O papa está visitando o Reino Unido. A imprensa secular não fala em outra coisa senão nos custos financeiros desta viagem. Apesar disso, foi interessante perceber que os que afirmavam que Bento XVI teria “uma recepção bastante menos [sic] calorosa do que João Paulo II há 28 anos”, hoje foram obrigados a publicar que milhares de pessoas saíram à ruas de Edimburgo na Escócia para assistir aos momentos iniciais do Papa Bento XVI no Reino Unido”. Os únicos manifestante contra a presença do papa são os de sempre: os abortistas, os que querem a ordenação de mulheres e os que acham que pedofilia só existe na Igreja [tão ingênuos os pobres coitados!…]. Todos irrelevantes. Enquanto isso, na Missa que celebrou hoje em Glasgow, na Escócia, o Santo Padre lembrou que “assim como a Eucaristia faz a Igreja, o sacerdócio é central para a vida da Igreja”. Falou ainda do dever de ensinar, da evangelização da cultura e de muitos outros assuntos. Mas, um trecho que me chamou bastante a atenção na homilia desta Missa foi o seguinte – em que o Sumo Pontífice se dirige aos jovens:

Finalmente, deseo dirigirme a vosotros, mis queridos jóvenes católicos de Escocia. Os apremio a llevar una vida digna de nuestro Señor (cf. Ef 4,1) y de vosotros mismos. Hay muchas tentaciones que debéis afrontar cada día —droga, dinero, sexo, pornografía, alcohol— y que el mundo os dice que os darán felicidad, cuando, en verdad, estas cosas son destructivas y crean división. Sólo una cosa permanece: el amor personal de Jesús por cada uno de vosotros. Buscadlo, conocedlo y amadlo, y él os liberará de la esclavitud de la existencia deslumbrante, pero superficial, que propone frecuentemente la sociedad actual. Dejad de lado todo lo que es indigno y descubrid vuestra propia dignidad como hijos de Dios. En el evangelio de hoy, Jesús nos pide que oremos por las vocaciones: elevo mi súplica para que muchos de vosotros conozcáis y améis a Jesús y, a través de este encuentro, os dediquéis por completo a Dios, especialmente aquellos de vosotros que habéis sido llamados al sacerdocio o a la vida religiosa. Éste es el desafío que el Señor os dirige hoy: la Iglesia ahora os pertenece a vosotros.

Caríssimos, conforme lhes havia prometido, hoje –  FESTA DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA – volto a postar aquilo que, no meu juízo, possa ser do interesse de todos quantos buscam agradar a Deus por uma fé pura e simples. Na realidade, ainda não voltei à “vida normal” (na terra natal, entre os meus), mas darei um jeito de continuar escrevendo. Deus me ajude e vocês façam a gentileza de encomendar orações em meu favor 😉 Hoje, emudecido ante o mistério da Assunção, trago-lhes um comentário de São Bernardo ao Evangelho de hoje. Chamaram-me a atenção as seguintes palavras: “«Arrasta-me atrás de ti. Corramos ao odor dos teus perfumes!» (Ct 1, 3-4) Viajantes sobre a terra, enviamos à frente a nossa advogada […], a Mãe de misericórdia, para defender eficazmente a nossa salvação”. Ah, uma boa notícia: consegui recuperar os meus equipamentos de informática! \o/ =)

Nossa Senhora da Assunção

Comentário ao Evangelho do dia feito por
São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense e Doutor da Igreja
1º Sermão para a Assunção (a partir da trad. Pain de Cîteaux 32, p. 63 rev.)

«Em Cristo, todos serão vivificados, cada qual na sua ordem» (1Cor 15, 22-23)

Hoje a Virgem Maria sobe, gloriosa, ao céu. É o cúmulo de alegria dos anjos e dos santos. Com efeito, se uma simples palavra sua de saudação fez exultar o menino que ainda estava no seio materno (Lc 1, 44), qual não terá sido sido o regozijo dos anjos e dos santos, quando puderam ouvir a sua voz, ver o seu rosto, e gozar da sua presença abençoada! E para nós, irmãos bem-amados, que festa a da sua assunção gloriosa, que motivo de alegria e que fonte de júbilo temos hoje! A presença de Maria ilumina o mundo inteiro, a tal ponto resplandece o céu, irradiado pelo brilho desta Virgem plenamente santa. Por conseguinte, é justificadamente que ecoa nos céus a acção de graças e o louvor.

Ora […], na medida em que o céu exulta da presença de Maria, não seria razoável que o nosso mundo chorasse a sua ausência? Mas não, não nos lastimemos, porque não temos aqui cidade permanente (Heb 13, 14), antes procuramos aquela aonde a Virgem Maria chegou hoje. Se já estamos inscritos no número de habitantes dessa cidade, convém que hoje nos lembremos dela […], compartilhemos a sua alegria, participemos nesta alegria que hoje deleita a cidade de Deus; uma alegria que depois se espalha como o orvalho sobre a nossa terra. Sim, Ela precedeu-nos, a nossa Rainha, precedeu-nos e foi recebida com tanta glória que nós, seus humildes servos, podemos seguir a nossa Rainha com toda confiança gritando [com a Esposa do Cântico dos Cânticos]:

«Arrasta-me atrás de ti. Corramos ao odor dos teus perfumes!» (Ct 1, 3-4) Viajantes sobre a terra, enviamos à frente a nossa advogada […], a Mãe de misericórdia, para defender eficazmente a nossa salvação.

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Aos que desejarem assistir a homilia do Pe. Mateus Maria, FMDJ, cliquem aqui: Assumpta est Maria in coelum!

O Pe. Alexandre Paciolli, Legionário de Cristo, foi brilhante nesta homilia: partindo do episódio da traição de Judas, padre Alexandre demonstrou que a postura dos católicos frente ao pecado de alguns sacerdotes [notadamente, perante o horrendo pecado da pedofilia] deve ser a de concentrar-se “nos onze que foram fiéis, e não no único que traiu”. “O rosto autêntico da Igreja é a santidade”, disse ele. Com exemplos da vida de São Francisco de Sales e de São Francisco de Assis, padre Paciolli mostrou que convém conservar o devido respeito aos eleitos de Deus, rezando sempre por sua fidelidade. Assim agiram os santos. Na homilia, ele também combate a visão distorcida com que a imprensa apresenta alguns fatos à população. Não deixem de assistir às duas partes: é realmente uma pregação boa e necessária de se ouvir.

[Já que ontem postei um vídeo sobre “corpos incorruptos”, resolvi [re]publicar hoje a tradução de um texto homilético de autoria do Fr. Raniero Cantalamessa. O texto versa sobre a morte na perspectiva cristã. Um paradoxo: tenebroso, mas esclarecedor].

 

Decidi traduzir esta excelente meditação do pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, para o Dia de Finados. Do livro Gettate le Reti – Riflessione sui Vangeli, Anno A. páginas 391 a 396.

 

2 de Novembro: Comemoração de todos os fiéis defuntos

Sb 3, 1-9; Ap 21, 1-5.6-7; Mt 5, 1-12

 

            Tudo, neste dia, nos convida a refletir sobre o tema austero, mas salutar, da morte. Na Escritura lemos esta solene declaração:

 

            “Deus não criou a morte e não se delicia com a ruína dos vivos. Ele, de fato, criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é reina sobre a terra porque a justiça é imortal. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 1, 13-15. 23-24a).

 

            Esta palavra nos dá a chave para entender porque a morte suscita em nós tanta repulsa. O motivo é que não é “natural”. Assim como a experimentamos na presente ordem das coisas, é algo de estranho à nossa natureza, fruto da inveja do diabo. Por isto lutamos contra ela com todas as forças. Esta irreprimível recusa à morte é a melhor prova de que nós não somos feitos para ela e que não pode ser ela a ter a última palavra. Isto mesmo assegura a primeira leitura de hoje:

 

            “As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aos olhos dos insensatos parecem mortos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles é cheia de imortalidade” (Sb 3, 1-4).

 

            Hoje é ocasião para uma reflexão existencial, não só da fé, sobre a morte. Se não temos coragem de encarar esta realidade num dia como hoje, quando o faremos? Um historiador antigo narra que o rei Damocle quis um dia mostrar como vive um rei, a um súdito que inveja a sua condição. Convidou-o à sua mesa e lhe fez servir um grande banquete. A vida na corte parecia-lhe cada vez mais invejável. Mas a um certo ponto o rei o convida a elevar o olhar acima de si, o que vê o servo? Uma espada pendia sobre a sua testa com a ponta para baixo, presa a uma crina de cavalo! Assustado, pálido, de queixo caído, começou a tremer. Assim, queria dizer Damocle, vive um rei: com uma espada que pende noite e dia sobre a sua cabeça.

 

            Mas não só o rei, também nós. Uma espada de Damocle pende sobre a testa de todos os homens, ninguém está excluído. Só que esses tendem a ser destruídos, como o são todos os seus trabalhos e distrações. Esta espada se chama morte. “Quando nasce um homem, dizia Santo Agostinho, podem-se levantar duas hipóteses: ou será belo, ou feio; ou será rico, ou pobre; ou viverá muito, ou não. Mas de ninguém se dirá: ou morrerá, ou não morrerá. Esta é a única coisa absolutamente certa da vida. Quando sentíamos que alguém está acometido de hidropsia (no tempo do santo esta era uma doença incurável), dizemos: Pobrezinho, deve morrer; está condenado, não há remédio!” Mas não devemos dizer a mesma coisa de cada homem que nasce? “Pobrezinho, deve morrer, não há remédio”.

            Dir-se-á: mas já não estamos bastante enfastiados do pensamento de morte? Que necessidade temos de enfiar a faca na ferida? É verdade. O medo da morte é o conflito mais profundo de cada ser humano, e começa a manifestar-se confusamente logo que a criança chega à idade da razão e da consciência. A angústia da morte, disse um grande psicólogo, é um “verme no centro” (no centro de cada pensamento); essa é a expressão imediata do mais forte dos instintos humanos, o instinto de autoconservação (William James).  Houve quem quisesse trazer para todas as atividades humanas o instinto sexual e explicar tudo com ele, a arte e a religião. Porém, mais forte que o instinto sexual é aquele do conflito da morte, da qual a mesma sensualidade não é mais que uma manifestação, quase um tentativa de subtrair-se à morte. Se se pudesse ouvir o grito que sai da humanidade inteira, se escutaria o urro tremendo: não quero morrer.

            Deste modo, por que convidar os homens a pensar na morte, se essa já está tão presente entre nós? É simples. Porque nós homens escolhemos remover o pensamento da morte. De fazer de conta que ela não existe, ou que existe só para os outros, não para nós. Planejamos, corremos, nos exasperamos por causa de nada, como se num certo momento não devêssemos largar tudo e partir. Em uma grande cidade da Itália é criado, depois da guerra, um novo bairro residencial de luxo. Os construtores haviam decidido que não deveria existir nele nenhuma Igreja e o motivo era que o toque dos sinos para a visita aos mortos e aos funerais poderiam perturbar a tranqüilidade dos inquilinos.

            Mas o pensamento da morte não é deixar de lado ou remover com estes pequenos passos. Agora não basta reprimi-lo como a maioria de nós faz. Reprimi-lo a custo de fadigas, atenção constante, um contínuo esforço psicológico, como para fechar uma tampa que tende sempre a sobrepor-se. Nós empenhamos uma parte considerável das nossas energias para manter longe de nós o pensamento da morte. Alguns ostentam segurança a este respeito, dizem que sabem que devem morrer, mas que não se preocupam excessivamente; que pensam na vida e não na morte… Mas são o retrato de um homem secularizado; na realidade este não é o único dos tantos modos com os quais se tenta exorcizar o medo.

            Que respostas o homem tem encontrado para o problema da morte? Os poetas foram os mais sinceros. Não havendo soluções a propor, eles nos ajudam a ao menos tomar consciência da nossa situação. Um poeta espanhol do século XVIII, Gustavo Bécquer, fala de uma onda gigante que o vento sopra sobre o mar, que avança como um redemoinho que passa, sem saber sobre qual praia vai quebrar; de uma luz próxima de apagar-se que brilha em círculos trêmulos, ignorando qual destes brilhará por último; e conclui dizendo: Assim são os que, a passeio, vagam pelo mundo sem pensar em de onde vêm, nem para onde os meus passos me conduzem.

            Os filósofos ao contrário tentaram explicar a morte. Um destes, Epicuro, afirmou que a morte é um falso problema porque – dizia – “quando nós existimos a morte não existe ainda, e quando a morte existe, nós já não existimos mais”.  Também o marxismo tentou eliminar o problema da morte. A morte, disse, é própria das pessoas. E, demonstra que não se deve levar em conta a pessoa humana, mas a sociedade, a espécie que não morre. O homem sobrevive na sociedade que ajudou a construir. O marxismo, porém, acabou, e o problema da morte continua. Antes mesmo da corrida armamentista e dos mercados mundiais, o comunismo já havia perdido a sua batalha nos corações. Não soube fazer algo para enfrentar a morte, senão construir grandes mausoléus: a Lênin e a Stálin.

            Um filósofo moderno, Heidegger, explicou que a morte não é um incidente que põe fim à vida, mas é a substância mesma dessa vida. Nós não podemos viver se não morrendo. Cada momento que passa é u, fragmento retirado da nossa vida. O dito “morro a cada dia um pouco” (quotidie morior), é verdadeiro ao pé da letra.

            Os homens não pararam, desde que o mundo é mundo, de buscar remédios contra a morte. Um destes, típico do antigo testamento, se chama a prole: sobreviver nos filhos. Um outro é a fama. “Não morrerei de um todo” canta o poeta pagão (non omnis moriar); “Erguerei um monumento mais duradouro que o bronze” (aere perennius) (Orácio).

 

 

 

 

            Nos nossos dias têm se desenvolvido um novo pseudo-remédio: a doutrina da reencarnação. Mas:

 

            “É estabelecido que os homens morram uma só vez, depois disso vem o juízo” (Hb 9,27)

 

            Uma só vez! A doutrina da reencarnação é incompatível com a fé cristã, que por seu lado professa a ressurreição da morte. Alguém se lembra daquilo que foi ou fez na vida passada? Acaso se pode dizer que é a mesma pessoa a renascer, se não há a consciência de ser a mesma pessoa; se o “eu” mesmo foi trocado?

            Tal como é proposta a reencarnação no Ocidente é fruto, entre outros, de um grave equívoco. Nas origens, e em quase todas as religiões em que é professada como parte integrante do próprio credo, a reencarnação não significa um suplemento de vida, mas de sofrimento; não e motivo de consolação, mas de desespero. Com essa se veio dizer ao homem: “Ainda que você faça o mal, você vaio renascer para expiá-lo!”. É como dizer a um encarcerado, ao fim de sua detenção, que a sua pena foi duplicada e deve recomeçar do início.

            Limitamo-nos, como disse, a algumas reflexões gerais sobre a morte, sem adentrar nas respostas da fé. Só para tomar consciência do fato e não nos deixarmos pegar de surpresa, despreparados. Mas para que serve pensar na morte? É mesmo necessário fazê-lo? Sim, é útil e necessário. Serve antes de tudo para nos prepararmos para morrer bem. O galho que pende de uma árvore, uma vez cortado, cairá. Mas serve também, e mais, para viver bem, com mais calam e sabedoria:

 

“Ensinai-nos a contar os nossos dias, e obteremos a sabedoria do coração” (Sl 89,12).

 

            Não existe ponto melhor no qual colocar-se para ver o mundo, na verdade de todos os seus acontecimentos, que a morte. ? Há angústias pelos problemas, dificuldades, contrastes? Prossegui, colocando-se num ponto de observação estratégico, olha estas coisas como te aparecem naquele momento e verás como as coisas ganharão nova dimensão. Não se caí na depressão e na inatividade; ao contrário, se faz mais e melhora as coisas, porque se está mais calmo, mais bem posicionado.

            Lembro uma espécie de rima, ingênua mas cheia de sabedoria, que a gente cantava no dia dos mortos, e que nunca perdeu sua validade:

 

“Se já se passaram cem anos,

Sem penas e sem afãs,

Que será a morte?

Tudo é vaidade”.

Apresento-lhes uma homilia [segmentada em dois vídeos] pronunciada por D. Fr. Alano Maria Pena, Arcebispo Metropolitano de Niterói (RJ). As palavras são dirigidas especialmente aos jovens. Com voz firme, D. Alano – eloquente e veemente – estimula os jovens a se deixarem apaixonar por Cristo. Ele busca “reforçar” o apelo vocacional que Nosso Senhor faz a cada um. Esta homilia é daquelas em que D. Alano faz honrar o hábito dominicano por ele envergado. Como me disse certa vez um padre de Niterói, “ele é um autêntico membro da Ordem dos Pregadores“.

[Fonte: ACI Digital]

Homilia do Santo Padre

Abertura da Porta Santa na Basílica de Santa Maria Maior

 

1° de Janeiro de 2000

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

XXXIII Jornada Mundial da Paz

1. “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher” (Gl 4, 4).

Ontem à tarde detivemo-nos para meditar sobre o significado destas palavras de Paulo, tiradas da Carta aos Gálatas, e perguntamo-nos em que consiste a “plenitude dos tempos” de que ele fala, em relação aos processos que assinalam o caminho do homem ao longo da história. O momento que estamos a viver é mais denso de significado do que nunca:  à meia-noite o ano de 1999 entrou no passado, cedeu o caminho a um novo ano. Eis-nos agora, desde há poucas horas, no ano 2000!

O que isto significa para nós? Começa-se a escrever outra página da história. Ontem à tarde dirigimos o nosso olhar para o passado, para o modo como era o mundo quando iniciava o segundo milênio. Hoje, dando início ao ano 2000, não podemos deixar de nos interrogar acerca do futuro:  que direção tomará a grande família humana nesta nova etapa da própria história?

2. Tendo em conta um novo ano que começa, a hodierna liturgia formula a todos os homens de boa vontade os votos com as seguintes palavras:  “Javé te mostre o seu rosto e te conceda a paz!” (Nm 6, 26).

O Senhor te conceda a paz! Eis os bons votos que a Igreja apresenta à inteira humanidade, no primeiro dia do ano novo, consagrado à celebração do Dia Mundial da Paz. Na Mensagem para essa Jornada recordei algumas condições e urgências, em vista de consolidar o caminho da paz a nível internacional. Um caminho infelizmente sempre ameaçado, como no-lo recordam os dolorosos eventos que várias vezes assinalaram a história do século XX. Por isso devemos, hoje mais do que nunca, desejar a paz em nome de Deus:  o Senhor te conceda a paz!

Neste momento, penso no encontro de oração pela paz que, em Outubro de 1986, viu reunidos em Assis os representantes das principais religiões do mundo. Estávamos ainda no período da chamada “guerra fria”:  reunidos, rezamos para esconjurar a grave ameaça de um conflito que parecia incumbir sobre a humanidade. Num certo sentido, demos voz à prece de todos e Deus acolheu a súplica dos seus filhos. Embora tenhamos testemunhado o início de perigosos conflitos locais e regionais, foi-nos contudo poupado o grande conflito mundial que se anunciava no horizonte. Eis por que, ao cruzarmos o limiar do novo milênio, nos apresentamos reciprocamente com maior consciência os bons votos de paz:  Javé te mostre o seu rosto. Ano 2000 que vens ao nosso encontro, Cristo te conceda a paz!

3. “A plenitude dos tempos!”. São Paulo afirma que esta “plenitude” se realizou quando Deus “enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher” (Gl 4, 4). Hoje, oito dias depois da Natividade, primeiro dia do ano novo, evocamos de maneira especial a “Mulher” de que o Apóstolo fala, a Mãe de Deus. Ao dar à luz o Filho eterno do Pai, Maria contribuiu para a obtenção da plenitude dos tempos; contribuiu de forma singular para fazer com que o tempo humano alcançasse a medida da sua plenitude na Encarnação do Verbo.

Neste dia tão significativo, tive a alegria de abrir a Porta Santa nesta veneranda Basílica Liberiana, a primeira no Ocidente dedicada à Virgem Mãe de Cristo. A uma semana do solene rito realizado na Basílica de São Pedro, hoje é como se as comunidades eclesiais de todas as nações e continentes se reunissem idealmente aqui, sob o olhar da Mãe, para cruzar a soleira da Porta Santa que é Cristo.

Efectivamente é a Ela, Mãe de Cristo e da Igreja, que desejamos confiar o Ano Santo há pouco iniciado, a fim de que proteja e encorage o caminho de quantos se fazem peregrinos neste tempo de graça e de misericórdia (cf. Incarnationis mysterium, 14).

4. A Liturgia da hodierna solenidade possui um carácter profundamente mariano, não obstante nos textos bíblicos isto se manifeste de forma bastante sóbria. O trecho do evangelista Lucas como que resume aquilo que escutamos na noite de Natal. Ali narra-se que os pastores foram a Belém e encontraram Maria e José, e o Menino na manjedoura. Depois de O terem visto, referiram aquilo que lhes tinha sido dito acerca d’Ele. E todos se admiraram ao ouvirem a narração dos pastores. “Maria, porém, conservava todos estes factos e meditava sobre eles no seu coração” (Lc 2, 19).

Vale a pena deter-se nesta frase que exprime um aspecto admirável da maternidade de Maria. Num certo sentido, o inteiro ano litúrgico segue as pegadas desta maternidade, a começar pela Solenidade da Anunciação, a 25 de Março, precisamente nove meses antes da Natividade. No dia da Anunciação, Maria ouviu as palavras do anjo:  “Eis que vais ficar grávida, terás um Filho e dar-lhe-ás o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 31.35). E respondeu:  “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Ibid., v. 38).

Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Como todas as mães, trouxe no próprio seio Aquele que só Ela sabia que se tratava do Filho unigênito de Deus. Deu-O à luz na noite de Belém. Assim tiveram início a vida terrena do Filho de Deus e a sua missão de salvação na história do mundo.

5. “Maria… conservava todos estes factos e meditava sobre eles no seu coração”. Como se surpreender que a Mãe de Deus se recordasse de tudo isto de modo singular, ou melhor, único?

Cada mãe possui uma análoga consciência do início de uma nova vida nela. A história de cada homem está inscrita em primeiro lugar no coração da própria mãe. Não admira que a mesma coisa se tenha verificado em relação à vicissitude terrena do Filho de Deus.

“Maria… conservava todos estes factos e meditava sobre eles no seu coração”.

Hoje, primeiro dia do ano novo, no início de um novo ano deste novo milênio, a Igreja evoca esta experiência interior da Mãe de Deus. Fá-lo não só meditando os eventos de Belém, de Nazaré e de Jerusalém, ou seja, as várias etapas da existência terrena do Redentor, mas também considerando tudo aquilo que a sua vida, morte e ressurreição suscitaram na história do homem.
Maria esteve presente com os Apóstolos no dia do Pentecostes, participando diretamente no nascimento da Igreja. Desde então, a sua maternidade acompanha a história da humanidade redimida, o caminho da grande família humana, destinatária da obra da Redenção.

No início do ano 2000, enquanto progredimos no tempo jubilar, confiamos nesta tua “recordação” materna, ó Maria! Colocamo-nos neste singular itinerário da história da salvação, que se conserva vivo no teu coração de Mãe de Deus. Confiamos a ti os dias do novo ano, o futuro da Igreja, da humanidade e do universo inteiro.

Maria, Mãe de Deus, Rainha da Paz, vigia sobre nós!

Maria, Salus Populi Romani, roga por nós! Amém!

 

[Eis aqui uma curta homilia pronunciada por São Bernardo, abade, sobre a submissão de Nosso Senhor a São José e à Virgem Santíssima. A publicação original encontra-se no blog São Pio V]

 

 

Homilía sancti Bernárdi Abbátis

(Homilia de São Bernardo Abade)
 
Homilia 1 supra Missus est, n. 7-8
 
 

“E Ele lhes era submisso”. Quem era submisso a quem? Deus ao homem! Deus, repito-o, a Quem os Anjos são submissos, Que os Principados e Potestades obedecem, era submisso a Maria, e não somente a Maria, mas a José também, por causa de Maria. Maravilhemo-nos, pois, com os dois, e escolhamos o que maravilha mais: se é a benigníssima condescendência do Filhio, ou a excelentíssima dignidade da Sua Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d’Ele?

Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse : “E Ele lhes era submisso”. E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador? Porque todas as vezes que Eu desejo preeminência sobre os homem, me esforço para superar Deus. Porque d’Ele foi dito : “Ele lhes era submisso”. Se tu desdenhas, ó homem, seguir o exemplo do homem, pelo menos poder seguir o exemplo do teu Criador sem desonra. Se, por acaso, não podes segui-l’O onde quer que Ele vá, digna-te, ao menos, segui-l’O nesse ponto no qual Ele Se rebaixou, desprezando a própria reputação pelo bem daqueles como tu.

Se não podes entrar para os caminhos sublimes da virgindade, ao menos segue Deus pela estrada seguríssima da humildade. Quem se desvia desse caminho reto, mesmo que seja virgem, a verdade seja dita, não segue o Cordeiro por onde quer que Ele vá. O homem humilde, mesmo que manchado de pecado, segue o Cordeiro ; a virgem, se é orgulhosa, também segue ; mas nenhum dos dois O segue por onde quer que Ele vá. O primeiro não pode atingir a pureza do Cordeiro, porque Ele é sem mancha ; a última não se digna descer à Sua mansidão, que cala não diante do tosquiador, mas fica mudo diante do próprio assassino. Ainda assim, o pecador que segue em humildade escolheu um caminho mais salvífico do que o homem orgulhoso que segue em virgindade ; porque o humilde presta satisfação, e é limpo de sua impureza, mas a castidade do orgulhoso é manchada pela sua soberba.