I – D. Claúdio Hummes e o celibato

 

Sua Eminência, o cardeal brasileiro Claúdio Hummes, disse – durante um congresso teológico cujo tema era o mesmo do ano sacerdotal [“Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”] – que “o celibato sacerdotal é um dom do Espírito Santo que pede ser compreendido e vivido com plenitude de sentido e alegria, na relação totalizante com o Senhor”. Segundo matéria veiculada na ACI o “Cardeal indicou que ‘esta relação única e privilegiada com Deus faz do sacerdote a testemunha autêntico de uma singular paternidade espiritual e o faz autenticamente fecundo’”.  Um bom pronunciamento, D. Cláudio!

 

II – Espanha, Escola e preservativos

 

Uma contundente intervenção foi feita pelo presidente do grupo espanhol Profissionais pela Ética, Ramón Novella, no sentido de denunciar uma campanha do governo da Catalunha, que pretende distribuir preservativos nas escolas a alunos de quaisquer idades. Novella disse, entre outras coisas:

– Que a campanha era “um novo meio para doutrinar os jovens e, no caso dos menores, quer suplantar o papel educativo fundamental da família, na mesma linha de outras iniciativas, como são a implantação da Educação para a Cidadania ou as medidas educativas previstas na nova Lei do aborto”

– Que todas as campanhas, programas e planos de “educação” sexual do Governo catalão só serviram para “promover a promiscuidade e a irresponsabilidade entre os adolescentes e jovens”, provocando um aumento das gravidezes, abortos e enfermidades de transmissão sexual, tal como reconhece o próprio Governo Local.

Um ótimo pronunciamento, Ramón!

 

 III – Mons. Scicluna e o tratamento dos casos de pederastia e pedofilia

 

A ACI já havia publicado, e também estava no twitter do papa, estes comentários, bastante interessantes, feitos por Mons.Charles J. Scicluna, promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, fiscal do Tribunal da Santa Sé, a respeito da terrível questão dos sacerdotes acusados de pederastia, escândalos que saltam periodicamente às páginas dos meios de comunicação. Destaco:

 

Sobre as acusações dirigidas ao Sumo Pontífice imputando-lhe a responsabilidade por uma suposta política de acobertamento dos casos de pederastia:

 

Mons. Scicluna: É uma acusação falsa e uma calúnia. A propósito, permito-me assinalar alguns dados. Entre 1975 e 1985, não aparece que se tenha submetido à atenção de nossa congregação algum aviso de casos de pederastia por parte de clérigos. De todas as formas, após a publicação do Código de Direito Canônico de 1983 houve um período de incerteza acerca do elenco de delicta graviora reservados à competência deste dicastério. Só com o motu proprio de 2001, o delito de pederastia voltou a ser de nossa exclusiva competência. Desde aquele momento, o cardeal Ratzinger demonstrou sabedoria e firmeza na hora de tratar esses casos. Mais ainda. Deu prova de grande valor, enfrentando alguns casos muito difíceis e espinhosos, sine acceptione personarum. Portanto, acusar o pontífice de ocultação é, repito, falso e calunioso.

 

Sobre a condução de um processo civil contra sacerdotes que cometeram crime de pedofilia:

 

Mons. Scicluna: Em alguns países de cultura jurídica anglo-saxã, mas também na França, os bispos que sabem, fora do segredo sacramental da confissão, que seus sacerdotes cometeram delitos estão obrigados a denunciá-los às autoridades judiciais. Trata-se de um dever pesado, porque estes bispos estão obrigados a realizar um gesto como o de um pai que denuncia seu filho. Apesar de tudo, nossa indicação nestes casos é respeitar a lei.

            Aconteceu, em Indaiatuba (SP), a 47ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Desse encontro, como sempre, resultaram alguns frutos. Uns muito positivos, outros nem tanto…

            O Estadão publicou esta matéria a respeito das restrições aos casais em segunda união. Esse, a meu ver, foi um fruto muito positivo do encontro. O episcopado brasileiro manteve a postura católica que, embora permita a participação de tais casais na vida da comunidade paroquial, não lhes dá acesso aos sacramentos – sobretudo, o da Eucaristia. Tendo em vista, que os casais em segunda união estão em pecado mortal e vivem uma situação canonicamente irregular.

            Um trecho da matéria, porém, me parece bastante infeliz. Ei-lo:

            “Um manifesto em favor da família aprovado pela assembléia refere-se de leve aos casais em segunda união, ao pedir que a Pastoral Familiar, Movimentos, Serviços e Institutos da Igreja acolham as famílias que se encontram em situações especiais. O acolhimento consiste em engajar recasados em celebrações litúrgicas, embora sem acesso aos sacramentos”.

            Não sei quem cunhou os termos “famílias que se encontram em situações especiais”, “recasados”, e outros termos congêneres. Talvez tenha sido os jornalistas.  Talvez tenha sido os bispos. Seja como for, tais expressões me parecem suavizações [desnecessárias] da realidade. É aquela velha história do “politicamente correto”. Há um temor, por parte de alguns bispos, de dizer as coisas claramente. Por parte da imprensa, há a necessidade de vender a notícia… É missão da Igreja, porém, apontar o erro, com caridade, mas com verdade. “A verdade dói”. Paciência. Se Cristo quisesse se furtar à dor, não teria morrido da forma que morreu.

           

 

            Ainda sobre os resultados da Assembléia Geral da CNBB, a Agência Estado publicou que os padres devem respeitar a lei disciplinar do celibato (a Agência Folha noticiou o mesmo aqui). A notícia, a princípio me pareceu muito boa (e, em essência, é). Mas a maneira como ela foi publicada é lamentável. Segundo a reportagem, o documento Diretrizes para a Formação de Presbíteros traz aquela linguagem vaga e dúbia que parece ser a marca registrada das publicações da CNBB. O documento fala de “possíveis distúrbios incompatíveis com o sacerdócio”. Mas não especifica que distúrbios são esses… Será o homossexualismo um distúrbio? Ou será normal? As pessoas precisam saber as coisas com clareza!

            Eis um trecho do documento final elaborado (que, graças a Deus, terá que passar pela aprovação da Santa Sé): “Os vocacionados, de modo geral, encontram-se na fase de construção de sua personalidade, que abarca a sexualidade. Eles podem apresentar uma identidade sexual desintegrada que fragmenta a sua personalidade e a sua vida psíquica como sujeito humano, seja ele hetero ou homossexual, religioso ou não”, diz trecho do documento retirado da última versão.

            Para mim esse trecho não quer dizer absolutamente nada. Pelo contrário, ele quer dizer muita coisa errada! Falar de “construção da personalidade” é aceitável. Mas falar que isso “abarca a sexualidade” dá a entender que a sexualidade é construída, e não determinada pela natureza. Essa história de ‘a opção sexual é definida a partir das circunstâncias, das experiências vividas, da maturidade da pessoa, etc’, não é doutrina católica. A afirmação católica é que homem é quem nasce homem, e mulher quem nasce mulher. Ponto. A sexualidade é determinada pela natureza, e não escolhida conforme o entendimento de cada um. Portanto, não creio que seja saudável usar expressões como “identidade sexual” e outras semelhantes. Igualmente, essa ênfase no fato de que o celibato é uma lei disciplinar e não uma lei divina, não me parece muito salutar. Para o público em geral, a idéia que fica é que a regra não instituída por Deus não é precisa ser obedecida (pois trata-se de uma invenção da Igreja). E, já que é passível de revisão, deve-se insistir até que seja mudada. Não podemos nos esquecer de que o que a Igreja ligar na terra, será ligado no céu (Mt 18,18). Tudo aquilo que for estatuído pela legítima autoridade da Igreja, tem a mesma validade da lei divina. “Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10,16).

            Em geral, porém, ter reafirmado a disciplina a respeito do trato com os casais em segunda união, e ter recordado que o celibato é parte integrante da vocação ao sacerdócio, foram coisas muito positivas. Oremos pelos nossos bispos! (mais…)

        

    No último dia 30, a Congregação para a educação católica divulgou um documento chamado “Orientações para o uso das competências psicológicas na admissão e formação dos candidatos ao sacerdócio”. O documento é excelente. Ele expõe – com muita clareza – qual deve ser a atitude dos reitores e formadores de seminaristas perante as dificuldades encontradas na educação destes. O documento já vinha sendo preparado desde 2002. Quando ocorreu a Assembléia Plenária da Congregação para a Educação Católica, o Santo Padre, o papa João Paulo II, havia dirigido as seguintes palavras aos membros do dicastério:

 

            “Estais a examinar algumas Orientações para o uso das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio. É um documento que se propõe como válido instrumento para os formadores, chamados a discernir a idoneidade e a vocação do candidato com vistas ao seu próprio bem e ao da Igreja (…) O clima de fé, unicamente no qual amadurece a resposta generosa à vocação recebida por Deus, permitirá uma correta compreensão do significado e da utilidade do recurso à psicologia, que não exclui todos os gêneros de dificuldades e de tensões, mas favorece uma tomada de consciência mais ampla e um exercício da liberdade mais desenvolto, a fim de empreender uma luta aberta e franca, com a ajuda insubstituível da graça. Por este motivo, será oportuno fazer uma boa preparação de peritos psicólogos que, ao ótimo nível científico, acrescentem uma compreensão profunda da concepção cristã acerca da vida e da vocação ao sacerdócio, de forma a ser capaz de fornecer o apoio eficaz à necessária integração entre a dimensão humana e a sobrenatural”.

 

            Segundo o padre Carlo Bresciani, psicólogo e consultor da Congregação, pode-se resumir o texto em 5 pontos fundamentais (veja matéria completa no site da ACI digital):

 

•           A proteção da intimidade pessoa e da boa fama do candidato.

•           A necessidade de que, se se constatar alguma realidade que requer de terapia durante a fase de discernimento inicial do candidato, esta se deve realizar antes da admissão ao Seminário ou à Casa de formação.

•           Os superiores do foro externo só podem acessar aos resultados da consulta psicológica depois do livre consentimento escrito do candidato, com o único objetivo de um melhor discernimento e formação. Acrescenta-se uma proibição “precisa e vinculante” de fazer qualquer outro uso.

•           É possível que também o Padre espiritual peça ao candidato uma consulta psicológica, sem jamais impô-la, com o fim de proceder com maior segurança no discernimento e acompanhamento espiritual.

•           A condição para readmitir ao Seminário ao candidato submetido a uma terapia é que ele mesmo informe aos novos formadores sobre a consulta psicológica efetuada, quem deverá verificar com precisão sua condição psíquica obtendo a devida informação com o consentimento escrito do candidato.

 

            Mas, para se contrapor a essa atitude positiva da Igreja, e para validar sua inimizade com a Esposa de Cristo, os gayzistas da mídia internacional também se manifestaram. De modo especial, quero citar a reportagem repugnante publicada pelo jornal espanhol El País. O título, de per si, já é equivocado (ou maliciosamente elaborado?!):

 

“El Vaticano niega a los gays el sacerdocio aunque sean castos”

 

(Tradução: O Vaticano nega aos gays o sacerdócio ainda que sejam castos)

 

            Há um erro de foco gravíssimo. O documento não é voltado para o tratamento que a Igreja dispensa aos gays que querem ser padres, mas sim para a contribuição que a psicologia pode oferecer na formação global dos candidatos ao sacerdócio. Outra confusão: aos gays, de fato, a Igreja – obviamente – nega o sacerdócio. Mas, àqueles que – embora tenham tendências homossexuais – conseguem viver a castidade, nunca foi negado o ministério sacerdotal. Ordena-se, entretanto, que – antes de serem admitidos ao seminário – passem por um rigoroso processo de avaliação psicológica para que possam tomar uma decisão madura que proporcione o seu próprio bem, e o da Igreja.

 

            Outra falácia da matéria da El País:

 

“Leyéndolo detenidamente, se diría que la Iglesia busca superhéroes, más que hombres”.

 

(Tradução: Lendo-o [o documento] atentamente, pode-se dizer que a Igreja busca super-heróis, mais que homens).

 

            Muito pelo contrário. Assim como Deus não nos exige coisas superiores à nossa capacidade, a Igreja também não deseja que realizemos coisas que estão para além de suas forças. A tentativa de fazer com que o celibato sacerdotal seja considerado impossível é a técnica que muitas pessoas usam para justificar suas fraquezas. É também a técnica que a mídia tem utilizado para vilipendiar este dom maravilhoso de Deus e desestimular a vivência do mesmo. Querem as uvas, mas, como não alcançam, dizem que estão verdes…