junho 2009


             Hoje, 30 de junho de 2009, D. José Cardoso Sobrinho completa 76 anos. Faz, portanto, um ano que ele apresentou ao Santo Padre o seu pedido de renúncia à cátedra de Olinda e Recife. Sendo um bispo tão prudente e zeloso é de se esperar que o Papa, até o presente momento, não tenha aceitado a sua renúncia (que se dá não por “desistência pura e simples”, mas por força do Direito Canônico – o qual obriga todo o bispo que completa 75 anos de idade a requerer renúncia). 

             Contudo, o que me parece mais engraçado é que exatamente neste período – em que a Santa Sé está empreendendo forças na difícil tarefa de encontrar um bispo que substitua D. José à altura – foi o momento em que ele, D. José, mais se mostrou digno do pálio episcopal que carrega sobre os ombros.

            Sendo o 7º Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife e trigésimo primeiro Bispo a ocupar o sólio olindense, Dom José tem demonstrado que a idade avançada e o fato de estar nos últimos dias do exercício de seu ministério não são motivos para relaxar o zelo pastoral.

             As atividades do Ano Paulino transcorreram dentro do programado e, agora, a arquidiocese traz, na sua página de abertura na internet, um convite à vivência espiritual intensa do Ano Sacerdotal. O arcebispo continuou a celebrar as cerimônias de crisma, falar na rádio, atender os fiéis em audiência privada, etc. Tudo permaneceu como antes. Nada mudou após a apresentação da renúncia.

              Neste último ano, o prelado teve que comparecer diversas vezes ante o tribunal dos homens para dizer que, agindo como justo diante de Deus, fez tudo o que fez. Vergonhosamente a justiça brasileira o obrigou a demonstrar que tem poderes para destituir qualquer sacerdote que estivesse sob o seu báculo. Isto lhe compete, está na sua alçada! Ele teve que entrar na justiça para pedir o que, por direito, já era seu (ou melhor, da diocese): moveu uma ação de reintegração de posse da *Paróquia* de Água Fria! Sofreu por causa de um bando de fiéis rebeldes que – reclamando do afastamento *temporário* do Padre Cosmo, da paróquia da Estrada dos Remédios – quis deixar de pagar o dízimo na paróquia como forma de protestar contra a atitude do arcebispo.

              Após o caso da menina de Alagoinha (aquela que foi forçada pelos médicos a abortar os gêmeos que concebera), os inimigos de D. José achavam que, enfim, tinham vencido: era o fim do arcebispo. A opinião pública não o perdoaria. De fato, a opinião (totalmente “desimportante”) daqueles que fazem a mídia secular não foi benevolente com o senhor arcebispo. Mas, e daí? Importa agradar a Deus mais que aos homens! Aqueles que esperavam que Roma destituísse de imediato Dom José, dada a repercussão do caso, têm que dar o braço a torcer. Roma dá sua confirmação tácita à atitude do arcebispo deixando-o no cargo.

               É por essas e outras que Dom José Cardoso Sobrinho merece nosso parabéns duas vezes: uma pelo seu aniversário natalício e outra pela sua coragem e firmeza pastoral!

            Vale a pena dar uma olhada no pacto de San José da Costa Rica (do qual o Brasil é signatário). Decidi fazer alguns comentários a ele depois que soube, através do Wagner Moura, que este pacto – também chamado de Convenção interamericana de Direitos Humanos – foi usado pelo STF para fundamentar a decisão de abolir a necessidade do diploma de jornalismo no Brasil. Se os magistrados levassem o pacto realmente a sério, teriam que abolir uma porção de coisas…

             

Artigo 1º – Obrigação de respeitar os direitos

(…)

2. Para efeitos desta Convenção, pessoa é todo ser humano.

            Afirmação óbvia? Não. Afirmação necessária num país em que as tartarugas têm mais direito que os seres humanos.

Artigo 4º – Direito à vida

1. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.

            A primeira grande “bofetada” que o pacto de San José dá dirige-se àqueles que teimam em querer legalizar aborto, eutanásia, e congêneres. O raciocínio [cínico] de quem apóia a carnificina institucionalizada é mais ou menos assim: o ser humano frágil (ou fragilizado) não interessa mais à sociedade, já não serve mais… Para uma sociedade que adotou um modus vivendi extremamente utilitarista, as pessoas só merecem viver se forem capazes de produzir algo. A vida passou a ser um fruto de uma barganha: “deixo você viver, enquanto você me for útil”. A idéia é mais ou menos a seguinte: “Já que Darwin afirmava que só os fortes sobrevivem, matemos os fracos como forma de ‘antecipar’ a seleção cedo ou tarde a natureza faria”. Esta maneira de pensar é mesquinha, orgulhosa e covarde – ao mesmo tempo; quem a adota está pensando unicamente em si mesmo, julga-se auto-suficiente, crê que as pessoas ao seu redor não passam de ‘seres inferiores’, e não tem nenhuma compaixão de seu próximo. O pacto de San José da Costa Rica estabelece o direito à vida (e o dever de respeitá-la), precavendo-nos contra esta mentalidade medonha que se difundiu na sociedade. Quem dera o Supremo Tribunal Federal conhecesse esse artigo do pacto…

Artigo 17 – Proteção da família

1. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e deve ser protegida pela sociedade e pelo Estado.

            “Natural e fundamental”. A família forma-se e instaura-se na sociedade da forma como a natureza estabelece: homem e mulher. Não há um “núcleo natural”, não há nenhuma união segundo a natureza distinta daquele que se forma quando indivíduos de sexo oposto decidem criar vínculos de comunhão afetiva e efetiva. Sem este núcleo fundamental a sociedade desmorona. Quem dera o Estado cumprisse seu papel de proteger esta instituição (quando esta mesma não possa fazer sua defesa, é claro).

 Artigo 12 – Liberdade de consciência e de religião

 (…)

 4. Os pais e, quando for o caso, os tutores, têm direito a que seus filhos e pupilos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.

 Ótimo. Quer dizer que não é discriminação nenhuma querer que nas escolas católicas se ensine a doutrina católica. Se eu não quero que os meus filhos aprendam teses espíritas, nem métodos budistas de meditação, estou apenas exercendo o meu direito. A inclusão da “educação (…) moral” no texto do pacto é excelente: significa que aquela cartilha depravada do Ministério da (des)Educação é totalmente incompatível com o pacto de San Jose da Costa Rica. A “moral” lulista não tem que ser imposta.

 Artigo 21 – Direito à propriedade privada

1. Toda pessoa tem direito ao uso e gozo de seus bens. A lei pode subordinar esse uso e gozo ao interesse social.

2. Nenhuma pessoa pode ser privada de seus bens, salvo mediante o pagamento de indenização justa, por motivo de utilidade pública ou de interesse social e nos casos e na forma estabelecidos pela lei.

            Pergunto: é interesse social tirar a propriedade de quem lutou para adquiri e entregar na mão de alguém que se define como “sem-terra”? É justo que o Estado se negue a resolver o problema destas pessoas e autorize que outros assumam o “custo” deste problema? “Desuso” é justificativa para perda do direito de propriedade?

 

            Eis aqui a quarta – e última – parte da entrevista concedida por D. José Cardoso Sobrinho ao jornalista Ivanildo Sampaio, no início do ano de 1990. Extramente atuais e oportunas são as colocações do Sr. Bispo. A temática das três perguntas agora é Teologia da Libertação.

             JC: Qual a sua posição a respeito da Teologia da Libertação?

             Dom José: A expressão “Teologia da Libertação” tornou-se hoje quase um slogan. Uma espécie de panacéia que serviria para curar todos os males. Mas, no sentido cristão autêntico e tradicional, a Teologia da Libertação nada tem de novidade e designa a essência mesma do Cristianismo. Libertação na Bíblia é sinônimo de salvação e de redenção. E não há nada de mais autêntico no Cristianismo do que a invocação de “Cristo Redentor” ou simplesmente “Salvador”. No entanto, na América Latina, a palavra “Libertador” tem freqüentemente um sentido político. A expressão “Teologia da Libertação” é profundamente ambígua porque recobre uma variedade imensa e profundamente contraditória de teologias e ideologias. A Santa sé promulgou dois documentos sobre a Teologia da Libertação. Um, sobre seus aspectos negativos (Libertatis nuntius); outro, mais positivo, sobre a verdade cristã e a libertação (libertatis conscientia). Assim, podemos dizer que apesar da pluralidade das Teologias da Libertação todas elas podem ser reduzidas a dois grupos; um dominado por ideologias inaceitáveis e falsas; outro, plenamente válido por se constituir uma nova etapa daquela reflexão teológica que veio formar o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja.

 

            JC: Qual seria a falsa Teologia da Libertação?

             Dom José: É aquela que se encerra no âmbito político, terreno, econômico e material, e não se abre para a libertação eterna e transcendente. Isso não quer dizer que essa Teologia não tenha surgido de um desejo sincero de fazer o bem e acabar com a opressão. As gritantes desigualdades entre países ricos e pobres já não são mais toleradas. A fome, a miséria, a dívida

externa do Terceiro Mundo, o neocolonialismo são uma calamidade insuportável. Nessa conjuntura é natural que surjam movimentos político-sociais para realizar transformações radicais, que poriam fim à opressão e à miséria do povo, até mesmo com recursos a meios violentos. É nesse contexto que surgiu a nova interpretação do Cristianismo e da Teologia. Em face da urgência de pôr um termo à exploração dos pobres e marginalizados, alguns teólogos chegaram a pensar que a luta necessária para obter justiça e liberdade humanas, entendidas no sentido econômico e político, constituía o essencial e a totalidade da salvação cristã. Para eles, o evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre. Conceitos tomados por empréstimo à ideologia marxista e o recurso a uma hermenêutica bíblica marcada pelo racionalismo encontram-se na raiz desta modalidade da Teologia da Libertação.

 

            JC: E qual seria a Teologia da Libertação oportuna e necessária?

            Dom José: Se a visão puramente política da Teologia da Libertação deve ser rejeitada, há uma outra que representa um verdadeiro progresso e deve ser aceita sem restrições e com entusiasmo. É aquela que não valoriza apenas a salvação das nossas almas, mas a libertação integral do homem. Uma teologia com raízes bíblicas, identificada plenamente com a Doutrina Social da Igreja, como a Teologia da Libertação parte de uma reflexão teológica sobre a realidade social e seus fundamentos antropológicos. Não é lugar aqui para analisar todos esses grandes temas da autêntica Teologia da Libertação. Vamos nos contentar com elencar apenas alguns tópicos: As dimensões do homem à luz da Revelação. O anseio do homem. O sentido da humanidade. O sentido da Comunidade. Pessoa e sociedade. Dignidade da pessoa. Dignidade do pobre. Prevalência do bem comum. A idolatria da riqueza e do poder. Natureza de missão social da Igreja. Igreja e política. Igreja e liberdade temporais. A atitude de Jesus ante a opressão romana. O compromisso com os pobres. A denúncia da riqueza. As diversas relações humanas. Relações homem-mulher. O sentido da reciprocidade e solidariedade. Princípios de uma nova ordem econômica. A primazia da comunidade sobre a sociedade. A propriedade privada e a hipoteca social. A repartição a nível de empresa. Os direitos do trabalhador. A reforma agrária e a reforma da empresa. A violência. A libertação cultural. O problema na América Latina. Aspecto sóciopolítico. A opressão econômica. As opressões externas. A dívida externa. A deterioração da democracia. A mutação cultural. Impacto sobre os meios de comunicação. Impacto sobre a comunidade de trabalho. Impacto sobre a família. Impacto sobre a vida religiosa. O desequilíbrio cultural. A crise da valorização industrial. A concentração urbana. O descalabro moral. A agressão da fé do povo latino-americano, a proliferação das seitas, as comunidades de base e a conscientização dos pobres. A esperança cristã. Opção pelos pobres. As comunidades eclesiais de base. Opção pelos jovens. Pastoral Social. Pastoral Familiar. A formação da consciência. A comunicação dos bens. Todos esses temas, e muitos outros não mencionados aqui, que constituem a preocupação constante da “Doutrina Social da Igreja”, se identificam com a “Teologia da Libertação” que, por conseguinte, é “oportuna e necessária” como diz o papa João Paulo II.

             Estava planejando postar esta entrevista em, no máximo, 3 partes; contudo, não será possível: é muito extensa! Então adianto mais duas perguntas feitas ao senhor Arcebispo pelo jornalista do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio. Tratam da questão da “opção preferencial pelos pobres”, e do termo “Igreja do povo”. Esta última argüição feita a Dom José é de <<fundamental importância>> para que nós, católicos, [re]formulemos a nossa visão a respeito da Igreja. São palavras realmente esclarecedoras!

 

            JC: O senhor foi apresentado perante a opinião pública como inimigo dos pobres… aceita a “opção preferencial pelos pobres”?

             Dom José: Uma das ofensas mais graves que se pode dirigir a um bispo é acusá-lo de ser inimigo dos pobres. No dia da minha sagração episcopal, jurei solenemente sobre o túmulo do Apóstolo Pedro, “mostrar-me sempre afável e misericordioso para com os pobres e peregrinos e todos os necessitados” (Ritual da sagração). Tanto na primeira diocese que me foi confiada, como nesta Arquidiocese, tenho procurado cumprir fielmente este grave dever de consciência. Ao chegar aqui, recomendei imediatamente aos meus assessores que dispensassem sempre a todos aqueles que nos procurassem um tratamento cordial e caridoso. Esta tem sido sempre minha atitude pessoal. Tenho acolhido sem qualquer protocolo as inúmeras pessoas que me procuram. Na mesma sala de audiências tenho recebido, indistintamente, pobre, ricos, ministros e governantes, e, habitualmente, os irmãos carentes do “Banco da Providência”. A este mesmo “Banco” – que é o centro arquidiocesano de atendimento aos pobres e de promoção humana – já encaminhei através de um grupo de amigos do Canadá. Tenho feito tudo isso sem alarde, sem convocar a televisão para registrar o evento. A acusação a que você se refere teve origem em 1988, quando a presidência do Regional Nordeste II aprovou a exoneração de uma equipe que estava encarregada da Pastoral Rural. Quando o assunto foi levado aos jornais com uma versão distorcida, publiquei uma nota declarando à opinião pública que os motivos daquela exoneração eram de ordem disciplinar, isto é, irregularidades na administração financeira, independência na elaboração e execução de projetos, etc. Então meus opositores se encarregaram de divulgar, nacional e internacionalmente, aquela versão falsa e inverossímil de que eu não aceito a opção pelos pobres e teria destituído aquelas pessoas precisamente porque estavam engajadas nas atividades de defesa dos pobres. O resultado desta campanha difamatória foi uma verdadeira avalanche de mensagens de protestos provenientes do Brasil e de vários outros países. Os responsáveis por esta infâmia haverão de prestar contas a Deus. Nenhuma pessoa de bom senso haverá de acreditar que alguém foi punido porque estava defendendo os pobres ou simplesmente porque era fiel aos apelos do Vaticano II, de Medellín e Puebla. Repito ainda o que já declarei em mais de uma ocasião: a defesa da dignidade humana dos deserdados, dos oprimidos e perseguidos, não é e não pode ser uma mera “opção preferencial”; é dever grave de justiça que pesa sobre toda consciência humana e cristã; é fundamental empenho da nossa Arquidiocese.

 

            JC: Hoje se fala muito em diversos modelos de Igreja. Qual o modelo que o senhor aceita? Por que o senhor não aceita a Igreja que, como se diz na atualidade, vem do povo?

             Dom José: Hoje se fala muito de modelos de Igreja. É uma expressão infeliz. A Igreja é um mistério de graça e liberdade. A palavra “modelo” designa uma realidade física necessária. Ora, a Igreja não é uma realidade natural, é um mistério histórico-salvífico e como tal se situa num horizonte de liberdade onde entram tantos fatores aleatórios, desde a liberdade do Espírito de Deus agindo na história e na liberdade do homem respondendo livremente os apelos da graça, até a riqueza imensa das conjunturas imprevisíveis e dos choques das culturas com as variações quase ilimitadas das aculturações que marcam a história das civilizações nas quais se encarnou a Igreja por dois mil anos. Seria mais acertado usar a metáfora “estilo” em vez de “modelo”. A expressão “Igreja popular”, que “nasce do povo”, foi criticada pela primeira vez pelo Papa João Paulo II, no discurso inaugural de Puebla: “Percebe-se um certo mal-estar com respeito à interpretação da natureza e missão da Igreja institucional ou oficial, qualificada como alienante, à qual se oporia outra Igreja popular, que nasce do povo e se concretiza nos pobres. Esta concepção de Igreja é ideológica e fruto dos magistérios paralelos”, disse o Papa. Os bispos de Puebla retomaram e aprofundaram a questão. O Documento de Puebla distingue dois sentidos da expressão “Igreja que nasce do povo”. O problema da Igreja popular, que nasce do povo, apresenta diversos aspectos. Se se entende Igreja popular como aquela que procura encarnar-se nos meios populares do nosso Continente e que, por isso mesmo, surge da resposta de fé que os grupos do povo dão ao Senhor, evita-se o grande obstáculo: a negação da verdade fundamental, que ensina que a Igreja sempre nasce de uma primeira iniciativa que “vem do Alto”, isto é, do Espírito Santo. Mesmo assim esta expressão é pouco feliz. Muitas vezes a Igreja popular aparece como distinta de outra identificada como a Igreja “oficial” acusada de “alienante”. Isso implicaria uma divisão no interior da Igreja e uma negação inaceitável da função da hierarquia. Tais posições, de acordo, com João Paulo II, poderiam ser inspiradas por conhecidos condicionamentos ideológicos.

             Caríssimos, essa é a segunda parte da entrevista feita por um jornalista do Jornal do Commercio com D. José Cardoso Sobrinho, Arcebispo de Olinda e Recife, em 1990. Desta feita os destaques são para o esclarecimento dos  temas polêmicos da época: fechamento do Instituo Teológico do Recife (ITER), o caso do Padre Reginaldo Veloso (já entrevistado por mim aqui), e outras situações próprias daquele momento da vida da Igreja em Olinda e Recife. Creio que seja importante conhecer a história tal como ela ocorreu, e não como contam uns e outros…

 

            JC: O senhor poderia citar um exemplo de versões que foram passadas aos jornais e que não correspondem à verdade?

             Dom José: O caso mais clamoroso é o da invasão do Palácio dos Manguinhos. Uma típica invasão de domicílio. Veja você que, na hora do almoço, eu sou surpreendido por um grupo de pessoas arrogantes, que chegaram de surpresa e foram logo avisando que chegaram para ficar. Iam acampar no Palácio. Em cada uma das portas do prédio, sentaram três homens ao chão. Eu tentei dialogar e não consegui. O pessoal da casa, que trabalha comigo, foi insultado e agredido com palavrões. O objetivo dos invasores, que usavam a mesma arma de chantagem usada por terroristas e seqüestradores, era coagir o Arcebispo a revogar uma decisão tomada (a transferência de um padre). Como a minha casa, o meu domicílio foi ocupado pela força, eu tive que pedir à polícia que retirasse os invasores. A versão da então diretoria da Comissão de Justiça e Paz, passada para o mundo inteiro, é falsa e caluniosa. Diz que “um grupo de humildes camponeses que desejava apenas falar com o Arcebispo foi repelido pela Polícia”. Essa versão – infamante, falsa, caluniosa – foi mandada, através de circular, para várias partes do mundo, acrescentando que “o Arcebispo não gosta de pobres”. Isso é uma mentira, uma indignidade. Tenho recebido cartas de religiosos, de leigos do mundo inteiro, protestando contra a minha suposta atitude, baseando-se na informação mentirosa e distorcida que a antiga diretoria da Comissão de Justiça e Paz se encarregou de divulgar pelo mundo.

 

            JC: Que medidas o senhor tomou contra a Comissão?

             Dom José: Destituí a sua diretoria. Um órgão da Arquidiocese, que deveria atuar sob responsabilidade do Arcebispo, não pode trabalhar contra o Arcebsipo. É como se, no seu jornal, houvesse um grupo trabalhando contra a diretoria da empresa. É uma inversão de valores. A Comissão de Justiça e Paz tem por objetivo expor, defender e ilustrar a doutrina social da Igreja e a aplicação prática dessa doutrina na defesa dos direitos humanos. A antiga diretoria estava muito mais preocupada em fazer política partidária.

 

            JC: Por falar em política partidária, houve um engajamento muito grande da ala progressista do clero nas últimas eleições. Como o senhor viu isso?

             Dom José: Atribui-se a João XXIII uma frase que diz o seguinte: “Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere”. Ou seja, “ver tudo, dissimular muito, corrigir pouco”. Houve realmente, um envolvimento político-partidário muito grande por parte de padres, freiras, religiosos nessas últimas eleições. Na eleição anterior, os Bispos de Pernambuco redigiram um documento, assinado por unanimidade, no qual eram citadas fontes da Igreja, da CNBB, de Puebla, etc. proibindo aos padres o envolvimento político-partidário. Nas últimas eleições, para escolha do Presidente da República, o decreto foi emitido novamente. Mas, muitos desobedeceram a esse Decreto. E o que fez o Arcebispo? Tolerou. Fechou os olhos. Seguiu o conselho de João XXIII. Não é possível nem é prudente corrigir sempre todos os erros. Muitas vezes é melhor tolerar. Se eu fosse corrigir todos os erros dos quais tenho conhecimento a vida se tornaria impossível. Mas houve um forte envolvimento político-partidário por parte de padres, freiras e agentes pastorais nas últimas eleições.

 

            JC: Dom José, atribuem também ao senhor a responsabilidade pelo fechamento do Seminário Regional Nordeste II (SERENE) e do Instituto Teológico do Recife (ITER). É verdade que a decisão do fechamento foi sua?

             Dom José: Essa é outra história parecida com aquela dos camponeses. A primeira visita apostólica recebida pelas duas instituições data de 1981 e foi feita pelo bispo Dom Oscar Scheid. Esses visitadores são uma espécie de auditores, designados diretamente pelo Vaticano para ver como funcionam suas instituições pelo mundo. Pois bem, já em 1981 – quando eu sequer sonhava em vir a ser um dia o Arcebispo de Olinda e Recife – o visitador dom Oscar Scheid mostrava preocupação com o Serene II. Em 1986, Roma enviou uma carta ao Regional Nordeste II. Essa carta, remetida pela Congregação da Educação Católica, depois de descrever o que o Concílio entende por Seminário Maior, convida os bispos a instituir um Seminário Maior propriamente dito e diz: “Nutrimos viva esperança de que o Serene II se converta dentro de pouco tempo num centro de formação eclesial segundo o Concílio Vaticano II”. Em novembro daquele ano, 1986, foi realizada uma Assembléia Extraordinária dos Bispos do Nordeste II, no Seminário de Olinda, com a presença de 18 bispos, para tratar do assunto mencionado na carta enviada pela Santa Sé. Em Março de 1988 foi celebrada outra Assembléia dos Bispos, em Lagoa Seca, diocese de Campina Grande, na qual, por unanimidade, os Bispos declararam que estavam dispostos a acatar qualquer decisão da Santa Sé, a respeito do Serene e do ITER. No segundo semestre de 1988, foi realizada nova visita apostólica, pelo Arcebispo Coadjutor de Belém do Pará, dom Vicente Joaquim Zico. O relatório do visitador à Santa Sé foi sigiloso. Em julho de 1989, as principais autoridades da Congregação da Educação Católica vieram à Brasília e realizaram um encontro de dois dias, na sede da CNBB nacional, com todos os visitadores dos Seminários no Brasil. Os assuntos tratados nesse encontro permaneceram em sigilo. Em 12 de agosto de 1989, a Congregação da Educação Católica expediu documento no qual se determina o fechamento do ITER e do Serene II. Assim, não se pode atribuir ao Arcebispo de Olinda e Recife a responsabilidade pelo fechamento das duas instituições.

 

            JC: A decisão não foi do senhor, foi da Santa Sé. Mas, o senhor concorda com a decisão?

             Dom José: Sim, concordo. Demonstrei meu pensamento a esse respeito em 1986, ou seja, três anos antes do fechamento, quando retirei os alunos da Arquidiocese de ambas as instituições e reabri o Seminário de Olinda.

 

            JC: E o problema da Igreja do Morro da Conceição? Como está sendo conduzido o caso do Padre Reginaldo Veloso?

             Dom José: O padre Reginaldo se encontra entre aqueles que citei no início da entrevista. Foi um dos primeiros a ser convidado pelo Arcebispo para um colóquio aqui na Arquidiocese. Conversamos reservadamente sobre os problemas de sua Igreja. Mas o padre Reginaldo é daqueles que escrevem ao seu arcebispo através dos jornais. Ele me envia uma carta e os leitores dos jornais têm conhecimento do teor dessa carta primeiro do que eu, que sou o destinatário. E isso eu não posso aceitar. Aliás, no momento está acontecendo um fenômeno anômalo em relação à Igreja do Morro da Conceição. Um grupo de integrantes do Conselho Paroquial apossou-se da chave da Igreja e não quer permitir a posse do novo vigário. Eu poderia invocar a lei para reintegração de posse. Não o fiz ainda porque não quero acirrar ânimos.

São João Maria Vianney, o Cura D'ars

São João Maria Vianney, o Cura D'ars

 

            A respeito do ano sacerdotal que, de acordo com o desejo do Santo Padre, o papa Bento XVI, hoje se inicia, recomendo a leitura da Carta do Sumo Pontífice Bento XVI para a proclamação de um ano sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do dies natalis do Santo Cura D’ars. Deste pronunciamento papal (que, na verdade, é endereçado aos sacerdotes) destaco:

 

            “(…) Os ensinamentos e exemplos de S. João Maria Vianney podem oferecer a todos um significativo ponto de referência. O Cura d’Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina». Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia». E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu». Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós».

 

E:

 

            “À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a ação do Santo Cura d’Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre. Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre atual a palavra de Cristo aos seus apóstolos, no Cenáculo: «No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A fé no divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro. Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d’Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo atual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz”.

 

            A respeito das indulgências especiais concedidas, por decreto do Papa, durante o sagrado período do Ano sacerdotal, Zenit publicou há alguns dias, o seguinte:

 

            “(…) Em primeiro lugar, poderão obter a indulgência plenária os sacerdotes que, “arrependidos de coração”, rezem qualquer dia as Laudes ou Vésperas diante do Santíssimo Sacramento exposto para a adoração pública ou no sacrário e, seguindo o exemplo de São João Maria Vianney, ofereçam-se para celebrar os sacramentos, sobretudo a Confissão, “com espírito generoso e disposto”.

            O texto indica que os sacerdotes poderão beneficiar-se da indulgência plenária aplicável a outros sacerdotes defuntos como sufrágio, se, em conformidade com as disposições vigentes, se confessarem, comungarem e rezarem pelas intenções do Papa.

            Também receberão indulgência parcial, sempre aplicável aos irmãos no sacerdócio defuntos, “cada vez que rezarem orações devidamente aprovadas para levar uma vida santa e cumprir os ofícios que lhes foram confiados”.

            Por outro lado, todos os cristãos poderão beneficiar-se de indulgência plenária sempre que, “arrependidos de coração”, assistirem à Santa Missa e oferecerem pelos sacerdotes da Igreja orações a Jesus Cristo e qualquer boa obra.

            Tudo isso complementado com o sacramento da confissão e a oração pelas intenções do Papa “nos dias em que se abra e se conclua o Ano Sacerdotal, no dia do 150º aniversário da morte de São João Maria Vianney, nas primeiras quintas-feiras de cada mês ou em qualquer outro dia estabelecido pelos Ordinários dos lugares para a utilidade dos fiéis”.

            Os idosos, doentes e todos aqueles que, por motivos legítimos, não possam sair de casa, também poderão obter a indulgência plenária se, com ânimo afastado do pecado e o propósito de cumprir as três condições necessárias assim que lhes for possível, “nos dias indicados rezarem pela santificação dos sacerdotes e oferecerem a Deus, por meio de Maria, Rainha dos Apóstolos, suas doenças e sofrimentos”.

            O decreto indica que se concederá a indulgência parcial a todos os fiéis cada vez que rezarem 5 Pai Nossos, Ave Marias e Glórias, e outra oração devidamente aprovada “em honra do Sagrado Coração de Jesus, para que os sacerdotes se conservem em pureza e santidade de vida””.

 

Rezemos pelos nossos sacerdotes!

São João Maria Vianney, rogai por nós!

            No post Acervo Corpus Christi estava dito que: “o Tantum Ergo é um trecho do Lauda Sion”. Na realidade, o Tantum Ergo é um trecho do Pange Língua. Escusem-me deste engano os prezados leitores.

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