janeiro 2009


 

 

            O levantamento da excomunhão dos quatro bispos lefebvristas (para saber mais sobre isso, clique aqui) ainda vai dar o que falar. Zenit publicou ontem (30) uma matéria que apresenta as principais arestas que precisam ser aparadas a partir dessa abertura à reconciliação com a Igreja.

            A reportagem foi muito feliz quando trouxe a público a declaração dos bispos alemães a respeito do que vem a ser, em termos práticos, o levantamento da excomunhão:

 

 

«É necessário – escrevem os bispos – evitar mal-entendidos: na doutrina da Igreja, a revogação da excomunhão não é reconciliação, nem a reabilitação, mas a abertura do caminho para a reconciliação. Esse ato não foi um ponto de chegada, mas um ponto de partida para um diálogo necessário sobre as razões da dissensão. »

 

«Por sua parte, a Conferência Episcopal Suíça, país no qual Dom Marcel Lefebvre estabeleceu (na cidade de Ecône) a casa de formação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, quis sublinhar em uma nota que os bispos consagrados em 1988 sem mandato pontifício, «apesar do levantamento da excomunhão, continuam suspensos a divinis» e que, portanto, «segundo a Igreja Católica, não podem exercer seu ministério episcopal». »

 

 

            Essas declarações trazem dois esclarecimentos muito importantes, a saber:

 

1 – O levantamento da excomunhão não é, nem de longe, um pedido de desculpas, uma retratação que a Igreja queira fazer para implorar o perdão dos lefebvristas. Não é isso. A retirada da excomunhão deve-se ao fato de que se os que outrora eram excomungados manifestam o desejo de participar novamente da plena comunhão com Roma, é justo que se comece a remover os obstáculos que impedem a reaproximação e a reintegração ao seio da Santa Mãe Igreja.

 

2 – A situação canônica na qual se encontram os quatro bispos ordenados por D. Marcel Lefebvre é a de suspensos a divinis, embora não mais excomungados.

 

 

            Do posicionamento dos bispos alemães a única coisa que não acho positiva é que esse tipo de declaração soa como pressão para que os bispos lefebvristas façam logo o que tem de ser feito: retratarem-se de suas convicções ultratradicionalistas aceitando o Concílio Vaticano II a reforma litúrgica. Creio que isso tudo virá com o tempo. É preciso ter a proverbial paciência de Roma. Não adianta pressionar. Por enquanto resta-nos rezar para que todos sejam um!

 

 

 

“O que será que será,
Que dá dentro da gente que não devia
Que desconcerta a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso nem nunca terá
O que não tem cansaço nem nunca terá,
o que não tem limite” 
(Chico Buarque de Holanda -‘À flor da pele’)

 

 

 

          Sempre imaginei – e acho que essa foi a idéia de Chico Buarque – que esse trecho da música “Á flor da pele” se reportasse a paixão. Paixão que nos invade, que nos desconcerta, que é capaz de proporcionar sensações diametralmente opostas como o prazer e a dor; paixão que é insaciável, que exige reciprocidade; paixão que acorrenta, paixão que é semelhante ao canto de uma sereia: atrai sem que percebamos, mas depois não permite de modo algum que nos desvencilhemos dela! Paixão desmedida, incontinente, avassaladora.

            Hoje, ao me deparar com essa canção, enxerguei-a de outro modo. Perguntei-me: e se o compositor não estivesse falando de paixão? E se ele estivesse falando de pecado? A letra continuaria a conter uma mensagem interessante?

      Penso que essa música possa nos levar senão a uma autêntica  catequese sobre o pecado, pelo menos a algumas constatações importantes a respeito dele. Pensei nisso porque uma das coisas que me impressiona no mundo moderno – sobretudo no Ocidente – é a falta de consciência das pessoas a respeito do que seja errado; e, mais que isso, do que seja pecaminoso. Penso que esse não é um discurso retrógrado ou ultrapassado, como alguns podem insinuar ou afirmar; tampouco é um discurso puritano de quem vê as garras sedutoras do demônio em toda parte. De modo algum. A consciência de pecado é fundamental à vida cristã e parte do fato de que o cristão deve medir todas as coisas a partir de Cristo. Os olhos de um cristão devem enxergar o mundo a partir de Cristo: ele é a referência, o padrão segundo o qual se pode identificar o que está certo e o que está errado.

            Isto posto, vou me atrever a fazer uma “exegese” da música.

            Comecemos pelo fato de que o pecado realmente não devia estar em nós. O pecado é uma realidade originalmente estranha à realidade humana. Deus não planejou o ser humano com esse aditivo maldito. Mas, uma vez cometido, incorporou-se a nós… Agora não há filho de mulher que nasça sem essa mancha, sem esse parasita que teima em fazer habitação em nós e sugar as nossas forças. O pecado nos violenta, nos afronta, nos invade. O problema é que, mesmo sem querer sua visita, quando ele chega nos parece uma boa companhia… E acabamos tomando gosto por sua presença.

            A imagem da “aguardente que não sacia” é muito pertinente. Um sacerdote me disse uma vez: “quem já está todo sujo, não se incomoda de pisar numa poça de lama”. Pecado atrai pecado. Este ciclo é vicioso e viciante. Tornamo-nos dependentes do pecado e acabamos nos instalando no fundo do poço… Caímos no abismo e tomamos gosto pela queda.

            “(…) é feito estar doente de uma folia”. A folia é sinônimo de festa, sinal de que algo alegre está ocorrendo. O pecado gera, sim, um contentamento em nós. Mas essa “alegria” é doentia porque não é arraigada na liberdade.

            E os mandamentos? Eles indicam o que deve ser feito. Mas a filosofia do direito já abriu essa discussão: o dever ser normalmente difere do ser. Ou seja: a prática muitas vezes difere da teoria. As ordens são dadas de modo explícito. Deus nos revela a sua vontade de maneira muito clara. Mas, com muito cinismo, nós as rechaçamos; sob o pretexto de que temos liberdade de escolha…  E do conflito entre o ser e o dever ser que surge a necessidade de estabelecer sanções: as punições ajudam, em tese, a equacionar essa dicotomia. Entretanto, nem punições, nem quebrantos, nem ungüentos, nem alquimia, valem para auxiliar o homem a proceder corretamente. É a graça de Deus que nos ajuda a ser justos.

            Por fim, creio que a única semelhança entre Deus e o demônio é que ambos não dormem: este último não descansa para se empenhar mais em perder as almas. Deus, por sua vez, também não cochila: vigia dia e noite a fim de não deixar as almas sucumbirem às insídias de satanás. Ambos não descansam, ambos não se cansam. Mas os fins são opostos.

            Consola-nos, porém, saber que Cristo venceu o pecado. Conforta-nos saber que a Igreja segue anunciando ao mundo qual seja a vontade de Deus. Alenta-nos o fato de que o Espírito Santo, que se deu como dom à Igreja em Pentecostes, é quem nos “convencerá a respeito do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16, 8).

 

           

 

 

 

“Alegremo-nos pela tua promessa que não engana e façamos todo o possível para percorrer o caminho da unidade que tu nos prometeste”

Sua Santidade, o papa Bento XVI

Ás vezes a gente acha pérolas sem querer. Estava dando uma rápida olhada no site da sociedade brasileira de canonistas achei um artigo muito interessante o qual faço questão de postar aqui na íntegra. O artigo trata do “hábito eclesiástico”. Tenho particular afeição sobre o assunto porque a mim parece muito estranho que este costume tão salutar (o de vestir-se de acordo com a dignidade de sua vocação e função) tenha se tornado raro entre os eclesiásticos.

            Muitos sacerdotes e religiosos alegam não usar hábito, nem batina, porque seria sinal de ostentação perante o povo. Logo, não convém ao cristão (que deve primar pela humildade). Outros, sobretudo aqui no Nordeste do Brasil, alegam que o calor é grande. Portanto, usar este tipo de veste se torna um suplício. Outros ainda, acham que o hábito não tem relevância: é apenas um sinal exterior que não conta diante de Deus, que olha para o interior do homem.

            Todos estes motivos me parecem ter um fundo de verdade, mas não são suficientes para justificar o abandono do uso do hábito ou batina. É verdade que pode haver padres para os quais o uso das vestes eclesiásticas seja um estímulo à vaidade. Mas não se pode simplesmente sucumbir a isso, não se pode fugir à luta contra a vaidade. Também é verdade que no Nordeste faz muito calor! Mas, acaso Cristo não é merecedor do suor que se possa derramar por vestir o sinal do chamado que ele fez? Também é verdade que a Deus importa mais ter um coração religioso. Mas se pensarmos exclusivamente desta forma teremos que eliminar quase a totalidade dos elementos que embelezam a nossa rica liturgia: os sinais externos ajudam à contemplação do interior! “Não basta ser a mulher de César, é preciso parecer a mulher de César”.

            Dioceses atingidas pela influência nefasta da Teologia da Libertação também têm dificuldades em fazer os seus padres e religiosos vestirem-se como tal. Isto porque a TL quis inverter tudo: quis clericalizar os leigos e laicizar o clero. Confundiram a cabeça das pessoas de maneira que não se faz distinção entre o sacerdócio comum e sacerdócio ministerial.

            Por essa e outras trago este artigo para cá. Os grifos que nele constam foram feitos por mim.

 

 

O dever do hábito eclesiástico

Cân. 284: Os clérigos usem hábito eclesiástico conveniente, de acordo com as normas dadas pela conferência dos Bispos e com os legítimos costumes locais.

            A determinação do que seja “hábito eclesiástico”, que antes correspondia aos “costumes legítimos” e às “prescrições do ordinário do lugar”, passam agora às conferências Episcopais. Não se pode dizer, porém, que se imponha a estas uma obrigação estrita de dar normas nesse campo. De acordo com os pronunciamentos do Papa João Paulo II, a forma de vestir dos sacerdotes deveria ser, de algum modo, sinal da dedicação pessoal e elemento qualificante da condição de detentores de um ministério público. A questão é tão gritante que em vários “visita ad limina” dos Bispos do Brasil e doutras partes do mundo o Papa tem tratado da questão. No Brasil a CNBB legislou que o traje eclesiástico digno e simples é o clergyman ou a batina, quanto aos clérigos religiosos eles têm duas opções: usar o hábito de sua comunidade religiosa ou o clergyman, em algumas comunidades religiosas não se permite trocar o hábito religioso pelo clergyman, por questões de identidade, dizem os superiores, mas o fato é que o clérigo não pode vestir-se como um comum dos mortais, eles têm um ministério público assumido publicamente diante do povo, em várias circunstancias, a saber: no dia das ordenações (Diaconal, Presbiteral e Episcopal) e no dia que assumiram ofícios específicos na Igreja Particular (Párocos, Administrador, Vigários Paroquiais, Forâneos, Episcopais, etc.).

            No entanto, nos primeiros séculos o hábito dos clérigos não se diferenciava da veste comum do povo, nem pelo tipo de tecido, nem pela confecção. A partir do século V, os romanos começaram a usar algumas vestes muito curtas, como era costume entre os bárbaros. Por isso, a Igreja teve que ditar algumas normas para ajudar os clérigos e religiosos a se vestirem dignamente. Porém a dignidade não significava luxo ou ostentação, a dignidade aqui se referia a exposição do corpo, pois, os cristãos, desde o início, se mostraram mui atenciosos a essa questão. Com a Doutrina de “templo do Espírito Santo” desenvolvida por São Paulo em Éfeso, criou-se a mentalidade de superproteger, guardar, cobrir como “coisa” sagrada o corpo. Também nesse tocante os cristãos começaram a se diferenciar dos Romanos Pagãos.

            Desde os primórdios os monges, inicialmente, quase todos os ascetas eremitas optaram por uma veste de tecido rústico e de cor homogênea, que posteriormente foi chamado de hábito religioso ou clerical. Nos mais remotos escritos de regras religiosas encontramos a preferência pela cor preta, visto que era explicitamente contrária às luxuosas vestes coloridas da “nobreza pagã”, mas o tecido preto, para a época, já seria uma sofisticação, pois careceria de tintura, por isso muitos monges optam pelo hábito feito de tecido rústico sem pintura alguma, assim o monge se diferenciava publicamente de sua opção cristã radical, e, desde então começou-se a exigir do monge, sacerdote ou religioso (vocábulo já medieval) que se distinguisse, também, pela sua veste.

            Com a expansão do cristianismo vindo do oriente para a Europa e a gradual conquista dos povos bárbaros as coisas, aos poucos, foram tomando novos rumos, as novas ordens ou congregações religiosas começaram a “dar cor” as suas vestes, porém sempre cores homogêneas, nunca vestes coloridas, para se contrapor à seda de além de maleável sempre combina muitas cores no seu designe.

            Essa mentalidade perpassou todo o primeiro milênio e, sobretudo, o segundo até o vendaval que abalou as estruturas da vida religiosa após o Concílio do Vaticano II (1962 – 1965). O Concílio pediu a simplificação de alguns hábitos religiosos, mas alguns interpretaram essa norma a seu bel prazer e jogaram fora todos os sinais externos que sempre marcaram a vida religiosa ou sacerdotal. Diziam que o religioso ou o clérigo deveria ser identificado pelo seu modo de vida e não pelo seu hábito, só que isso resultou num verdadeiro fracasso vocacional a ponto de muitas congregações fecharem suas casas por falta de vocação, ou seja, a nova proposta de vida religiosa ou clerical em nada se mostrou mais eficaz que a tradição bimilenar da Igreja.

            Há um antigo provérbio medieval que diz: “O hábito não faz o monge, apenas o distingue de longe”, e todo religioso ou clérigo é vivamente convidado a honrar o seu habito por uma vida santa e simples. Hoje, estamos seguros disso, retornamos ao tempo dos Romanos Pagãos, e, grande parte dos religiosos e clérigos embarcam na onda, encontra-se religioso ou clérigo com roupas de última moda, coloridas, com mil e um adereços propostos pela mídia, e, não esqueçamos da gritante exposição do corpo que cada vez mais torna-se normal.

            O hábito eclesiástico sempre exerce uma função insubstituível no processo de evangelização, pois, em qualquer estratificação social, de qualquer nação, em qualquer tempo da história ele sempre questiona positivamente a opção que alguém faz por portar durante toda a vida este ou aquele hábito, que, repito, deve ser honrado pela santidade de vida de quem o usa.

            A abolição do hábito religioso ou clerical é uma doutrina genuinamente protestante, pois, Lutero ensina que a verdadeira Igreja era invisível, esse disparate foi condenado pelo Concílio de Trento e reafirmado pelo Concílio do Vaticano II, quando diz que a verdadeira Igreja de Cristo é visível, pelos seus sacramentos, pelos seus fiéis, pelos seus santos, pela sua arte, etc. Essa Doutrina da visibilidade da Verdadeira Igreja se apóia na Doutrina da Encarnação de N. Senhor Jesus Cristo, que torna visível aos nossos olhos a divindade, até então, invisível aos nossos olhos. Por isso que o hábito religioso ou clerical faz parte integrante da natureza da Igreja, tornar a fé visível, e, nesse mundo do áudio visual que nós vivemos, agora, mais do que nunca precisamos de símbolos que nos distingam no grande e diversificado universo do Povo de Deus. O exemplo mais evidente para nós é o Papa que em qualquer parte, diante de qualquer “platéia” sempre está com sua inconfundível veste talar branca, que depois do Papa São Pio V tornou-se uma nota característica da pessoa e ministério petrinos.

 

São Pio de Pietrelcina virou modelo de padre perseguido pela Igreja. Ultimamente sempre que alguém quer defender algum padre que recebeu uma punição ou advertência por parte da autoridade eclesiástica, menciona Padre Pio. É como se dissessem: “Não se preocupe. A Igreja está sendo injusta com você. Ela também erra. Veja o caso de Padre Pio: foi perseguido mas, depois, foi canonizado”.

            Por exemplo: comentando a suspensão do Fr. Jânio, Ofmcap, o autor deste blog, fez o seguinte comentário:

            “Entre os anos de 1922-1933, o Vaticano publicou cinco decretos alertando o público sobre o Padre Pio. A Santa Sé o restringiu de ouvir confissões e de celebrar a Missa em público”.

            No Blog dos “amigos” do Pe. Cosmo (afastado recentemente de suas funções na Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios) também há comparações desta natureza.

            Não há nada mais danoso que isso. Comentários desta natureza estimulam a desobediência, impedem as pessoas de fazerem uma leitura sensata da realidade eclesial, além de induzirem o sacerdote ou religioso em questão a acreditar que não precisa rever nenhuma de suas atitudes, afinal: “Vox populi, vox Dei (A voz do Povo é a voz de Deus). Portanto, eu estou certo”.

            A prudência pastoral exercida pela Igreja e seus representantes muitas vezes é vista como erro ou injustiça. Quem pensa desta maneira, no entanto, ignora ou distorce o fato de que a Igreja age no tempo. Isto é: ela identifica o que é mais adequado a fazer naquele instante. Nas mais das vezes, quer-se preservar o padre dos efeitos danosos do estrelismo (ou protagonismo) que muitas vezes o povo fomenta. “Illum oportet crescere”: É necessário que Ele cresça (Jo 3,30). Isto acontece não só no caso de padres que são afastados. Ás vezes o povo gosta tanto de determinado padre ou religioso missionário que o quer para sempre consigo. Mas isto não pode ser feito porque contraria a própria essência da vocação missionária! Daí se um bispo ou superior transfere o missionária é confusão na certa. Mas: paciência! O que não se pode é arrefecer no zelo, na solicitude pastoral.

            Além do que, há pessoas que – por mais virtudes que tenham – cometem erros gravíssimos que precisam ser corrigidos (antes que os erros comecem a corromper as próprias virtudes). Se quando elogiamos alguém, abstraímos de seus defeitos; é justo que quando corrigimos e punimos alguém, prescindamos de qualquer bem que ela possa ter feito ou promovido. Uma tolerância excessiva, com a justificativa tosca de que os acertos abonam o erro, acaba se tornando omissão. Depois vou aprofundar este assunto e posto aqui…

 

São Pio, Rogai por nós.

Saiu neste site:

 

O chanceler padre Cícero de Paula Ferreira, entretanto, se pronunciou sobre sobre o caso do padre Cosmo. “Há cerca de sete meses a arquidiocese chamou a atenção dele, pois normas relacionadas à celebração não estavam sendo seguidas. As bênçãos e missas estavam com um caráter talvez muito espírita, no modo de lidar com anjos e mortos, por exemplo”, explicou padre Cícero. “O afastamento ocorreu certamente porque essas coisas persistiam após alerta do arcebispo”, concluiu.  A irmã de padre Cosmo, Risonete Nascimento, explica que ele era muito carismático e, por isso, muito procurado pelos fiéis.

           

            De fato, a Deus nada é impossível. Digo isto porque eu, pessoalmente, achava que a situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X jamais se resolveria.

            Aos que não sabem do que se trata, farei um breve histórico do caso:

            Em 30 de Junho de 1988, o Arcebispo Marcel Lefebvre procedeu à sagração episcopal de 4 sacerdotes sem a autorização de Roma. De acordo com o direito canônico, estes 4 sacerdotes, bem como o bispo que conduziu a ordenação (D. Marcel Lefebvre), estão automaticamente fora da comunhão com a Igreja (é o que se chama Excomunhão Latie Sententiae). A respeito disto o Vaticano fez a seguinte declaração:

            “Em si mesmo, tal ato foi uma desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima e de importância capital para a unidade da Igreja, como é a ordenação dos bispos, mediante a qual é mantida sacramentalmente a sucessão apostólica. Por isso, tal desobediência – que traz consigo uma rejeição prática do Primado romano – constitui um ato cismático. Ao realizar tal ato, não obstante a advertência formal que Ihes foi enviada pelo Prefeito da Congregação para os Bispos no passado dia 17 de Junho, Mons. Lefebvre e os sacerdotes Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, incorreram na grave pena da excomunhão prevista pela disciplina eclesiástica (…) Não se pode permanecer fiel à Tradição rompendo o vinculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apostolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja”.

            E advertiu aos fiéis que, porventura, apoiassem a atitude e o movimento de Mons. Lefebvre:

 

            “Ninguém deve ignorar que a adesão formal ao cisma constitui grave ofensa a Deus e comporta a excomunhão estabelecida pelo Direito da Igreja”.

 

            A origem da rebeldia de Monsenhor Lefebvre estava ligada a uma não aceitação do Concílio Vaticano II, bem como da reforma litúrgica por ele proposta.

 

            No Fratres in Unum encontra-se o texto integral do decreto, tão esperado, que cancela a censura a de excomunhão imposta àqueles bispos, que manifestaram seu desejo de voltar à comunhão plena com o Romano Pontífice. Com alegria, publico-o:

 

DECRETO DA CONGREGAÇÃO PARA OS BISPOS

            Com carta de 15 de Dezembro de 2008 endereçada a Sua Eminência o Sr. Cardeal Dario Castrillón Hoyos, Presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Mons. Bernard Fellay, também em nome dos outros três bispos consagrados em 30 de Junho de 1988, solicitava novamente a remoção da excomunhão latae sententiae formalmente declarada por Decreto do Prefeito desta Congregação para os Bispos em data de 1° de Julho de 1988. Na mencionada carta, Mosenhor Fellay afirma, entre outras coisas: “Estamos sempre firmemente determinados na vontade de permanecer católicos e de colocar todas as nossas forças a serviço da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja Católica Romana. Nós aceitamos os seus ensinamentos com ânimo filial. Acreditamos firmemente no Primado de Pedro e em suas prerrogativas, e por isso nos faz sofrer tanto a situação atual”.

            Sua Santidade Bento XVI – paternamente sensível ao desconforto espiritual manifestado por pelos interessados por causa da sanção de excomunhão, e confiando no compromisso expresso por eles na cidade carta de não poupar esforço algum para aprofundar as questões ainda abertas em necessárias conversações com as Autoridades da santa Sé, e poder assim chegar rapidamente a uma plena e satisfatória solução do problema existente em princípio, decidiu reconsiderar a situação canônica dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, relativa a sua sagração episcopal.

            Este ato expressa o desejado de consolidar as relações recíprocas de confiança, intensificar e fazer mais estáveis as relações da Fraternidade São Pio X com a Sé Apostólica. Este dom de paz, ao término das celebrações do Natal, aspira também a ser um sinal para promover a unidade na caridade da Igreja universal, e por seu meio, retirar o escândalo da divisão.

            Desejando que este passo seja seguido sem demoras da plena comunhão com a Igreja de toda a Fraternidade São Pio X, em testemunho de uma verdadeira fidelidade e de um verdadeiro reconhecimento do Magistério e da autoridade do Papa através da prova da unidade visível.

            Conforme as faculdades que me foram expressamente concedida pelo Santo Padre, Bento XVI, em virtude do presente Decreto, cancelo aos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfons de Galarreta a censura de excomunhão latiae sententiae declarada por esta Congregação em 1 de julho de 1988 e declaro privado de efeitos jurídicos a partir do dia de hoje o Decreto então publicado.

Roma, Sagrada Congregação para os Bispos, 21 de janeiro de 2009.

Cardeal Giovanni Batista Re
Prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos

COMUNICADO DA SALA DE IMPRENSA DA SANTA SÉ

            O Santo Padre, depois de um processo de diálogo entre a Sé Apostólica e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, representada pelo seu Superior Geral, S.E. Mons. Bernard Fellay, acolheu o pedido formulado novamente por esse Prelado em uma carta de 15 de Dezembro de 2008, também em nome dos outros três bispos da Fraternidade, S.E. Mons. Bernard Tissier de Mallerais, S.E. Mons. Richard Williamson e S.E. Mons. Alfonso del Gallareta, de revogar a excomunhão em que incorreram vinte anos atrás.

            Por causa, realmente, da consagração episcopal feita, em data de 30 de junho de 1988, por S.E. Mons. Marcel Lefebvre, sem mandato pontifício, os quatro mencionados prelados incorreram em excomunhão latiae sententiae, formalmente declarada pela Congregação para os Bispos, em data de 1 de Julho de 1988.

            S.E. Mons. Bernard Fellay, na citada missiva, manifestava claramente ao Santo Padre que: “Estamos sempre firmemente determinados na vontade de permanecer católicos e de colocar todas as nossas forças a serviço da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja Católica Romana. Aceitamos os seus ensinamentos com ânimo filial. Acreditamos firmemente no Primado de Pedro e em suas prerrogativas, e por isso nos faz sofrer tanto a situação atual”.

            Sua Santidade Bento XVI, que tem acompanhado desde o início este processo, sempre procurou recompor o rompimento com a Fraternidade, também se encontrou pessoalmente com S.E. Mons. Bernard Fellay em 29 de agosto de 2005. Naquela ocasião, o Sumo Pontífice manifestou a vontade de proceder por graus e em prazo razoável em tal caminho e agora, benignamente, com solicitude pastoral e paterna misericórdia, mediante decreto da Congregação para os Bispos de 21 de Janeiro de 2009, revoga a excomunhão que pesava sobre os mencionados prelados. O Santo Padre foi inspirado nessa decisão na esperança que se chegue em breve à completa reconciliação e à plena comunhão.

 

Ut Omnes unum sint (Que todos sejam um)!

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