Num mundo cercado de injustiças é comum que – com o passar do tempo – as pessoas se acostumem a iniqüidade e não mais se achem no dever de lutar por justiça. É comum, inclusive, que coisas que sempre foram tratados como injustas, passem a ser tratadas como justas. É comum, mas não correto.

              No Brasil, o comodismo e a apatia com relação à justiça se agravam devido ao bom e velho [mais velho do que bom] “jeitinho brasileiro”. O “jeitinho” é uma maneira sutil (não sei se inteligente) de burlar os trâmites legais e regimentais da sociedade.

               Nesse contexto, infelizmente, alguns sacerdotes e bispos tem contribuído para instituir a confusão na cabeça das pessoas no que tange à formação de uma consciência justa, ao entendimento do conceito de justiça e a vivência desta virtude tão excelsa e cara ao coração de Deus. Neste sentido, um dos problemas que enfrentamos é a visão reducionista – que domina hoje a mentalidade do nosso clero – que faz com que o conceito [macro] de justiça seja resumido à sua dimensão social. Justiça acaba se confundindo com justiça social. É por causa disso que há clérigos apoiando a ação injusta e insana do Movimento Sem-Terra. A balança deles é totalmente parcial: pende ao lado dos pobres, afinal, dizem eles, “fizemos ‘opção preferencial’ por eles”. Essa visão, entretanto, é completamente equivocada. Justiça é eqüidade. Ela consiste exatamente em os pratos da balança estarem equilibrados…

               Outra contribuição extremamente negativa é essa visão demasiado espiritualista acerca da pessoa de Deus. Há quem ache que Deus é amor – e só. Há quem ache que Deus é misericórdia – e só. Ora, Deus é amor e misericórdia, sim; mas também é justiça. Viver uma vida afundado, até o pescoço, no pecado e não buscar conversão com a desculpa de que “Deus é misericórdia e sabe que eu sou fraco” é – no mínimo – imprudente.

            Recordemos o que nos diz o Catecismo da Igreja Católica acerca da justiça:

            §1807 A justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.  A justiça para com Deus chama-se “virtude de religião”. Para com os homens, ela nos dispõe a respeitar os direitos de cada um e a estabelecer nas relações humanas a harmonia que promove a equidade em prol das pessoas e do bem comum. O homem justo, muitas vezes mencionado nas Escrituras, distingue-se pela correção habitual de seus pensamentos e pela retidão de sua conduta para com o próximo. “Não favoreças o pobre, nem prestigies o poderoso. Julga o próximo conforme a justiça” (Lv 19,15). “Senhores, dai aos vossos servos o justo e eqüitativo, sabendo que vós tendes um Senhor no céu” (Cl 4,1).

              Ressalte-se, ainda, que o Compêndio de Doutrina Social da Igreja elenca a justiça entre os valores fundamentais da vida social. Isto significa que – sem este fundamento – a sociedade desmorona. Vejamos mais atentamente o que diz o Compêndio sobre esse valor fundamental:

             A justiça é um valor, que acompanha o exercício da correspondente virtude moral cardeal. Segundo a sua formulação mais clássica, «ela consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido». Do ponto de vista subjetivo a justiça se traduz na atitude determinada pela vontade de reconhecer o outro como pessoa, ao passo que, do ponto de vista objetivo, essa constitui o critério determinante da moralidade no âmbito inter-subjetivo e social.

              O Magistério social evoca a respeito das formas clássicas da justiça: a comutativa, a distributiva, a legal. Um relevo cada vez maior no Magistério tem adquirido a justiça social, que representa um verdadeiro e próprio desenvolvimento da justiça geral, reguladora das relações sociais com base no critério da observância da lei. A justiça social, exigência conexa com a questão social, que hoje se manifesta em uma dimensão mundial, diz respeito aos aspectos sociais, políticos e econômicos e, sobretudo, à dimensão estrutural dos problemas e das respectivas soluções. [Compêndio da Doutrina Social da Igreja, § 201]

             É importante que nos recordemos dos ensinamentos da Igreja para não corrermos o risco de adotar desapercebidamente a visão – maluca e herética – de “justiça” que o mundo prega. Não podemos nos acomodar e deixar de fazer a nossa parte sendo justos e colaborando como podemos com construção de um mundo mais justo [que é composto por *pessoas e instituições justas]. Sobre o dever de justiça, que é comum a todos, diz o Catecismo:

              §1916 A participação de todos na realização do bem comum implica, como todo dever ético, uma conversão sempre renovada dos parceiros sociais. A fraude e outros subterfúgios pelos quais alguns escapam às malhas da lei e às prescrições do dever social devem ser firmemente condenados, por serem incompatíveis com as exigências da justiça. É necessário ocupar-se do florescimento das instituições que possam melhorar as condições da vida humana.

             Ser justo, porém, tem um custo. E alto. “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” [Mt 5] É fácil e cômodo para a sociedade civil exigir que os magistrados e demais colaboradores do poder judiciário ajam com retidão e trabalhem cada vez mais pela justiça. Mas sem cada um fazer a sua parte fica um pouco difícil. Têmis é um ídolo e, como todo o ídolo, não tem força… Se não colaborarmos, ela nada fará.

            [Continuando a série Virtudes, apresento-lhes o segundo ensaio sobre a Caridade. Desta vez, busquei apresentar uma pouco mais da Doutrina concernente à Virtude das Virtudes].

 

            É bem verdade que muitos – entre os quais se contam muitos poetas e santos – tentaram descrever o que é o amor. Falharam todos. Muitos até acertaram alguns pontos; mas nenhum conseguiu – em completude – revelar a essência da Caridade. Portanto, conceitos e definições sobre este tema são imprecisos. O Catecismo da Igreja Católica, porém, resume esse “tudo que poderia ser dito” com as seguintes palavras:

            §1822 A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.

            Desta colocação, e também a partir daquilo que São Paulo descreveu na sua Carta aos Coríntios (Cap. 13 – cujo texto já foi apresentado no fim artigo anterior), fica claríssimo que a Caridade é a principal, maior e mais excelente entre as virtudes. A cada proposição, o Apóstolo reafirma: “se não tivesse a caridade, nada seria”. Ou seja: nenhum dos esforços que o homem empreenda – *ainda que para nobres fins* – tem valor diante de Deus, se este homem não estiver motivado [imbuído] pela Caridade. Atitudes belas, mas sem Caridade, valem tanto quanto uma nota de 3 reais… A Caridade é, portanto, o princípio fundamental da nossa existência: Deus nos criou por amor e para o amor. Sem a vivência deste amor [caritas], perdemos a nossa razão de ser e deixamos de cumprir o 1º [e maior] Mandamento: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito” (Dt 6,5).

             Aliás, falando em descumprir mandamentos, cabe consignar uma coisa: quando abordei, nos comentários acerca da Esperança, – os pecados contra esta virtude, falei do desespero e da presunção. Agora, porém, ao falar da Caridade, causa-me certo choque o perceber que – em última análise – todo e qualquer pecado que cometemos atenta contra a Caridade:

 §1855 O pecado mortal **destrói** a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus; desvia o homem de Deus, que é seu fim último e sua bem-aventurança, preferindo um bem inferior. O pecado venial deixa subsistir a caridade, embora a **ofenda e fira** (grifos nossos).

De fato, São Francisco de Assis estava certo quando dizia: “O amor não é amado”… Lamentável!

            A Caridade é o distintivo do cristão: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). É imperativo que o cristão aja com Caridade: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Se, pois, o cristão decide agir contra a Caridade [e ele pode fazê-lo em virtude do livre-arbítrio que Deus lhe concedeu] ele está renunciando à sua própria essência.

            E continua de forma brilhante o Santo Catecismo:

            §1827 O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade, que é o “vinculo da perfeição” (Cl 3,14); é a forma das virtudes, articulando-as e ordenando-as entre si; é fonte e termo de sua prática cristã. A caridade assegura purifica nossa capacidade humana de amar, elevando-a à feição sobrenatural do amor divino.

[…]

            §1829 A caridade tem como frutos a alegria, a paz e a misericórdia exige a beneficência e a correção fraterna; é benevolência; suscita a reciprocidade; é desinteressada e liberal; é amizade e comunhão.

           Um parágrafo que, creio eu, merece especial atenção é o seguinte:

           §1853 […] No coração reside (…) a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado fere.

            O coração – como sede da inteligência e da vontade – é o locus próprio da Caridade. Destarte, o homem que ama, assim o faz porque entende que é melhor agir com Caridade. Concomitantemente, àquilo que depreendeu por sua inteligência, este homem une uma decisão livre e consciente.

           Parafraseando São João Evangelista, “muita coisa ainda poderia ser dita”; contudo, parece-me de bom grado concluir com duas citações que – a meu ver – são de uma lucidez e um esplendor magníficos. A primeira trata-se de um trecho de “História de uma Alma” (a autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus). Neste excerto, pode-se dizer, encontra-se a grande descoberta de Santa Terezinha: como ela percebeu que é a Caridade que “move” todas as coisas:

            “A caridade a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ARDENTE DE AMOR. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o Amor se extinguisse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os Mártires se recusariam a derramar seu sangue… Compreendi que O AMOR ABRANGE TODAS AS VOCAÇÕES, ALCANÇANDO TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES… NUMA PALAVRA, É ETERNO!” (Histoire d’une Ame, pg. 213. Ed. Paulus)

            A segunda citação é extraída da Imitação de Cristo, na qual se diz:

            “A obra exterior, sem caridade, de nada vale, mas tudo o que se faz com caridade, por pouco e desprezível que seja, produz abundantes frutos, porque Deus olha mais para a intenção do que para a ação. Muito faz quem muito ama. Faz muito quem faz bem aquilo que faz. Bem faz quem serve mais ao bem comum que à sua vontade própria. Muitas vezes parece caridade o que é amor próprio; porque a propensão de nossa natureza, a própria vontade, a esperança de recompensa, o gosto da comodidade, raras vezes no deixam. Quem tem verdadeira e perfeita caridade em nenhuma coisa se busca a si mesmo, mas deseja que em todas Deus seja glorificado. A ninguém tem, inveja, porque não ama particularmente nenhuma prazer, mas deseja sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus. A ninguém atribui bem algum, mas refere tudo a Deus, do qual, como de fonte perene, manam todas as coisas, no qual, como em fim último, descansam em sumo gozo todos os santos. Oh! Quem tiver uma centelha de verdadeira caridade! Por certo avaliaria por vaidade todas as coisas da terra! (Imitação de Cristo, Livro I, Capítulo XV. Pg. 66-67. Editora Ave Maria).

            Hoje quero abordar a Esperança – como continuação da série Virtudes.

            Assim como a , a Esperança é classificada pela Doutrina como uma virtude teologal. Portanto, ela tem origem sobrenatural, é infundida por Deus na alma e não pertence ao rol das virtudes humanas (ou morais).

            Encontrei neste site uma belíssima exposição sobre a “razão de ser” da virtude da Esperança. Um dos trechos mais instrutivos do texto é este:

 

            “Sabemos que a Fé nos traz um conhecimento certo de Deus. Mas este conhecimento é obscuro, ou seja, conhecemos a Deus mas não podemos ainda vê-Lo. Sabemos também que a virtude da Caridade nos traz o verdadeiro amor de Deus, que esse amor já é um começo da vida eterna, e que no céu, esse amor será eterno e nos encherá de uma alegria e felicidade extrema. Mas sabemos também o quanto é difícil manter nossas almas longe do pecado, como nós abandonamos a Deus com facilidade, perdendo o seu amor. Por isso, poderia surgir em nós uma dúvida sobre nossas possibilidades de alcançar o céu e a vida eterna. Se essa dúvida fosse muito forte, nós desanimaríamos no combate contra nossas imperfeições e contra nossos pecados.

            É justamente por isso que Deus nos dá a virtude da Esperança. Com ela sabemos que Deus nunca deixará de nos ajudar com suas graças e por isso estaremos sempre prontos para lutar contra as tentações e contra nossos pecados. Estaremos sempre prontos a pedir perdão no confessionário, pois temos certeza que Deus nos perdoará e nos trará novas forças para não mais pecar. Com isso fica claro que nossa vida de virtudes nos ajuda a conquistar o céu, pois quando praticamos o bem e fugimos do mal, recebemos a recompensa de Deus”.

 

            Do Dicionário Bíblico constante na Bíblia Clerus, extraímos que:

 

            “No AT Deus é a essência, meta final e garantia da esperança (Sl 130,5-7) do indivíduo (71,5) e do povo em geral (Jr 14,8 Jr 17,13). Espera-se no poder do braço do Senhor (Is 51,5), do qual vem a salvação (Gn 49,18). Espera-se a vinda da glória do Senhor (At 1,11 1Ts 4,13-5,11), a conversão de Israel e das nações, a nova aliança baseada no perdão dos pecados (Eclo 2,11; Mt 18,11; Hb 2,17; Hb 4,16 2Pd 3,9).

             Apesar de sua história cheia de contradições e infidelidades, Israel conservou a esperança na graça divina (Os 12,7; Jr 29,11; Jr 31,17; Is 40,31). Foram os profetas que ergueram a bandeira da esperança nos momentos críticos da história, apontando a renovação dos tempos messiânicos (Os 2; Is 40-66; Ez 36-37).

             No NT a salvação prometida torna-se de certo modo já presente pela fé: a justificação, a filiação divina, o dom do Espírito e o novo Israel, composto de judeus e pagãos convertidos a Cristo. Por isso muda também o conteúdo e a motivação da esperança. A esperança do cristão é uma “viva esperança” (1Pd 1,3), que liberta do temor da morte (Ef 2,12 1Ts 4,13), pois ela está unida ao amor (1Co 13,13) e à fé em Cristo. O cristão espera a salvação (1Ts 5,8), a justiça (Gl 5,5), a ressurreição (1Co 15), a vida eterna (Tt 1,2; Tt 3,7), a visão de Deus e sua glória (Rm 5,2). Sua esperança é alegre e corajosa (Rm 12,12 1Ts 5,8), pois está firmemente ancorada em Cristo” (Hb 6,18s).

 

            O Novo Catecismo da Igreja Católica define Esperança em dois momentos, a saber:

 

            §1817 A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. “Continuemos a afirmar nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa” (Hb 10,23). “Este Espírito que ele ricamente derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que fôssemos justificados por sua graça e nos tornássemos herdeiros da esperança da vida eterna” (Tt 3,6-7).

            §2090 Quando Deus se revela e chama o homem, este não pode responder plenamente ao amor divino por suas próprias forças. Deve esperar que Deus lhe dê a capacidade de corresponder a este amor e de agir de acordo com os mandamentos da caridade. A esperança é o aguardar confiante da bênção divina e da visão beatifica de Deus; é também o temor de ofender c amor de Deus e de provocar o castigo.

 

            E, citando Santa Teresinha, continua o CIC (§1821):

             […]

            “Espera, ó minha alma, espera. Ignoras o dia e a hora. Vigia cuidadosamente, tudo passa com rapidez, ainda que tua impaciência torne duvidoso o que é certo, e longo um tempo bem curto. Considera que, quanto mais pelejares, mais provarás o amor que tens a teu Deus e mais te alegrarás um dia com teu Bem-Amado numa felicidade e num êxtase que não poderão jamais terminar”.

 

            Uma diferença essencial entre a compreensão católica e a protestante acerca da Esperança é a questão da salvação. Os protestantes acham que basta erguer o braço e confessar Cristo como senhor e, com isto, granjearão o Reino dos Céus para si. Acaso não ouviram Nosso Senhor dizer: “nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ será salvo”? (Mt 1,7) No fundo o problema é que os protestantes não compreendem que a graça de Deus é, sim, conferida aos homens. Mas, para que se esta graça se torne eficaz, é preciso que haja correspondência a ela. Cristo, ao morrer na cruz, deu aos homens a possibilidade de salvar-se: ofereceu a todos a Misericórdia Divina (objetivamente falando). Contudo, os méritos de Sua paixão e Morte só serão aplicados àqueles que corresponderem à graça da Redenção por meio de uma vida virtuosa. É aí que a salvação objetiva se torna subjetiva: quando o sujeito a assume (na prática). Em outras palavras: só alcançará o Paraíso quem colaborar com o desejo salvífico de Deus Pai obedecendo aos mandamentos e buscando estar sempre em estado de graça. Como nós, católicos, não sabemos se estamos fazendo isto a contento, esperamos que a Misericórdia de Deus considere os nossos esforços. Os protestantes, pelo contrário, não esperam nada: porque, afinal, eles têm certeza de que estão no caminho certo; julgam ter alcançado a perfeição ao “aceitar Jesus”. Se houvesse um selo ISO para aqueles que atingiram a excelência em santidade, eles – os protestantes – andariam com uma plaquetinha nas costas na qual estaria escrito: “já ganhei!”. Argh! É muita pretensão. A virtude da esperança, tal como ensina a Igreja, não é de maneira nenhuma presunçosa.

            Uma outra diferença – bastante curiosa – entre a Doutrina da Igreja e a tese protestante está refletida na maneira como católicos e protestantes buscam a prosperidade. O católico reza a Deus – fonte de todos os dons – que lhe conceda seus favores e, se lhe aprouver, dê-lhe prosperidade. O católico espera que Deus atenda as suas preces, mas compreende, aceita e considera a possibilidade de que aquele pedido não esteja em conformidade com a vontade soberana de Deus. O protestante, porém, está seguro de que Deus lhe garantirá a prosperidade (que para ele é abundância de bens e riquezas). É como se Deus fosse escravo de seus desejos. Os protestantes acham que, se cumprirem suas obrigações para com Deus, Deus terá que cumprir [aquilo que eles julgam ser] Suas obrigações para com os Seus fiéis dizimistas. Isso está errado. Isto é querer barganhar com Deus. É querer brincar de “toma lá, dá cá” com o Criador de todas as coisas.

            A Esperança, para a Igreja, transcende este mundo. Em virtude disto, podemos afirmar que não queremos apenas uma nova terra: desejamos e “esperamos novos céus e nova terra” (2 Pd 3,13). Esperamos não só contar com os favores e graças do alto aqui neste mundo, mas também (e principalmente!) alcançar o Céu, nossa cara Pátria. O fim último da Esperança cristã é a salvação eterna, é desfrutar da Visão Beatífica e da Presença Santíssima de Deus. Assim sendo, no céu, os bem-aventurados não carecem mais desta virtude: eles já não esperam porque (enfim!) alcançaram. “O Esperado” agora se encontra diante deles!

 

            Em consonância com o que comentei nos dois parágrafos acima aquele site que mencionei no início deste artigo, comenta:

 

            “Existem dois tipos de pecados contra a virtude da Esperança: a presunção e o desespero.

            A presunção consiste em acharmos que podemos possuir a Deus, tanto pela graça (na vida terrena) quanto na vida eterna, sem a ajuda de Deus. Isso acontece muito em pessoas que levam uma vida longe de Deus, sem corrigir seus pecados, sem confissão e comunhão, e que acham que, apesar disso, Deus lhes dará a salvação.

            O desespero consiste em achar que nunca poderemos alcançar a vida eterna, ou que Deus nunca nos perdoará dos nossos pecados. Isso acontece com freqüência em pessoas que passam por muitos sofrimentos e não têm confiança no socorro de Deus. Quando sofremos muito, devemos nos voltar para Deus na oração, com firme certeza da ajuda de Deus que, infinitamente misericordioso, nos ajudará a nos levantar da queda do pecado”.

 

           Uma grande inimiga da Esperança é a impaciência. A tendência ao imediatismo – tão presente no mundo moderno – arrefece a nossa Esperança. Aqui no Nordeste é muito comum ouvir as pessoas repetirem um antigo ditado segundo o qual “quem não tem paciência, não se salva”. A mim parece muito sensata tal colocação. O cristão deve saber esperar o tempo de Deus. E, já que estamos na seara dos ditos populares, lembrei-me de um que o meu pai sempre repete: “as coisas só acontecem de acordo com o rígido e sábio calendário do Todo-Poderoso”. Nesse caso, a voz do povo é a voz de Deus porque a Escritura diz: “Existe um tempo para cada coisa, para tudo há um momento debaixo do céu”. [Ecl 1,3] 😉

            Rezemos um ato de Esperança:

            Meu Deus, espero com firme confiança, que me concederás, pelo mérito de Jesus Cristo, tua graça neste mundo e a felicidade eterna no outro, porque assim o prometeste e sempre és fiel a tuas promessas.

 

            “Spera in Deo, quoniam adhuc confitébor illi: salutáre vultus mei, et Deus meus” (“Espera em Deus, que uma vez mais o quero enaltecer, a Ele, salvação minha e meu Deus”) – Extraído das rubricas para celebração da Missa segundo a sua forma extraordinária.