Fui convidado a falar sobre a Santa Missa para um grupo de adultos [a maioria já casados] que está se preparando para receber o Sacramento do Crisma. A palestra que deveria ter durado quarenta e cinco minutos acabou durando uma hora e meia, de sorte que eu acabo de chegar em casa… A razão pela qual decidi escrever, não obstante o cansaço, é que eu pude recolher dessa experiência algumas impressões cujos desdobramentos, julgo eu, vale a pena compartilhar.
Aquelas pessoas [extremamente participativas e interessadas em melhor compreender a Fé da Igreja], sem nem saber, foram para mim como que uma amostra viva de como está o povo católico nesta nossa Terra de Santa Cruz: “perdido” no que tange à compreensão de sua religião, “ignorante” [no sentido de quem “desconhece”, “ignora”] quanto aos pontos mais elementares e fundamentais do catolicismo. Graças a Deus estes estavam fazendo o curso de Crisma, ou seja, estavam buscando “conhecer para amar” – para falar nos termos de Santo Agostinho. Mas, quantos estão aí pelo mundo sedentos de saber e sem ter quem lhes ensine? Infelizmente nem todo o eunuco tem um Felipe a lhe esclarecer… [At 8, 27-39]
Comecei pedindo aqueles crismando que resumissem em uma palavra a noção que eles tinha a respeito da Missa. “Defina a Missa com uma única palavra”, disse-lhes eu. Daí veio “comunhão”, “amor”, “perdão”, “refúgio”, etc. Exatamente como eu suspeitava, ninguém chegou nem perto da expressão “sacrifício”. Evidentemente eles não tinham a obrigação de “acertar”. Afinal, são alunos em um curso preparatório. E, aliás, as respostas que deram não eram exatamente “erradas” – já que o Mistério da Eucaristia, imenso e insondável como é, compreende todas as realidades que eles elencaram. O problema é que eles não acertaram o alvo, saíram pela tangente, não conseguiram marcar o xis da questão, não enxergaram o ponto nevrálgico a partir do qual se pode ter uma reta compreensão do que seja a essência da Santíssima Eucaristia: o sacrifício do Filho de Deus realizado de maneira incruenta. Sacrifício de adoração, de expiação, de ação de graças e de súplica, ao mesmo tempo.
Após esta primeira “dinâmica”, continuei – para pavimentar o caminho que eu lhes queria apresentar, isto é, o entendimento do Magistério da Igreja sobre a Missa – limitei um pouco mais a pergunta e as respostas possíveis: perguntei-lhes se a missa lhes parecia mais um “Banquete” ou um “Sacrifício”. Devo dizer que, infelizmente, não me surpreendi com o resultado da pequena enquete: 90% dos presentes afirmaram que a Sagrada Missa remetia mais à Ceia do que ao Calvário… É mister destacar que as respostas que essas pessoas, já adultas, me deram, provavelmente, baseiam-se em dois pilares [que, dada a sua fragilidade, eu já nem sei se chamo de “pilares”]:

i) Em aquilo que elas depreendem das celebrações a que assistem;
ii) Em aquilo que lhes foi ensinado a título de catequese desde a idade infantil.

Depois disso eu lhes falei da Missa nos termos em que aprendi da Igreja. Aprendi, aliás, com muita dificuldade e por causa de uma curiosidade teimosa que, como eu comentava com um amigo outro dia, é perigosa [porque nos põe em risco de acabar compreendendo algo da maneira errada], mas que se faz quase que imperativa frente à ausência de catequistas autenticamente católicos. Tive essa impressão de maneira muito clara quando mencionei a distinção entre “cruento” e “incruento”: pouquíssimas pessoas lembravam qual era a diferença conceitual entre estes dois termos. Em outras épocas, isso era ensinado com muita clareza e simplicidade pelos catequistas. Hoje em dia, dada a carência destes verdadeiros catequistas, essa terminologia está, digamos, um pouco “empoeirada” [embora permaneça válida, é claro].
Em seguida, indiquei-lhes alguns livros e documentos da Igreja [para sedimentar o que eu estava falando e dar-lhes a segurança de que eu não estava inventando coisa alguma] e continuei minha exposição. Falei um pouco da teologia sacramental [abordando as questões relativas à matéria, forma e intenção], falei de ritos [sem entrar nos nuances da Reforma Litúrgica e suas conseqüências], falei da estrutura da Santa Missa e da importância deste grande mistério. E foi aí que vieram as perguntas – que foram o motivo de eu ter me alongado, extrapolando o tempo que me havia sido concedido. Posso dizer que, para a minha surpresa, 100% dos questionamentos diziam respeito a abusos litúrgicos! “Que significa isso?”, pensava eu com os meus botões…
É simples: significa que o povo católico pode até não ser exímio conhecedor de sua Fé, mas, muitas vezes, consegue intuir quando o sacerdote faz algo que não devia durante a celebração. Essa foi uma grande descoberta para mim. Eu achava que só quem tinha algum conhecimento de normas litúrgicas é que se incomodava com certos comportamentos e práticas realizadas durante o Ofício Divino. Ledo engano. Também os que nada sabem, ou os que sabem muito pouco, em matéria de “modus celebrandi”, conseguem perceber quando algo está errado.
A casuística é sempre fabulosa: “o padre pode, por um motivo qualquer, não querer comungar o Vinho Sagrado e mandar que o ministro extraordinário da comunhão o faça em seu lugar?”, “uma vez fui a uma missa em que o padre convidou o povo a rezar toda a Oração Eucarística com ele. Pode isso?”, “e se o padre pedir a um leigo que faça a homilia?”. “E se”, “e se”, “e se”. Essa era a cantiga dos aprendizes. E que bom que era assim. Conjecturavam e abstraíam para poder, com mais amor e devoção, experimentar a doce realidade da Presença Real de Nosso Senhor nas Espécies Eucarísticas! Supunham e pressupunham, em um diálogo honesto e sincero, para alcançar a ortodoxia. Maravilha!
E, diante de tudo isso [e de muitos outros detalhes que, tentando imitar Nossa Senhora, “guardarei no coração”], fica só a triste constatação de que o mundo precisa urgentemente de mais “Felipes”, de mais pessoas que estejam dispostas a ensinar, a apresentar Cristo, a transmitir a Fé que receberam da Igreja. Sem caricaturas, sem invencionices, sem manchas nem vestígio de erro. Caso contrário, Satanás – usurpador como é – irá se arvorar cada vez mais em mestre dos homens a fim de levar-lhes à danação eterna…