dezembro 2009


             

              [O texto abaixo foi publicado originalmente neste blog em 07 de Setembro de 2009]

 

               Sinto-me um excluído. E hoje, nesse dia em que é dado o direito de gritar a esta classe vil de seres humanos, quero – também eu – lançar o meu brado de indignação frente aos meus opressores; frente àqueles que me tiram o direito de ser indivíduo e me relegam quase à condição de indigente.

            A lista das “exclusões” às quais estou sendo submetido é extensa. Sou excluído de todas as formas: ora por adotar determinadas posturas e comportamentos, ora por não adotar determinadas posturas e comportamentos. Certas vezes sou excluído porque faço parte de tal coisa; outras vezes, sou desprezado porque não faço parte de tal coisa. Meus opressores não me entendem, e eu tampouco os compreendo. Portanto, o meu grito é – na verdade – um urro [quase um berro]: deixem-me ser católico!

            Chega de me excluírem porque prefiro ouvir o Santo Padre, o Papa, a dar crédito a teólogos de meia tigela que dizem uma coisa hoje e outra amanhã; porque não dou ouvidos a quem vive espalhando os seus “ventos de doutrina” e encantando a multidão com as suas heresias. Devo ser excluído porque prefiro Tomás de Aquino a Leonardo Boff? Se bem que um dia desses, um dos meus opressores acabou me alegrando com um comentário. Disse ele: “Você não passa de um papagaio do Papa – vive repetindo o que ele fala”. Fiquei comovido. As lágrimas me vieram às faces. Eu não merecia tamanho elogio. Mas continuei sendo excluído porque, afinal, a garagem da minha casa continua servindo para guardar o carro: não fundei nenhum igrejola com nome esdrúxulo para extorquir pessoas em nome de Deus…

            Chega de me excluírem porque acho que o homem nasceu para ter vida a dois com uma mulher e não com outro homem. Devo ser excluído só porque obedeço cega e fielmente à natureza que em mim está, graças a Deus, arraigada de maneira inseparável? Sendo eu heterossexual, cometo eu algum delito ao defender esta classe que – paulatinamente – se torna minoria neste nosso mundo cor-de-rosa? É justo que eu seja excluído só porque acho que saias combinam com mulheres, e ternos com homens? Acaso não posso ensinar à minha prole [vindoura] que o homossexualismo é pecado mortal e que “papai do céu castiga” quem comete este tipo de infração contra a Lei de Deus? Grito sim: isto é um absurdo!  

            Chega de me excluírem dizendo que eu não posso ser contrário ao aborto porque sou católico e, portanto, estou movido unicamente por razões de ordem religiosa. Ora, acaso eu não penso? Não posso discordar? Para ter isenção nesta matéria é preciso ser ateu? Por que os judeus, budistas, hindus, muçulmanos e outros que defendem o aborto não “se liberam” também de suas crenças para poder “opinar” com imparcialidade? Só eu – o católico – devo ficar calado?

             Chega de me excluírem porque não tenho filiação partidária. Devo ser excluído porque prefiro votar nulo a votar em alguém que defenda a cultura da morte (cujos princípios e propostas são: aborto, eutanásia, pesquisas com células-tronco embrionárias, etc.)? Eu até queria ser presidente da república. Mas, por culpa da minha mãe (que desde que eu era pequeno me incentivou a estudar) acabei tendo o sonho da presidência podado… Ora, se julgo que nenhum partido atende aos requisitos básicos, mínimos, da Doutrina Social da Igreja, por que eu daria minha adesão a eles? Pior: porque eu me filiaria a um partido que contraria abertamente esta Doutrina? Mereço ser excluído porque anteponho a filiação divina – que adquiri por ocasião do Batismo – à filiação partidária?

             Chega de me excluírem porque não sou comunista! Que mal há em eu não querer dividir o quintal da minha casa com nenhum sem-terra oportunista? Devo ser excluído apenas porque vejo em Jesus um exemplo de santidade e não um modelo de revolucionário? Por que eu tenho que ser inimigo de empresas capitalistas como a McDonald’s se os caras produzem o melhor McChicken com aplique de catupiry e fritas do mercado?! Bah, francamente!       

            Chega de me excluírem porque prefiro rezar na missa e dançar na boate. Sim, eu sou excluído porque não faço parte do pessoal que “curte” a missa (dançando, pulando, saltando como pipoca) e diz ir às Cristotecas da vida para rezar. Acaso eu sou obrigado a concordar com essa total inversão das coisas? Tem gente que acha que a missa foi feita para que os fiéis batam palmas, saltem de ponta-a-cabeça diante do altar e façam malabarismo com as galhetas. Eu acho que essas coisas cabem muito bem num circo ou numa festa qualquer; mas não em uma missa. Que mal há em eu não concordar com essa gente? Tem gente que acha que as “boates de Cristo” são um ótimo lugar para o encontro com Deus. Eu continuo achando que são muito mais frutuosas as tradicionais visitas ao Santíssimo Sacramento…. Eu devo ser excluído porque penso assim?

            Chega de me excluírem porque prefiro o canto gregoriano dos monges aos hits protestantes da moda! É justo que eu seja desprezado somente porque prefiro as vésperas cantadas em latim aos “funks para Jesus” que se espalham e fazem sucesso entre o povo? (detalhe: em alguns casos, para mim o latim é bem mais compreensível que o funkês).

             Chega de me excluírem porque prefiro uma Missa de Formatura a um culto ecumênico. Por que eu trocaria a Perfeita Ação de Graças elevada a Deus na Santa Missa pela prece confusa de homens que rezam a deuses diferentes? (pois é óbvio que eu – católico – rezo a um Jesus bem distinto daquele imaginado pelos espíritas).       

            Pronto. Falei. Estou cansado de ser excluído. Estou farto de ser calado pelos meus opressores. Por isso decidi gemer, gritar, extravasar. Serei compreendido? Não sei. Serei aceito? É pouco provável. Entretanto, espero – paciente – o dia em que devo receber uma carta da Secretaria de Ressocialização dizendo que vai fazer comigo um processo de inclusão social. Caso eu não receba esta carta, certamente me enviarão uma outra, com outro teor: algo como um gentil convite à extradição em Marte, minha verdadeira e cara Pátria…

 

[Eis aqui uma curta homilia pronunciada por São Bernardo, abade, sobre a submissão de Nosso Senhor a São José e à Virgem Santíssima. A publicação original encontra-se no blog São Pio V]

 

 

Homilía sancti Bernárdi Abbátis

(Homilia de São Bernardo Abade)
 
Homilia 1 supra Missus est, n. 7-8
 
 

“E Ele lhes era submisso”. Quem era submisso a quem? Deus ao homem! Deus, repito-o, a Quem os Anjos são submissos, Que os Principados e Potestades obedecem, era submisso a Maria, e não somente a Maria, mas a José também, por causa de Maria. Maravilhemo-nos, pois, com os dois, e escolhamos o que maravilha mais: se é a benigníssima condescendência do Filhio, ou a excelentíssima dignidade da Sua Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d’Ele?

Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse : “E Ele lhes era submisso”. E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador? Porque todas as vezes que Eu desejo preeminência sobre os homem, me esforço para superar Deus. Porque d’Ele foi dito : “Ele lhes era submisso”. Se tu desdenhas, ó homem, seguir o exemplo do homem, pelo menos poder seguir o exemplo do teu Criador sem desonra. Se, por acaso, não podes segui-l’O onde quer que Ele vá, digna-te, ao menos, segui-l’O nesse ponto no qual Ele Se rebaixou, desprezando a própria reputação pelo bem daqueles como tu.

Se não podes entrar para os caminhos sublimes da virgindade, ao menos segue Deus pela estrada seguríssima da humildade. Quem se desvia desse caminho reto, mesmo que seja virgem, a verdade seja dita, não segue o Cordeiro por onde quer que Ele vá. O homem humilde, mesmo que manchado de pecado, segue o Cordeiro ; a virgem, se é orgulhosa, também segue ; mas nenhum dos dois O segue por onde quer que Ele vá. O primeiro não pode atingir a pureza do Cordeiro, porque Ele é sem mancha ; a última não se digna descer à Sua mansidão, que cala não diante do tosquiador, mas fica mudo diante do próprio assassino. Ainda assim, o pecador que segue em humildade escolheu um caminho mais salvífico do que o homem orgulhoso que segue em virgindade ; porque o humilde presta satisfação, e é limpo de sua impureza, mas a castidade do orgulhoso é manchada pela sua soberba.

[As constatações do Pe. Leonel Franca, S.J., são de um atualidade impressionante. São horripilantes, eu diria!  Pe. Franca tira uma radiografia ‘visceral’ daqueles que – por quaisquer motivos – desejam institucionalizar o divórcio. A fragilidade dos argumentos deles, bem como os seus interesses escusos, ficam patentes ante a argumentação do velho jesuíta. Embora esse seja um excerto de um texto bem mais longo, vle a pena fazer uma leitura – bem atenta – desta introdução ao tema]:

 

A IGREJA E O DIVÓRCIO

Pe. Leonel Franca S. J.

Ao lado do aspecto jurídico e social, o divórcio apresenta inquestionavelmente um aspecto religioso. Jurídica e socialmente, a possibilidade de ruptura do matrimônio é um mal, um grande mal. É o princípio de instabilidade e dissolução progressiva da família, que, de dia para dia, se vai tornando menos idônea ao exercício de sua elevada missão criadora e educadora da sociedade. A lei que sanciona a fixidez definitiva da vida conjugal não faz senão declarar um dos artigos da constituição natural da família e proteger contra a força corrosiva das paixões, a integridade perfeita da célula social.

É o que parecem esquecer os divorcistas que reclamam a reforma do nosso direito de família como corolário da separação entre a Igreja e o Estado. Como se a indissolubilidade fosse uma simples prescrição de direito positivo eclesiástico, sem nenhuma relação com as finalidades imanentes, naturais da sociedade conjugal e com as exigências superiores do bem comum! Cristo, proscrevendo o divórcio, não deu um preceito novo; reintegrou a família na sua dignidade primitiva: ab initio non fruit sic. É, portanto, a própria natureza das instituições conjugais, são os interesses superiores da sociedade, a verdadeira e comum base jurídica das leis que impõem a monogamia indissolúvel, indiscriminadamente, a todos os cidadãos. Para os católicos, respeitá-las é um duplo dever: de consciência religiosa e de consciência civil. Os acatólicos não terão nas próprias idéias religiosas um estímulo e uma força para os ajudar no desempenho deste dever social. Mas, nem por isso, deixa o dever de subsistir. Também o furto, o homicídio, o adultério, são, para a consciência cristã, proibições de ordem religiosa. Seguir-se-á, porventura, que um Estado leigo não os possa e deva interdizer, em nome do bem coletivo, a todos os cidadãos, ainda aos que já não vêem no Decálogo a expressão dos mandamentos divinos? Se ainda uma vez, aqui como lá, a doutrina e a moral católica coincidem com os verdadeiros e mais elevados interesses da sociedade, saudemos nesta coincidência mais um penhor de sua verdade inexaurivelmente fecunda.

Foi sob este aspecto puramente jurídico e social que até aqui viemos considerando o divórcio. Ao combatê-lo, não nos socorremos senão de provas racionais, tiradas à moral, à psicologia, à sociologia e ao direito. Para admiti-las não é mister crer, basta raciocinar; elas não se dirigem ao cristão, falam a todo homem. Não lançamos mão, uma só vez, de argumentos teológicos e exegéticos. A Escritura, a voz dos Padres da Igreja, a autoridade dos concílios, muito de caso pensado, não os invocamos no debate. Discutimos, sempre, em nome da razão e dos fatos, a fim de que as nossas conclusões se impusessem à universalidade dos leitores. Mas o divorcio apresenta outrossim um aspecto religioso. Para toda a humanidade a constituição de um novo lar foi sempre um ato sagrado. Para a grande maioria da cristandade constitui um sacramento. É tão nobre a missão da família, são tão íntimos os deveres domésticos que só na religião se podem atingir as energias profundas, indispensáveis à fidelidade do seu desempenho.

A santidade da família, só a inteligências superficiais, poderá soar como uma frase feita e vazia. As famílias na medida que se vão laicizando vão cessando de ser famílias. Lar sem Deus é frágil construção de que a primeira rajada de paixões violentas fará um montão de ruínas.

Nos países católicos, mais ainda que nos outros, é funesta a legalização do divórcio. Entre protestantes e cismáticos a deformação da moral foi precedida por uma alteração da doutrina. A cisão do vínculo não contrasta com a consciência religiosa do povo. Os divorciados poderão ainda beneficiar dos auxílios espirituais que lhes pode subministrar um cristianismo diluído pela heresia ou pela cisma. A família não será uma vítima infeliz da irreligião.

O catolicismo conserva, em toda a sua integridade, o tesouro divino dos ensinamentos morais do Evangelho. Com a sua consciência é incompatível o divórcio.

Sancioná-lo por lei num país de maioria católica é introduzir um antagonismo, denso de males incalculáveis, entre a consciência religiosa e a consciência jurídica e civil da nação. Para os cidadãos fiéis ao seu credo, a lei, que permite um ato imoral, é uma lei sem prestígio e a desconsideração da lei é princípio de desorganização social. Para os outros, de convicções religiosas menos esclarecidas ou de vida espiritual remissa, a lei civil transforma-se num fermente ativo de irreligião. O divórcio pedido e aceito por um filho da Igreja segrega-o da participação aos sacramentos que nutrem a sua atividade religiosa e moral. Casal de divorciados católicos é casal para o qual estancaram as fontes de energias espirituais, indispensáveis à paz de consciência e à prática do bem (Se um católico num momento de paixão (os católicos não são impecáveis) dissolve a família para constituir outra, a lei sancionaria a segunda união como legítima e lhe imporia todos os deveres respectivos. Amanhã, serenados os estos apaixonados, a voz de Deus no fundo d’alma entra a falar-lhe mais alto que os gritos do amor humano; a consciência cristã acaba por triunfar no desejo sincero de voltar à paz interior. Os deveres que, nesta emergência, se lhe impõem em nome da religião estão em antagonismo com as obrigações civis. Ele não poderá ser católico sem menosprezar as leis do seu país; não poderá ser fiel aos empenhos civis sem sacrificar as exigências superiores de sua consciência religiosa. Situação infinitamente angustiosa, fonte de amarguras internas indescritíveis, que, num país católico, multiplicaria uma lei insensata em contraste com a liberdade de consciência da maioria dos cidadãos). Destarte a lei do divórcio, num país tradicionalmente católico, tende a difundir a indiferença religiosa e a subtrair à família estes fundamentos espirituais que, em todos os tempos e entre todos os povos, condicionaram a sua estabilidade e conservação. Com o mecanismo frio dos códigos, o Estado é incapaz de gerar as grandes energias da vida moral, mas ai dele, se pela imprudência de leis corruptoras, vai secar os mananciais misteriosos onde se alimenta o espírito de sacrifício, dedicação, fidelidade e desinteresse, que conservam a vitalidade do organismo social!

Eis porque, na realidade, o divórcio é um instrumento de propaganda irreligiosa nas mãos da impiedade. A lei que dissolve os lares é um dos pontos do programa do sectarismo anti-católico. Para combater a Igreja e popularizar a irreligião, o anti-clericalismo atira-se à família.

Encontrei neste site dos ortodoxos um excelente Sermão de Natal de autoria de São Pedro Crisólogo. Ei-lo:

 

São Pedro Crisólogo

«Sermão de Natal»

(P.L. 52, 585-588)

 

Seríamos levados antes a adiar nosso sermão, tal a sublimidade e o mistério do nascimento de Cristo. A Virgem deu à luz; quem o explicará? O Verbo se fez carne; quem explanará este mistério? Se o Verbo de Deus vagiu na boca de uma criança, como poderá falar dele o homem cheio de imperfeição? Mas como a estrela iluminou os magos em busca da Luz, assim a palavra do pregador deve dar a conhecer a seus ouvintes o nascimento de Deus, a fim de se regozijarem com o encontro de Cristo e, mais que perscrutarem seus divinos segredos, honrarem com dádivas o Menino-Deus. Orai, irmãos meus, para que se digne crescer, pouco a pouco, em minha palavra, aquele que aceitou crescer num corpo como o nosso.

O evangelista diz ter o anjo falado assim: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”. Não temas, Maria. E por quê? Porque achaste graça. Temer não é próprio de quem recebe, – é próprio de quem perde. Recebeste, concebendo, a graça do divino germe, e não perdeste o brilho de tua virgindade, ao entregá-la à luz. “Não temas, Maria”. Que pode temer a que concebe a segurança do mundo, a alegria dos séculos? Temor não existe, onde se trata de algo divino, não humano; onde há consciência de virtude, não de impureza. Que pode temer a mãe daquele a quem temem até os que infundem temor? Que pode temer aquela cujo assessor é o juiz da própria causa, e que tem sua integridade como testemunho de sua inocência? “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”.

A Virgem acolheu em seu seio o Verbo divino, o qual, desde a eternidade, coexistia com Deus. Fez-se grandioso templo da Divindade, ela, morada humilde e humana. Aquele que não podia ser contido na pequenez do corpo humano, ia-lo na estreiteza do ventre virginal. “Eis que conceberás no ventre”. Bastaria ter dito: “conceberás “; por que acrescentou: “no ventre”? Para indicar ser real a concepção, não aparente; para atestar que o nascimento seria real, não fictício; para demonstrar que assim como Cristo, enquanto Deus, procede do verdadeiro Deus, enquanto homem tem um corpo que é fruto bendito da verdadeira concepção. É, pois, herético afirmar que Cristo tomou um corpo etéreo e apenas tenha aparentado a forma de homem. “Eis que conceberás no ventre e darás à luz um filho, ao qual chamarás Jesus”.

Em hebraico, “Jesus” significa “Salvador”. Com razão, pois, tudo está salvo na Virgem, quando ela gerou o Salvador de tudo. “chama-lo-ás Jesus”. Porque com este nome é adorada a majestade augusta da divindade; todos os que habitam os céus, os que povoam a terra, os que gemem nas profundezas do inferno prosternam-se ante esse nome e o adoram. Ouvi as palavras do Apóstolo: “Ao nome de Jesus se dobrará todo joelho, no céu, na terra e nos infernos” 1. É o nome que deu vista aos cegos, ouvido aos surdos, curou os coxos, deu fala aos mudos, vida aos mortos, libertou os possessos do demônio. Mas se o nome é tão sublime, quanto não o será o poder de seu dono? O mesmo anjo diz quem seja aquele que detém esse nome: “Ele será chamado Filho do Altíssimo”. Vede: o que a Virgem concebe não é germe da terra, mas do céu. A Virgem deu à luz e seu filho é o Filho de Deus! Portanto, os que pretendem encontrar algo de apenas humano nesse nascimento estão injuriando ao Altíssimo!

“E o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e seu reino não terá fim”. São palavras que o herege procura toldar em favor de seu erro. “Eis, diz aqui, é o anjo quem fala: o Senhor Deus lhe dará… Então, não é maior aquele que dá do que aquele que recebe? E o que recebe, acaso já possuía o que recebe?”

Nós, porém, irmãos, escutemos tais palavras do anjo, não como os pérfidos hereges, mas como verdadeiros fiéis; sejam-nos fundamento para a fé, não pretexto para o erro. “O Senhor Deus lhe dará”. Que Deus? O próprio Verbo, que era, no princípio, Deus 2. A quem dará? Ao que se fez carne e habitou entre nós. Ouçamos ao Apóstolo, que diz: “Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo” 3. Consigo, não com outro. Portanto, Deus, que estava em Cristo, se dava a si mesmo o reino, em Cristo, conferindo ao corpo assumido o que desde sempre possuía na divindade.

“Dar-lhe-á o Senhor Deus a sede de Davi seu pai”. Veja-se: quando recebe, chama-se filho de Davi; quando dá, Filho de Deus. Ele mesmo disse: “tudo o que o Pai tem é meu” 4. De onde, pois, vem essa necessidade de receber, se existe a posse de tal poder? “Tudo o que o Pai tem é meu”. Quem recebe o que já é seu? Porventura é graça de um doador aquilo que o receptor já possui? Confessemos que houve um receptor, mas foi o que nasceu, o que assumiu a carne e a infância, o que sofreu o presépio e os trabalhos da vida, o que sentiu fome e sede, o que não fugiu às injúrias, o que subiu à cruz e padeceu a morte, o que ingressou no sepulcro; a este atribui, ó herege, a recepção de algo! Por que pensas que Deus despreza receber a honra, se recebeu injúrias? Pensas que lhe aborrece receber do Pai um reino, ele que dos inimigos recebeu afrontas e até a morte? Herege, tudo o que é injúria, temporal, recebido, tudo o que importa diminuição e inclui a morte, entende não dizer respeito à divindade e sim ao corpo! Assim não farás injúria ao Filho, não colocarás distâncias na Trindade.

Mas voltemos ao nosso tema: “Dar-lhe-á o trono de Davi seu pai”. Aquele, pois, que no céu se assenta junto do Pai, na terra recebe o trono de Davi. Aquele que reinou sempre, reina com relação a nós, na herança de Davi, que assume para sempre. Alegremo-nos, amados irmãos, pois quem é, em si, o Rei, se digna reinar em nós. Regozijemo-nos, pois vem reinar na terra a fim de que nós possamos reinar no céu. Sim, escutai o Apóstolo: “se com ele sofrermos, cem ele reinaremos” 5. Nasceu para nós e vem a nós precisamente para isso: para nos dar um reino! Ele mesmo o prometeu, com as palavras: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a origem do mundo” 6. Preparado para vós, disse ele, não para mim. Virá para ficar sempre entre nós, para estar sempre ante nossos olhos aquele que agora só está em nosso coração. Virá trazer a confiança de sua familiaridade aos que participarão de seu reino. “E seu reino não terá fim!”

Alegrai-vos os que credes em sua vinda, porque vos prometeu um reino, onde os cargos são irremovíveis e as dignidades perpétuas. Quem não ambiciona o infinito? Quem prefere o perecível? Quem, comprando por ouro as honrarias passageiras, não deseja receber gratuitamente as eternas?

Irmãos meus, trata-se aí de cargos, de postos, de dignidades, sim, mas se não se der crédito à verdade do Evangelho não se obterão tais prêmios eternos. Se nos agrada o serviço de Cristo, se aspiramos militar sempre sob as suas ordens, armemo-nos com as armas de Cristo, vigiemos, sejamos sóbrios, vençamos o demônio, detestemos os vícios. Para podermos alcançar os prêmios e coroas de Jesus Cristo nosso Senhor, que com o Pai reina agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

[Trechos de uma locução do Venerável João Paulo II, de feliz memória, durante o Jubileu dos Bispos, em Roma (2000). Os grifos são meus. Notem que todo o comentário de Sua Santidade se dá num contexto de busca da própria santidade do bispo, bem como do esforço pela santificação dos fiéis. Nenhuma menção ao “dever” do bispo de lutar por justiça social, de fazer politicagem, nem de atuar como comentarista econômico… Ah, se todos os bispos ouvissem o sucessor de Pedro…]

 

[…] Podemos experimentar juntos toda a consolação da verdade enunciada por Santo Agostinho:  “Para vós, sou bispo; convosco, sou cristão. O primeiro é o nome de um cargo assumido; o segundo, de uma graça. Aquele é o nome de um perigo; este, de salvação” (Sermão 340, 1:  PL 38, 1483). São palavras fortes!

Caríssimos Irmãos no Episcopado, como pessoas sacramentalmente configuradas com Cristo, Pastor e Esposo da Igreja, somos chamados a “reviver” nos nossos pensamentos, sentimentos e opções o amor e a abnegação total de Jesus Cristo pela sua Igreja.

O Apóstolo indica de forma luminosa a finalidade suprema do dilexit Ecclesiam:  “Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela… e santificou-a” (Ef 5, 25-26). Assim é também o nosso múnus episcopal:  ele está ao serviço da santidade da Igreja.

Cada uma das nossas actividades pastorais tem como objectivo último a santificação dos fiéis, a começar pelos sacerdotes, nossos directos colaboradores. Por conseguinte, deve ter em vista suscitar neles o compromisso de responder ao chamamento do Senhor com prontidão e generosidade. E não é acaso o nosso próprio testemunho de santidade pessoal o apelo mais credível e mais persuasivo que os leigos e o clero têm direito a esperar no seu caminho rumo à santidade? Proclamou-se o Jubileu precisamente para “suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade” (Tertio millennio adveniente, 42).

É necessário redescobrir aquilo que o Concílio Vaticano II diz sobre a vocação universal à santidade. Não é por acaso que o Concílio se dirige em primeiro lugar aos Bispos, recordando que devem “desempenhar o seu ministério santamente e com entusiasmo, com humildade e fortaleza; assim, encontrarão nele um magnífico meio da santificação própria” (Lumen gentium, 41). Como se vê, é a imagem de uma santidade que cresce ao lado do ministério, mas através do mesmo ministério. Uma santidade que se desenvolve como caridade pastoral, encontrando o seu paradigma em Cristo Bom Pastor e impelindo cada pastor a tornar-se o “modelo da grei” (cf. 1 Pd 5, 3).

5. Esta caridade pastoral deve vivificar os tria munera em que se articula o nosso ministério. Em primeiro lugar o munus docendi, ou seja, o serviço do ensino. Quando relemos os Actos dos Apóstolos, ficamos impressionados perante o fervor com que o primeiro núcleo apostólico semeava a mãos-cheias, com a força do Espírito, a semente da Palavra. Devemos encontrar de novo o entusiasmo pentecostal do anúncio. Em um mundo que, através dos mass media, conhece uma espécie de inflação das palavras, o verbo do Apóstolo só pode distinguir-se e progredir apresentando-se, com toda a luminosidade evangélica, como palavra repleta de vida. Não tenhamos medo de anunciar o Evangelho, “opportune et importune” (2 Tm 4, 2).

Sobretudo hoje, no meio de muitas vozes discordantes que criam confusão e perplexidade na mente dos fiéis, o Bispo tem a grave responsabilidade de esclarecer. O anúncio do Evangelho é o acto de amor mais excelso em relação ao homem, à sua liberdade e à sua sede de felicidade. Através da Liturgia, fonte e ápice da vida eclesial (cf. Sacrosanctum concilium, 10), esta mesma caridade torna-se sinal, celebração e acção orante. Aqui, o dilexit Ecclesiam de Cristo faz-se memória viva e presença eficaz. Nesta obra, mais que em qualquer outra, o papel do Bispo delineia-se como munus sanctificandi, ministério de santificação, graças à presença operosa d’Aquele que é o Santo por excelência.

Enfim, a caridade do Bispo deve brilhar no vasto âmbito da orientação pastoral:  no munus regendi. Exige-se muito de nós. Em tudo devemos trabalhar “como bons pastores que conhecem as suas ovelhas e por elas são conhecidos, como verdadeiros pais que se distinguem pelo espírito de amor e solicitude por todos” (Christus Dominus, 16).

             Caríssimos leitores,

             Comunico-vos que este blog estará de recesso até o dia 31 de janeiro de 2010. Até lá, entretanto, estão programadas atualizações diárias com algumas [re]publicações dos textos mais comentados por aqui, bem como escritos de santos e matérias que alguns amigos gentilmente me cederam para publicar. Basicamente apenas as notícias do momento não serão comentadas durante o período de recesso, durante o qual estarei focado em outra atividade que me impedirá de dedicar-me à atualização do blog.

                Agradeço a vossa compreensão,

                In Corde Iesu,

                Gustavo Souza

Estou um tanto apressado mas não posso deixar de fazer esta indicação. O professor Felipe Aquino acaba de lançar mais um livro. Chama-se PARA ENTENDER A INQUISIÇÃO. Segundo o professor Felipe, o livro – que conta com 304 páginas – tem por objetivo “desmentir os erros sobre o que se diz sobre esse assunto, que é dos mais usados nos colégios e universidades para se atacar a Igreja”. Custa apenas R$ 25,00.

Chega de ver professores de história que – ou por uma má formação ou por má vontade – ensinam bobagens e mentiras sobre o Tribunal do Santo Ofício e seu papel na defesa da fé. Adquiram já o livro do prof. Felipe clicando aqui!

Eis a composição do livro:

 

ÍNDICE

Introdução

SIMPÓSIO DO VATICANO SOBRE INQUISIÇÃO

        Alguns dados do Simpósio –

A IDADE MÉDIA CRISTÃ –

       A Igreja e o Estado –

A MENTALIDADE RELIGIOSA DA ÉPOCA  –

O valor supremo da fé –

O SOFRIMENTO E A RELIGIOSIDADE DO POVO –

Os problemas políticos –

ANTECEDENTES  DA INQUISIÇÃO –

Os pecados dos filhos da Igreja –

A ORIGEM DA INQUISIÇÃO –

Ações do povo e do Estado contra os hereges –

A Igreja forçada a agir –

A Cruzada dos Albigenses –

A Instituição da Inquisição –

A JUSTIÇA NA IDADE MÉDIA –

A Inquisição e o Direito –

BRUXARIA E A FEITIÇARIA –

A INQUISIÇÃO E AS BRUXAS – 95

AS HERESIAS DUALISTAS E O GNOSTICISMO –

Os Cátaros –

A Gnose e Gnosticismo –

INQUISIÇÃO NA ITÁLIA –

PROCEDIMENTOS DA INQUISIÇÃO –

Como a Inquisição atuava –

A perseguição aos inquisidores –

O numero de mortos

A TORTURA E A FOGUEIRA –

O uso da tortura –

A pena de morte na fogueira –

A INQUISIÇÃO PROTESTANTE –

João Calvino em Genebra –

Calvinismo na Suíça e na Holanda –

A Inquisição dos reis da Inglaterra –

O martírio de São João Fisher e S. Tomas Morus –

A Inquisição protestante na Alemanha –

Os massacres no Brasil –

O CASO DOS TEMPLÁRIOS –

A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU –

O CASO GALILEU GALILEI –

O Processo de Galileu –

O Segundo Processo de Galileu (1633)

Galileu regressa ao Vaticano

O CASO DE SANTA JOANA D´ARC –

O CASO SAVONAROLA –

Uma reflexão sobre o episódio

O CASO GIORDANO BRUNO –

O CATÁLOGO (INDEX) DOS LIVROS PROIBIDOS-

A INQUISIÇÃO NA ESPANHA –

A Espanha nos séculos XV e XVI –

Os judeus na Espanha medieval –

Os muçulmanos na Espanha –

O Retorno da Inquisição –

Tomás de Torquemada

A INQUISIÇÃO EM PORTUGAL –

Origens da Inquisição Portuguesa –

Sobre os novos cristãos –

A figura do Inquisidor –

A Inquisição de Pombal –

A INQUISIÇÃO NO BRASIL –

AS OUTRAS INQUISIÇÕES –

As “Inquisições” do século XX –

A “Inquisição” Espanhola do século XX –

A “Inquisição” Mexicana do século XX –

Os mártires japoneses

A perseguição contra a Igreja hoje –

As perseguições hoje no Oriente

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