Meditações


Penso agora em Deus Altíssimo. Quisera eu contemplar a beleza de Seu rosto resplandecente e a pureza de Suas vestes. Quisera eu, apenas por um doce segundo, mergulhar na indizível alegria dos anjos que, com seu cantarolar suave, elevam a Deus um eterno louvor.  Esta música vale uma meditação. Com um pouco de exagero, poder-se-ia dizer que as notas desta divina melodia constituem a sexta prova da existência de Deus… Ouçam, rezem. É Ele em nós. E nós n’Ele…

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Hoje, primeira sexta-feira deste mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, acho oportuno recordar as palavras de Sua Santidade, o papa Bento XVI, pronunciadas na conclusão da Via Sacra no Coliseu, em 2007. Assim falou o Romano Pontífice:

Os Padres da Igreja consideraram como o maior pecado do mundo pagão sua insensibilidade, sua dureza de coração, e gostavam muito da profecia do profeta Ezequiel: «tirarei de vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne» (Ezequiel 36, 26). Converter-se a Cristo, tornar-se cristão, queria dizer receber um coração de carne, um coração sensível à paixão e ao sofrimento dos outros.

Nosso Deus não é um Deus distante, intocável em sua beatitude. Nosso Deus tem um coração, e mais ainda, tem um coração de carne. Ele se fez carne precisamente para poder sofrer conosco e estar conosco em nossos sofrimentos. Ele se fez homem para dar-nos um coração de carne e despertar em nós o amor pelos que sofrem, pelos necessitados.

Rezemos nestes momentos ao Senhor por todos os que sofrem no mundo; peçamos ao Senhor que nos dê realmente um coração de carne, que nos torne mensageiros de seu amor não só com palavras, mas com toda nossa vida. Amém.

Basílica do “Sacré Coeur” [Sagrado Coração] – Paris

I – Padre Fortea e a Legião de Cristo


Chegou-me por e-mail há alguns dias um “testemunho” do Padre Fortea sobre a Legião de Cristo – congregação religiosa que se encontra abalada por revelações bombásticas sobre a “vida dupla” de seu fundador, padre Marcial Maciel, LC. Trago aqui um trecho da declaração do Padre Fortea [que se encontra no blog dele, dividida em quatro partes. A parte correspondente ao trecho que cito é esta].

En mi opinión, la Legión ha sido extraordinariamente bendecida por Dios. No ha sido menos bendecida de lo que lo fue Abraham, Isaac o Jacob. Sus rebaños se extienden por  todo el orbe. Frente a una situación de grandeza tan evidente, Dios ha permitido la prueba, la cruz, el sufrimiento, la humillación, la vergüenza. Se trata de una purificación. Dios bendice con la cruz. Y la Legión ha sido bendecida con la cruz.

II – Papa no Coliseu

Sua Santidade, o Papa Bento XVI, na noite da Sexta-Feira Santa, no fim da Via Sacra realizada no Coliseu, em Roma, assim se pronunciou [grifos nossos]:

Nossos fracassos, nossas desilusões, nossas amarguras, que parecem marcar o desabamento de tudo, são iluminados pela esperança. O ato de amor da cruz, confirmado pelo Pai e pela luz fulgurante da ressurreição, envolve e transforma tudo. Da traição pode nascer a amizade; da negação, o perdão; do ódio, o amor.

Bento XVI

III – A Missa é uma questão de amor!


D. Javier Echevarria, prelado do Opus Dei, membro da Congregação para as Causas dos Santos e do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, consultor da Congregação para o Clero e membro honorário da Academia Pontifícia de São Tomás de Aquino [Ufa! Que curriculum!], assinalou em entrevista concedida e publicada em Zenit que a missa é uma questão de amor! Belíssimo comentário! Destaco:

São Josemaría escreveu em Caminho: “Você diz que a Missa é longa, mas eu acrescento: porque seu amor é curto”. Não podemos dar muita importância ao sentimento: entusiasmo ou apatia, vontade ou falta de vontade. A Missa é sacrifício: Cristo se entrega por amor. É uma ação de Deus e não podemos captar plenamente sua grandeza, por nossa condição limitada de criaturas. Mas podemos fazer o esforço não somente de estar na Missa, mas de vivê-la em união com Cristo e com a Igreja.

[…]

Na Missa, não somente se cumpre uma comunicação descendente do dom redentor de Deus, mas também uma mediação ascendente, oferecimento do homem a Deus: seu trabalho e seus padecimentos, suas penas e alegrias, tudo isso unido a Cristo: por Ele, com Ele e n’Ele. Não posso deixar de dizer que ver como São Josemaría celebrava o Santo Sacrifício produziu em mim um sério impacto, ao contemplar como era a sua devoção eucarística diária.

Toca profundamente a alma considerar que, na apresentação das oferendas, o sacerdote pede a Deus que acolha o pão e o vinho, que são “fruto da terra e do trabalho do homem”. Em qualquer circunstância, o homem pode oferecer seu trabalho a Deus, mas na Missa essa oferenda alcança seu pleno sentido e valor, porque Cristo a une ao seu sacrifício, que oferece ao Pai pela salvação dos homens.

Quando a Missa é o centro e a raiz do dia do cristão, quando todas as suas atividades estão orientadas ao sacrifício eucarístico, pode-se afirmar que todo o seu dia é uma Missa e que seu lugar de trabalho é um altar, onde ele se entrega plenamente a Deus, como seu filho amado.

Para adquirir o livro Vivir La Santa Misa, de autoria de D. Javier Echevarria, clique aqui.

I – Blog: um meio para aproximações e encontros

 

A internet realmente proporciona coisas maravilhosas.  Recentemente, entrou em contato comigo o Anderson Reis, fundador da Comunidade Católica Escravos de Maria [vejam aqui a comunidade que eles têm no Orkut]. Ele me conheceu através do blog e propôs que nos encontrássemos – já que ele viria de São Paulo a Pernambuco para pregar um retiro. Topei a ideia e, assim, o encontro aconteceu. Conversamos, trocamos presente, rezamos e adoramos o Santíssimo Sacramento na simpática e acolhedora Capela de uma das casas da Obra de Maria. Gilberto Gomes Barbosa, fundador da Obra, também se fez presente e nos acolheu com alegria e muita hospitalidade. Este encontro me trouxe uma grande satisfação por saber que o gérmen desta aproximação entre mim e Anderson se deu a partir deste veículo de comunicação, o blog. Quam bonum est et jucundum, habitare fratres in unum!

 

II – “Bem aventurados os misericordiosos”

 

O Padre Álvaro Corcuera, L.C., diretor geral dos Legionários de Cristo e do Movimento Regnum Christi, escreveu – por ocasião da Quaresma de 2010 – uma carta aos membros e amigos do Movimento. No último dia de Cristo Rei, também postei aqui uma carta lavrada pela pena de Pe. Álvaro. Naquela ocasião, eu dizia que “embora dirigida a um grupo específico, penso que a carta seja de grande utilidade a todos”.  Penso o mesmo desta sua alocução sobre a Quaresma: serve aos católicos em geral [afinal, ele apresenta uma doutrina e uma espiritualidade que, antes de tudo, são genuinamente católicas]. Ao discorrer sobre uma das bem-aventuranças [“Bem aventurados os misericordiosos”], o Superior da Legião de Cristo propõe [e o faz com maestria] uma meditação sobre um tema apropriadíssimo a este tempo de conversão e penitência que vivemos: a Misericórdia. A carta encontra-se disponível neste link.

 

III – “Tolices beato-marxistas”

 

O Percival Puggina escreveu um artigo sobre a Campanha da Fraternidade. Jorge Ferraz, mencionando o texto do Puggina, destacou: “Perdoem-me os mais benevolentes que eu. Mas ano após ano, servindo-nos sempre um pouco mais do mesmo lero-lero beato-marxista e um pouco menos da palavra de Deus, a CNBB já foi bem além da minha capacidade de tolerância. Ao longo dos anos, foi perfeitamente possível encontrar impressões digitais e carimbos das suas pastorais sociais em documentos que deixavam claro que o Reino de Deus tinha partido político na Terra. Ou não?”. Sem comentários…

[Já que ontem postei um vídeo sobre “corpos incorruptos”, resolvi [re]publicar hoje a tradução de um texto homilético de autoria do Fr. Raniero Cantalamessa. O texto versa sobre a morte na perspectiva cristã. Um paradoxo: tenebroso, mas esclarecedor].

 

Decidi traduzir esta excelente meditação do pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, para o Dia de Finados. Do livro Gettate le Reti – Riflessione sui Vangeli, Anno A. páginas 391 a 396.

 

2 de Novembro: Comemoração de todos os fiéis defuntos

Sb 3, 1-9; Ap 21, 1-5.6-7; Mt 5, 1-12

 

            Tudo, neste dia, nos convida a refletir sobre o tema austero, mas salutar, da morte. Na Escritura lemos esta solene declaração:

 

            “Deus não criou a morte e não se delicia com a ruína dos vivos. Ele, de fato, criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é reina sobre a terra porque a justiça é imortal. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 1, 13-15. 23-24a).

 

            Esta palavra nos dá a chave para entender porque a morte suscita em nós tanta repulsa. O motivo é que não é “natural”. Assim como a experimentamos na presente ordem das coisas, é algo de estranho à nossa natureza, fruto da inveja do diabo. Por isto lutamos contra ela com todas as forças. Esta irreprimível recusa à morte é a melhor prova de que nós não somos feitos para ela e que não pode ser ela a ter a última palavra. Isto mesmo assegura a primeira leitura de hoje:

 

            “As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aos olhos dos insensatos parecem mortos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles é cheia de imortalidade” (Sb 3, 1-4).

 

            Hoje é ocasião para uma reflexão existencial, não só da fé, sobre a morte. Se não temos coragem de encarar esta realidade num dia como hoje, quando o faremos? Um historiador antigo narra que o rei Damocle quis um dia mostrar como vive um rei, a um súdito que inveja a sua condição. Convidou-o à sua mesa e lhe fez servir um grande banquete. A vida na corte parecia-lhe cada vez mais invejável. Mas a um certo ponto o rei o convida a elevar o olhar acima de si, o que vê o servo? Uma espada pendia sobre a sua testa com a ponta para baixo, presa a uma crina de cavalo! Assustado, pálido, de queixo caído, começou a tremer. Assim, queria dizer Damocle, vive um rei: com uma espada que pende noite e dia sobre a sua cabeça.

 

            Mas não só o rei, também nós. Uma espada de Damocle pende sobre a testa de todos os homens, ninguém está excluído. Só que esses tendem a ser destruídos, como o são todos os seus trabalhos e distrações. Esta espada se chama morte. “Quando nasce um homem, dizia Santo Agostinho, podem-se levantar duas hipóteses: ou será belo, ou feio; ou será rico, ou pobre; ou viverá muito, ou não. Mas de ninguém se dirá: ou morrerá, ou não morrerá. Esta é a única coisa absolutamente certa da vida. Quando sentíamos que alguém está acometido de hidropsia (no tempo do santo esta era uma doença incurável), dizemos: Pobrezinho, deve morrer; está condenado, não há remédio!” Mas não devemos dizer a mesma coisa de cada homem que nasce? “Pobrezinho, deve morrer, não há remédio”.

            Dir-se-á: mas já não estamos bastante enfastiados do pensamento de morte? Que necessidade temos de enfiar a faca na ferida? É verdade. O medo da morte é o conflito mais profundo de cada ser humano, e começa a manifestar-se confusamente logo que a criança chega à idade da razão e da consciência. A angústia da morte, disse um grande psicólogo, é um “verme no centro” (no centro de cada pensamento); essa é a expressão imediata do mais forte dos instintos humanos, o instinto de autoconservação (William James).  Houve quem quisesse trazer para todas as atividades humanas o instinto sexual e explicar tudo com ele, a arte e a religião. Porém, mais forte que o instinto sexual é aquele do conflito da morte, da qual a mesma sensualidade não é mais que uma manifestação, quase um tentativa de subtrair-se à morte. Se se pudesse ouvir o grito que sai da humanidade inteira, se escutaria o urro tremendo: não quero morrer.

            Deste modo, por que convidar os homens a pensar na morte, se essa já está tão presente entre nós? É simples. Porque nós homens escolhemos remover o pensamento da morte. De fazer de conta que ela não existe, ou que existe só para os outros, não para nós. Planejamos, corremos, nos exasperamos por causa de nada, como se num certo momento não devêssemos largar tudo e partir. Em uma grande cidade da Itália é criado, depois da guerra, um novo bairro residencial de luxo. Os construtores haviam decidido que não deveria existir nele nenhuma Igreja e o motivo era que o toque dos sinos para a visita aos mortos e aos funerais poderiam perturbar a tranqüilidade dos inquilinos.

            Mas o pensamento da morte não é deixar de lado ou remover com estes pequenos passos. Agora não basta reprimi-lo como a maioria de nós faz. Reprimi-lo a custo de fadigas, atenção constante, um contínuo esforço psicológico, como para fechar uma tampa que tende sempre a sobrepor-se. Nós empenhamos uma parte considerável das nossas energias para manter longe de nós o pensamento da morte. Alguns ostentam segurança a este respeito, dizem que sabem que devem morrer, mas que não se preocupam excessivamente; que pensam na vida e não na morte… Mas são o retrato de um homem secularizado; na realidade este não é o único dos tantos modos com os quais se tenta exorcizar o medo.

            Que respostas o homem tem encontrado para o problema da morte? Os poetas foram os mais sinceros. Não havendo soluções a propor, eles nos ajudam a ao menos tomar consciência da nossa situação. Um poeta espanhol do século XVIII, Gustavo Bécquer, fala de uma onda gigante que o vento sopra sobre o mar, que avança como um redemoinho que passa, sem saber sobre qual praia vai quebrar; de uma luz próxima de apagar-se que brilha em círculos trêmulos, ignorando qual destes brilhará por último; e conclui dizendo: Assim são os que, a passeio, vagam pelo mundo sem pensar em de onde vêm, nem para onde os meus passos me conduzem.

            Os filósofos ao contrário tentaram explicar a morte. Um destes, Epicuro, afirmou que a morte é um falso problema porque – dizia – “quando nós existimos a morte não existe ainda, e quando a morte existe, nós já não existimos mais”.  Também o marxismo tentou eliminar o problema da morte. A morte, disse, é própria das pessoas. E, demonstra que não se deve levar em conta a pessoa humana, mas a sociedade, a espécie que não morre. O homem sobrevive na sociedade que ajudou a construir. O marxismo, porém, acabou, e o problema da morte continua. Antes mesmo da corrida armamentista e dos mercados mundiais, o comunismo já havia perdido a sua batalha nos corações. Não soube fazer algo para enfrentar a morte, senão construir grandes mausoléus: a Lênin e a Stálin.

            Um filósofo moderno, Heidegger, explicou que a morte não é um incidente que põe fim à vida, mas é a substância mesma dessa vida. Nós não podemos viver se não morrendo. Cada momento que passa é u, fragmento retirado da nossa vida. O dito “morro a cada dia um pouco” (quotidie morior), é verdadeiro ao pé da letra.

            Os homens não pararam, desde que o mundo é mundo, de buscar remédios contra a morte. Um destes, típico do antigo testamento, se chama a prole: sobreviver nos filhos. Um outro é a fama. “Não morrerei de um todo” canta o poeta pagão (non omnis moriar); “Erguerei um monumento mais duradouro que o bronze” (aere perennius) (Orácio).

 

 

 

 

            Nos nossos dias têm se desenvolvido um novo pseudo-remédio: a doutrina da reencarnação. Mas:

 

            “É estabelecido que os homens morram uma só vez, depois disso vem o juízo” (Hb 9,27)

 

            Uma só vez! A doutrina da reencarnação é incompatível com a fé cristã, que por seu lado professa a ressurreição da morte. Alguém se lembra daquilo que foi ou fez na vida passada? Acaso se pode dizer que é a mesma pessoa a renascer, se não há a consciência de ser a mesma pessoa; se o “eu” mesmo foi trocado?

            Tal como é proposta a reencarnação no Ocidente é fruto, entre outros, de um grave equívoco. Nas origens, e em quase todas as religiões em que é professada como parte integrante do próprio credo, a reencarnação não significa um suplemento de vida, mas de sofrimento; não e motivo de consolação, mas de desespero. Com essa se veio dizer ao homem: “Ainda que você faça o mal, você vaio renascer para expiá-lo!”. É como dizer a um encarcerado, ao fim de sua detenção, que a sua pena foi duplicada e deve recomeçar do início.

            Limitamo-nos, como disse, a algumas reflexões gerais sobre a morte, sem adentrar nas respostas da fé. Só para tomar consciência do fato e não nos deixarmos pegar de surpresa, despreparados. Mas para que serve pensar na morte? É mesmo necessário fazê-lo? Sim, é útil e necessário. Serve antes de tudo para nos prepararmos para morrer bem. O galho que pende de uma árvore, uma vez cortado, cairá. Mas serve também, e mais, para viver bem, com mais calam e sabedoria:

 

“Ensinai-nos a contar os nossos dias, e obteremos a sabedoria do coração” (Sl 89,12).

 

            Não existe ponto melhor no qual colocar-se para ver o mundo, na verdade de todos os seus acontecimentos, que a morte. ? Há angústias pelos problemas, dificuldades, contrastes? Prossegui, colocando-se num ponto de observação estratégico, olha estas coisas como te aparecem naquele momento e verás como as coisas ganharão nova dimensão. Não se caí na depressão e na inatividade; ao contrário, se faz mais e melhora as coisas, porque se está mais calmo, mais bem posicionado.

            Lembro uma espécie de rima, ingênua mas cheia de sabedoria, que a gente cantava no dia dos mortos, e que nunca perdeu sua validade:

 

“Se já se passaram cem anos,

Sem penas e sem afãs,

Que será a morte?

Tudo é vaidade”.

               A música-tema do vídeo abaixo é a letra de um poema da autoria de Santo Agostinho. Na voz de Kelly Patrícia me emociona deveras. Ouçam, meditem, rezem…

 

[Eis aqui uma curta homilia pronunciada por São Bernardo, abade, sobre a submissão de Nosso Senhor a São José e à Virgem Santíssima. A publicação original encontra-se no blog São Pio V]

 

 

Homilía sancti Bernárdi Abbátis

(Homilia de São Bernardo Abade)
 
Homilia 1 supra Missus est, n. 7-8
 
 

“E Ele lhes era submisso”. Quem era submisso a quem? Deus ao homem! Deus, repito-o, a Quem os Anjos são submissos, Que os Principados e Potestades obedecem, era submisso a Maria, e não somente a Maria, mas a José também, por causa de Maria. Maravilhemo-nos, pois, com os dois, e escolhamos o que maravilha mais: se é a benigníssima condescendência do Filhio, ou a excelentíssima dignidade da Sua Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d’Ele?

Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse : “E Ele lhes era submisso”. E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador? Porque todas as vezes que Eu desejo preeminência sobre os homem, me esforço para superar Deus. Porque d’Ele foi dito : “Ele lhes era submisso”. Se tu desdenhas, ó homem, seguir o exemplo do homem, pelo menos poder seguir o exemplo do teu Criador sem desonra. Se, por acaso, não podes segui-l’O onde quer que Ele vá, digna-te, ao menos, segui-l’O nesse ponto no qual Ele Se rebaixou, desprezando a própria reputação pelo bem daqueles como tu.

Se não podes entrar para os caminhos sublimes da virgindade, ao menos segue Deus pela estrada seguríssima da humildade. Quem se desvia desse caminho reto, mesmo que seja virgem, a verdade seja dita, não segue o Cordeiro por onde quer que Ele vá. O homem humilde, mesmo que manchado de pecado, segue o Cordeiro ; a virgem, se é orgulhosa, também segue ; mas nenhum dos dois O segue por onde quer que Ele vá. O primeiro não pode atingir a pureza do Cordeiro, porque Ele é sem mancha ; a última não se digna descer à Sua mansidão, que cala não diante do tosquiador, mas fica mudo diante do próprio assassino. Ainda assim, o pecador que segue em humildade escolheu um caminho mais salvífico do que o homem orgulhoso que segue em virgindade ; porque o humilde presta satisfação, e é limpo de sua impureza, mas a castidade do orgulhoso é manchada pela sua soberba.

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