Sulco, “Humildade”, 263


Fonte: http://www.escrivaworks.org.br/book/sulco/ponto/263


Deixa-me que te recorde, entre outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade: – pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou dito do que aquilo que os outros fazem ou dizem; – querer levar sempre a tua avante; – discutir sem razão ou- quando a tens – insistir com teimosia e de maus modos; – dar o teu parecer sem que to peçam, ou sem que a caridade o exija; – desprezar o ponto de vista dos outros; – não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados; – não reconhecer que és indigno de qualquer nota e estima, que não mereces sequer a terra que pisas e as coisas que possuis; – citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas; – falar mal de ti mesmo, para que façam bom juízo de ti ou te contradigam; – desculpar-te quando te repreendem; – ocultar ao Diretor algumas faltas hu milhantes, para que não perca o conceito que faz de ti; – ouvir com complacência quando te louvam; ou alegrar-te de que tenham falado bem de ti; – doer-te de que outros sejam mais estimados do que tu; – nega-te a desempenhar ofícios inferiores; – procurar ou desejar singularizar-te; – insinuar na conversa palavras de louvor próprio ou que dêem a entender a tua honradez, o teu engenho ou habilidade, o teu prestígio profissional…; – envergonhar-te por careceres de certos bens…

            [Continuando a série Virtudes, apresento-lhes o segundo ensaio sobre a Caridade. Desta vez, busquei apresentar uma pouco mais da Doutrina concernente à Virtude das Virtudes].

 

            É bem verdade que muitos – entre os quais se contam muitos poetas e santos – tentaram descrever o que é o amor. Falharam todos. Muitos até acertaram alguns pontos; mas nenhum conseguiu – em completude – revelar a essência da Caridade. Portanto, conceitos e definições sobre este tema são imprecisos. O Catecismo da Igreja Católica, porém, resume esse “tudo que poderia ser dito” com as seguintes palavras:

            §1822 A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.

            Desta colocação, e também a partir daquilo que São Paulo descreveu na sua Carta aos Coríntios (Cap. 13 – cujo texto já foi apresentado no fim artigo anterior), fica claríssimo que a Caridade é a principal, maior e mais excelente entre as virtudes. A cada proposição, o Apóstolo reafirma: “se não tivesse a caridade, nada seria”. Ou seja: nenhum dos esforços que o homem empreenda – *ainda que para nobres fins* – tem valor diante de Deus, se este homem não estiver motivado [imbuído] pela Caridade. Atitudes belas, mas sem Caridade, valem tanto quanto uma nota de 3 reais… A Caridade é, portanto, o princípio fundamental da nossa existência: Deus nos criou por amor e para o amor. Sem a vivência deste amor [caritas], perdemos a nossa razão de ser e deixamos de cumprir o 1º [e maior] Mandamento: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito” (Dt 6,5).

             Aliás, falando em descumprir mandamentos, cabe consignar uma coisa: quando abordei, nos comentários acerca da Esperança, – os pecados contra esta virtude, falei do desespero e da presunção. Agora, porém, ao falar da Caridade, causa-me certo choque o perceber que – em última análise – todo e qualquer pecado que cometemos atenta contra a Caridade:

 §1855 O pecado mortal **destrói** a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus; desvia o homem de Deus, que é seu fim último e sua bem-aventurança, preferindo um bem inferior. O pecado venial deixa subsistir a caridade, embora a **ofenda e fira** (grifos nossos).

De fato, São Francisco de Assis estava certo quando dizia: “O amor não é amado”… Lamentável!

            A Caridade é o distintivo do cristão: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). É imperativo que o cristão aja com Caridade: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Se, pois, o cristão decide agir contra a Caridade [e ele pode fazê-lo em virtude do livre-arbítrio que Deus lhe concedeu] ele está renunciando à sua própria essência.

            E continua de forma brilhante o Santo Catecismo:

            §1827 O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade, que é o “vinculo da perfeição” (Cl 3,14); é a forma das virtudes, articulando-as e ordenando-as entre si; é fonte e termo de sua prática cristã. A caridade assegura purifica nossa capacidade humana de amar, elevando-a à feição sobrenatural do amor divino.

[…]

            §1829 A caridade tem como frutos a alegria, a paz e a misericórdia exige a beneficência e a correção fraterna; é benevolência; suscita a reciprocidade; é desinteressada e liberal; é amizade e comunhão.

           Um parágrafo que, creio eu, merece especial atenção é o seguinte:

           §1853 […] No coração reside (…) a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado fere.

            O coração – como sede da inteligência e da vontade – é o locus próprio da Caridade. Destarte, o homem que ama, assim o faz porque entende que é melhor agir com Caridade. Concomitantemente, àquilo que depreendeu por sua inteligência, este homem une uma decisão livre e consciente.

           Parafraseando São João Evangelista, “muita coisa ainda poderia ser dita”; contudo, parece-me de bom grado concluir com duas citações que – a meu ver – são de uma lucidez e um esplendor magníficos. A primeira trata-se de um trecho de “História de uma Alma” (a autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus). Neste excerto, pode-se dizer, encontra-se a grande descoberta de Santa Terezinha: como ela percebeu que é a Caridade que “move” todas as coisas:

            “A caridade a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ARDENTE DE AMOR. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o Amor se extinguisse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os Mártires se recusariam a derramar seu sangue… Compreendi que O AMOR ABRANGE TODAS AS VOCAÇÕES, ALCANÇANDO TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES… NUMA PALAVRA, É ETERNO!” (Histoire d’une Ame, pg. 213. Ed. Paulus)

            A segunda citação é extraída da Imitação de Cristo, na qual se diz:

            “A obra exterior, sem caridade, de nada vale, mas tudo o que se faz com caridade, por pouco e desprezível que seja, produz abundantes frutos, porque Deus olha mais para a intenção do que para a ação. Muito faz quem muito ama. Faz muito quem faz bem aquilo que faz. Bem faz quem serve mais ao bem comum que à sua vontade própria. Muitas vezes parece caridade o que é amor próprio; porque a propensão de nossa natureza, a própria vontade, a esperança de recompensa, o gosto da comodidade, raras vezes no deixam. Quem tem verdadeira e perfeita caridade em nenhuma coisa se busca a si mesmo, mas deseja que em todas Deus seja glorificado. A ninguém tem, inveja, porque não ama particularmente nenhuma prazer, mas deseja sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus. A ninguém atribui bem algum, mas refere tudo a Deus, do qual, como de fonte perene, manam todas as coisas, no qual, como em fim último, descansam em sumo gozo todos os santos. Oh! Quem tiver uma centelha de verdadeira caridade! Por certo avaliaria por vaidade todas as coisas da terra! (Imitação de Cristo, Livro I, Capítulo XV. Pg. 66-67. Editora Ave Maria).

             [Os comentários que seguem são apenas algumas considerações preliminares. Não correspondem ainda a uma análise teológica mais aprofundada da virtude da Caridade. Portanto, após esta postagem, farei uma outra – sobre a mesma virtude – com o conteúdo doutrinal referente ao tema, isto é, citando o catecismo e as demais fontes de nossa fé que enriquecem e embasam o ensino correspondente à Caridade. Por ora, seguem alguns comentários despretensiosos, mas que julgo importantes].

 

          São Paulo, na sua epístola aos Coríntios, nos diz:

  “Nunc autem manet fides, spes, caritas, tria haec; maior autem ex his est caritas”.

“Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade”.

 

            A Virtude Teologal da Caridade é, portanto, a maior entre as virtudes.

            As novas traduções bíblicas para o português convencionaram traduzir a palavra “caritas” por “amor”. De modo que o texto da 1ª Carta de São João que diz: “Deus caritas est” (4, 8), foi traduzido como “Deus é amor”.  Este trecho da carta joanina, aliás, foi usado pelo Santo Padre, o papa Bento XVI, como título de sua primeira encíclica (disponível aqui),

            Todas as obras de misericórdia (tanto as espirituais como as corporais) são, em última instância, obras de caridade.

            É importante fazer algumas distinções para que o real sentido da Caridade, isto é, o sentido em que a Igreja compreende esta virtude, não seja deturpado.

            A primeira distinção que penso deva ser feita é no sentido de não confundir filantropia com Caridade. Este erro é muito comum entre os espíritas kardecistas. Muitos acham que “fazer Caridade” é dar esmola. Na realidade, o “fazer” da Caridade até passa pelo ajuda ao próximo; mas não é isso. Dar esmola é algo bom, que agrada o coração de Deus e que, conforme o ensino constante da Igreja, nos ajuda a remir os nossos pecados. Mas a Caridade é muito mais que isso. Caridade é saber quem é aquele que me pede uma esmola, por que ele está ali, naquela condição. É interessar-se pelo outro. É ouvi-lo e não simplesmente matar sua fome ou lançar-lhe umas moedas.

            A segunda distinção diz respeito ao fato de que Caridade não se confunde com mansidão. Claro que as almas caridosas exercerão – sempre que oportuno – a mansidão. Entretanto, há momentos em que é oportuna uma atitude mais ríspida, meio bruta mesmo. A vida dos santos está recheada de exemplos disso. Em alguns casos, agir com severidade é uma exigência da Caridade. É como uma mãe que, para bem educar seu filho, não pode sempre concordar com tudo o que ele faz. Há momentos em que o garoto precisa ser advertido seriamente, levar umas boas palmadas (os psicólogos “dialogólatras” que me perdoem), e até mesmo ser castigado. A Caridade não tolera o mau comportamento e exige a correção do mesmo. Não adianta fingir que não viu – em nome de uma falsa mansidão. Não adianta abonar o erro fazendo-lhe vista grossa. Isso não é atitude caridosa. Sim, caríssimos, quem acha que Deus não castiga está redondamente enganado. Deus castiga sim (por amor e com amor):

 

Eu repreendo e castigo aqueles que amo. (Ap 3,19)

 

            Outra coisa, e esta nos foi recordada recentemente pelo papa Bento XVI, é que a caridade deve ser exercida na verdade. O título da encíclica papal é exatamente Caritas in Veritate (Caridade na Verdade). Hoje em dia, em nome do “politicamente correto” (que venho combatendo sistematicamente aqui no blog) têm-se a tendência de contornar a mentira e o erro sob o [falso] pretexto de que a caridade é tolerante. Por este princípio, os cristãos – que deveriam o sal da terra e a luz do mundo – começam a deixar de exercer o seu papel de transformadores do mundo; deixam de salgar aquilo que está insípido, deixam de iluminar as trevas dos que jazem no erro. Ora, Jesus é o único caminho que conduz a Deus, suma Caridade. Jesus também é a única verdade capaz de converter o coração dos homens: se não anunciarmos isso – por medo de faltar com a Caridade – quem o fará?

            Por fim, estamos muito acostumados a ler e ouvir o Hino à Caridade (1Cor 13) – composto por São Paulo. Hoje, porém, convido-vos a rezar com este texto. Quanta riqueza, quanta beleza, quanta verdade há nas palavras do Apóstolo dos gentios! Rezemos, pois:

 

            Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

            Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.

            Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!

            A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.

            Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.

            Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

            A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.

            A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.

            Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.

            Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.

            Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.

            Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade.

            Hoje quero abordar a Esperança – como continuação da série Virtudes.

            Assim como a , a Esperança é classificada pela Doutrina como uma virtude teologal. Portanto, ela tem origem sobrenatural, é infundida por Deus na alma e não pertence ao rol das virtudes humanas (ou morais).

            Encontrei neste site uma belíssima exposição sobre a “razão de ser” da virtude da Esperança. Um dos trechos mais instrutivos do texto é este:

 

            “Sabemos que a Fé nos traz um conhecimento certo de Deus. Mas este conhecimento é obscuro, ou seja, conhecemos a Deus mas não podemos ainda vê-Lo. Sabemos também que a virtude da Caridade nos traz o verdadeiro amor de Deus, que esse amor já é um começo da vida eterna, e que no céu, esse amor será eterno e nos encherá de uma alegria e felicidade extrema. Mas sabemos também o quanto é difícil manter nossas almas longe do pecado, como nós abandonamos a Deus com facilidade, perdendo o seu amor. Por isso, poderia surgir em nós uma dúvida sobre nossas possibilidades de alcançar o céu e a vida eterna. Se essa dúvida fosse muito forte, nós desanimaríamos no combate contra nossas imperfeições e contra nossos pecados.

            É justamente por isso que Deus nos dá a virtude da Esperança. Com ela sabemos que Deus nunca deixará de nos ajudar com suas graças e por isso estaremos sempre prontos para lutar contra as tentações e contra nossos pecados. Estaremos sempre prontos a pedir perdão no confessionário, pois temos certeza que Deus nos perdoará e nos trará novas forças para não mais pecar. Com isso fica claro que nossa vida de virtudes nos ajuda a conquistar o céu, pois quando praticamos o bem e fugimos do mal, recebemos a recompensa de Deus”.

 

            Do Dicionário Bíblico constante na Bíblia Clerus, extraímos que:

 

            “No AT Deus é a essência, meta final e garantia da esperança (Sl 130,5-7) do indivíduo (71,5) e do povo em geral (Jr 14,8 Jr 17,13). Espera-se no poder do braço do Senhor (Is 51,5), do qual vem a salvação (Gn 49,18). Espera-se a vinda da glória do Senhor (At 1,11 1Ts 4,13-5,11), a conversão de Israel e das nações, a nova aliança baseada no perdão dos pecados (Eclo 2,11; Mt 18,11; Hb 2,17; Hb 4,16 2Pd 3,9).

             Apesar de sua história cheia de contradições e infidelidades, Israel conservou a esperança na graça divina (Os 12,7; Jr 29,11; Jr 31,17; Is 40,31). Foram os profetas que ergueram a bandeira da esperança nos momentos críticos da história, apontando a renovação dos tempos messiânicos (Os 2; Is 40-66; Ez 36-37).

             No NT a salvação prometida torna-se de certo modo já presente pela fé: a justificação, a filiação divina, o dom do Espírito e o novo Israel, composto de judeus e pagãos convertidos a Cristo. Por isso muda também o conteúdo e a motivação da esperança. A esperança do cristão é uma “viva esperança” (1Pd 1,3), que liberta do temor da morte (Ef 2,12 1Ts 4,13), pois ela está unida ao amor (1Co 13,13) e à fé em Cristo. O cristão espera a salvação (1Ts 5,8), a justiça (Gl 5,5), a ressurreição (1Co 15), a vida eterna (Tt 1,2; Tt 3,7), a visão de Deus e sua glória (Rm 5,2). Sua esperança é alegre e corajosa (Rm 12,12 1Ts 5,8), pois está firmemente ancorada em Cristo” (Hb 6,18s).

 

            O Novo Catecismo da Igreja Católica define Esperança em dois momentos, a saber:

 

            §1817 A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. “Continuemos a afirmar nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa” (Hb 10,23). “Este Espírito que ele ricamente derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que fôssemos justificados por sua graça e nos tornássemos herdeiros da esperança da vida eterna” (Tt 3,6-7).

            §2090 Quando Deus se revela e chama o homem, este não pode responder plenamente ao amor divino por suas próprias forças. Deve esperar que Deus lhe dê a capacidade de corresponder a este amor e de agir de acordo com os mandamentos da caridade. A esperança é o aguardar confiante da bênção divina e da visão beatifica de Deus; é também o temor de ofender c amor de Deus e de provocar o castigo.

 

            E, citando Santa Teresinha, continua o CIC (§1821):

             […]

            “Espera, ó minha alma, espera. Ignoras o dia e a hora. Vigia cuidadosamente, tudo passa com rapidez, ainda que tua impaciência torne duvidoso o que é certo, e longo um tempo bem curto. Considera que, quanto mais pelejares, mais provarás o amor que tens a teu Deus e mais te alegrarás um dia com teu Bem-Amado numa felicidade e num êxtase que não poderão jamais terminar”.

 

            Uma diferença essencial entre a compreensão católica e a protestante acerca da Esperança é a questão da salvação. Os protestantes acham que basta erguer o braço e confessar Cristo como senhor e, com isto, granjearão o Reino dos Céus para si. Acaso não ouviram Nosso Senhor dizer: “nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ será salvo”? (Mt 1,7) No fundo o problema é que os protestantes não compreendem que a graça de Deus é, sim, conferida aos homens. Mas, para que se esta graça se torne eficaz, é preciso que haja correspondência a ela. Cristo, ao morrer na cruz, deu aos homens a possibilidade de salvar-se: ofereceu a todos a Misericórdia Divina (objetivamente falando). Contudo, os méritos de Sua paixão e Morte só serão aplicados àqueles que corresponderem à graça da Redenção por meio de uma vida virtuosa. É aí que a salvação objetiva se torna subjetiva: quando o sujeito a assume (na prática). Em outras palavras: só alcançará o Paraíso quem colaborar com o desejo salvífico de Deus Pai obedecendo aos mandamentos e buscando estar sempre em estado de graça. Como nós, católicos, não sabemos se estamos fazendo isto a contento, esperamos que a Misericórdia de Deus considere os nossos esforços. Os protestantes, pelo contrário, não esperam nada: porque, afinal, eles têm certeza de que estão no caminho certo; julgam ter alcançado a perfeição ao “aceitar Jesus”. Se houvesse um selo ISO para aqueles que atingiram a excelência em santidade, eles – os protestantes – andariam com uma plaquetinha nas costas na qual estaria escrito: “já ganhei!”. Argh! É muita pretensão. A virtude da esperança, tal como ensina a Igreja, não é de maneira nenhuma presunçosa.

            Uma outra diferença – bastante curiosa – entre a Doutrina da Igreja e a tese protestante está refletida na maneira como católicos e protestantes buscam a prosperidade. O católico reza a Deus – fonte de todos os dons – que lhe conceda seus favores e, se lhe aprouver, dê-lhe prosperidade. O católico espera que Deus atenda as suas preces, mas compreende, aceita e considera a possibilidade de que aquele pedido não esteja em conformidade com a vontade soberana de Deus. O protestante, porém, está seguro de que Deus lhe garantirá a prosperidade (que para ele é abundância de bens e riquezas). É como se Deus fosse escravo de seus desejos. Os protestantes acham que, se cumprirem suas obrigações para com Deus, Deus terá que cumprir [aquilo que eles julgam ser] Suas obrigações para com os Seus fiéis dizimistas. Isso está errado. Isto é querer barganhar com Deus. É querer brincar de “toma lá, dá cá” com o Criador de todas as coisas.

            A Esperança, para a Igreja, transcende este mundo. Em virtude disto, podemos afirmar que não queremos apenas uma nova terra: desejamos e “esperamos novos céus e nova terra” (2 Pd 3,13). Esperamos não só contar com os favores e graças do alto aqui neste mundo, mas também (e principalmente!) alcançar o Céu, nossa cara Pátria. O fim último da Esperança cristã é a salvação eterna, é desfrutar da Visão Beatífica e da Presença Santíssima de Deus. Assim sendo, no céu, os bem-aventurados não carecem mais desta virtude: eles já não esperam porque (enfim!) alcançaram. “O Esperado” agora se encontra diante deles!

 

            Em consonância com o que comentei nos dois parágrafos acima aquele site que mencionei no início deste artigo, comenta:

 

            “Existem dois tipos de pecados contra a virtude da Esperança: a presunção e o desespero.

            A presunção consiste em acharmos que podemos possuir a Deus, tanto pela graça (na vida terrena) quanto na vida eterna, sem a ajuda de Deus. Isso acontece muito em pessoas que levam uma vida longe de Deus, sem corrigir seus pecados, sem confissão e comunhão, e que acham que, apesar disso, Deus lhes dará a salvação.

            O desespero consiste em achar que nunca poderemos alcançar a vida eterna, ou que Deus nunca nos perdoará dos nossos pecados. Isso acontece com freqüência em pessoas que passam por muitos sofrimentos e não têm confiança no socorro de Deus. Quando sofremos muito, devemos nos voltar para Deus na oração, com firme certeza da ajuda de Deus que, infinitamente misericordioso, nos ajudará a nos levantar da queda do pecado”.

 

           Uma grande inimiga da Esperança é a impaciência. A tendência ao imediatismo – tão presente no mundo moderno – arrefece a nossa Esperança. Aqui no Nordeste é muito comum ouvir as pessoas repetirem um antigo ditado segundo o qual “quem não tem paciência, não se salva”. A mim parece muito sensata tal colocação. O cristão deve saber esperar o tempo de Deus. E, já que estamos na seara dos ditos populares, lembrei-me de um que o meu pai sempre repete: “as coisas só acontecem de acordo com o rígido e sábio calendário do Todo-Poderoso”. Nesse caso, a voz do povo é a voz de Deus porque a Escritura diz: “Existe um tempo para cada coisa, para tudo há um momento debaixo do céu”. [Ecl 1,3] 😉

            Rezemos um ato de Esperança:

            Meu Deus, espero com firme confiança, que me concederás, pelo mérito de Jesus Cristo, tua graça neste mundo e a felicidade eterna no outro, porque assim o prometeste e sempre és fiel a tuas promessas.

 

            “Spera in Deo, quoniam adhuc confitébor illi: salutáre vultus mei, et Deus meus” (“Espera em Deus, que uma vez mais o quero enaltecer, a Ele, salvação minha e meu Deus”) – Extraído das rubricas para celebração da Missa segundo a sua forma extraordinária.

            Antes de abordarmos a primeira virtude desta série que pretendo desenvolver, julgo que seja necessário rever e aprofundar um pouco o conceito de virtude:

 

            “A virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não somente praticar atos bons, mas dar o melhor de si. Com todas as suas forças sensíveis e espirituais, a pessoa virtuosa tende ao bem, procura-o e escolhe-o na prática” (CIC 1803).

 

            Desta definição podemos inferir que a virtude não se confunde com um “ato virtuoso”. O ato virtuoso pode ser casual, a virtude, porém, é uma disposição habitual.  Vale também chamar a atenção para o emprego do termo disposição”. Ela nos transmite a idéia de que o homem virtuoso é, por conseguinte, livre: ele se dispõe, sem ser de modo algum coagido, a fazer o bem. Além disso, esta definição também faz descobrir qual é o fim e qual é a origem de todas as virtudes: o bem. Todas as virtudes estão ordenadas para o bem. A constância [firmeza] da sua decisão pelo bem marca a vida do homem virtuoso. Ele não oscila nem vacila quanto à sua opção pelo Belo, pelo Justo, pelo Bom e pelo Verdadeiro.

            A virtude não só permite que o homem se torne “bom por fora”, mas íntegro e reto em suas intenções. A virtude melhora o homem por dentro, de modo que os atos virtuosos que ele pratica são apenas conseqüência de sua vivência interior. O homem virtuoso transborda em bondade. O homem virtuoso tenciona ao bem, promovendo-o e realizando-o em todas as circunstâncias de sua vida.

            Na Summa Theologica Santo Tomás de Aquino dá uma definição quase poética de virtude: “A virtude chama-se uma ordem ou ordenação do amor, como aquilo ao que ela é relativa; pois, pela virtude o amor é ordenado em nós”.

            A virtude, portanto, segundo o Aquinate, tem a característica de “ordenar para o amor”. É ela, portanto, que nos liberta das “paixões desordenadas” (ou “instintos egoístas”, em algumas traduções) – tão combatidas por São Paulo em suas epístolas.

 

            Feitas estas considerações iniciais, passemos à abordagem específica da virtude da Fé:

            Antes de mais nada é preciso que se diga que – dentro da categorização clássica das virtudes – a se encontra entre as chamadas virtudes teologais. Estas, segundo o Pequeno Catecismo Católico (p. 166) “são virtudes sobrenaturais, infundidas por Deus na nossa alma”. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica complementa esta afirmação ao dizer que as virtudes teologais “têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus”. Distinguem-se portanto das virtudes humanas pelo objeto a que se referem.

            No Veritatis Splendor há um artigo bastante interessante sobre as virtudes morais e as virtude teologais. Recomendo a leitura.

            A respeito do “conceito” de dentro da Doutrina Católica podemos iniciar apresentando aquilo que a própria Sagrada Escritura nos coloca na Carta aos Hebreus: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). 

            Ainda percorrendo as páginas sagradas, com o auxílio do Dicionário Bíblico constante no programa Bíblia Clerus (disponível aqui), podemos afirmar que:

 

            No AT a fé é raramente mencionada (cf. Ha 2,4 e nota). Mas crer é a atitude característica do homem perante Deus. Ela implica numa adesão da inteligência em reconhecer a Deus em todas as suas manifestações de amor e suas exigências para com o seu povo. A atitude de Abraão é o modelo da verdadeira fé que salva (Ga 3,6): ele jogou a sua vida, confiando na Palavra de Deus (Gn 12,1-2 Gn 13,14-18 Ez 33,23-24 Si 44,19-21 Jn 8,56 Rm 4,1s; He 11,8-12).

 

            […]

 

            No NT acreditar é prestar fé à Palavra de Deus em Cristo (At 24,14 Lc 24,25-27); é obedecer a Deus (He 11,1s; Rm 1,5 10,16s; Rm 15,18 16,19 16,26 2Co 5,5s); é confiar nele (Mc 11,22-24 At 3,16 1Co 13,2); é converter-se, aceitando o Evangelho (1Tg 1,8-9 Rm 10,17 2Co 5,18s; At 3,12-16).

            Jesus exige fé em sua pessoa (Jn 6,29-40). O coração da fé é a obra salvífica de Cristo, sobretudo a sua morte e ressurreição (1Co 15,1-20 Rm 4,24 Rm 10,9).

            Paulo coloca a fé em Cristo como indispensável para a salvação (Rm 1,16). Mas quando opõe fé a obras, fala das obras da Lei mosaica e não dos frutos da fé cristã (Rm 4,13-25 Jl 3,1s; Ef 2,8-10 Mt 7,16-27 Jo 15,1-3 15,6-8 Tg 2,16-26).

            Alguns textos de primitivas profissões de fé: Lc 24,34; 1Co 15,3-5; 1Tg 4,4; 2Co 5,15; Rm 4,25; 6,4 6,9; Fp 2,6-11.

            A Igreja é a depositária da fé: Mt 16,16-19; 18,17s; Mt 28,20; Mc 16,15; Lc 22,31s; Jo 21,15-17; At 1,24s; At 15,7s; At 20,28; 1Co 1,10; 1Tm 6,20s; 2Tm 4,2-5; Tt 3,10s; 2Jo 1,10

           

            Além das conceituações bíblicas de , podemos tomar por orientação básica aquilo que nos ensina o Catecismo Romano: é a “virtude pela qual assentimos plenamente a tudo quanto nos foi revelado por Deus” (Catecismo de Trento, I, I, 1).

            Nestes tempos em que um sentimentalismo exacerbado instiga as pessoas a crer que a se resume à experiências emotivas e locuções interiores (supostas inspirações), creio que merece especial destaque o parágrafo 155 do Novo Catecismo, o qual afirma:

 

            §155 Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina: “Credere est actus intellectus assentientis veritati divinae ex imperio voluntatis a Deo motae per gratiam – Crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça”.

 

            Uma vez que só ao ser humano foram concedidas as faculdades da inteligência e da vontade, podemos afirmar (embora seja óbvio ululante) que *crer é um ato eminentemente humano*. Animais não têm fé [pensando bem, talvez seja útil relembrar isso, já que nos nossos dias há tanto gente querendo equiparar animais a seres humanos, ao passo que – contraditoriamente – tratam bebês humanos não nascidos como se fosse um bicho vil e asqueroso do qual devemos fazer tudo para nos livrar…].

 

            O Novo Catecismo relaciona, ainda, uma série de características da virtude da :

 

            É uma graça, um dom gratuito (§ 153e § 162)), é certa (§ 157), procura compreender (§ 158), não entra em conflito com a ciência (§ 159), deve ser livre (§ 160), é necessária à salvação (§ 161), é um ato pessoal (§ 166), é única (§172 a 175), é como que uma antecipação da glória vindoura, o “começo da vida eterna” (§ 163).

            De todas as afirmações do Catecismo acerca da , porém, creio que a que mais simples, mais peremptória e mais significativa seja a que consta no parágrafo 150: a é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus”. O termo “adesão pessoal” é deveras significativo. Ao utilizá-lo a Igreja deixa claro que a *não é uma realidade que eu construo*, mas um molde ao qual eu me adapto. Como nos contratos de adesão formalizados segundo o Direito Civil, aderir à é *aceitar* um conjunto de crenças (mais que isso: aceitar uma Pessoa!) do jeito que me é apresentado. não é, simplesmente, crer em algo, mas em Alguém. Eu não tenho o direito de opinar sobre O que é Imutável. Não tenho como melhorar aquilo (e Aquele) que é perfeito. Por isso, apenas adiro a Ele e a Sua Igreja. Eu, como o mais indigno de seus súditos, me coloco à Sua inteira disposição e dou total assentimento a quaisquer que sejam as Suas decisões a meu respeito. A , portanto, enquanto virtude, me “melhora” porque me aproxima do criador. não se confunde com Doutrina. Passa, sim, por uma adesão *a todos e a cada um* dos pontos doutrinários que constituem o arcabouço da Teologia Católica; contudo, é mais que isso: é Crer no Mestre, n’Aquele que ensina!

            Concluo com uma frase que, embora bíblica, têm sido muito evitada em nome do “politicamente correto” para agradar a hereges e descrentes:

 

“Sine fide impossibile est placere Deo” (He 11,6)

(Sem fé é impossível agradar a Deus)

 

 Pensem nisso!

Que Deus nos dê – cada dia mais – Fé!

Ouçamos, ainda, o alerta dado por São Josemaría Escrivá de Balaguer:

 

            “Alguns passam pela vida como por um túnel, e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé”. (Caminho, 575).

 

 

 

[P.S.: Por curiosidade, pesquisei sobre os Atos de Fé – que outrora eram ensinados nas aulas de Catecismo. Encontrei três (um aqui, outro aqui e outro aqui). Todos se parecem. Entretanto, cada um tem a sua peculiaridade quanto à linguagem utilizada. Comparem e vejam que interessante!]

 

[A partir de amanhã, farei aqui no blog uma exposição sobre as virtudes: meditaremos em cada uma delas à luz da Doutrina da Igreja e da experiência dos santos. A título de introdução, decidi postar este breve, conciso e precioso ensinamento do catecismo acerca das virtudes. Depois, pretendo fazer o mesmo tipo de exposição a respeito dos vícios – que se opõem às virtudes]

 

As Virtudes

            No Batismo, Deus infunde na alma, sem nenhum mérito nosso, as virtudes, que são disposições habituais e firmes para fazer o bem.

            As virtudes infusas são teologais e morais. As teologais têm como objeto a Deus; as morais têm como objeto os bons atos humanos.

            As teologais são três: fé, esperança e caridade.

            As morais, que chamam-se também virtudes humanas ou cardeais, são quatro: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

            Conta também o cristão com os dons do Espírito Santo, que facilitam o exercício mais perfeito das virtudes.

            Com relação à virtude teologal da caridade, ou seja, do amor, deve-se ter em conta que o amor a Deus e o amor ao próximo são uma mesma e única coisa, de modo que um depende do outro; por isto, tanto mais poderemos amar ao próximo quanto mais amemos a Deus; e, por sua vez, tanto mais amaremos a Deus quanto mais de verdade amemos ao próximo.

O que é a virtude?

            A virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem.

Quantas classes de virtudes existem?

            Existem duas classes de virtudes: as virtudes teologais e as virtudes humanas ou morais.

Quantas são as virtudes teologais?

            As virtudes teologais são três: a fé, a esperança e a caridade;

O que é a fé?

            A fé é a virtude teologal pela qual cremos em Deus, em tudo o que Ele nos revelou e que a Santa Igreja nos ensina como objeto de fé.

O que é a esperança?

            A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos e esperamos de Deus, com uma firme confiança, a vida eterna e as graças para merecê-la, porque Deus nos prometeu.

O que é a caridade?

            A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor a Deus, com o amor filial e fraterno que Cristo nos mandou.

Por que devemos amar a Deus sobre todas as coisas?

            Devemos amar a Deus sobre todas as coisas porque somente Deus é infinitamente amável e porque nos criou para o Céu.

Por que devemos amar ao próximo?

            Devemos amar ao próximo porque todos os homens somo irmãos, filhos do mesmo Pai celestial, redimidos com o Sangue de Jesus Cristo e destinados ao Céu.

O que são as virtudes humanas?

            As virtudes humanas, chamadas também de virtudes morais, são disposições estáveis do entendimento e da vontade que regulam nossas ações, ordenam nossas paixões e guiam nossa conduta segundo a razão e a fé.

Quantas são as virtudes humanas?

            As virtudes humanas ou morais são muitas, mas podem ser agrupadas em torno a quatro principais, chamadas virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

O que é a prudência?

            A prudência é a virtude que dispõe da razão prática para discernir, em toda circunstância, nosso verdadeiro bem e escolher os meios justos para realizá-lo.

O que é a justiça?

            A justiça é a virtude que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.

O que é a fortaleza?

            A fortaleza é a virtude que assegura a firmeza e a constância na prática do bem, até mesmo nas dificuldades.

O que é a temperança?

            A temperança é virtude que modera a atração para os prazeres sensíveis e procura a moderação no uso dos bens criados.

           

            Detesto ter que admitir que há, na Igreja, um conflito entre a mentalidade tradicionalista e a progressista. Na verdade, com esses dois grupos, em si, não há problemas. O problema é o excesso. O problema resume-se aos rad-trads e aos modernistas. Ambas as mentalidades são nocivas, porque extremistas. Sabiamente diziam os Santos Padres: Virtus in medio (“a virtude está no meio”). Pena que muitas pessoas não buscam este equilíbrio. Tradicionalistas exagerados,  por não serem sensíveis às mudanças do mundo, tornam-se alienados:  passam a achar que a realidade é puramente filosófica e não material; arvoram-se em censores da Santa Sé como se todo documento ou publicação da Igreja devesse passar pelo crivo de suas análises. Pobres rad-trad’s! Por outro lado, progressistas exagerados acham que a Igreja “precisa se adaptar” ao tempo presente; acabam se conformando (se amoldando) ao mundo; acabam achando que as questões de fé podem ser decididas “democraticamente”; acabam caindo na heresia e no relativismo; acabam, enfim, aderindo ao modernismo (que é ateísmo disfarçado) e, não raro, cometem o pecado de apostasia. Pobres modernistas!

              Mais que defender os verdadeiros tradicionalistas, bem como os verdadeiros progressistas, quero aqui defender a virtude da Prudência: virtude esta que nos ajuda a conservar em nós o que é bom e a progredir no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. É ela – a Prudência – que nos permite viver um catolicismo sadio e equilibrado, isto é, desprovido de excessos (quaisquer que sejam eles). Creio que assim pensem os prudentes:

             Não somos inimigos do Concílio Vaticano II. Os rad-trad’s é que o são! Consideramo-lo válido e útil. Como válidos e úteis foram os Concílios de Trento,  de Nicéia, de Éfeso, etc. Todos tiveram a sua importância. Não significa que uns sejam melhores que outros. Quem pensa assim são os modernistas! Eles acham que o Vaticano II é ponto de partida para tudo – como se fosse mais que os concílios anteriores; pior: é como se o Vaticano II revogasse os anteriores! Isto nós não aceitamos. A Suprema Autoridade da Igreja que redigiu e aprovou a Lumen Gentium, por ex., é a mesma que compôs cada um dos anátemas do Concílio de Trento. Ambas as coisas são válidas e não contraditórias. 

            Quando chamamos o padre de “Reverendíssimo”, o bispo de “Excelência”, os Cardeais de “Eminência” e o Santo Padre de “Santidade” não estamos querendo, simplesmente, fazer “discurso bonito” para impressionar, muito menos adular ninguém. Estamos apenas tratando-os como merecem; em plena conformidade com a dignidade e a responsabilidade que assumiram como servos do Deus Altíssimo. Agir com o devido decoro é uma questão de educação. Quem age e fala sem a mínima noção de respeito ou é modernista ou é rad-trad! Como fautores do processo de laicização do clero e clericalização do laicato, dispensam o tratamento devido aos autênticos ministros de Deus.

            Quando gostamos de ver os padres vestidos de batina, não estamos dizendo que a eles seja proibido usar outro tipo de veste. Não estamos querendo que assumam e conservem uma aparência que não corresponde à sua vida de sacerdote. Sabemos que a batina não é sinal de ostentação, mas de pertença a Deus. Sabemos que “o hábito não faz o monge, mas o distingue de longe”. Cremos firmemente na boa intenção dos sacerdotes que usam batina, isto é, acreditamos que usar uma batina não significa usar uma máscara: o padre que usa as vestes clericais não está, necessariamente, querendo com elas esconder uma vida de pecado. O problema é que nós somos mais ousados: queremos padres santos e de batina (por que não?)!

            Quando preferimos receber a comunhão diretamente na boca não estamos discordando de que ela possa ser distribuída na mão dos fiéis. A autoridade da Igreja assim o permitiu e declarou e nós acatamos tal decisão. Nós não achamos que a boca (muitas vezes maledicente e impura) é mais digna que a mão para receber Nosso Senhor. A questão não é essa. Não estamos olhando a coisa sob a ótica da nossa dignidade, mas da dignidade d’Ele! Sabemos que nem a boca, nem a mão, nem parte alguma do nosso corpo é digna de receber o Santíssimo Corpo do Filho de Deus. Apenas achamos (dentro do campo das discordâncias legítimas) que a atitude mais reverente para receber a Sagrada Comunhão é, como fizeram um sem-número de santos, diretamente na boca e, se possível, de joelhos. Que mal há nisso? Donde procede que, com tal atitude, queiramos demonstrar que somos mais piedosos que outros?

            Não somos “rubricistas”. Ao contrário dos rad-trad’s. Não somos dotados de um preciosismo literário que só enxerga a letra e não o espírito dela. Pelo contrário – queremos mais! – queremos que a letra e o espírito unam-se numa mesma finalidade: o louvor de Deus Onipotente. Buscamos obedecer à Igreja. Ao contrário dos modernistas, que – na sua jactância – acham que são mais que a Esposa de Cristo, e, por isso, têm o direito de sair por aí compondo ou editando orações eucarísticas (por ex.) a seu bel-prazer, desde que se mantenha o “espírito da letra”.  Não fazemos acomchambrado litúrgico para justificar os nossos excessos, nem tampouco rejeitamos o Missal de Paulo VI. Aceitamos tudo tal e qual a Igreja nos coloca.

            Não somos “espiritualóides”. Sabemos que a fé não é pregada a anjos (que são só espírito), mas a homens – de carne e osso. Não é porque falamos em “almas” que a nossa pregação é “desencarnada”. Os modernistas é que – refugiando-se numa linguagem sentimentalista – querem fazer com que a emoção sobrepuje a razão. Querem dar mais importância às experiências espirituais que às experiências de vida e de fé. Esquecem-se eles de que “a Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade (Fides et Ratio).  Esquecem-se eles da argüição de Nosso Senhor no Evangelho: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8, 36). Esquecem-se eles de que São João Bosco não tinha como lema “dai-me almas (com corpos)”, mas simplesmente “dai-me almas”. Sabemos que é impossível que uma alma amiga de Deus seja humanamente desequilibrada: quem está perto de Deus consegue driblar toda e qualquer situação fática de ordem material. Mas também não pensamos como os rad-trad’s que muitas vezes, num acesso de estoicismo, querem arrancar dos homens o componente emocional: as paixões, as emoções, etc. Sabemos que os sentimentos fazem parte de nós, mas devemos discernir bem quais são eles, bem como dominar os que podem nos conduzir à perdição.

            Não nos sentimos “donos da Verdade”. Muito pelo contrário: sabemos que a custódia da Verdade é de responsabilidade da Igreja Católica Apostólica Romana, nossa Mãe, aos pés de quem desejamos aprender cada vez mais. Quem pensa diferente ou é modernista ou é rad-trad! Eles, com a sua teologia barata, querem superar a Sã Doutrina. Preferimos seguir os pronunciamentos do Santo Padre e do Magistério Autêntico da Igreja a aderir à teologia barata de um “Zé ninguém“. As ideologias passam; o ensino catequético da Igreja, porém, permanece.