Cheguei há pouco do cinema da Fundação Joaquim Nabuco.  Fui assistir a “Homens e Deuses” (no original francês: “Des hommes et des dieux”, de Xavier Beauvois), um filme da academia francesa que me foi recomendado por muitos amigos – de cujo bom gosto, eu não tenho dúvidas -, e que tem recebido elogios mil por parte de “cinéfilos profissionais”. Não tenham receiam de ler este post porque eu não pretendo ser desagradável contando o final do filme, nem quaisquer detalhes que lhes furtem a emoção causada pela surpresa😉 Ninguém merece um comentarista “dedo-duro”.

Em linhas gerais, posso dizer que o filme é espetacular. Trata da vida de um grupo de monges cistercienses de origem francesa em um vilarejo da Argélia. Estes religiosos são obrigados – pela situação política e militar da região – a conviver com a violência perpetrada por terroristas muçulmanos, e combatida de modo também violento pelo exército argelino. Antes que alguém pergunte: sim, o filme é baseado em fatos reais.

É interessante notar, desde o início do filme, como o papel deste pequeno grupo de homens (apenas 8!) foi importante para aquela vila da Argélia. Perseguidos por governistas e por terroristas, estes homens contavam apenas com um apoio e com um estímulo: o apoio vinha de Deus; e o estímulo, do povo – muçulmano! – que já não mais se imaginava sem a companhia e a colaboração que aqueles homens de hábito prestavam aos que deles necessitavam. O povo, apesar de não professar a mesma fé que eles, os queria por perto. Afinal, eles haviam ajudado a construir aquele vilarejo. Ao perceber isto em determinada cena do filme, lembrei-me imediatamente do trabalho do Dr. Thomas E. Woods, que mostra como a Igreja construiu a civilização ocidental moderna. Ouso ir além do trabalho do Dr. Thomas, dizendo que sim, ainda hoje, a Igreja continua a construir civilizações. E embora haja críticas ácidas por parte daqueles que estão fora da Igreja (e que, nas mais das vezes, nada fazem em prol de quem quer que seja), as pessoas simples – reais beneficiárias da ação da Igreja – reconhecem o quanto o trabalho dos cristãos é importante, valioso e, nalguns casos, insubstituível. Como diz a célebre Carta a Diogneto, “o que é a alma no corpo, são os cristãos no mundo”.

Ao contrário do que se pode pensar em um primeiro momento, a película não enseja dar aos monges um aspecto de “santos de altar”: eles são apresentados com os seus medos, as suas dificuldades, as suas dúvidas e impaciências. Os monges aparecem exercendo aquela santidade na vida cotidiana, da qual tanto falou São Josemaria Escrivá. Em meio às tarefas de cada dia (como arar a terra, semear, coletar mel das abelhas, ir à feira, rezar juntos, etc) podia-se vislumbra a vida simples – mas jamais medíocre! -, e profundamente evangélica, que estes homens levaram. Gostei particularmente disso: o que se retratou em “Homens e Deuses” não foi uma visão romantizada do martírio, não foi uma santidade de panegíricos, não foi um heroísmo fabricado. Não. O realismo desta obra não é poético, não é artístico, não é fictício. É apenas transparente, desiludido, sincero.

Antes que os “vigilantes do preconceito” me inquiram, digo logo:  não há neste filme nenhum vestígio de preconceito para com o Islã. Deixa-se claro, por uma questão de justiça, que a brutalidade de alguns atos decorre dos excessos cometidos por alguns muçulmanos. Fica igualmente evidente, contudo, que estes ‘alguns’, lamentavelmente, conseguem causar danos enormes.

Ademais, como não falar que salta aos olhos a noção de fraternidade destes monges! A unidade deles na oração, a busca pelo silêncio [e pela companhia dos irmãos, quando acham por bem buscá-la], a intimidade com Deus, o bom humor apesar das dificuldades, a coragem, a fidelidade, o dom de si: tudo isso eles vivenciam com uma naturalidade admirável. Em alguns momentos tiveram que tomar decisões difíceis, é verdade. Mas a lucidez das opções que fizeram era fruto da luz de Cristo – que neles resplandecia de maneira particularíssima. Também isto chama a atenção no filme.

Bem, talvez eu já tenha falado demais. Por isso vou encerrando por aqui. Os que tiverem a oportunidade de assistir a este filme, façam-no sem demora e sem receio. Aqueles que não puderem vê-lo na tela grande das salas de cinema, onde ele ainda esteja sendo exibido, busquem por outros meios ter acesso a esta magnífica obra da sétima arte. Aos que estão em Recife, sugiro que confiram os horários das sessões no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco clicando aqui. O filme, só para lhes motivar mais a assistir, ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes, em 2010🙂