A Associação Cultural Montfort, em pouquíssimas palavras, noticiou o falecimento do seu fundador, o professor Orlando Fedeli. A blogosfera católica de imediato replicou a notícia e lamentou o falecimento do ilustre professor (vide fim deste post).

Tive pouco relacionamento com o Fedeli. Quando de suas vindas a Recife, por duas vezes o encontrei na saída da Santa Missa. Cumprimentei-o brevemente, impressionado com o fato de que ele, já sendo um homem de bastante idade, pudesse se ajoelhar [e o fizesse] com relativa facilidade. Lembro, ainda, que a gravidade daquela voz rouca e a força daquele sotaque [tão diferente do meu…] me chamaram a atenção. Quando publiquei a Carta Aberta ao Padre Fábio de Melo, o professor Fedeli citou este blog para levar adiante a cruzada (mais uma!) que ele havia decidido empreender contra a atuação e a postura do Padre Fábio. Da minha parte, referi-me a ele diretamente poucas vezes (uma delas foi neste post), mas em diversas ocasiões mencionei o site da Montfort (na última menção, divulguei a criação do Twitter da Associação).

Colecionador de inimigos e de admiradores. Personalidade sangüínea, homem de uma inteligência invejável, apóstolo incansável: assim era Orlando Fedeli. Zeloso ou exagerado? Tradicionalista ou fanático? As dúvidas que pairavam sobre a sua figura agora se eternizam. Os que esperavam que ele mudasse de ideia, não verão mais isso acontecer. Por sua vez, os que apoiavam tais ideias, agora se sentem órfãos e também não mais o verão defender – com paixão e ferocidade – as posições que assumia publicamente.

Mas, mais que comunicar o fato do falecimento do professor, creio que seja importante [sobretudo para os que, de algum modo, lidam com apologética] refletir sobre “o que leva um homem a assumir a defesa tão apaixonada de algo?”. Por certo esta resposta é difícil de ser dada porque exige uma análise aprofundada da pessoa a quem se está referindo, bem como do objeto que está sendo defendido. Fedeli julgava estar defendendo a Igreja. Movido por orgulho ou por amor à Verdade? Talvez as duas coisas…

Educador nato [e, por isso, um importante formador de opinião], debatedor exemplar [adepto do método escolástico]. Conversor de almas para Cristo e a Igreja? Ou apenas um homem que buscava angariar continuadores da sua obra? Talvez as duas coisas. Os meios que escolhemos podem nos levar a atingir o fim a que aspiramos. Ou não…

E, assim, o Altíssimo pôs um ponto final na vida de Orlando Fedeli, sem esclarecer as interrogações que giravam em torno da sua pessoa, mas permitindo que ficasse o rastro das exclamações com as quais ele pontuou a sua existência.

Enfim, aos que puderem e desejarem ir ao enterro, seguem as informações de data, local e horário:

Cemitério Vila Mariana

Endereço: São Paulo/SP, Rua Lacerda Franco, 2012.

Horário do enterro: 17 horas

Data: 10.06.2010

Que Deus o acolha na glória reservada aos eleitos e que a Virgem de Fátima o receba em seu regaço maternal. Amém.

Outras publicações correlatas ao falecimento do professor Fedeli:

i) Falecimento de Orlando Fedeli

ii) Morre o Professor Orlando Fedeli

iii) Faleceu o Prof. Orlando Fedeli, presidente da Associação Cultural Montfort

iv) Falecimento do Prof. Orlando Fedeli

v) Sobre a morte do Prof. Orlando Fedeli

[O vídeo abaixo revela um pouco da mentalidade – brilhante e, ao mesmo tempo, polêmica – do prof. Orlando Fedeli, da Associação Cultural Montfort. Amado por uns e odiado por outros, Fedeli é uma das figuras mais emblemáticas do que se pode chamar “tradicionalismo radical” (verdadeiramente ele é um rad-trad). Nesta pequena aula de “catecismo” ele trata de assuntos diversos: desde a natureza e propriedades dos dons de Deus [em especial do dom da “Sabedoria”], até uma análise da pobreza de Cristo e da riqueza dos homens. Em meio à aula, críticas a D. Hélder Câmara e a Leonardo Boff apimentam o colóquio do professor ancião. Graças a Deus, o vídeo foi cortado num momento estratégico… ;)]

 

 

              O texto que se segue constitui a resposta que o professor Orlando Fedeli, da Associação Cultural Montfort, deu a um leitor acerca da veracidade histórica dos três reis magos. Trago para cá esta explanação do professor Fedeli por considerar que, estando na iminência de celebrarmos a Festa da Epifania do Senhor, seja de relevada importância recordar este aspecto [o da historicidade dos fatos narrados na Sagrada Escritura] negado por uns e falseado por outros. A resposta por si só retoma, ainda que parcialmente, a essência dos questionamentos feitos pelo leitor Carlos Eduardo, razão pela qual omiti o texto da pergunta [fi-lo também para abreviar o tamanho do post 😉].

 

Prezado Carlos Eduardo, salve Maria.

 

 

Agradeço-lhe os votos de ano novo que lhe retribuo com alegria. Que Deus Nosso Senhor lhe conceda a você e aos seus familiares, pelas mãos de Maria Santíssima, todas as suas melhores graças, nesse ano que começamos.

Os Evangelhos são documentos históricos de extremo valor. Nenhum historiador sério vai contestar que os quatro Evangelhos, mesmo do ponto de vista puramente natural, têm enorme autoridade histórica (e, portanto, científica). O tal Padre da Rede Vida deveria ter prestado atenção no que dizem a Epístola e o Evangelho da Missa do dia da Epifania.

Na Epistola dessa Missa se lê o texto do profeta Isaías que diz:

 

“Virão de longe os teus filhos, e tuas filhas surgirão de todos os lados. Vendo isto, transbordarás de alegria:o teu coração se há de admirar e dilatar, quando se voltarem para ti os povos de além mar e vier tercontigo o poder das nações. Cobrir-te-á uma multidão de camelos e dromedários de Madiã e Efa. Todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso, e publicando os louvores de Deus” (Is.LX, 1-6. O sublinhado evidentemente é meu).

 

Essa profecia foi realizada quando do nascimento de Cristo em Belém, pois se lê no Evangelho de São Mateus, na Missa da mesma festa de Epifania:“Eis que alguns magos chegaram do Oriente a Jerusalém, dizendo: “Onde está o rei dos judeus? “… “E entrando na casa, encontraram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se o adoraram e, abrindo os seus tesouros, lhe ofereceram presentes de ouro, incenso e mirra(Mt II, 1-12. Evidentemente, são meus os sublinhados).

Portanto, o evangelista quis demonstrar que há uma relação direta entre o texto de Isaías e o que aconteceu em Belém, quando nasceu Cristo: “o poder das nações”, isto é, soberanos pagãos, os Reis, que o Evangelho chama de “Magos”.

A tradição simplesmente juntou – coerentemente, com lógica – o que disse Isaías e o que disse São Mateus, deduzindo que os Magos que foram levar ouro, mirra e incenso a Jesus eram os soberanos das nações pagãs, profetizados por Isaías. Quem não soube usar de lógica — e nem soube compreender a tradição católica — foi o Padre da tal Rede Vida. O fato de esse Padre negar, ou por em dúvida, a matança dos inocentes por Herodes com o argumento de que Flávio Josefo não narra esse acontecimento, que só é contado pelo Evangelho, demonstra que esse Padre, desgraçadamente, prefere seguir Flávio Josefo do que o Evangelho de Jesus Cristo. Ele prefere aceitar como fonte de verdade um historiador judeu e não São Mateus. Ora, quem coloca a “ciência” — se se pode identificar Flávio Josefo com a Ciência — acima da Fé, é modernista. Esse Padre, que põe em dúvida o relato dos Evangelhos, parece então não ter fé. Portanto, esse Padre erra ao afirmar que os Reis magos não tem valor histórico, mas apenas simbólico. E você teve razão de sobra para se espantar com as afirmações desse Padre. Como você raciocina perfeitamente também ao dizer que, se os Evangelhos, ao relatar o caso dos magos e dos santos inocentes, falou apenas de símbolos e não de fatos históricos, porque se deveria aceitar como fato histórico a ressurreição de Cristo?

Ora, os modernistas dizem exatamente isso: que os fatos narrados nos Evangelhos são simbólicos e não históricos. Portanto, se fosse assim como dizem esses Modernistas, a Ressurreição de Cristo não teria acontecido. O que é heresia clara. Foi essa doutrina que São Pio X condenou como Modernismo. Se a tal Rede Vida espalha doutrinas como essa, ela deveria ser chamada Rede Morte.

As velas começaram a ser usadas nas cerimônias realizadas nas catacumbas com finalidade prática: visava-se iluminar os livros e textos a serem lidos nas cerimônias litúrgicas. Entretanto, Deus tudo fez carregado de símbolos, e quem tem olhar claro e coração puro, entende isso. Uma vela é feita de um pouco de sebo, tendo, no seu interior, um barbante, que se chama a “alma” da vela. Ao se colocar fogo no pavio, o fogo vai consumindo a vela, produzindo luz e calor. Ora, nós também temos um corpo de “sebo”, e nossa alma é simbolizada pelo pavio da vela. Quando se acende o fogo da fé verdadeira em nossa alma, e a aceitamos, o fogo da fé ilumina nossos semelhantes com a sua luz, e aquecemos nossos irmãos com o calor da caridade. E assim como o fogo da vela a vai consumindo, assim também o fogo da verdade católica vai consumindo o fiel, fazendo com que ele gaste sua vida, para produzir luz da verdade e calor da caridade para os demais homens.

Esse é o símbolo das velas que colocamos sobre os altares e nas mãos dos moribundos, afirmando que queremos nos consumir para iluminar e aquecer nosso próximo, ou que o moribundo consumiu sua vida, agindo assim. As velas, como você vê, têm um significado lindíssimo.

Não conheço o livro do Messori sobre as lendas negras, e não sei se posso recomendá-lo. Seria ótimo escrever contra as “lendas negras” — as calúnias assacadas contra a Igreja. Quem sabe, se Deus me der tempo de vida e de trabalho, possa escrevê-lo, um dia.

Só conheço algo sobre o Harry Potter por informação. Mas, pelo que me contaram, sem dúvida, é um modo de levar as pessoas à magia e à apostasia. A própria onda propagandística que se faz em torno desse assunto, é promovida pelos mesmos que propagam as calúnias contra a Igreja Católica. Logo…

Encaminharei sua sugestão de se escrever um artigo sobre os Deutero canônicos e a Septuaginta, para que seja editado no site. É uma boa sugestão. Você me faz ainda uma pergunta sobre um tema delicado. Sobre isso devo dizer-lhe que a moral católica condena como pecado todo relacionamento sexual fora do matrimônio, e também qualquer meio de impedir a procriação como essencialmente imoral.

 

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

 

Para citar a resposta desta carta:

Fedeli, Orlando – Veracidade histórica dos Reis Magos

MONTFORT Associação Cultural

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=doutrina&artigo=20040816190036