia sobre a sua testa com a ponta para baixo, presa a uma crina de cavalo! Assustado, pálido, de queixo caído, começou a tremer. Assim, queria dizer Damocle, vive um rei: com uma espada que pende noite e dia sobre a sua cabeça.

 

            Mas não só o rei, também nós. Uma espada de Damocle pende sobre a testa de todos os homens, ninguém está excluído. Só que esses tendem a ser destruídos, como o são todos os seus trabalhos e distrações. Esta espada se chama morte. “Quando nasce um homem, dizia Santo Agostinho, podem-se levantar duas hipóteses: ou será belo, ou feio; ou será rico, ou pobre; ou viverá muito, ou não. Mas de ninguém se dirá: ou morrerá, ou não morrerá. Esta é a única coisa absolutamente certa da vida. Quando sentíamos que alguém está acometido de hidropsia (no tempo do santo esta era uma doença incurável), dizemos: Pobrezinho, deve morrer; está condenado, não há remédio!” Mas não devemos dizer a mesma coisa de cada homem que nasce? “Pobrezinho, deve morrer, não há remédio”.

            Dir-se-á: mas já não estamos bastante enfastiados do pensamento de morte? Que necessidade temos de enfiar a faca na ferida? É verdade. O medo da morte é o conflito mais profundo de cada ser humano, e começa a manifestar-se confusamente logo que a criança chega à idade da razão e da consciência. A angústia da morte, disse um grande psicólogo, é um “verme no centro” (no centro de cada pensamento); essa é a expressão imediata do mais forte dos instintos humanos, o instinto de autoconservação (William James).  Houve quem quisesse trazer para todas as atividades humanas o instinto sexual e explicar tudo com ele, a arte e a religião. Porém, mais forte que o instinto sexual é aquele do conflito da morte, da qual a mesma sensualidade não é mais que uma manifestação, quase um tentativa de subtrair-se à morte. Se se pudesse ouvir o grito que sai da humanidade inteira, se escutaria o urro tremendo: não quero morrer.

            Deste modo, por que convidar os homens a pensar na morte, se essa já está tão presente entre nós? É simples. Porque nós homens escolhemos remover o pensamento da morte. De fazer de conta que ela não existe, ou que existe só para os outros, não para nós. Planejamos, corremos, nos exasperamos por causa de nada, como se num certo momento não devêssemos largar tudo e partir. Em uma grande cidade da Itália é criado, depois da guerra, um novo bairro residencial de luxo. Os construtores haviam decidido que não deveria existir nele nenhuma Igreja e o motivo era que o toque dos sinos para a visita aos mortos e aos funerais poderiam perturbar a tranqüilidade dos inquilinos.

            Mas o pensamento da morte não é deixar de lado ou remover com estes pequenos passos. Agora não basta reprimi-lo como a maioria de nós faz. Reprimi-lo a custo de fadigas, atenção constante, um contínuo esforço psicológico, como para fechar uma tampa que tende sempre a sobrepor-se. Nós empenhamos uma parte considerável das nossas energias para manter longe de nós o pensamento da morte. Alguns ostentam segurança a este respeito, dizem que sabem que devem morrer, mas que não se preocupam excessivamente; que pensam na vida e não na morte… Mas são o retrato de um homem secularizado; na realidade este não é o único dos tantos modos com os quais se tenta exorcizar o medo.

            Que respostas o homem tem encontrado para o problema da morte? Os poetas foram os mais sinceros. Não havendo soluções a propor, eles nos ajudam a ao menos tomar consciência da nossa situação. Um poeta espanhol do século XVIII, Gustavo Bécquer, fala de uma onda gigante que o vento sopra sobre o mar, que avança como um redemoinho que passa, sem saber sobre qual praia vai quebrar; de uma luz próxima de apagar-se que brilha em círculos trêmulos, ignorando qual destes brilhará por último; e conclui dizendo: Assim são os que, a passeio, vagam pelo mundo sem pensar em de onde vêm, nem para onde os meus passos me conduzem.

            Os filósofos ao contrário tentaram explicar a morte. Um destes, Epicuro, afirmou que a morte é um falso problema porque – dizia – “quando nós existimos a morte não existe ainda, e quando a morte existe, nós já não existimos mais”.  Também o marxismo tentou eliminar o problema da morte. A morte, disse, é própria das pessoas. E, demonstra que não se deve levar em conta a pessoa humana, mas a sociedade, a espécie que não morre. O homem sobrevive na sociedade que ajudou a construir. O marxismo, porém, acabou, e o problema da morte continua. Antes mesmo da corrida armamentista e dos mercados mundiais, o comunismo já havia perdido a sua batalha nos corações. Não soube fazer algo para enfrentar a morte, senão construir grandes mausoléus: a Lênin e a Stálin.

            Um filósofo moderno, Heidegger, explicou que a morte não é um incidente que põe fim à vida, mas é a substância mesma dessa vida. Nós não podemos viver se não morrendo. Cada momento que passa é u, fragmento retirado da nossa vida. O dito “morro a cada dia um pouco” (quotidie morior), é verdadeiro ao pé da letra.

            Os homens não pararam, desde que o mundo é mundo, de buscar remédios contra a morte. Um destes, típico do antigo testamento, se chama a prole: sobreviver nos filhos. Um outro é a fama. “Não morrerei de um todo” canta o poeta pagão (non omnis moriar); “Erguerei um monumento mais duradouro que o bronze” (aere perennius) (Orácio).

 

 

 

 

            Nos nossos dias têm se desenvolvido um novo pseudo-remédio: a doutrina da reencarnação. Mas:

 

            “É estabelecido que os homens morram uma só vez, depois disso vem o juízo” (Hb 9,27)

 

            Uma só vez! A doutrina da reencarnação é incompatível com a fé cristã, que por seu lado professa a ressurreição da morte. Alguém se lembra daquilo que foi ou fez na vida passada? Acaso se pode dizer que é a mesma pessoa a renascer, se não há a consciência de ser a mesma pessoa; se o “eu” mesmo foi trocado?

            Tal como é proposta a reencarnação no Ocidente é fruto, entre outros, de um grave equívoco. Nas origens, e em quase todas as religiões em que é professada como parte integrante do próprio credo, a reencarnação não significa um suplemento de vida, mas de sofrimento; não e motivo de consolação, mas de desespero. Com essa se veio dizer ao homem: “Ainda que você faça o mal, você vaio renascer para expiá-lo!”. É como dizer a um encarcerado, ao fim de sua detenção, que a sua pena foi duplicada e deve recomeçar do início.

            Limitamo-nos, como disse, a algumas reflexões gerais sobre a morte, sem adentrar nas respostas da fé. Só para tomar consciência do fato e não nos deixarmos pegar de surpresa, despreparados. Mas para que serve pensar na morte? É mesmo necessário fazê-lo? Sim, é útil e necessário. Serve antes de tudo para nos prepararmos para morrer bem. O galho que pende de uma árvore, uma vez cortado, cairá. Mas serve também, e mais, para viver bem, com mais calam e sabedoria:

 

“Ensinai-nos a contar os nossos dias, e obteremos a sabedoria do coração” (Sl 89,12).

 

            Não existe ponto melhor no qual colocar-se para ver o mundo, na verdade de todos os seus acontecimentos, que a morte. ? Há angústias pelos problemas, dificuldades, contrastes? Prossegui, colocando-se num ponto de observação estratégico, olha estas coisas como te aparecem naquele momento e verás como as coisas ganharão nova dimensão. Não se caí na depressão e na inatividade; ao contrário, se faz mais e melhora as coisas, porque se está mais calmo, mais bem posicionado.

            Lembro uma espécie de rima, ingênua mas cheia de sabedoria, que a gente cantava no dia dos mortos, e que nunca perdeu sua validade:

 

“Se já se passaram cem anos,

Sem penas e sem afãs,

Que será a morte?

Tudo é vaidade”.

Não lembro se já postei aqui no blog algo sobre isso. Mas acho bem legal este vídeo: ele traz imagens de santos cujos corpos não sofreram a corrupção da morte! 😉 Está no Youtube:

 

 

Muitas pessoas nada sabem acerca do Papa João Paulo I. Esmagado entre duas figuras de grande projeção [Paulo VI e João Paulo II], e tendo sido titular de um pontificado brevíssimo [de 33 dias], João Paulo I quase foi esquecido pela história moderna da Igreja. Quase. A Quadrante – editora ligada a Opus Dei – publicou um artigo de sua autoria [o artigo foi escrito antes da sua eleição à Cátedra de Pedro, ou seja, quando ainda era Cardeal Albino Luciani]. No texto, o então Cardeal Luciani apresenta a figura de São Josemaría Escrivá de Balaguer – fundador do Opus Dei. E o faz de uma maneira fina, suave, aproveitando para expor aquilo que é o centro da mensagem de São Josemaría: a santificação pelo trabalho e pelas tarefas ordinárias. Detalhe: Mons. Escrivá ainda não havia sido canonizado quando o sucessor de Paulo VI escreveu este artigo. Achei bem interessante. Leiam:

 

Buscando a Deus no trabalho ordinário

Por Albino Luciani

 

 Último artigo publicado pelo cardeal Luciani no Il Gazzetino, de Veneza, a 25-VII-1978, antes de ser eleito o Papa João Paulo I; versa sobre São Josemaría Escrivá, Fundador do Opus Dei.

 Em 1941, o espanhol Víctor Garcia Hoz, depois de confessar-se, ouviu o sacerdote dizer-lhe: “Deus o chama pelos caminhos da contemplação. Ficou desconcertado. Sempre tinha ouvido dizer que a contemplação era assunto de santos destinados à vida mística, e que somente a conseguiam uns poucos eleitos, gente que, além disso, se afastava do mundo. Ora, naquela época – escreve García Hoz –, eu já estava casado, tinha dois ou três filhos e a esperança – confirmada depois – de ter mais, e trabalhava para levar avante a minha família.

Quem era aquele confessor revolucionário, que saltava olimpicamente as barreiras tradicionais, propondo metas místicas até aos casados? Era Josemaria Escrivá de Balaguer, sacerdote espanhol, falecido em Roma em 1975, aos setenta e três anos de idade. É conhecido, sobretudo, por ser o Fundador do Opus Dei, associação (1) estendida por todo o mundo, da qual os jornais se ocupam com freqüência, mas com muitas imprecisões. O próprio Fundador disse o que são na realidade e o que fazem os sócios do Opus Dei. Somos – declarava em 1967 – uma pequena percentagem de sacerdotes, que anteriormente exerciam uma profissão ou um oficio laical; um grande número de sacerdotes seculares de muitas dioceses do mundo <…>; e a grande multidão formada por homens e mulheres – de diversas nações, de diversas línguas, de diversas raças – que vivem do seu trabalho profissional, casados a maior parte deles, solteiros muitos outros, e que, ao lado dos seus concidadãos, tomam parte na grave tarefa de tornar mais humana e mais justa a sociedade temporal: na nobre lide dos afãs diários, com responsabilidade pessoal <…>, experimentando com os outros homens, lado a lado, êxitos e malogros, tratando de cumprir os seus deveres e de exercer os seus direitos sociais e cívicos. E tudo com naturalidade, como qualquer cristão consciente, sem mentalidade de gente seleta, fundidos na massa dos seus colegas, enquanto procuram descobrir os fulgores divinos que reverberam nas realidades mais vulgares” (2).

Com palavras mais simples, as realidades vulgares são o trabalho que nos cabe fazer diariamente; os brilhos divinos que reverberam são a vida santa que temos de levar. Escrivá de Balaguer, com o Evangelho, dizia constantemente: Cristo não quer de nós somente um pouco de bondade, mas muita bondade. Contudo, quer que o consigamos não por meio de ações extraordinárias, mas com ações comuns; o que não deve ser comum é o modo de realizar essas ações. No meio da rua, no escritório, na fábrica, fazemo-nos santos, desde que cumpramos o nosso dever com competência, por amor de Deus e alegremente, de forma que o trabalho diário não seja a tragédia diária, mas o sorriso diário.

Há mais de trezentos anos, São Francisco de Sales ensinara coisas semelhantes. Do púlpito, um pregador condenara publicamente ao fogo o livro em que o Santo explicava que, respeitadas certas condições, o baile podia ser lícito, um livro que continha até um capítulo inteiro dedicado à honestidade do leito conjugal. Sob certos aspectos, contudo, Escrivá supera São Francisco de Sales. Este também propunha a santidade para todos, mas parece que ensina somente uma espiritualidade dos leigos, ao passo que Escrivá oferece uma espiritualidade laical. Ou seja, Francisco sugere quase sempre aos leigos os mesmos meios utilizados pelos religiosos, com as oportunas adaptações. Escrivá é mais radical: fala até mesmo de materializar – no bom sentido – a santificação. Para ele, o que deve transformar-se em oração e santidade é o próprio trabalho material.

O lendário barão de Münchausen contava a fábula de uma lebre monstruosa, com dois grupos de patas: quatro debaixo da barriga e quatro sobre o lombo. Perseguida pelos cachorros, e sentindo-se quase alcançada, dava uma reviravolta e continuava a correr com as patas que estavam descansadas. Para o Fundador do Opus Dei, seria um monstro a vida dos cristãos que pretendessem ter dois grupos, dois tipos, de ações: um feito de orações, para Deus; outro, feito de trabalho, diversões e vida familiar, para si mesmos. Não – diz Escrivá –, a vida é única e tem de ser santificada no seu conjunto. Por isso fala de espiritualidade materializada.

Fala também de um justo e necessário anticlericalismo, no sentido de que os leigos não devem roubar métodos e funções aos padres e aos frades, nem vice-versa. Creio que herdou esse anticlericalismo de seus pais, e especialmente de seu pai, um cavalheiro sem mancha, trabalhador infatigável, cristão convicto, apaixonadíssimo por sua mulher e sempre sorridente. Recordo-o sempre sereno – escreveu o seu filho –; a ele devo a vocação: por isso sou «paternalista». Outra pincelada anticlerical vem-lhe provavelmente das pesquisas que fez para a sua tese de doutorado em Direito Canônico, no mosteiro das monjas cistercienses de Las Huelgas, perto de Burgos. Ali, a abadessa foi, ao mesmo tempo, senhora, superiora, prelado, governadora temporal do mosteiro, do hospital, dos conventos, das igrejas e das vilas dependentes, com jurisdição e poderes régios e quase episcopais. Outro monstro, por causa dos múltiplos oficios contrapostos e superpostos. Amassados assim, esses trabalhos não reuniam condições para ser trabalho de Deus, como pretendia Escrivá. Porque – dizia – como é que o trabalho pode ser de Deus se está mal feito, com pressa e sem competência? Como pode ser santo um pedreiro, um arquiteto, um médico, um professor, se não é, na medida das suas possibilidades, um bom pedreiro, um bom arquiteto, um bom médico ou um bom professor? Na mesma linha, Gilson tinha escrito em 1949: Dizem-nos que foi a fé que construiu as catedrais na Idade Média; estamos de acordo…, mas também a geometria. Para Escrivá, fé e geometria, fé e trabalho realizado com competência vão de braço dado; são as duas asas da santidade.

Francisco de Sales confiou a sua teoria aos livros. Escrivá fez o mesmo, utilizando retalhos de tempo. Quando lhe ocorria uma idéia ou uma frase expressiva, talvez enquanto conversava, puxava do bolso a agenda e escrevia rapidamente uma palavra, meia linha, que mais tarde usava para um livro. A par dos seus divulgadíssimos livros, dedicou uma atividade intensíssima a propagar a sua grande empresa de espiritualidade e organizou a associação do Opus Dei. Dê um prego a um aragonês – diz o refrão – e ele o cravará com a própria cabeça. Pois bem, eu sou aragonês – escreveu – e precisamos ser teimosos. Não perdia um só minuto. A princípio, na Espanha, durante e depois da guerra civil, depois de dar aulas aos universitários, passava a fazer a comida, a esfregar o chão, a arrumar as camas e a atender os doentes. Tenho na minha consciência – e o digo com orgulho – milhares de horas dedicadas a confessar crianças nos bairros pobres de Madrid. Vinham com ranho até a boca. Era necessário começar por limpar-lhes o nariz, para poder limpar depois aquelas pobres almas. Assim escreveu, demonstrando que vivia de verdade o sorriso diário. E também: Ia deitar-me morto de cansaço. Quando me levantava, pela manhã, ainda cansado, dizia para mim mesmo: «Josemaria antes de almoçar, você tirará uma sonequinha». Mas, assim que saía à rua, contemplando o panorama dos trabalhos que me esperavam naquele dia, acrescentava: «Josemaría, enganei-o de novo».

Mas o seu grande trabalho foi fundar e desenvolver o Opus Dei. O nome veio por um acaso. Isto é uma obra de Deus, disse-lhe alguém. Eis o nome exato, pensou: a obra não é minha, mas de Deus. Opus Dei. Viu crescer essa obra diante dos seus olhos, até estender-se por todos os continentes: começou então o trabalho das suas viagens intercontinentais para as novas fundações e para dar conferências. A extensão, o número e a qualidade dos sócios do Opus Dei fez com que alguns pensassem não se sabe em que intenções de poder e férrea obediência de grupo. A verdade é o contrário: só existe o desejo de fazer santos, mas com alegria, com espírito de serviço e de grande liberdade.

Somos ecumênicos, Santo Padre, mas não aprendemos o ecumenismo de Vossa Santidade, atreveu-se a dizer um dia ao Papa João XXIII. Este sorriu: sabia que, desde 1950, o Opus Dei tinha permissão de Pio XII para receber como cooperadores os não católicos e os não cristãos.

Escrivá fumava quando era estudante. Quando entrou no seminário, deu de presente os cachimbos e o tabaco ao porteiro e não voltou a fumar. Mas no dia em que foram ordenados os três primeiros sacerdotes do Opus Dei, disse: Eu não fumo, e vocês três também não: Álvaro (3), é necessário que você comece a fumar; desejo que os outros não se sintam constrangidos e que fumem, se gostam. Às vezes, acontece que um sócio, a quem o Opus Dei somente incentiva a tomar livre e responsavelmente as suas decisões, também na política, vem a ocupar um cargo importante. Isso é assunto que diz respeito somente a ele, não ao Opus Dei. Quando, em 1957, uma alta personalidade felicitou Escrivá porque um sócio tinha sido nomeado ministro na Espanha, recebeu esta resposta mais propriamente seca: Que me importa que seja ministro ou varredor de rua? O que importa é que se santifique com o seu trabalho. Esta resposta contém todo o pensamento de Escrivá e o espírito do Opus Dei: que cada qual se santifique com o seu trabalho, ainda que seja de ministro, se tem esse cargo: que seja santo de verdade. O resto pouco interessa.

NOTAS

(1) Na ocasião em que o artigo foi escrito, o Opus Dei ainda não tinha sido erigido em Prelazia pessoal, uma figura jurídica prevista pelo Concílio Vaticano II e recolhida no Código de Direito Canônico promulgado em 1983 pelo Papa João Paulo 11, e os seus membros ainda eram designados pelo termo, hoje superado, de sócios (N. do E.)

(2) Josemaria Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, 1985, n. 119.

(3) D. Álvaro dei Portillo (1914-1994) foi, de 1935 a 1975, o colaborador mais próximo do Bem-aventurado Josemaría Escrivá. Por ocasião do falecimento do Fundador do Opus Dei, foi eleito seu primeiro sucessor. Ao erigir a Obra em Prelazia pessoal, em 28 de novembro de 1982, o Papa João Paulo II nomeou-o Prelado e, alguns anos mais tarde, conferiu-lhe a ordenação episcopal (N. do E.).

 

[Eis aqui uma curta homilia pronunciada por São Bernardo, abade, sobre a submissão de Nosso Senhor a São José e à Virgem Santíssima. A publicação original encontra-se no blog São Pio V]

 

 

Homilía sancti Bernárdi Abbátis

(Homilia de São Bernardo Abade)
 
Homilia 1 supra Missus est, n. 7-8
 
 

“E Ele lhes era submisso”. Quem era submisso a quem? Deus ao homem! Deus, repito-o, a Quem os Anjos são submissos, Que os Principados e Potestades obedecem, era submisso a Maria, e não somente a Maria, mas a José também, por causa de Maria. Maravilhemo-nos, pois, com os dois, e escolhamos o que maravilha mais: se é a benigníssima condescendência do Filhio, ou a excelentíssima dignidade da Sua Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d’Ele?

Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse : “E Ele lhes era submisso”. E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador? Porque todas as vezes que Eu desejo preeminência sobre os homem, me esforço para superar Deus. Porque d’Ele foi dito : “Ele lhes era submisso”. Se tu desdenhas, ó homem, seguir o exemplo do homem, pelo menos poder seguir o exemplo do teu Criador sem desonra. Se, por acaso, não podes segui-l’O onde quer que Ele vá, digna-te, ao menos, segui-l’O nesse ponto no qual Ele Se rebaixou, desprezando a própria reputação pelo bem daqueles como tu.

Se não podes entrar para os caminhos sublimes da virgindade, ao menos segue Deus pela estrada seguríssima da humildade. Quem se desvia desse caminho reto, mesmo que seja virgem, a verdade seja dita, não segue o Cordeiro por onde quer que Ele vá. O homem humilde, mesmo que manchado de pecado, segue o Cordeiro ; a virgem, se é orgulhosa, também segue ; mas nenhum dos dois O segue por onde quer que Ele vá. O primeiro não pode atingir a pureza do Cordeiro, porque Ele é sem mancha ; a última não se digna descer à Sua mansidão, que cala não diante do tosquiador, mas fica mudo diante do próprio assassino. Ainda assim, o pecador que segue em humildade escolheu um caminho mais salvífico do que o homem orgulhoso que segue em virgindade ; porque o humilde presta satisfação, e é limpo de sua impureza, mas a castidade do orgulhoso é manchada pela sua soberba.

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