[Já que ontem postei um vídeo sobre “corpos incorruptos”, resolvi [re]publicar hoje a tradução de um texto homilético de autoria do Fr. Raniero Cantalamessa. O texto versa sobre a morte na perspectiva cristã. Um paradoxo: tenebroso, mas esclarecedor].

 

Decidi traduzir esta excelente meditação do pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, para o Dia de Finados. Do livro Gettate le Reti – Riflessione sui Vangeli, Anno A. páginas 391 a 396.

 

2 de Novembro: Comemoração de todos os fiéis defuntos

Sb 3, 1-9; Ap 21, 1-5.6-7; Mt 5, 1-12

 

            Tudo, neste dia, nos convida a refletir sobre o tema austero, mas salutar, da morte. Na Escritura lemos esta solene declaração:

 

            “Deus não criou a morte e não se delicia com a ruína dos vivos. Ele, de fato, criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é reina sobre a terra porque a justiça é imortal. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza. É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 1, 13-15. 23-24a).

 

            Esta palavra nos dá a chave para entender porque a morte suscita em nós tanta repulsa. O motivo é que não é “natural”. Assim como a experimentamos na presente ordem das coisas, é algo de estranho à nossa natureza, fruto da inveja do diabo. Por isto lutamos contra ela com todas as forças. Esta irreprimível recusa à morte é a melhor prova de que nós não somos feitos para ela e que não pode ser ela a ter a última palavra. Isto mesmo assegura a primeira leitura de hoje:

 

            “As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aos olhos dos insensatos parecem mortos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles é cheia de imortalidade” (Sb 3, 1-4).

 

            Hoje é ocasião para uma reflexão existencial, não só da fé, sobre a morte. Se não temos coragem de encarar esta realidade num dia como hoje, quando o faremos? Um historiador antigo narra que o rei Damocle quis um dia mostrar como vive um rei, a um súdito que inveja a sua condição. Convidou-o à sua mesa e lhe fez servir um grande banquete. A vida na corte parecia-lhe cada vez mais invejável. Mas a um certo ponto o rei o convida a elevar o olhar acima de si, o que vê o servo? Uma espada pendia sobre a sua testa com a ponta para baixo, presa a uma crina de cavalo! Assustado, pálido, de queixo caído, começou a tremer. Assim, queria dizer Damocle, vive um rei: com uma espada que pende noite e dia sobre a sua cabeça.

 

            Mas não só o rei, também nós. Uma espada de Damocle pende sobre a testa de todos os homens, ninguém está excluído. Só que esses tendem a ser destruídos, como o são todos os seus trabalhos e distrações. Esta espada se chama morte. “Quando nasce um homem, dizia Santo Agostinho, podem-se levantar duas hipóteses: ou será belo, ou feio; ou será rico, ou pobre; ou viverá muito, ou não. Mas de ninguém se dirá: ou morrerá, ou não morrerá. Esta é a única coisa absolutamente certa da vida. Quando sentíamos que alguém está acometido de hidropsia (no tempo do santo esta era uma doença incurável), dizemos: Pobrezinho, deve morrer; está condenado, não há remédio!” Mas não devemos dizer a mesma coisa de cada homem que nasce? “Pobrezinho, deve morrer, não há remédio”.

            Dir-se-á: mas já não estamos bastante enfastiados do pensamento de morte? Que necessidade temos de enfiar a faca na ferida? É verdade. O medo da morte é o conflito mais profundo de cada ser humano, e começa a manifestar-se confusamente logo que a criança chega à idade da razão e da consciência. A angústia da morte, disse um grande psicólogo, é um “verme no centro” (no centro de cada pensamento); essa é a expressão imediata do mais forte dos instintos humanos, o instinto de autoconservação (William James).  Houve quem quisesse trazer para todas as atividades humanas o instinto sexual e explicar tudo com ele, a arte e a religião. Porém, mais forte que o instinto sexual é aquele do conflito da morte, da qual a mesma sensualidade não é mais que uma manifestação, quase um tentativa de subtrair-se à morte. Se se pudesse ouvir o grito que sai da humanidade inteira, se escutaria o urro tremendo: não quero morrer.

            Deste modo, por que convidar os homens a pensar na morte, se essa já está tão presente entre nós? É simples. Porque nós homens escolhemos remover o pensamento da morte. De fazer de conta que ela não existe, ou que existe só para os outros, não para nós. Planejamos, corremos, nos exasperamos por causa de nada, como se num certo momento não devêssemos largar tudo e partir. Em uma grande cidade da Itália é criado, depois da guerra, um novo bairro residencial de luxo. Os construtores haviam decidido que não deveria existir nele nenhuma Igreja e o motivo era que o toque dos sinos para a visita aos mortos e aos funerais poderiam perturbar a tranqüilidade dos inquilinos.

            Mas o pensamento da morte não é deixar de lado ou remover com estes pequenos passos. Agora não basta reprimi-lo como a maioria de nós faz. Reprimi-lo a custo de fadigas, atenção constante, um contínuo esforço psicológico, como para fechar uma tampa que tende sempre a sobrepor-se. Nós empenhamos uma parte considerável das nossas energias para manter longe de nós o pensamento da morte. Alguns ostentam segurança a este respeito, dizem que sabem que devem morrer, mas que não se preocupam excessivamente; que pensam na vida e não na morte… Mas são o retrato de um homem secularizado; na realidade este não é o único dos tantos modos com os quais se tenta exorcizar o medo.

            Que respostas o homem tem encontrado para o problema da morte? Os poetas foram os mais sinceros. Não havendo soluções a propor, eles nos ajudam a ao menos tomar consciência da nossa situação. Um poeta espanhol do século XVIII, Gustavo Bécquer, fala de uma onda gigante que o vento sopra sobre o mar, que avança como um redemoinho que passa, sem saber sobre qual praia vai quebrar; de uma luz próxima de apagar-se que brilha em círculos trêmulos, ignorando qual destes brilhará por último; e conclui dizendo: Assim são os que, a passeio, vagam pelo mundo sem pensar em de onde vêm, nem para onde os meus passos me conduzem.

            Os filósofos ao contrário tentaram explicar a morte. Um destes, Epicuro, afirmou que a morte é um falso problema porque – dizia – “quando nós existimos a morte não existe ainda, e quando a morte existe, nós já não existimos mais”.  Também o marxismo tentou eliminar o problema da morte. A morte, disse, é própria das pessoas. E, demonstra que não se deve levar em conta a pessoa humana, mas a sociedade, a espécie que não morre. O homem sobrevive na sociedade que ajudou a construir. O marxismo, porém, acabou, e o problema da morte continua. Antes mesmo da corrida armamentista e dos mercados mundiais, o comunismo já havia perdido a sua batalha nos corações. Não soube fazer algo para enfrentar a morte, senão construir grandes mausoléus: a Lênin e a Stálin.

            Um filósofo moderno, Heidegger, explicou que a morte não é um incidente que põe fim à vida, mas é a substância mesma dessa vida. Nós não podemos viver se não morrendo. Cada momento que passa é u, fragmento retirado da nossa vida. O dito “morro a cada dia um pouco” (quotidie morior), é verdadeiro ao pé da letra.

            Os homens não pararam, desde que o mundo é mundo, de buscar remédios contra a morte. Um destes, típico do antigo testamento, se chama a prole: sobreviver nos filhos. Um outro é a fama. “Não morrerei de um todo” canta o poeta pagão (non omnis moriar); “Erguerei um monumento mais duradouro que o bronze” (aere perennius) (Orácio).

 

 

 

 

            Nos nossos dias têm se desenvolvido um novo pseudo-remédio: a doutrina da reencarnação. Mas:

 

            “É estabelecido que os homens morram uma só vez, depois disso vem o juízo” (Hb 9,27)

 

            Uma só vez! A doutrina da reencarnação é incompatível com a fé cristã, que por seu lado professa a ressurreição da morte. Alguém se lembra daquilo que foi ou fez na vida passada? Acaso se pode dizer que é a mesma pessoa a renascer, se não há a consciência de ser a mesma pessoa; se o “eu” mesmo foi trocado?

            Tal como é proposta a reencarnação no Ocidente é fruto, entre outros, de um grave equívoco. Nas origens, e em quase todas as religiões em que é professada como parte integrante do próprio credo, a reencarnação não significa um suplemento de vida, mas de sofrimento; não e motivo de consolação, mas de desespero. Com essa se veio dizer ao homem: “Ainda que você faça o mal, você vaio renascer para expiá-lo!”. É como dizer a um encarcerado, ao fim de sua detenção, que a sua pena foi duplicada e deve recomeçar do início.

            Limitamo-nos, como disse, a algumas reflexões gerais sobre a morte, sem adentrar nas respostas da fé. Só para tomar consciência do fato e não nos deixarmos pegar de surpresa, despreparados. Mas para que serve pensar na morte? É mesmo necessário fazê-lo? Sim, é útil e necessário. Serve antes de tudo para nos prepararmos para morrer bem. O galho que pende de uma árvore, uma vez cortado, cairá. Mas serve também, e mais, para viver bem, com mais calam e sabedoria:

 

“Ensinai-nos a contar os nossos dias, e obteremos a sabedoria do coração” (Sl 89,12).

 

            Não existe ponto melhor no qual colocar-se para ver o mundo, na verdade de todos os seus acontecimentos, que a morte. ? Há angústias pelos problemas, dificuldades, contrastes? Prossegui, colocando-se num ponto de observação estratégico, olha estas coisas como te aparecem naquele momento e verás como as coisas ganharão nova dimensão. Não se caí na depressão e na inatividade; ao contrário, se faz mais e melhora as coisas, porque se está mais calmo, mais bem posicionado.

            Lembro uma espécie de rima, ingênua mas cheia de sabedoria, que a gente cantava no dia dos mortos, e que nunca perdeu sua validade:

 

“Se já se passaram cem anos,

Sem penas e sem afãs,

Que será a morte?

Tudo é vaidade”.

[Este texto foi escrito a quatro mãos por Jorge Ferraz e eu. A publicação original foi feita no Deus lo Vult!, em 29/08/2008 . Trago-o novamente para vossa apreciação].

 

“Quis putas est fidelis servus et prudens, quem constituit dominus supra familiam suam, ut det illis cibum in tempore? Beatus ille servus, quem cum venerit dominus eius, invenerit sic facientem. Amen dico vobis quoniam super omnia bona sua constituet eum”.


“Quem julgais que é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua família para os alimentar a seu tempo? Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo: Há-de confiar-lhe todos os seus bens”
(Mt 24, 45-47).

Ainda no espírito do Evangelho de domingo passado (Mt 16,13-20), o qual nos apresenta a instituição da Igreja e do Papado, teceremos alguns comentários a respeito de uma figura que sempre foi sistematicamente vilipendiada pelos meios de comunicação: o Papa, verdadeiro mártir devido às inúmeras incompreensões e perseguições que sofre nos dias de hoje.

A mídia [em especial, a do Brasil] tenta sempre passar para o povo uma imagem o mais negativa possível do Sucessor de Pedro. No início do seu pontificado, o “espantalho” preferido dos meios de comunicação anticlericais era aquele segundo o qual Bento XVI seria um inquisidor (já que, quando cardeal, Joseph Ratzinger presidiu a Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Santo Ofício). Depois, naquele malfadado episódio sobre o discurso do Papa na Universidade de Ratisbona, na Alemanha, os meios de comunicação tentaram disseminar que o Romano Pontífice era um preconceituoso “eurocêntrico” que não tinha nenhum respeito ao Islã. Depois, ainda, quando o Santo Padre declarou que os casais de segunda união representavam uma “piaga”, isto é, uma “chaga” na sociedade moderna, tentou-se mostrar que o Sucessor de Pedro tinha dado uma demonstração cabal de sua personalidade anacrônica que – “sem abertura ao novo” – considerava tais casais uma “praga”. Na visita ao Brasil, em maio de 2007, a imprensa esperava um Papa sisudo, com ares puritanos [na realidade, encontrou um homem dócil, afável, um verdadeiro pastor, disposto a largar noventa e nove ovelhas para buscar aquela que se perdeu (Mt 18, 12-13)]. Sem contar os foliões que – por ocasião das festividades do carnaval – vestem-se de papa, debochando do líder católico e, não raro, causando escândalo e praticando orgias que insinuam às pessoas ser o Papa, como eles, devasso. Enfim, os ataques são muitos e de todos os lados. Mas, diante de tantos episódios tristes de ataque ao Servo dos Servos de Deus percebemos duas coisas:

– o ministério petrino precisa ser melhor compreendido;

– cumprem-se as promessas de perseguição que Jesus fez no Evangelho de São Marcos (Mc 10, 30).

Em face de tantas interpretações maldosas – e mal feitas -, a supracitada passagem do Evangelho de São Mateus (em epígrafe) nos convida a um questionamento muito pertinente: Quem é o Santo Padre? Como ele deve agir?

As diretrizes da ação do papa – que acabam se tornando suas características – é Jesus mesmo quem descreve, no Evangelho. Espera-se que ele seja Fiel e Prudente. Comentando este Evangelho, São João Crisóstomo vai nos dizer:

“Duas coisas o Senhor exige de semelhante servo, a saber, prudência e fidelidade. Chama em verdade fiel àquele que não se apropria de nada do que pertença a seu Senhor, nem gasta inutilmente as Suas coisas. E chama prudente àquele que conhece o modo com o qual convém administrar o que lhe foi confiado” [Homiliae in Matthaeum, hom. 77,3, in Catena Aurea, tradução livre]

Olhemos estas duas características mais a fundo:

Fiel – fiel às tradições da Igreja, leal a Jesus Cristo e à sua Boa Nova. A fidelidade tem um quê de coerência e, sobretudo, de comprometimento com a Verdade; o Papa não pode se apropriar daquilo que pertence a Deus e usar ao seu arbítrio aquilo que lhe foi confiado para defender e propagar! Também de dentro da Igreja, muitas vezes surgem críticas ao Santo Padre. Muitos grupos “tradicionalistas” já ousaram [e alguns ainda ousam] dizer o Papa filiou-se ao modernismo; que já não faz as coisas “de sempre”. A pretensão de certos “fiéis” chega a tanto que muitos acabam por se esquecer de que Jesus roga pelo Seu Servo a fim de que a Fé dele não desfaleça e, assim, ele possa confirmar a Fé de seus irmãos (Lc 22, 32). A fidelidade do Papa é um dom que Deus concede em atenção à oração de Seu Filho Jesus.

Prudente – o Santo Padre deve ser prudente. Mesmo quando acusado de antiquado, retrógrado ou qualquer adjetivo semelhante, ele deve estar atento às palavras do apóstolo Paulo: “(…) virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas. Tu, porém, sê prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a missão de pregador do Evangelho, consagra-te ao teu ministério” (2Tm 4, 3-5). Ao mesmo tempo, deve ter o discernimento para saber como convém anunciar a Boa Nova, segundo as variedades das pessoas, dos tempos e dos lugares, de acordo com o conselho do mesmo São Paulo (Hb 5, 12-14). Jesus já havia aconselhado: “Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10, 16).

O Papa, portanto, precisa ser ao mesmo tempo Fiel e Prudente. Alguns ditos “católicos” não percebem isto e, dissociando uma dessas características da outra, terminam por exigir que o Papa se comporte segundo a caricatura pontifícia por eles criada. Os modernistas, por exemplo, querem um Papa “somente prudente” que, em nome do politicamente correto, trabalhe incessantemente para evitar as discórdias e adaptar a Igreja às exigências do mundo moderno – mesmo que isso implique em sacrificar a Verdade. Já os rad-trads, no extremo oposto, negam ao Papa o direito de se exprimir da maneira que ele julgar mais conveniente – mesmo que, com isso, dificultem que a Boa Nova chegue ao conhecimento de todos os homens -, considerando que a menor alteração na forma como são ditas as verdades de Fé implica numa traição ao Depósito da Fé. Quando o Papa fala, pois, é duplamente atacado: os modernistas de um lado o chamam de imprudente e os rad-trads, do outro, de infiel. Levantando-se e fazendo frente aos dois erros opostos, todavia, ergue-se o Sumo Pontífice, coluna da Igreja, referencial seguro da Verdade Eterna, o servus servorum Dei. A expressão – que já era cara a São Gregório Magno – indica-nos qual é exatamente a natureza da função do Papa na Igreja de Cristo [“Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servidor (διάκονος); e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos” (Mc 10, 43-44)] e completa-nos a definição de quem é o Papa: est fidelis servus et prudens.

Além disso, o Papa deve ser amado por ter uma vocação única entre todos os homens do mundo. Alguns podem dizer: “ah, Jesus poderia ter escolhido qualquer um”. De fato, a vontade divina é soberana e poderia ter escolhido qualquer um. Mas este, precisamente o que foi escolhido, vai sempre carregar o selo da eleição divina. Quem quer que seja, a partir do momento em que Deus o chama, passa a ser “o escolhido”. A eleição é sinal de amor. Se Deus ama o Papa, por que nós não o amaremos?

Ainda olhando para o trecho bíblico de S. Mateus que encabeça este texto, podemos contemplar a figura do Santo Padre como guardião dos Sagrados Mistérios, administrador e dispensador dos tesouros da Igreja, em especial a Santíssima Eucaristia. A Eucaristia é o alimento com o qual Deus nutre a nossa alma. E o Papa Bento XVI tem exercido o ofício de guardião deste Mistério de modo magistral. Primeiro, escrevendo aquela magnífica exortação apostólica chamada Sacramentum Caritatis, na qual o mistério da Eucaristia é aprofundado (mas não esgotado), em continuidade com a Encíclica Ecclesia de Eucharistia, de autoria do Papa João Paulo II, de felicíssima memória. Depois, através do motu proprio Summorum Pontificum, no qual se estabeleceu que a rica liturgia tridentina deve ser tratada como Forma Extraordinária do Rito Romano, podendo ser celebrada por qualquer sacerdote que o deseje, sem necessidade de indulto por parte do Ordinário local. Além disso, as atitudes mais recentes do Chefe da Igreja Universal têm mostrado o grande apreço que ele tem ao Santo Sacrifício: a comunhão de joelhos que tem feito questão de administrar nas celebrações em Roma, por exemplo, mostram a piedade eucarística de Bento XVI. A Igreja vive da Eucaristia – como esperar, então, que aquele que foi colocado como Cabeça Visível da Igreja (para alimentar a família de Deus no tempo oportuno) pudesse não ser profundamente devoto deste tão sublime Sacramento?

Em suma, o “servo fiel e prudente” é – de maneira especialíssima – o Papa. E ele tem feito o seu papel. Ponhamo-nos nós, leigos, no nosso lugar, e desprezemos os juízos maldosos que muitas vezes são feitos a respeito da pessoa e do ministério do Sucessor de Pedro. Roguemos a Santa Catarina de Sena que nos ensine e nos ajude a amar o “Doce Cristo na Terra”. Que possamos afirmar com os Padres da Igreja: é somente “cum Petrus et sub Petrus” (com Pedro, e sob Pedro) que queremos marchar neste Vale de Lágrimas rumo à Pátria Celeste .

              [Durante este perído de “recesso do blog” – que vai até 31 de janeiro – fiz questão de resgatar o texto abaixo. Ele foi o primeiro post “oficial” do Exsurge. Trata de uma reflexão sobre algo que julgo ser da mais alta importância: o conceito de “respeito so ser humano”.  Creio que, tendo uma noção clara de ‘respeito’, podemos combater com mais propriedade algumas das falácias que, praticamente, viraram ‘princípios’ na mentalidade da sociedade moderna].

 

              É muito freqüente ouvirmos as pessoas falarem em respeito. Seja à mulher, ao negro, à criança ou ao idoso, essa palavra está na ordem do dia. Inúmeros seminários, debates, palestras, entrevistas e artigos (inclusive este que você está lendo) tratam da questão. Também está na ordem do dia o tema “discriminação” que, de certo modo, envolve o respeito. Porém, é preciso rever as premissas das quais estamos partindo para compreender e discutir o respeito, e também o desrespeito.

              Antes de mais nada, é preciso entender que estamos lidando com uma via de mão dupla: todos temos o direito de ser respeitados, e o dever de respeitar. Contudo, o que significa respeitar? Será que é tratar com extremo cuidado, como quem pisa em ovos com medo de quebrá-los? Será que é poupar as críticas com receio de que sejam levadas para o lado pessoal?  Será que é suavizar a cor negra, enbranquecendo-a para nos agradar? Chamar negro de “moreno” é respeito ou discriminação? E respeito se reduz a não discriminar?

             Uma observação: o chamado “decoro parlamentar”, que deveria instituir o respeito nas relações entre os representantes políticos da Nação, não passa de uma piada. Uma farsa. Um arrumadinho em que “eu não digo o que devo, para não ouvir o que não quero”. Um mecanismo de proteção à corrupção. Isso não é respeito (decoro). É um faz-de-conta. Uma indecência decorrente da amoralidade que reina em nossas instituições.

              O respeito implica a não-agressão (verbal e física), a não-humilhação, a não-exclusão. Respeito é sinal de amizade. Mas amizade sincera: aquela que não aplaude o erro, mas, pelo contrário, o corrige para o bem do outro. O respeito pode ser entendido:

 

* Em latu sensu, como é o caso do respeito à natureza, o qual se traduz na preservação do que é bom (porque criado por Deus) e útil dentro da ordem natural;

 

*  Ou em strictu sensu, como é o caso do respeito aos pais, o qual implica – especificamente – na obediência que os filhos lhes devem; e do respeito que deve existir entre namorados, o qual está orientado para as vias da castidade, necessária à construção de um relacionamento sadio e duradouro.

 

              Respeitar não significa legitimar o que, por natureza, é falso. Portanto há um erro quando se diz: “as pessoas fazem suas opções sexuais, portanto, devemos respeitar o homossexualismo”. Não! É verdade que o homossexual deve ser respeitado. Não por ser homossexual, mas por ser humano. Porém, não podemos deixar de mostrar a ele o que é certo, segundo Deus, com a desculpa de que ele é livre e faz o que quer. Liberdade é fazer o bem, não fazer o que se quer. Isso é libertinagem. Se nós não lhe esclarecermos, pecamos por omissão. E isso é gravíssimo, pois São Paulo diz que os efeminados não herdarão o reino de Deus (ICor 6, 9-10). Pode ser que um homossexual vá para o inferno por causa da nossa apatia, covardia e falso moralismo! 

              Há quem diga: “Sou idoso, logo, mereço respeito”. Ledo engano. O idoso – assim como a criança, a mulher e o negro – merece respeito porque é um ser humano, criatura de Deus, feita à imagem e semelhança do Senhor. Estou querendo dizer que devemos respeitar as pessoas pelo simples fato de elas serem pessoas e não por qualquer outro motivo, ainda que pareça nobre ou justo.O respeito prescinde de qualquer fator pessoal.

                Um desses fatores pessoais – e, talvez o mais problemático – é o credo religioso que cada um professa. Essa distorção quanto à noção de respeito assume proporções INACEITÁVEIS quando se está falando de opção religiosa: “cada um crê de um jeito”, “devemos respeitar a religião de cada um”. Errado! O religioso deve ser respeitado – reafirmo -, não por ter essa ou aquela crença, mas por ser humano. Além disso, o respeito que se deve ao religioso não se estende à religião dele (assim como o respeito ao homossexual não se estende ao homossexualismo; e o respeito à mulher, não se estende ao feminismo). Perguntar-me-ão: e é possível discordar de algo sem ofender alguém? Devolvo a pergunta: acaso os pais deixariam de repreender (ou mesmo de castigar) seus filhos, com receio de ofendê-los? O agricultor pouparia a erva daninha, que destrói toda a sua plantação, em “respeito” à natureza? E o pastor deixaria de ferir o lobo, que ameaça suas ovelhas, para não machucá-lo? A Verdade precisa ser dita – com convicção, coerência e mansidão – doa a quem doer. Só se sentirão desrespeitados pela verdade os mentirosos, os quais são por ela desmascarados.

              E por que o respeito deve fazer parte da nossa conduta ética e moral? Porque Deus nos respeita: “Eis que estou à porta e bato: quem ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo”(Ap 3, 20). Deus não invade a privacidade de ninguém. O Senhor também não discrimina ninguém, pois “não faz distinção de pessoas” (Rm 2,11). Deus não agride nem violenta as decisões de ninguém. Permite que o homem escolha seu próprio caminho (ainda que o homem não escolha O Caminho), mas nunca deixa de denunciar as práticas abomináveis dos homens (Dt 18, 9-13). Deus ama o pecador, todavia não aprova o pecado dele. Antes quer tirá-lo do caminho errado e da vida morta a que este o conduz.

              Talvez não sejamos mais profetas, neste mundo dilacerado pela hipocrisia, porque não temos bem certeza daquilo em que dizemos crer. Perdemos o senso do que é a Verdade e a substituímos por um relativismo maldito que tudo legitima em nome do “jeito de cada entender as coisas”. Não vou deixar de criticar a reencarnação por medo de ofender os espíritas. Se eles crêem, paciência. Eu não acredito e dou testemunho público disso. Não vou aprovar a doutrina antimariológica dos protestantes em “respeito” a opinião deles. O Príncipe dos Apóstolos recomenda: “Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito” (IPd 3,15). Não vou deixar de defender – por amor e com amor – a fé da Igreja, a única fé (Ef 4,5), por medo de “desrespeitar” quem quer que seja.

               O Mal está gritando e gargalhando enquanto nós, por conta de uma compreensão errada, estamos fazendo um minuto de silêncio em “respeito” aos mortos pelos pecado. Que absurdo!

 

Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.

             

              [O texto abaixo foi publicado originalmente neste blog em 07 de Setembro de 2009]

 

               Sinto-me um excluído. E hoje, nesse dia em que é dado o direito de gritar a esta classe vil de seres humanos, quero – também eu – lançar o meu brado de indignação frente aos meus opressores; frente àqueles que me tiram o direito de ser indivíduo e me relegam quase à condição de indigente.

            A lista das “exclusões” às quais estou sendo submetido é extensa. Sou excluído de todas as formas: ora por adotar determinadas posturas e comportamentos, ora por não adotar determinadas posturas e comportamentos. Certas vezes sou excluído porque faço parte de tal coisa; outras vezes, sou desprezado porque não faço parte de tal coisa. Meus opressores não me entendem, e eu tampouco os compreendo. Portanto, o meu grito é – na verdade – um urro [quase um berro]: deixem-me ser católico!

            Chega de me excluírem porque prefiro ouvir o Santo Padre, o Papa, a dar crédito a teólogos de meia tigela que dizem uma coisa hoje e outra amanhã; porque não dou ouvidos a quem vive espalhando os seus “ventos de doutrina” e encantando a multidão com as suas heresias. Devo ser excluído porque prefiro Tomás de Aquino a Leonardo Boff? Se bem que um dia desses, um dos meus opressores acabou me alegrando com um comentário. Disse ele: “Você não passa de um papagaio do Papa – vive repetindo o que ele fala”. Fiquei comovido. As lágrimas me vieram às faces. Eu não merecia tamanho elogio. Mas continuei sendo excluído porque, afinal, a garagem da minha casa continua servindo para guardar o carro: não fundei nenhum igrejola com nome esdrúxulo para extorquir pessoas em nome de Deus…

            Chega de me excluírem porque acho que o homem nasceu para ter vida a dois com uma mulher e não com outro homem. Devo ser excluído só porque obedeço cega e fielmente à natureza que em mim está, graças a Deus, arraigada de maneira inseparável? Sendo eu heterossexual, cometo eu algum delito ao defender esta classe que – paulatinamente – se torna minoria neste nosso mundo cor-de-rosa? É justo que eu seja excluído só porque acho que saias combinam com mulheres, e ternos com homens? Acaso não posso ensinar à minha prole [vindoura] que o homossexualismo é pecado mortal e que “papai do céu castiga” quem comete este tipo de infração contra a Lei de Deus? Grito sim: isto é um absurdo!  

            Chega de me excluírem dizendo que eu não posso ser contrário ao aborto porque sou católico e, portanto, estou movido unicamente por razões de ordem religiosa. Ora, acaso eu não penso? Não posso discordar? Para ter isenção nesta matéria é preciso ser ateu? Por que os judeus, budistas, hindus, muçulmanos e outros que defendem o aborto não “se liberam” também de suas crenças para poder “opinar” com imparcialidade? Só eu – o católico – devo ficar calado?

             Chega de me excluírem porque não tenho filiação partidária. Devo ser excluído porque prefiro votar nulo a votar em alguém que defenda a cultura da morte (cujos princípios e propostas são: aborto, eutanásia, pesquisas com células-tronco embrionárias, etc.)? Eu até queria ser presidente da república. Mas, por culpa da minha mãe (que desde que eu era pequeno me incentivou a estudar) acabei tendo o sonho da presidência podado… Ora, se julgo que nenhum partido atende aos requisitos básicos, mínimos, da Doutrina Social da Igreja, por que eu daria minha adesão a eles? Pior: porque eu me filiaria a um partido que contraria abertamente esta Doutrina? Mereço ser excluído porque anteponho a filiação divina – que adquiri por ocasião do Batismo – à filiação partidária?

             Chega de me excluírem porque não sou comunista! Que mal há em eu não querer dividir o quintal da minha casa com nenhum sem-terra oportunista? Devo ser excluído apenas porque vejo em Jesus um exemplo de santidade e não um modelo de revolucionário? Por que eu tenho que ser inimigo de empresas capitalistas como a McDonald’s se os caras produzem o melhor McChicken com aplique de catupiry e fritas do mercado?! Bah, francamente!       

            Chega de me excluírem porque prefiro rezar na missa e dançar na boate. Sim, eu sou excluído porque não faço parte do pessoal que “curte” a missa (dançando, pulando, saltando como pipoca) e diz ir às Cristotecas da vida para rezar. Acaso eu sou obrigado a concordar com essa total inversão das coisas? Tem gente que acha que a missa foi feita para que os fiéis batam palmas, saltem de ponta-a-cabeça diante do altar e façam malabarismo com as galhetas. Eu acho que essas coisas cabem muito bem num circo ou numa festa qualquer; mas não em uma missa. Que mal há em eu não concordar com essa gente? Tem gente que acha que as “boates de Cristo” são um ótimo lugar para o encontro com Deus. Eu continuo achando que são muito mais frutuosas as tradicionais visitas ao Santíssimo Sacramento…. Eu devo ser excluído porque penso assim?

            Chega de me excluírem porque prefiro o canto gregoriano dos monges aos hits protestantes da moda! É justo que eu seja desprezado somente porque prefiro as vésperas cantadas em latim aos “funks para Jesus” que se espalham e fazem sucesso entre o povo? (detalhe: em alguns casos, para mim o latim é bem mais compreensível que o funkês).

             Chega de me excluírem porque prefiro uma Missa de Formatura a um culto ecumênico. Por que eu trocaria a Perfeita Ação de Graças elevada a Deus na Santa Missa pela prece confusa de homens que rezam a deuses diferentes? (pois é óbvio que eu – católico – rezo a um Jesus bem distinto daquele imaginado pelos espíritas).       

            Pronto. Falei. Estou cansado de ser excluído. Estou farto de ser calado pelos meus opressores. Por isso decidi gemer, gritar, extravasar. Serei compreendido? Não sei. Serei aceito? É pouco provável. Entretanto, espero – paciente – o dia em que devo receber uma carta da Secretaria de Ressocialização dizendo que vai fazer comigo um processo de inclusão social. Caso eu não receba esta carta, certamente me enviarão uma outra, com outro teor: algo como um gentil convite à extradição em Marte, minha verdadeira e cara Pátria…