Há algum tempo escrevi aqui no blog um texto intitulado “Virtus in Medio”. Esta expressão latina – amplamente utilizada pelos Padres da Igreja e muitas vezes repetida pelos mestres de espiritualidade – sempre me fascinou sobremaneira. Dizer que “a virtude está no meio” é recordar a importância de cultivar a prudência [o equilíbrio, o juízo reto, o discernimento justo] como base alcançar e aprofundar as demais virtudes. Decerto não é fácil pensar e viver de modo justo, prudente e equilibrado. Entretanto, não nos é permitido ceder à tentação de “extremizar”. Nos termos do antigo testamento, desviar-se – quer para a direita, quer para a esquerda – acaba nos afastando do caminho de Deus [que é reto].

Mas seria o caso de nos perguntarmos: Tudo no mundo é absoluto? Ou tudo é relativo? Há quem responda “sim” a uma e a outra pergunta. Ambos enganados. Ambos enganando-se.

Sua Santidade, o papa Bento XVI – ora reinante – por diversas vezes teceu duras críticas ao relativismo alertando para o perigo que esta “ditadura do relativismo” pode causar à humanidade. Como se pode ler nesta matéria da Folha, já na missa Pro Eligendo Pontifice o então cardeal Ratzinger lançava as bases de sua crítica. Eis aqui algumas de suas declarações ao jornalista Dag Tessore no livro “Bento XVI – questões de fé, ética e pensamento” (Claridade, 2005):

 

Em “nossa época […] a verdade é substituída pela decisão de maioria. […] a cultura é contraposta à verdade. Este relativismo, que se tornou hoje o sentimento base da pessoa ‘iluminada’ e afeta até a teologia, é o maior problema da nossa época”.

E:

“A verdadeira presunção aparece quando queremos tomar o lugar de Deus, para estabelecer quem somos, o que podemos decidir, o que queremos fazer de nós mesmos e do mundo”.

 

Tradicionalistas [não os normais, mas sim os radicais] julgam que tudo é absoluto, tudo é lógico, tudo é empírico. Para eles, o mundo é matemática. Quem deles discorda [num tema em que a divergência é permitida] é taxado de sofista. Só eles têm argumentos. Os outros? Só falácias. Usam São Tomás de Aquino para justificar suas sandices e elucubrações sem sentido; tentam justificar sua falta de caridade e de humildade, alegando que é preciso “corrigir os errados”. Ora, será que – justo eles – nunca ouviram falar em questio disputata [na qual a resposta ainda está em construção]?

Por outro lado, temos os relativistas propriamente ditos [já não sei se os chamo de “modernistas”, “modernosos” ou “modernizantes”…]. Acham que podem opinar sobre tudo. Tudo está sujeito ao juízo deles. É comum ouvi-los dizer que “o diabo só existe para quem nele acredita”. E o demônio segue feliz da vida com a “brilhante” conclusão a que os relativistas chegaram sobre a sua vil existência… É como se a resposta para a arguição de Shakespeare [“To be or not to be? That is the question!”] fosse: depende… Reticentes e imprecisos. Assim são os reis do “depende”. Usam-no para tudo.   

Antes de mais nada, é preciso entender uma coisa: em si mesma a expressão “relativo” [e afins] designa algo que carece de um padrão [de um referencial] para ser analisado. Algo que por si só não pode ser julgado. O erro dos relativistas, portanto, é achar que isto se aplica a tudo e [pior!] escolher os padrões errados para julgar as coisas. Os rad-trads, por sua vez, têm grande dificuldade de admitir a existência de elementos subjetivos, relativos. Alguém pode questionar: “mas em quê, concretamente falando, nós podemos discordar e apresentar pontos-de-vista sem nos tornar relativistas?”. As questões morais e doutrinais não estão sujeitas aos achismos de quem quer que seja. Ainda na obra de Dag Tessore, diz o papa (idem):

 

“A fé é justamente o contrário de uma “consolação subjetiva”: ela é centrada na busca existencial da verdade”.

“Os dogmas e os princípios morais católicos nada mais são do que os pilares desta verdade objetiva”.

 

Não é preciso ter uma inteligência Einsteiniana para saber que existem coisas que são passíveis de análise, e existem outras que não são. Várias vezes o direito canônico [e também a simples prática pastoral], por exemplo, recomenda que o ordinário local analise certas situações “caso a caso”. Ora, ao fazer tal recomendação o direito está atestando a existência daquilo que tira o sono dos tradicionalistas [radicais]: o famigerado “depende”.

Como bem colocou D. Antônio Carlos Rossi Keller neste artigo publicado no Veritatis, replicando o catecismo, a Teologia Moral da Igreja apresenta como a moralidade dos atos depende, entre outras coisas, do elemento “circunstâncias”. Ela pode ser um agravante ou um atenuante no julgamento do ato.

Em suma, em juízos de valor acerca de coisas que – em si – são desprovidas de moralidade, nos é permitido, sim, opinar. Por exemplo, o fato de alguém gostar de samba e odiar rock é perfeitamente conciliável com o fato de outra pessoa gostar de rock e detestar samba. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A música em si é desprovida de moralidade, isto é, analisada em si mesma não se pode dizer que é boa ou ruim. Não se lhe pode atribuir valor moral algum. Este tipo de discordância é legítima e, portanto, não constitui relativismo [em sentido negativo].

É preciso perceber que nem tudo é preto no branco… Afinal, as realidades cinzentas também existem. Frise-se: a verdade não é relativa, é absoluta. É única e não admite concorrência. Mas quando falo em “relativismo sadio” estou me baseando na liberdade humana para dizer que – no julgamento de temas que, em si, são desprovidos de moralidade – o ser humano pode, sim, opinar e apresentar conclusões divergentes sem que isto constitua um erro.

 

            “Em uma época em que movimentos missionários cristãos das mais variadas estirpes lançam campanhas de conversão de judeus, é importante conhecer as diferenças entre nós e os cristãos para termos claras as linhas vermelhas que separam cada religião”. (trecho do artigo intitulado “Jesus, é detalhe!”, disponível aqui neste link. Grifos meus).

 

             Ao me deparar com este artigo, fiquei profundamente irritado. A começar pelo título desaforado que puseram. Tenho certeza que se eu escrevesse que o Shabat era um detalhe (e, de fato, o Shabat é uma coisa irrelevante, sem nenhuma importância) seria taxado de anti-semita. Mas, como não são os cristãos que estão escrevendo, então pode…

            Bom, deixando um pouco de lado algumas discussões importantes suscitadas por este artigo dos judeus (como, por exemplo, a discussão sobre a cruzada anticristã que tem se instaurado na nossa sociedade), quero chamar a atenção para aquilo que está por trás do texto, bem como aquilo que se encontra nas suas entrelinhas.

            Percebi, através do tal artigo, que os judeus sabem definir com clareza qual é a medida e quais são as regras do seu relacionamento com as demais religiões (notadamente o cristianismo). Não vou julgar o mérito dos argumentos deles (porque é óbvio que eles estão redondamente enganados quanto a sua interpretação das escrituras), mas devo reconhecer que o modo como eles transmitem as suas convicções e defendem a sua essência ante a multiplicidade religiosa vigente, é admirável. Eles fazem apologética! Nós, católicos, infelizmente – por conta do maldito espírito do “politicamente correto” -, há muito abandonamos esta forma de debate. Os judeus sabem se relacionar porque têm a exata noção da sua identidade (da qual se orgulham bastante) e procuram defender, com unhas e dentes, aquilo que são os pilares da sua fé. Em resumo: eles sabem determinar até que ponto as coisas são discutíveis. Sabem quais são aquelas “verdades inegociáveis” das quais não se deve abrir mão para não correr o risco de falsear a fé.

            É inadmissível que os judeus [que – como dizia o Padre Antônio Vieira“têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés] enxerguem a importância de delinear a própria identidade e nós, católicos, não o percebamos!

            Não é preciso consultar o Ibope para saber que a maioria dos católicos não sabe “fazer ecumenismo”. Acham que ecumenismo é viver uma paz de cemitério em que cada um permanece no seu canto e, assim, ninguém incomoda ninguém.  É a proposta, e a conseqüência, do relativismo em voga: cada um fica com a “sua” verdade. Cada um fica com o “seu” Deus – fabricado sob encomenda – e, assim, cada um trilha o caminho que o próprio nariz aponta. É uma pena. Morreu, em muitas pessoas, o anseio por conhecer a verdade. Os conceitos de “falso” e “verdadeiro” foram relegados, exclusivamente, às provas de concurso… O “sim, sim; não, não” (Mt 5, 37) foi substituído por um “depende”…

            Estou convencido de que a origem de tanta confusão em torno do relacionamento com as outras religiões cristãs, está no fato de que nós, católicos, não sabemos quem somos. Perdemos muito da nossa identidade, e já não nos enxergamos mais como “uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa” (1 Pd 2,9). É como se tivéssemos deixado de ser um povo, para ser “um grupo religioso que tem uma visão diferente”. Os judeus, porém, não admitem que a unidade da fé ceda lugar à multiplicidade das opiniões.

            Ah se nós católicos fizéssemos o mesmo!

            Se soubéssemos que nenhum templo de outra religião é tão digno quanto o interior de nossas igrejas: porque nelas está Deus mesmo, em sua totalidade (corpo, sangue, alma e divindade)!

            Se soubéssemos que nenhum líder religioso de outra religião tem a autoridade de um sacerdote católico: porque este, unindo sua voz à Palavra d’Ele, traz ao altar o Filho de Deus.

            Se defendêssemos, ainda que ao custo da própria vida, a Mãe de Deus – tão vilipendiada pelos hereges e descrentes.

            É lamentável dizer isso, mas parece que alguns católicos estão precisando ouvir o Shemá, Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor(Dt 6,4).

             Ontem (29), a convite de uma amiga, fui assistir a um espetáculo teatral. Eu não sabia exatamente qual era o espetáculo, mas pensava se tratar de uma peça. Ao chegar ao Teatro Apolo, fui informado que ocorreria uma apresentação de dança contemporânea (algo que eu não fazia a mínima idéia do que se tratava) intitulada: Cultura bovina?

            Cinco bailarinos dançaram durante cerca de 45 minutos. O grupo de dança, chamado Ginga, nasceu, cresceu e desenvolve suas atividades no Mato Grosso do Sul.  

            Em geral, posso dizer que é notória a competência técnica dos bailarinos: dançam muito bem. Além disso, o garoto que os acompanha na percussão (que é também fagotista da Orquestra Sinfônica de Campo Grande) é um músico muito versátil. Um verdadeiro virtuosi. Ele produz um espetáculo à parte que realmente dá gosto de ver. De resto, descobri que dança contemporânea nada mais é que uma coreografia composta de gestos desconexos feita por quem quer dizer: “vejam o que sou capaz de fazer com meu corpo!” A noção do “belo”, como transcendental presente na arte, passa longe da tal dança contemporânea.

            Ao final da apresentação houve um pequeno debate. Pensei comigo mesmo: “bom, agora eles – os atores, produtores, coreógrafos, etc. – vão explicar a Cultura bovina? O que é que isso que foi apresentado no palco tem a ver com o tema proposto?” Mas, para minha decepção… Nada. Nenhum comentário sobre a relação tema-coreografia!

            Não faz muito tempo que eu fui assistir a uma peça em que, ao final, também houve esse espaço para debate. Expus o que eu tinha entendido da peça. E, para minha completa frustração, disseram-me que aquela visão que eu tive era bastante interessante; e que, de fato, aquela era uma leitura que também poderia ser feita. Afinal, cada um – dentro da sua realidade – entende de um modo. Argh!!! Essa linguagem dúbia virou padrão para os artistas. Aliás, no meio artístico, é feio não falar assim! Resultado: fiquei sem saber se a proposta da peça era aquela ou não; se eu tinha entendido corretamente ou não; se a minha visão “interessante” estava certa ou errada; se a pessoa que idealizou a peça queria realmente transmitir aquela mensagem. Ora, se a opinião do artista não vale de nada, se as intenções que ele quis expor não puderem ser captadas, então para que prestigiá-lo? Aliás, creio que essa coisa de “cada um atribui um sentido” é mais que inapropriada: na maioria das vezes é uma deturpação ao pensamento do artista e, em alguns casos, até mesmo uma afronta.

            É frustrante que a arte contemporânea seja marcada por um completo vazio de significado. Parece que ela arte perdeu sua capacidade inigualável de mostrar, de manifestar, de expor. As intenções do artista acabam ficando no seu íntimo, de modo que ninguém consegue perceber o que ele quis expressar através daquela obra de arte. Daí, cada espectador atribui um sentido aquilo, de forma que pode ser que ninguém esteja certo, mas também ninguém está errado. A mensagem contida naquele projeto artístico permanece inacessível, impenetrável. Todos apresentam sua visão a respeito daquilo, sem que essa visão precise estar atrelada ao pensamento do artista. O que ele, o artista, quis dizer, não interessa. Importa o que se quis entender. E esse é o absurdo que para mim ficou patente no dia de ontem.

            Tudo isso por influência da ditadura do relativismo. Tudo isso porque hoje a verdade e a clareza não valem mais nada. O mundo moderno perdeu a noção da importância dos conceitos de “certo” e “errado”.  Pior: gosta disso!  Ser relativista é “elegante”!

            Esse mesmo pensamento se traz para a religião. Não importa mais as coisas tal e qual elas são. Não interessa se isso ou aquilo é pecado. O corolário é: “em essência, nada é dotado de moralidade e de sentido próprio. O sentido das coisas encontra-se no sujeito e não no objeto”. O relativismo ensina que se o adulto acha que embaixo da cama estão os chinelos e a criança acha que há um monstro terrível, ambos estão corretos! Talvez até o monstro use os chinelos…

             E assim, ninguém ousa olhar embaixo da cama para descobrir o que há. Pelo amor de Deus! Onde vamos parar? Alguém tem que ter a coragem de dizer à criança que o monstro não existe, e que embaixo da cama não há nada além de chinelos e poeira!

            Além dessa questão do relativismo, não posso deixar de comentar outra coisa: em dado momento do espetáculo, duas bailarinas e um bailarino começaram a se despir. Começaram e terminaram: ficaram nus (é isso mesmo, caro leitor, completamente nus!).

            O apelo à nudez “artística” é a completa prostituição da arte. Vender aquilo que se tem de mais sagrado para atrair público é imoral e desnecessário. Isso me entristece e irrita. Ponho nudez artística entre aspas porque, na realidade, ela não existe. Nudez é nudez e ponto. A arte não pode eliminar o pudor. Por que recorrer à nudez? A competência não substitui à altura o colo desnudo de uma mulher? Acaso é impossível produzir um espetáculo com os atores vestidos? Vai-se começar a aplicar à arte a mesma política dos comerciais de cerveja? Desse modo não demora muito a que as peças de teatro e outras mostras artísticas estejam seguindo a filosofia do “não precisa ser inteligente, basta ter mulher pelada”…

            Se não tomarmos cuidado, o relativismo e a imoralidade vão destruir – ainda mais – a arte e o ser humano…

 

Exsurge, Domine!