dezembro 2008


Caros,

Um folder interessante que recebi por e-mail:

Virgem de Guadalupe

Virgem de Guadalupe

           

 

            “Tudo o que fazemos é por amor (…). No Brasil milhões de (…) vivem nas ruas e 70% acabam em abrigos. Infelizmente 90% destes nunca encontrarão um lar. Todo (…) merece um lar feliz. Queremos mudar esta realidade” (texto editado).

            Se eu pedisse que você, caro leitor, substituísse as reticências entre parênteses por uma expressão qualquer, talvez você – ingênuo – aplicasse a palavra “pessoas” ou então “seres humanos”. Sinto dizer: não se iluda. O termo que complementa o texto acima é “cachorros”.
Então, o texto fica assim:

 

            “Tudo o que fazemos é por amor aos cachorros. No Brasil milhões de cães vivem nas ruas e 70% acabam em abrigos. Infelizmente 90% destes nunca encontrarão um lar. Pedigree acredita que todo cachorro merece um lar feliz e quer mudar esta realidade”. (http://www.adotaretudodebom.com.br/index.php/entenda).

 

            Trata-se de um projeto mundial, que pretende destinar cerca 1 milhão de reais, até outubro de 2009, a diversas instituições brasileiras de adoção de cães. No site (www.adotaretudodebom.com.br) encontram-se além do texto que expus acima, frases como: “Todo cão merece viver em um lar cheio de amor”, “a adoção deve ser sempre um ato consciente e responsável”, etc.

            Não há, em si, nenhum problema em adotar cães. Como também não há em adotar porcos ou ornitorrincos. A questão que eu quero expor aqui é como a sociedade moderna tem se preocupado com o superficial e tem esquecido o essencial. Há milhões de cães abandonados, é verdade. Mas há também milhões de crianças abandonadas! Os canis estão carentes de doações, é verdade. Mas os orfanatos e creches precisam muito mais!

            Cícero Harada, procurador do Estado de São Paulo, já comprou uma briga semelhante quando denunciou o absurdo que é punir, como crime inafiançável, a destruição de ovos de tartaruga; e querer permitir a destruição de seres humanos, via aborto. As pessoas perderam completamente a noção de que o ser humano é senhor de todas as criaturas! De que a dignidade humana excede, ultrapassa, a dos demais animais.

            “Dominamini piscibus maris et volatilibus caeli et universis animantibus, quae moventur super terram “. (Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra)”.

           

 

 

 

 

            Quaresma e Advento são tempos litúrgicos em que convém, mais ainda que nos outros tempos, aplicarmo-nos à prática de exercícios espirituais. Para isso, a Imitação de Cristo nos indica o que é preciso fazer em preparação a estes exercícios. Ela nos mostra como aprontar o campo e dispor as armas para a batalha. O desapego das coisas de “daqui de baixo” e o apreço pelo que é “do alto” serão bem vistos pelo Senhor na hora da nossa morte, e também quando Cristo voltar. Eis os preciosos conselhos que nos foram dados por esta clássica obra da literatura católica (grifos meus):

 

Livro III

Capítulo LIII

 

Que a graça de Deus não frutifica nos que gostam das coisas terrenas

 

JESUS CRISTO

 

1.       Filho, minha graça é um dom precioso, que não sofre mistura de coisas estranhas, nem de consolações terrenas. Convém, pois, remover todos os obstáculos à graça, se desejas receber a sua infusão.

      Procura o retiro, ama estar só contigo; deixa as conversações mundanas; ora devotadamente a Deus, para que te dê compunção da alma e pureza de consciência.

      Reputa por nada todo o mundo e prefere a todas as coisas exteriores e a felicidade de ser sempre aplicado a Deus. É impossível que te apliques a mim e ao mesmo tempo às   coisas caducas e transitórias.

      É necessário que te apartes de conhecidos e amigos, e que teu espírito viva retirado de todo o prazer temporal. O bem-aventurado Apóstolo Pedro roga a todos os fiéis cristãos “que se considerem como estrangeiros e peregrinos neste mundo” (2 Pd 2, 2).

2.   Oh! Quanta confiança não terá à hora da morte aquele homem que não tem afeição a coisa alguma deste mundo!

      Porém ter assim o coração desapegado de todas as coisas, não o compreende a alma ainda enferma; nem o homem carnal conhece a liberdade do homem espiritual.

      Se, contudo, quiser entrar verdadeiramente na vida espiritual, é preciso que renuncie aos estranhos e aos parentes, e que de ninguém se guarde mais que de si mesmo.

      Se te venceres a ti, vencerás facilmente tudo o mais. A maior de todas as vitórias é vencer-se cada um a si próprio.

      Aquele, pois, que tem a sua alma sujeita de sorte que os sentidos obedeçam à razão e a razão me obedece a mim em tudo, esse é verdadeiramente vencedor de si e senhor do mundo.

3.  Se deseja subir a esta alta perfeição, é necessário começar varonilmente a por o machado à raiz da árvore, para arrancar e destruir os restos mais ocultos do amor desordenado de ti mesmo, e dos bens particulares e sensíveis.

Deste amor desordenado que o homem tem a si mesmo, nascem quase todos os vícios que ele deve vencer e desarraigar; e logo que ele tiver vencido e subjugado este mal, gozará de contínua paz e grande sossego.

Porém, como há poucos que trabalham em morrer perfeitamente a si mesmos e a saírem inteiramente de seu próprio parecer, por isso ficam envoltos em seus afetos carnais e não podem elevar-se acima dos sentidos.

Aquele, porém, que deseja seguir-me livremente é necessário que mortifique todas as suas inclinações desordenadas e que não tome afeição a criatura alguma com amor apaixonado.

            “Vocês não tem vergonha na cara! Vocês não prestam!” São palavras de Olavo de Carvalho descendo o sarrafo na militância gay. Sem decoro algum, Olavo expõe com clareza e brevidade a incoerência da argumentação gayzista. O vídeo é muito bom!

 

 

 

            Estamos vivendo o tempo litúrgico do Advento. A Igreja volta seu olhar para o tema do fim dos tempos. Neste fim, para o qual devemos estar preparados, Cristo se manifestará à humanidade mais uma vez. Esta segunda manifestação recebe o nome de Parusia. A oração e a vigilância devem ser as armas, as ferramentas, que nos ajudarão a estar prontos para este fim.

            Se percebermos bem, convivemos muito com a realidade do “fim”. O dia finda e vem a noite. A noite chega ao fim e dá lugar a outro dia. Começamos a universidade achando que nunca chegará ao fim… Mas, de repente, acabamos o curso e nos damos conta de que não nos decidimos e não nos programamos para o que fazer após o término da graduação. Findam relacionamentos, findam projetos, findam amizades… e inimizades! Neste mundo, tudo um dia chega ao fim.

            O fim nos assusta. O fim nos deprime. Quando sentimos que ele está muito próximo, nos desesperamos. Porque todos nós, de certa forma, sofremos um pouco da síndrome de Peter Pan: o mito da eterna juventude. Não queremos que as coisas passem. Não queremos morrer porque a morte representa o fim de uma vida. Por isso queremos nos imortalizar em nossas obras. Queremos sempre deixar um legado, um contributo que permaneça quando nós passarmos.

            Eu diria que, no fim, nós encontramos nós mesmos: como fomos e como somos. Lembro-me agora, não com muita exatidão, que numa passagem de “As Crônicas de Nárnia”, de C. S. Lewis, um garoto vai olhar o que há no fundo de um lago. Ao inclinar-se para a água, porém, divisou a horrenda imagem de um dragão. Assustou-se e recuou. Só depois, o garoto percebeu que o monstro que ele havia contemplado nas águas do lago era nada mais que a sua própria imagem refletida…

            O desejo de saber o que há para além desta vida presente, na carne, leva as pessoas às mais diversas atitudes.

            Os supersticiosos recorrem ao espiritismo, à “profecias”. Ir ao espiritismo ou recorrer às “profecias” de Nostradamus não vai adiantar para saber o que, de fato, haverá no fim.  “Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder” (At 1, 7).

            “Já que tudo há de se acabar, aproveitemos enquanto as coisas existem”. Essa é a triste ilusão que muitos, sobretudo os jovens, acalentam para justificar seu comportamento irresponsável.        Para estes, dizia Santa Catarina de Sena: “Há aqueles que não aguardam o julgamento e vivem, já neste mundo, a certeza do inferno”. Vivem como o rico esbanjador, mas querem a consolação destinada ao pobre Lázaro…

            Há ainda os que, envoltos num pessimismo conformista que nada tem de cristão, pensam      que não adianta fazer algo para melhorar o mundo porque todas as melhorias um dia chegarão ao fim. “O mundo está perdido” é o discurso habitual destas pessoas. Entretanto, já pensaram que caos seria se não lavássemos a louça do jantar alegando que no dia seguinte, durante o café-da-manhã, ela seria usada novamente e, portanto, ficaria suja mais uma vez?  Achar que as coisas estão ruins e deixar por isso mesmo não faz parte do espírito cristão. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Rm 12,2).

            Acalentar prazeres terrenos como fazem alguns muçulmanos (que vivem pensando em obter dezenas de virgens quando chegarem ao paraíso) também não é das atitudes mais coerentes; já que o que Deus preparou para os que o amam “os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou” (1Cor 2, 9).

            O bonito do pensamento cristão está no equilíbrio com que devemos encarar a efemeridade deste mundo. No fim do túnel há, sim, uma luz (Mt 5, 14): para os que foram luz! Para os que viveram como filhos da luz! (1Ts 5, 5)  Mas há, também, “choro e ranger de dentes” (Mt 25,30) para quem viveu na escuridão do pecado. Há um Deus justo e misericordioso. Um pai que acolhe e um juiz severo. Uma sentença que absolve: “Vinde, benditos” (Mt 25,34), e outra que condena: “Apartai-vos, malditos” (Mt 25,41). É como no fim de uma guerra: despojos de um lado, trunfo do outro. Derrota de uns, vitória de outros. Rezemos para que ao fim, alcancemos a vitória!