Continuando…

 

            Nesta segunda parte da minha resenha sobre “A experiência ensina o Bispo”, de autoria de D. Clemente Isnard, OSB, pensei em comentar brevemente os pontos mais escandalosos do livro. Contudo, acho que algumas frases escritas pela pena de D. Isnard falam por si só. Ei-las:

 

             Citando D. Aloísio Lorscheider, escreve D. Clemente [sobre o colégio cardinalício e a eleição do Sumo Pontífice]:

             “Meu pensamento hoje é que a Santa Sé deveria se perguntar se não chegou a hora de abolir o Colégio Cardinalício, porque não tem mais sentido. Hoje temos os Presidentes das Conferências Episcopais; esses seriam os homens indicados para a eleição do Papa”.

 

            Falando dos títulos de Monsenhor e Cônego – conferidos a padres por solicitação do bispo – diz D. Isnard:

              “Eu hoje não pediria ‘título’ para nenhum padre da minha Diocese. Se pedi, foi erro de juventude”.

 

            Sobre Ecumenismo [ainda citando D. Lorscheider]:

             “Entre a própria hierarquia da Igreja Católica há dificuldades para entender e aceitar o ecumenismo. Um testemunho disso é o documento Dominus Iesus, que decepcionou os católicos. Não foi oportuno… Eu acho que não deveria ter sido lançado”.

 

            Sobre a celebração da missa versus Deum:

             “Dizer que de costas para o povo é estar de frente para Deus é uma tolice. Deus não está em toda parte?”

 

            Sobre a missa em Latim (a meu ver esta é a mais escandalosa, falaciosa e cretina declaração de Dom Clemente Isnard, por isso quis destacá-la com negrito):

             “Celebrar em latim para o povo a missa dominical é pecado, uma vez que corta a possibilidade de uma participação ativa do povo no domingo, e isso é certamente um pecado”.

 

            Sobre a Comunhão sob duas espécies:

             “Não sei como classificar a recusa de dar ao povo a comunhão sob as duas espécies, hoje permitida pelo Concílio”.

 

            Sobre o Concílio Vaticano II:

             “Sem dúvida uma das finalidades do Concílio foi a de fortalecer a colegialidade episcopal”

 

            Sobre o sacerdócio feminino, ainda em concordância com D. Lorscheider:

             “Eu, sinceramente, acho que pode mudar: certamente é um assunto muito delicado. É possível que, um dia, a Igreja chegue a uma clareza maior. O papa, graças a Deus, não se pronunciou em termos dogmáticos. Ele não usou as palavras que um papa, por obrigação, deveria usar se pretendesse dogmatizar essa questão. Ele apenas disse que é sentença definitiva… Mas isso não quer dizer que, se em vinte séculos não houve, não possa haver hoje em dia […] Bons teólogos dizem que não se trata de uma definição dogmática. Portanto, o assunto fica em aberto. Pode-se ter esperança ainda. Depois, seria muito estranho Nosso Senhor instituir para as mulheres só seis sacramentos e para os homens, sete!”.

 

             Encerro por aqui. Já está me dando náuseas reler estas declarações toscas que – infelizmente – partem de um homem escolhido para ser sucessor dos apóstolos. Não sei de qual apóstolo D. Clemente é sucessor; mas, a julgar pelas declarações [que traem o ensino da Igreja], tenho um palpite…

            D. Clemente Isnard publicou um livro chamado “A experiência ensina o Bispo”. O livro – lançado durante a XII Jornada Teológica D. Hélder Câmara – é uma continuação do polêmico “Reflexões de um Bispo” e trata basicamente dos mesmos temas, entre eles: o papel dos Bispos Titulares e Auxiliares, a eleição do Papa, a Ação Católica, os Títulos Honoríficos, as CEB’s, o “Carreirismo”, Colegialidade Episcopal e algumas questões de ordem litúrgica. Farei aqui uma breve e [horrenda] resenha desta obra altamente contraproducente de autoria deste bispo beneditino de 92 anos.

            A primeira coisa que percebi quando peguei o livro – e que, num primeiro momento, muito me animou – foi a citação da declaração Dignitatis Humanae sobre a Liberdade Religiosa. Em determinado trecho desta citação se diz que o Concílio Vaticano II “investiga a Sagrada Tradição e Doutrina da Igreja, das quais tira novos ensinamentos, sempre concordantes com os antigos” (grifos meus). Pensei: se D. Clemente usar esta declaração como fio condutor de seu pensamento exposto neste livro, será ótimo. Será ótimo se ele [re]fletir a partir daquilo que os Padres da Igreja já colocaram como esteio: D. Clemente preferiu tirar novos [e errôneos] ensinamentos da obra de D. Aloísio Lorscheider a investigar a Tradição e a Doutrina. Em prol da adulação sacrificou-se a Verdade. Que pena.

            Virei a página e me deparei com um prefácio escrito por ninguém menos que Reginaldo Veloso (aquele mesmo que entrevistei e que, agora, se apresenta como “presbítero das CEB’s). A partir daí, fui me convencendo de que a leitura seria penosa, e de que talvez fosse melhor tomar um remédio para conter a ânsia de vômito que eu certamente sentiria diante de tanta bobagem e heresia contidas naquelas 100 páginas que o arcebispo emérito de Nova Friburgo havia escrito.

            Com coragem, prossegui. Depois de fazer um memento ao que ele chama o “Esplendor das Origens”, isto é, a Igreja primitiva, Dom Clemente faz um breve relato de sua vocação, e aproveita para explicar a diferença entre um padre diocesano e um padre pertencente ao clero religioso. Em seguida, põe-se a fazer o panegírico de Dom Aloísio Lorscheider. Essa parte do livro é traumática. Aos que não se recordam – ou não sabem – D. Aloísio, junto com D. Evaristo Arns, foram os advogados da heresia boffiana junto à Santa Sé… Entre as pérolas do pensamento do Cardeal Lorscheider estão:

 

  • A abolição do colégio cardinalício;
  • A suspensão da figura do “Bispo Auxiliar”
  • A extinção dos títulos honoríficos de Monsenhor, Cônego e todos os demais;
  • A proposta de que a eleição do Papa fosse feita pelos presidentes das conferências episcopais (para dar “representatividade” ao povo católico de todo o mundo);
  • A admissão de mulheres ao sacerdócio.

 

             Acho que já consegui deixar claro quem era D. Lorscheider. Não pense o leitor que D. Isnard é diferente. Ele mesmo diz que encontrou no cardeal D. Aloísio muita “comunhão de idéias”. Como se diria aqui no Nordeste os dois são “farinha do mesmo saco”.

            Bom, agora está na hora de trabalhar. Mais tarde complemento este post. É até melhor assim: em pequenas doses, a possibilidade de alguém ter um infarto lendo é menor. 😉

  

            Curioso e intrometido – como sempre – lá estou eu na cerimônia na qual D. Antônio Fernando Saburido, OSB, tomou posse como Arcebispo de Olinda e Recife, sucedendo a D. José Cardoso Sobrinho, O.Carm., até então administrador apostólico e doravante Arcebispo emérito. Eu estava lá como fiel desta arquidiocese (e, portanto, súdito de D. Fernando), mas também como blogueiro para tentar cobrir – catolicamente – a íntegra deste grande acontecimento da vida da Arquidiocese. Então, vamos aos fatos:

 

            Por volta das 14 horas chego eu a Igreja da Madre de Deus. Esta portentosa Igreja – recém reformada e reaberta ao público – foi o local escolhido para acolher o clero, a imprensa, as autoridades civis e os enxeridos (eu) durante a cerimônia de posse. Esta cerimônia, é bom que se registre desde já, não tem caráter litúrgico, mas apenas administrativo e protocolar. Apesar disso, tem a sua beleza e simbolismo próprios.

            Na parte exterior da Igreja, fiéis [não tão penetras quanto eu ;)] queriam a todo custo entrar para assistir à cerimônia. Infelizmente a maioria não pôde ingressar no recinto porque a prioridade era acomodar o clero (tanto o clero local como o vindo das dioceses sufragâneas e de outras localidades), ceder um espaço para os equipamentos da imprensa (já que estes ocupam mais espaço que os repórteres em si) e reservar os lugares das autoridades civis e militares (mesmo que algumas dessas nunca aparecem na Igreja, num momento como esses também eles merecem uma colher-de-chá).

            Dentro da Madre de Deus uma verdadeira salada de hábitos: havia religioso de tudo quanto era congregação: Redentoristas, Dehonianos, Franciscanos (tanto conventuais como capuchinhos), Carmelitas (confrades de D. José), Beneditinos (confrades de D. Fernando), Salesianos, Oblatos de Maria Imaculada, Jesuítas, etc. Isso sem contar com os inúmeros padres diocesanos que, com suas batinas pretas, circulavam pelo interior da Igreja revendo os amigos sacerdotes e aproveitando para pôr a conversa em dia. Também estavam presentes os arautos do evangelho, diversas congregações religiosas femininas, algumas “novas comunidades” (com destaque para a Comunidade Shalom e para a Obra de Maria – esta última representada na pessoa de seu fundador Gilberto Gomes Barbosa) e também aquelas três comunidades que – em virtude do hábito que usam – sempre me deixam confuso (nunca sei quem é quem): a Toca de Assis, a Comunidade Caminho e a Arca de Maria. Enfim, todo mundo estava lá… Inclusive o pessoal da “Igreja Nova” – que teve a audácia de levar um boneco gigante de D. Hélder e posiciona-lo na frente da Igreja da Madre de Deus. Fizeram isto com uma dupla intenção: a de sempre (afrontar D. José e tentar colocá-lo em contraposição a D. Hélder) e a mais recente (exprimir o seu desejo de que D. Fernando se torne um novo D. Hélder). Pense num povinho petulante!

            Ao chegar, cada padre se paramentava e – se ia ajudar a distribuir a Sagrada Comunhão durante a missa – recebia um folheto com recomendações e orientações sobre como proceder durante a distribuição da comunhão aos fiéis. À equipe de liturgia, diga-se de passagem, nota dez em organização.

            Pude identificar – não sem a ajuda de alguns padres amigos – algumas figuras ilustres e curiosas que eu só conhecia de nome e por foto, entre as quais destaco duas: D. Clemente Isnard (o homem responsável pela implementação da reforma litúrgica no Brasil) e D. Dimas Lara Barbosa (secretário geral da CNBB).  Daria um doce para ter “dois dedin de prosa” com eles… mas, infelizmente, não foi possível.

            Entre as autoridades civis estavam: o governador do Estado de Pernambuco, Eduardo Campos; o governador do Estado do Ceará, Cid Gomes; o senador Marco Maciel; o prefeito da cidade do Recife, João da Costa; o vereador Josenildo Sinésio, entre outros.

            As autoridades militares não foram citadas nominalmente, mas a julgar pelos uniformes, fizeram-se presentes representantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.

            A ordem de chegada das três figuras centrais da cerimônia foi a seguinte: primeiro D. José, depois D. Lorenzo, e por último – como era esperado – D. Fernando. Com Pe. Josenildo, OMI, fazendo os comentários da cerimônia (depois também na Missa ele foi o comentarista), entraram, os três, na Igreja ao som de “Vós sois meu Pastor, ó Senhor / Nada me faltará se me conduzis”, cantada pelo Coral Boa Vista – sob a regência do famoso Pe. Sílvio Milanez.

            Pe. Paulo Sérgio e Pe. Maurício Diniz atuaram como cerimoniários.

            Significativo, bonito e profundo foi o gesto de adoração feito quando chegaram ao presbitério D. Lorenzo, D. José e D. Fernando: ali, de joelhos, se colocam inteiramente nas mãos de Deus; ali, diante de Quem os chamou, tomam consciência da grandeza e da responsabilidade que assumiram perante a Igreja e perante o povo de Deus; ali, diante do Sacrário, adoram Aquele que é a razão de suas vidas e, portanto, a motivação da caminhada. Três bispos, três preces, três homens.

            Começaram então os pronunciamentos. Os principais podem ser ouvidos num link no final deste post. Apenas, gostaria de destacar que:

 

            Pe. Moisés Ferreira de Lima, como secretário do Colégio de Consultores da AOR, foi encarregado de apresentar ao Colégio de Consultores a bula papal com a nomeação de D. Fernando Saburido como Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife. Após a apresentação da bula Pe. Moisés leu o texto deste mesmo documento para todos os presentes. Detalhe: a bula foi lida primeiro em latim, depois em português.

            Mons. Edvaldo Bezerra da Silva, foi incumbido da tarefa de – em nome do clero local – dizer algumas palavras de acolhida ao novo arcebispo.  Com o estilo dos “jesuítas de outrora”, Mons. Edvaldo abrilhantou a cerimônia esbanjando latim, dizendo o essencial com graça e verdade, e concluindo de forma brilhante o seu discurso com as seguintes palavras: “Ao senhor, D. Fernando, quero dizer apenas três palavras: parabéns, preces e palmas”. A esta discreta admoestação a assembléia não resistiu e, de fato, aplaudiu – tanto o novo arcebispo, quanto o velho monsenhor.

           

            Após os pronunciamentos iniciais, outro gesto significativo e tradicional marcou o desenrolar da cerimônia: a entrega do Báculo (que outrora pertenceu ao Servo de Deus D. Vital) a D. Fernando Saburido. D. Lorenzo e D. José fizeram-lhe o repasse do Santo Cajado. O novo arcebispo beijo com grande devoção o Báculo – símbolo do múnus episcopal – e o empunhou pela primeira vez como Metropolita de Olinda e Recife. Em seguida, foi conduzido pelo Núncio Apostólico até a cátedra donde há de governar os mais de 1 milhão de católicos espalhados nas 100 paróquias desta Arquidiocese. Se o Báculo é pesado, mais pesada é a responsabilidade a ele vinculada…

            Enfim, por ora é só o que tenho a comentar. Estou física e mentalmente cansado.

            Jorge deve escrever, no Deus lo vult! com mais maestria, detalhes e poesia que eu algo sobre estes mesmo acontecimentos. Acompanhem!

 

            A título de curiosidade: tentei entrevistar ainda o Pe. Reinaldo, ex-pároco da Matriz da Soledade. Ele, porém, se recusou. Eu já havia notado que ele estava meio arredio. Seria medo de falar bobagem (como ele, muitas vezes, fez)? Talvez. É compreensível. Depois de, durante uma missa, ter desrespeitado profundamente D. José, Pe. Reinaldo sumiu da arquidiocese com a promessa de que voltaria tão logo D. José “passasse”… A cerimônia de posse do novo Arcebispo foi, portanto, a ocasião oportuna escolhida pelo Revmo. Pe. Reinaldo para retornar e, assim, cumprir a sua promessa.  Voltou com uma mansidão e prudência nunca antes vistas fazendo-se passar por clérigo obediente. Ele deve ter esperanças – como tantos outros que foram afastados por D. José – de que D. Fernando os acolha de volta. Espero em Deus que isso não aconteça sem, pelo menos, uma cerimônia de retratação pública. Na verdade, eu sou mais ousado: espero que Nosso Senhor cumpra sua promessa de esmagar os inimigos da Igreja, espero que São Miguel Arcanjo e todo o exército celeste… Bom, deixa pra lá. 

            Ao final da cerimônia, o chanceler da Arquidiocese, Pe. Cícero Ferreira de Paula, leu a Ata da Posse – com o resumo dos acontecimentos.

 

            Aqui neste link podem ser encontrados os principais pronunciamentos da cerimônia de posse: a alocução inicial de D. José, a leitura da bula papal com a nomeação de D. Fernando e as palavras de D. Lorenzo Baldiseri, Núncio Apostólico no Brasil.

             Clique aqui para fazer o download da 1ª homilia (apenas o áudio) de D. Antônio Fernando Saburido, OSB, como Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife.

             Na página principal da Arquidiocese, seção de notícias, pode-se também encontrar a narrativa – ainda com cara de esboço – dos principais momentos da cerimônia de posse.

             Creio que foi alguém da diocese de Sobral, CE, que há pouco mais de uma semana, postou no Youtube este vídeo – feito em homenagem a D. Fernando Saburido. É um vídeo simples, curto e bem interessante – porque mescla momentos da atuação de D. Fernando como bispo de Sobral, com antigas fotos de Sua Excelência.

             Aqui neste link do Youtube é possível assistir a uma matéria – produzida pela TV Caiçara, de Sobral – sobre a nomeação de D. Fernando Saburido para esta nossa Arquidiocese de Olinda e Recife.

        

            Creio que ainda hoje, ou talvez amanhã, eu poste a três entrevistas que, com a graça de Deus consegui fazer: com Pe. Maurício Roberto Diniz Sousa (pároco de Moreno e cerimoniário da posse de D. Fernando), Mons. Romeu da Fonte (ex-vigário geral de D. José), e D. Antônio Muniz, O. Carm. (arcebispo de Maceió). Fotos também virão a posteriori. Me aguardem 😉