Caríssimos,

Publiquei na página “Encontros” (localizada na barra lateral deste blog) o áudio de uma entrevista que me foi concedida por um dos membros do Movimento Igreja Nova. É curiosa a postura deles… Vão lá. Ouçam e comentem!

 

            “Em uma época em que movimentos missionários cristãos das mais variadas estirpes lançam campanhas de conversão de judeus, é importante conhecer as diferenças entre nós e os cristãos para termos claras as linhas vermelhas que separam cada religião”. (trecho do artigo intitulado “Jesus, é detalhe!”, disponível aqui neste link. Grifos meus).

 

             Ao me deparar com este artigo, fiquei profundamente irritado. A começar pelo título desaforado que puseram. Tenho certeza que se eu escrevesse que o Shabat era um detalhe (e, de fato, o Shabat é uma coisa irrelevante, sem nenhuma importância) seria taxado de anti-semita. Mas, como não são os cristãos que estão escrevendo, então pode…

            Bom, deixando um pouco de lado algumas discussões importantes suscitadas por este artigo dos judeus (como, por exemplo, a discussão sobre a cruzada anticristã que tem se instaurado na nossa sociedade), quero chamar a atenção para aquilo que está por trás do texto, bem como aquilo que se encontra nas suas entrelinhas.

            Percebi, através do tal artigo, que os judeus sabem definir com clareza qual é a medida e quais são as regras do seu relacionamento com as demais religiões (notadamente o cristianismo). Não vou julgar o mérito dos argumentos deles (porque é óbvio que eles estão redondamente enganados quanto a sua interpretação das escrituras), mas devo reconhecer que o modo como eles transmitem as suas convicções e defendem a sua essência ante a multiplicidade religiosa vigente, é admirável. Eles fazem apologética! Nós, católicos, infelizmente – por conta do maldito espírito do “politicamente correto” -, há muito abandonamos esta forma de debate. Os judeus sabem se relacionar porque têm a exata noção da sua identidade (da qual se orgulham bastante) e procuram defender, com unhas e dentes, aquilo que são os pilares da sua fé. Em resumo: eles sabem determinar até que ponto as coisas são discutíveis. Sabem quais são aquelas “verdades inegociáveis” das quais não se deve abrir mão para não correr o risco de falsear a fé.

            É inadmissível que os judeus [que – como dizia o Padre Antônio Vieira“têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés] enxerguem a importância de delinear a própria identidade e nós, católicos, não o percebamos!

            Não é preciso consultar o Ibope para saber que a maioria dos católicos não sabe “fazer ecumenismo”. Acham que ecumenismo é viver uma paz de cemitério em que cada um permanece no seu canto e, assim, ninguém incomoda ninguém.  É a proposta, e a conseqüência, do relativismo em voga: cada um fica com a “sua” verdade. Cada um fica com o “seu” Deus – fabricado sob encomenda – e, assim, cada um trilha o caminho que o próprio nariz aponta. É uma pena. Morreu, em muitas pessoas, o anseio por conhecer a verdade. Os conceitos de “falso” e “verdadeiro” foram relegados, exclusivamente, às provas de concurso… O “sim, sim; não, não” (Mt 5, 37) foi substituído por um “depende”…

            Estou convencido de que a origem de tanta confusão em torno do relacionamento com as outras religiões cristãs, está no fato de que nós, católicos, não sabemos quem somos. Perdemos muito da nossa identidade, e já não nos enxergamos mais como “uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa” (1 Pd 2,9). É como se tivéssemos deixado de ser um povo, para ser “um grupo religioso que tem uma visão diferente”. Os judeus, porém, não admitem que a unidade da fé ceda lugar à multiplicidade das opiniões.

            Ah se nós católicos fizéssemos o mesmo!

            Se soubéssemos que nenhum templo de outra religião é tão digno quanto o interior de nossas igrejas: porque nelas está Deus mesmo, em sua totalidade (corpo, sangue, alma e divindade)!

            Se soubéssemos que nenhum líder religioso de outra religião tem a autoridade de um sacerdote católico: porque este, unindo sua voz à Palavra d’Ele, traz ao altar o Filho de Deus.

            Se defendêssemos, ainda que ao custo da própria vida, a Mãe de Deus – tão vilipendiada pelos hereges e descrentes.

            É lamentável dizer isso, mas parece que alguns católicos estão precisando ouvir o Shemá, Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor(Dt 6,4).

            A meu ver, a entrevista abaixo, publicada pelo Fratres in Unum, ainda vai dar o que falar nos meios tradicionalistas…

Cardeal Walter Kasper: “A atitude da FSSPX não é católica”

Excertos de entrevista concedida pelo Cardeal Walter Kasper a RP Online:

A FSSPX, que atualmente está na boca do povo, justifica a sua ação como atos emergenciais contra o enfraquecimento da Fé. Será que essa afirmação não é um exagero?

Kasper: Eu até posso compartilhar da análise dos sintomas de deficiência, embora eu não veja as coisas tão negras como a FSSPX. Todavia, não posso pensar de modo algum que um grupo vindo da desobediência possa renovar a Igreja. Você tem que ler o que alguns membros da FSSPX disseram sobre João Paulo II, sobre o Papa atual, inclusive sobre mim – são coisas inacreditáveis.

Os líderes da SSPX são insolentes?

Kasper: A julgar pela atitude deles uma renovação da Igreja é impossível. A atitude da FSSPX também não é católica. Não é possível que indivíduos determinem o que é doutrina Católica. A FSSPX segue basicamente um princípio protestante. Eles se arrojam ao Magistério sobre o Magistério e querem dizer de maneira vinculante o que pertence ou não à tradição eclesiástica.

Seriam esses casos perdidos?

Kasper: Em todo caso, eles não representam um grande perigo para a Igreja. Devemos tentar discutir com eles a fim de obter unidade. Porém, a FSSPX deve refletir sobre o gesto magnânimo do Papa. Na verdade, até agora, não vejo nenhum sinal de reflexão por parte deles. A Igreja Católica não entende a Tradição como a FSSPX, ou seja, de maneira congelada no tempo anterior ao Concílio. Somos uma Igreja viva.

            Eis aqui a quarta – e última – parte da entrevista concedida por D. José Cardoso Sobrinho ao jornalista Ivanildo Sampaio, no início do ano de 1990. Extramente atuais e oportunas são as colocações do Sr. Bispo. A temática das três perguntas agora é Teologia da Libertação.

             JC: Qual a sua posição a respeito da Teologia da Libertação?

             Dom José: A expressão “Teologia da Libertação” tornou-se hoje quase um slogan. Uma espécie de panacéia que serviria para curar todos os males. Mas, no sentido cristão autêntico e tradicional, a Teologia da Libertação nada tem de novidade e designa a essência mesma do Cristianismo. Libertação na Bíblia é sinônimo de salvação e de redenção. E não há nada de mais autêntico no Cristianismo do que a invocação de “Cristo Redentor” ou simplesmente “Salvador”. No entanto, na América Latina, a palavra “Libertador” tem freqüentemente um sentido político. A expressão “Teologia da Libertação” é profundamente ambígua porque recobre uma variedade imensa e profundamente contraditória de teologias e ideologias. A Santa sé promulgou dois documentos sobre a Teologia da Libertação. Um, sobre seus aspectos negativos (Libertatis nuntius); outro, mais positivo, sobre a verdade cristã e a libertação (libertatis conscientia). Assim, podemos dizer que apesar da pluralidade das Teologias da Libertação todas elas podem ser reduzidas a dois grupos; um dominado por ideologias inaceitáveis e falsas; outro, plenamente válido por se constituir uma nova etapa daquela reflexão teológica que veio formar o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja.

 

            JC: Qual seria a falsa Teologia da Libertação?

             Dom José: É aquela que se encerra no âmbito político, terreno, econômico e material, e não se abre para a libertação eterna e transcendente. Isso não quer dizer que essa Teologia não tenha surgido de um desejo sincero de fazer o bem e acabar com a opressão. As gritantes desigualdades entre países ricos e pobres já não são mais toleradas. A fome, a miséria, a dívida

externa do Terceiro Mundo, o neocolonialismo são uma calamidade insuportável. Nessa conjuntura é natural que surjam movimentos político-sociais para realizar transformações radicais, que poriam fim à opressão e à miséria do povo, até mesmo com recursos a meios violentos. É nesse contexto que surgiu a nova interpretação do Cristianismo e da Teologia. Em face da urgência de pôr um termo à exploração dos pobres e marginalizados, alguns teólogos chegaram a pensar que a luta necessária para obter justiça e liberdade humanas, entendidas no sentido econômico e político, constituía o essencial e a totalidade da salvação cristã. Para eles, o evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre. Conceitos tomados por empréstimo à ideologia marxista e o recurso a uma hermenêutica bíblica marcada pelo racionalismo encontram-se na raiz desta modalidade da Teologia da Libertação.

 

            JC: E qual seria a Teologia da Libertação oportuna e necessária?

            Dom José: Se a visão puramente política da Teologia da Libertação deve ser rejeitada, há uma outra que representa um verdadeiro progresso e deve ser aceita sem restrições e com entusiasmo. É aquela que não valoriza apenas a salvação das nossas almas, mas a libertação integral do homem. Uma teologia com raízes bíblicas, identificada plenamente com a Doutrina Social da Igreja, como a Teologia da Libertação parte de uma reflexão teológica sobre a realidade social e seus fundamentos antropológicos. Não é lugar aqui para analisar todos esses grandes temas da autêntica Teologia da Libertação. Vamos nos contentar com elencar apenas alguns tópicos: As dimensões do homem à luz da Revelação. O anseio do homem. O sentido da humanidade. O sentido da Comunidade. Pessoa e sociedade. Dignidade da pessoa. Dignidade do pobre. Prevalência do bem comum. A idolatria da riqueza e do poder. Natureza de missão social da Igreja. Igreja e política. Igreja e liberdade temporais. A atitude de Jesus ante a opressão romana. O compromisso com os pobres. A denúncia da riqueza. As diversas relações humanas. Relações homem-mulher. O sentido da reciprocidade e solidariedade. Princípios de uma nova ordem econômica. A primazia da comunidade sobre a sociedade. A propriedade privada e a hipoteca social. A repartição a nível de empresa. Os direitos do trabalhador. A reforma agrária e a reforma da empresa. A violência. A libertação cultural. O problema na América Latina. Aspecto sóciopolítico. A opressão econômica. As opressões externas. A dívida externa. A deterioração da democracia. A mutação cultural. Impacto sobre os meios de comunicação. Impacto sobre a comunidade de trabalho. Impacto sobre a família. Impacto sobre a vida religiosa. O desequilíbrio cultural. A crise da valorização industrial. A concentração urbana. O descalabro moral. A agressão da fé do povo latino-americano, a proliferação das seitas, as comunidades de base e a conscientização dos pobres. A esperança cristã. Opção pelos pobres. As comunidades eclesiais de base. Opção pelos jovens. Pastoral Social. Pastoral Familiar. A formação da consciência. A comunicação dos bens. Todos esses temas, e muitos outros não mencionados aqui, que constituem a preocupação constante da “Doutrina Social da Igreja”, se identificam com a “Teologia da Libertação” que, por conseguinte, é “oportuna e necessária” como diz o papa João Paulo II.

             Estava planejando postar esta entrevista em, no máximo, 3 partes; contudo, não será possível: é muito extensa! Então adianto mais duas perguntas feitas ao senhor Arcebispo pelo jornalista do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio. Tratam da questão da “opção preferencial pelos pobres”, e do termo “Igreja do povo”. Esta última argüição feita a Dom José é de <<fundamental importância>> para que nós, católicos, [re]formulemos a nossa visão a respeito da Igreja. São palavras realmente esclarecedoras!

 

            JC: O senhor foi apresentado perante a opinião pública como inimigo dos pobres… aceita a “opção preferencial pelos pobres”?

             Dom José: Uma das ofensas mais graves que se pode dirigir a um bispo é acusá-lo de ser inimigo dos pobres. No dia da minha sagração episcopal, jurei solenemente sobre o túmulo do Apóstolo Pedro, “mostrar-me sempre afável e misericordioso para com os pobres e peregrinos e todos os necessitados” (Ritual da sagração). Tanto na primeira diocese que me foi confiada, como nesta Arquidiocese, tenho procurado cumprir fielmente este grave dever de consciência. Ao chegar aqui, recomendei imediatamente aos meus assessores que dispensassem sempre a todos aqueles que nos procurassem um tratamento cordial e caridoso. Esta tem sido sempre minha atitude pessoal. Tenho acolhido sem qualquer protocolo as inúmeras pessoas que me procuram. Na mesma sala de audiências tenho recebido, indistintamente, pobre, ricos, ministros e governantes, e, habitualmente, os irmãos carentes do “Banco da Providência”. A este mesmo “Banco” – que é o centro arquidiocesano de atendimento aos pobres e de promoção humana – já encaminhei através de um grupo de amigos do Canadá. Tenho feito tudo isso sem alarde, sem convocar a televisão para registrar o evento. A acusação a que você se refere teve origem em 1988, quando a presidência do Regional Nordeste II aprovou a exoneração de uma equipe que estava encarregada da Pastoral Rural. Quando o assunto foi levado aos jornais com uma versão distorcida, publiquei uma nota declarando à opinião pública que os motivos daquela exoneração eram de ordem disciplinar, isto é, irregularidades na administração financeira, independência na elaboração e execução de projetos, etc. Então meus opositores se encarregaram de divulgar, nacional e internacionalmente, aquela versão falsa e inverossímil de que eu não aceito a opção pelos pobres e teria destituído aquelas pessoas precisamente porque estavam engajadas nas atividades de defesa dos pobres. O resultado desta campanha difamatória foi uma verdadeira avalanche de mensagens de protestos provenientes do Brasil e de vários outros países. Os responsáveis por esta infâmia haverão de prestar contas a Deus. Nenhuma pessoa de bom senso haverá de acreditar que alguém foi punido porque estava defendendo os pobres ou simplesmente porque era fiel aos apelos do Vaticano II, de Medellín e Puebla. Repito ainda o que já declarei em mais de uma ocasião: a defesa da dignidade humana dos deserdados, dos oprimidos e perseguidos, não é e não pode ser uma mera “opção preferencial”; é dever grave de justiça que pesa sobre toda consciência humana e cristã; é fundamental empenho da nossa Arquidiocese.

 

            JC: Hoje se fala muito em diversos modelos de Igreja. Qual o modelo que o senhor aceita? Por que o senhor não aceita a Igreja que, como se diz na atualidade, vem do povo?

             Dom José: Hoje se fala muito de modelos de Igreja. É uma expressão infeliz. A Igreja é um mistério de graça e liberdade. A palavra “modelo” designa uma realidade física necessária. Ora, a Igreja não é uma realidade natural, é um mistério histórico-salvífico e como tal se situa num horizonte de liberdade onde entram tantos fatores aleatórios, desde a liberdade do Espírito de Deus agindo na história e na liberdade do homem respondendo livremente os apelos da graça, até a riqueza imensa das conjunturas imprevisíveis e dos choques das culturas com as variações quase ilimitadas das aculturações que marcam a história das civilizações nas quais se encarnou a Igreja por dois mil anos. Seria mais acertado usar a metáfora “estilo” em vez de “modelo”. A expressão “Igreja popular”, que “nasce do povo”, foi criticada pela primeira vez pelo Papa João Paulo II, no discurso inaugural de Puebla: “Percebe-se um certo mal-estar com respeito à interpretação da natureza e missão da Igreja institucional ou oficial, qualificada como alienante, à qual se oporia outra Igreja popular, que nasce do povo e se concretiza nos pobres. Esta concepção de Igreja é ideológica e fruto dos magistérios paralelos”, disse o Papa. Os bispos de Puebla retomaram e aprofundaram a questão. O Documento de Puebla distingue dois sentidos da expressão “Igreja que nasce do povo”. O problema da Igreja popular, que nasce do povo, apresenta diversos aspectos. Se se entende Igreja popular como aquela que procura encarnar-se nos meios populares do nosso Continente e que, por isso mesmo, surge da resposta de fé que os grupos do povo dão ao Senhor, evita-se o grande obstáculo: a negação da verdade fundamental, que ensina que a Igreja sempre nasce de uma primeira iniciativa que “vem do Alto”, isto é, do Espírito Santo. Mesmo assim esta expressão é pouco feliz. Muitas vezes a Igreja popular aparece como distinta de outra identificada como a Igreja “oficial” acusada de “alienante”. Isso implicaria uma divisão no interior da Igreja e uma negação inaceitável da função da hierarquia. Tais posições, de acordo, com João Paulo II, poderiam ser inspiradas por conhecidos condicionamentos ideológicos.

             Caríssimos, essa é a segunda parte da entrevista feita por um jornalista do Jornal do Commercio com D. José Cardoso Sobrinho, Arcebispo de Olinda e Recife, em 1990. Desta feita os destaques são para o esclarecimento dos  temas polêmicos da época: fechamento do Instituo Teológico do Recife (ITER), o caso do Padre Reginaldo Veloso (já entrevistado por mim aqui), e outras situações próprias daquele momento da vida da Igreja em Olinda e Recife. Creio que seja importante conhecer a história tal como ela ocorreu, e não como contam uns e outros…

 

            JC: O senhor poderia citar um exemplo de versões que foram passadas aos jornais e que não correspondem à verdade?

             Dom José: O caso mais clamoroso é o da invasão do Palácio dos Manguinhos. Uma típica invasão de domicílio. Veja você que, na hora do almoço, eu sou surpreendido por um grupo de pessoas arrogantes, que chegaram de surpresa e foram logo avisando que chegaram para ficar. Iam acampar no Palácio. Em cada uma das portas do prédio, sentaram três homens ao chão. Eu tentei dialogar e não consegui. O pessoal da casa, que trabalha comigo, foi insultado e agredido com palavrões. O objetivo dos invasores, que usavam a mesma arma de chantagem usada por terroristas e seqüestradores, era coagir o Arcebispo a revogar uma decisão tomada (a transferência de um padre). Como a minha casa, o meu domicílio foi ocupado pela força, eu tive que pedir à polícia que retirasse os invasores. A versão da então diretoria da Comissão de Justiça e Paz, passada para o mundo inteiro, é falsa e caluniosa. Diz que “um grupo de humildes camponeses que desejava apenas falar com o Arcebispo foi repelido pela Polícia”. Essa versão – infamante, falsa, caluniosa – foi mandada, através de circular, para várias partes do mundo, acrescentando que “o Arcebispo não gosta de pobres”. Isso é uma mentira, uma indignidade. Tenho recebido cartas de religiosos, de leigos do mundo inteiro, protestando contra a minha suposta atitude, baseando-se na informação mentirosa e distorcida que a antiga diretoria da Comissão de Justiça e Paz se encarregou de divulgar pelo mundo.

 

            JC: Que medidas o senhor tomou contra a Comissão?

             Dom José: Destituí a sua diretoria. Um órgão da Arquidiocese, que deveria atuar sob responsabilidade do Arcebispo, não pode trabalhar contra o Arcebsipo. É como se, no seu jornal, houvesse um grupo trabalhando contra a diretoria da empresa. É uma inversão de valores. A Comissão de Justiça e Paz tem por objetivo expor, defender e ilustrar a doutrina social da Igreja e a aplicação prática dessa doutrina na defesa dos direitos humanos. A antiga diretoria estava muito mais preocupada em fazer política partidária.

 

            JC: Por falar em política partidária, houve um engajamento muito grande da ala progressista do clero nas últimas eleições. Como o senhor viu isso?

             Dom José: Atribui-se a João XXIII uma frase que diz o seguinte: “Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere”. Ou seja, “ver tudo, dissimular muito, corrigir pouco”. Houve realmente, um envolvimento político-partidário muito grande por parte de padres, freiras, religiosos nessas últimas eleições. Na eleição anterior, os Bispos de Pernambuco redigiram um documento, assinado por unanimidade, no qual eram citadas fontes da Igreja, da CNBB, de Puebla, etc. proibindo aos padres o envolvimento político-partidário. Nas últimas eleições, para escolha do Presidente da República, o decreto foi emitido novamente. Mas, muitos desobedeceram a esse Decreto. E o que fez o Arcebispo? Tolerou. Fechou os olhos. Seguiu o conselho de João XXIII. Não é possível nem é prudente corrigir sempre todos os erros. Muitas vezes é melhor tolerar. Se eu fosse corrigir todos os erros dos quais tenho conhecimento a vida se tornaria impossível. Mas houve um forte envolvimento político-partidário por parte de padres, freiras e agentes pastorais nas últimas eleições.

 

            JC: Dom José, atribuem também ao senhor a responsabilidade pelo fechamento do Seminário Regional Nordeste II (SERENE) e do Instituto Teológico do Recife (ITER). É verdade que a decisão do fechamento foi sua?

             Dom José: Essa é outra história parecida com aquela dos camponeses. A primeira visita apostólica recebida pelas duas instituições data de 1981 e foi feita pelo bispo Dom Oscar Scheid. Esses visitadores são uma espécie de auditores, designados diretamente pelo Vaticano para ver como funcionam suas instituições pelo mundo. Pois bem, já em 1981 – quando eu sequer sonhava em vir a ser um dia o Arcebispo de Olinda e Recife – o visitador dom Oscar Scheid mostrava preocupação com o Serene II. Em 1986, Roma enviou uma carta ao Regional Nordeste II. Essa carta, remetida pela Congregação da Educação Católica, depois de descrever o que o Concílio entende por Seminário Maior, convida os bispos a instituir um Seminário Maior propriamente dito e diz: “Nutrimos viva esperança de que o Serene II se converta dentro de pouco tempo num centro de formação eclesial segundo o Concílio Vaticano II”. Em novembro daquele ano, 1986, foi realizada uma Assembléia Extraordinária dos Bispos do Nordeste II, no Seminário de Olinda, com a presença de 18 bispos, para tratar do assunto mencionado na carta enviada pela Santa Sé. Em Março de 1988 foi celebrada outra Assembléia dos Bispos, em Lagoa Seca, diocese de Campina Grande, na qual, por unanimidade, os Bispos declararam que estavam dispostos a acatar qualquer decisão da Santa Sé, a respeito do Serene e do ITER. No segundo semestre de 1988, foi realizada nova visita apostólica, pelo Arcebispo Coadjutor de Belém do Pará, dom Vicente Joaquim Zico. O relatório do visitador à Santa Sé foi sigiloso. Em julho de 1989, as principais autoridades da Congregação da Educação Católica vieram à Brasília e realizaram um encontro de dois dias, na sede da CNBB nacional, com todos os visitadores dos Seminários no Brasil. Os assuntos tratados nesse encontro permaneceram em sigilo. Em 12 de agosto de 1989, a Congregação da Educação Católica expediu documento no qual se determina o fechamento do ITER e do Serene II. Assim, não se pode atribuir ao Arcebispo de Olinda e Recife a responsabilidade pelo fechamento das duas instituições.

 

            JC: A decisão não foi do senhor, foi da Santa Sé. Mas, o senhor concorda com a decisão?

             Dom José: Sim, concordo. Demonstrei meu pensamento a esse respeito em 1986, ou seja, três anos antes do fechamento, quando retirei os alunos da Arquidiocese de ambas as instituições e reabri o Seminário de Olinda.

 

            JC: E o problema da Igreja do Morro da Conceição? Como está sendo conduzido o caso do Padre Reginaldo Veloso?

             Dom José: O padre Reginaldo se encontra entre aqueles que citei no início da entrevista. Foi um dos primeiros a ser convidado pelo Arcebispo para um colóquio aqui na Arquidiocese. Conversamos reservadamente sobre os problemas de sua Igreja. Mas o padre Reginaldo é daqueles que escrevem ao seu arcebispo através dos jornais. Ele me envia uma carta e os leitores dos jornais têm conhecimento do teor dessa carta primeiro do que eu, que sou o destinatário. E isso eu não posso aceitar. Aliás, no momento está acontecendo um fenômeno anômalo em relação à Igreja do Morro da Conceição. Um grupo de integrantes do Conselho Paroquial apossou-se da chave da Igreja e não quer permitir a posse do novo vigário. Eu poderia invocar a lei para reintegração de posse. Não o fiz ainda porque não quero acirrar ânimos.

              Semana passada, um amigo gentilmente me cedeu um livreto, publicado em 1990, com uma entrevista concedida por Dom José Cardoso Sobrinho, Arcebispo de Olinda e Recife, ao Jornal do Commercio. A entrevista, feita pelo jornalista Ivanildo Sampaio, é uma preciosidade: ela deixa claro como D. José sempre tem uma noção muito clara de tudo que acontece à sua volta (mesmo em meio à turbulência). Por ser um tanto quanto extensa , falta-me tempo para transcrevê-la na íntegra. Decidi, então, postá-la em partes (no máximo 3). Aqui vai a primeira parte:

 

            JC: Depois dos papas João XXIII e Paulo VI, dois homens que revolucionaram a estrutura da Igreja Católica, parece ter havido no Colégio de Cardeais, a preocupação com a escolha do Pastor. Com a escolha de um Papa que fosse eminentemente Pastor. Elegeu-se o Cardeal Albino Luciani, que tomou o nome de João Paulo I, mas que teve um dos mais curtos papados da história. Veio João Paulo II, outro pastor. Isso significa que a Igreja entendeu ter havido um avanço muito grande com os dois Papa anteriores e que era chegado o momento de parar um pouco para a rearrumação da Casa?

            Dom José: Normalmente não acontece uma mudança brusca na vida da Igreja com a passagem de um papa para outro. Podemos dizer que o século XX foi privilegiado no que diz respeito ao Papado. Homens de estrutura espiritual gigantesca ocuparam a cátedra de Pedro e mereceram o respeito e admiração de todos os povos: Um Leão XIII, Um Pio X – elevado à honra dos altares como São Pio X – e todos os demais Papas deste século. Costuma-se contrapor o Concílio Vaticano II ao Papa Pio XII. Entretanto, quem se der ao trabalho de estudar a fundo os documentos do Vaticano II vai encontrar lá a presença viva de Pio XII cujos discursos são frequentemente citados pelo mesmo Concílio. Ele foi um grande intelectual, mas simultaneamente um Pastor eminente, mandado por Deus no momento justo para segurar o timão da barca de Pedro durante a procela a Segunda Guerra Mundial. Durante os 25 anos vividos em Roma, tive o privilégio de acompanhar de perto a eleição de quatro Papas. Durante a celebração de cada Conclave, temos a impressão de poder tocar com a mão a atuação viva do Espírito Santo. Sente-se realmente a presença de Deus, que escolhe o homem certo para a época certa. Quando Pio XII morreu, depois de ter servido a Igreja por mais de 19 anos, os católicos se sentiram órfãos, tal a veneração que lhes inspirava a figura daquele Papa. Havia, durante aquele interregno, uma incerteza, quase uma apreensão: quem estaria em condições de suceder à gigantesca figura do Papa Pacelli? Quem haveria de continuar a sua obra? Foi convocado o Conclave e, para a surpresa de todos, a escolha caiu sobre o humilde Cardeal Agnelo Giuseppe Roncalli que tomou o nome de João XXIII. Hoje temos João Paulo II, que certamente recebeu influência do brevíssimo pontificado de seu predecessor imediato, até na escolha do nome. Ele está vivendo sua época, seguindo esta peregrinação normal da Igreja, guiado certamente pelas mãos de Deus.

              JC: A seu ver, quais os maiores problemas enfrentados hoje pela Igreja Católica no mundo?

             Dom José: A igreja já enfrentou antes períodos de crises muito mais profundas do que vive hoje. Pode-se dizer que a crise atual não é a mais grave na história da Igreja. O Concílio Vaticano II produziu um documento completo sobre a natureza da Igreja. Esse documento, intitulado “Lumen Gentium” (“Luz dos Povos”),mostra que a Igreja está no mundo para ser a Luz. Ela existe para transformar a sociedade, para dar o bom exemplo – mas como é composta de homens, nem sempre é perfeita. Hoje, nós nos ressentimos da falta de vocações sacerdotais, um problema sério vivido pela Igreja no mundo. A questão da autoridade é outro problema. A não aceitação da autoridade dos superiores traz um desgaste muito grande. Nenhuma sociedade organizada sobrevive sem o princípio da autoridade. Na crise mundial que afeta a Igreja deve ser colocado também o problema da Doutrina, a questão da transmissão fiel do patrimônio doutrinal que vem de Jesus Cristo e dos apóstolos.

             JC: Existe, hoje, um choque entre conservadores e progressistas na Igreja?

             Dom José: A Igreja, em todas as épocas, sempre acolheu  diversas tendências doutrinais, salvaguardando o patrimônio da Fé, ou seja, aquelas verdades que já foram proclamadas por ato definitivo. O pluralismo de idéias é perfeitamente legítimo dentro da Igreja. Em todas as épocas sempre houve diversas escolas teológicas. Teólogos eminentes e até santos às vezes divergiam sobre a interpretação se vários pontos da Revelação. Um caso famoso é o da controvérsia sobre a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Durante séculos, teólogos de renome rejeitavam esta doutrina, a qual finalmente, em 1854, foi definida pela Igreja como Dogma de Fé. As legítimas controvérsias estimularam as pesquisas e nos levam a conhecer melhor as riquezas insondáveis dos mistérios da nossa Religião. Quem estudou Teologia, mesmo nas décadas anteriores ao Concílio, estava habituado a deparar-se com vários opiniões – as famosas sententiae – a respeito de cada tese teológica. Seguir uma determinada opinião ou corrente teológica não significa desprezar o defensor da opinião contrária. Esta liberdade de pesquisa pode e deve coexistir com a perfeita comunhão eclesial, a qual exige que, na prática pastoral, sejam acatadas as diretrizes daqueles que foram colocados pelo Espírito Santo para regerem a Igreja de Deus. As dificuldades começam quando alguns tentam impor, pela força, suas opiniões, contrariando as legítimas decisões da autoridade.

           JC: Dom José, vamos falar um pouco da Igreja Local. Dos problemas que o senhor tem enfrentado na Arquidiocese de Olinda e Recife, especialmente junto à chamada ala progressista do clero. A Igreja local está dividida?

            Dom José: Não se pode falar em divisão no sentido estrito da palavra. Divisão pressupõe um cisma. Isso nunca houve e, se Deus quiser, jamais acontecerá. Agora, é público e notório que há desentendimentos na Arquidiocese, embora eu espere que sejam superados o quanto antes.

               JC: E como surgiram estes desentendimentos?

               Dom José: Um dos fatores que muito contribuíram para isso foi o modo de agir de alguns sacerdotes. Desde quando eles colocaram em praça pública aquilo que deveria ser tratada intramuros, através do diálogo e do entendimento. Desentendimentos entre um padre e o seu bispo são comuns; – incomum é não procurar resolvê-lo pelo diálogo. Sempre que surgiram esses desentendimentos, o meu primeiro passo foi chamar o interessado à minha residência, conversar com ele, ponderar, ouvir, dialogar. Os sacerdotes que hoje estão nos jornais falando contra o seu bispo, todos eles, sem exceção, foram convocados antes para um diálogo. Algumas vezes o problema desses sacerdotes foi discutido com meus assessores, mas sempre em âmbito religioso, para que muitas coisas fossem resolvidas sem escândalo público. E eu lamento muito que alguns desses sacerdotes, assacando inverdades contra o Arcebispo, tenham recorrido à Imprensa para tornar público aquilo que deveria ser resolvido sigilosamente. Se uma carta é dirigida a você, não é pelos jornais que você deve tomar conhecimento das cartas que me eram dirigidas por estes padres através dos jornais. Esse método eu não aceito, porque não é justo. O Arcebispo tem direito à sua privacidade. A divulgação antecipada das cartas através dos jornais passa à opinião pública uma imagem do Arcebispo que não corresponde à verdade. Assim como foram igualmente divulgadas pelo jornal versões que estão muito longe daquilo que realmente aconteceu.