Em 2003, o escritor italiano Vittorio Messori fez umas considerações interessantes acerca da data do nascimento de Jesus. À época, saiu um artigo de sua autoria no jornal Corriere della Sera tratando do tema. Agora, passados mais de 6 anos da concepção do texto, o artigo volta a circular nas listas de e-mail, nos blogs e sites católicos. O Veritatis, por exemplo, publicou-o  no início deste mês de dezembro. Assim, decidi também eu reproduzir o escrito de Messori. Ei-lo:

 

JESUS NASCEU MESMO NUM DIA 25 DE DEZEMBRO…

 

Por Vittorio Messori

Devo corrigir um erro que cometi. Aconteceu que num momento de mau humor, desejei – precisamente num meu artigo – que a Igreja se decidisse a fazer uma alteração no calendário: que transferisse para o dia 15 de Agosto aquilo que celebra no dia 25 de Dezembro. Um Natal no deserto estivo – argumentava eu – libertar-nos-ia das insuportáveis iluminações, dos enjoativos trenós com renas e Pais Natais, e até da obrigação de mandar cartões de Boas Festas e prendas. De facto, quando todos estão fora, quando as cidades estão vazias, a quem – e para onde – mandar cartões de Boas Festas e embrulhos enfeitados de fitas e laçarotes? Não são os próprios Bispos que trovejam contra aquela espécie de orgia consumista a que se reduziram as nossas Festas de Natal? Então, “fintemos” os comerciantes: passemos tudo para o dia 15 de Agosto. A coisa – observava eu – não parece ser impossível: de facto, não foi a necessidade histórica, mas sim a Igreja a escolher o dia 25 de Dezembro para contrastar e substituir as festas pagãs nos dias do solstício de Inverno: colocar o nascimento do Cristo em lugar do renascimento do Sol Invictus. No início houve, portanto, uma decisão pastoral, mas esta pode ser mudada, consoante as necessidades.

Era uma provocação, obviamente, mas que se baseava naquilo que é (ou, melhor, que era) pacificamente aceite por todos os estudiosos: a colocação litúrgica do Natal é uma escolha arbitrária, sem ligação com a data do nascimento de Jesus, a qual ninguém estaria em condições de poder determinar. Ora bem, parece que os especialistas se enganaram mesmo; e eu, obviamente, com eles. Na realidade, hoje – graças também aos documentos de Qumran* – estamos em condições de poder estabelecê-lo com precisão: Jesus nasceu mesmo num dia 25 de Dezembro. Uma descoberta extraordinária a sério e que não pode ser alvo de suspeitas de fins apologéticos cristãos, dado que a devemos a um docente judeu, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Procuremos compreender o mecanismo, que é complexo, mas fascinante. Se Jesus nasceu a 25 de Dezembro, a sua concepção virginal ocorreu, obviamente 9 meses antes. E, com efeito, os calendários cristãos colocam no dia 25 de Março a Anunciação do Anjo S. Gabriel a Maria. Mas sabemos pelo próprio Evangelho de S. Lucas que, precisamente seis meses antes, tinha sido concebido por Isabel, João, o precursor, que será chamado o Baptista. A Igreja Católica não tem uma festa litúrgica para esta concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente entre os dias 23 e 25 de Setembro; ou seja, seis meses antes da Anunciação a Maria. Uma lógica sucessão de datas, mas baseada em tradições não verificáveis, não em acontecimentos localizáveis no tempo. Assim acreditávamos todos nós, até há pouquíssimo tempo. Mas, na realidade, parece mesmo que não é assim.

De facto, é precisamente da concepção do Baptista que devemos partir. O Evangelho de S. Lucas abre-se com a história do velho casal, Zacarias e Isabel, já resignado à esterilidade – considerada uma das piores desgraças em Israel. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, em que estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher iriam ter um filho. Deviam dar-lhe o nome de João e ele seria grande «diante do Senhor».

Lucas teve o cuidado de precisar que Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias e que quando teve a aparição «desempenhava as funções sacerdotais no turno da sua classe». Com efeito, no antigo Israel, os que pertenciam à casta sacerdotal estavam divididos em 24 classes, as quais, alternando-se segundo uma ordem fixa e imutável, deviam prestar o serviço litúrgico no Templo, por uma semana, duas vezes por ano. Já se sabia que a classe de Zacarias – a classe de Abias – era a oitava no elenco oficial. Mas quando é que ocorriam os seus turnos de serviço? Ninguém o sabia. Ora bem, o enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na Biblioteca essena de Qumran. O estudioso conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma das vezes era na última semana de Setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que coloca entre os dias 23 e 25 de Setembro o anúncio a Zacarias. Mas esta verosimilhança aproximou-se da certeza porque os estudiosos, estimulados pela descoberta do Professor Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão que esta provinha directamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Esta memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.

Eis, portanto, como aquilo que parecia mítico assume, improvisamente, uma nova verosimilhança – Uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em Setembro o anúncio a Zacarias e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em Março, o anúncio a Maria; três meses depois, em Junho, o nascimento de João; seis meses depois, o nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de Dezembro; dia que não foi, portanto, fixado ao acaso.

Sim, parece que festejar o Natal no dia 15 de Agosto é coisa não se pode mesmo propor. Corrijo, portanto, o meu erro, mas, mais que humilhado, sinto-me emocionado: depois de tantos séculos de investigação encarniçada, os Evangelhos não deixam realmente de nos reservar surpresas. Parecem detalhes aparentemente inúteis (o que é que importava se Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias ou não? Nenhum exegeta prestava atenção a isto) mas que mostram, de improviso, a sua razão de ser, o seu carácter de sinais duma verdade escondida mas precisa. Não obstante tudo, a aventura cristã continua.

[tradução realizada por pensaBEM.net]

Nota:

* Os manuscritos de Qumran foram descobertos em 1947, perto das margens do Mar Morto, na localidade de Qumran, localidade onde a seita hebraica dos Essênios tinha nos tempos de Jesus a sua sede principal. Os manuscritos foram encontrados em ânforas, provavelmente escondidos pelos monges da seita, quando tiveram de fugir dos romanos provavelmente entre 66 e 70 d. C. Aqueles pergaminhos deram-nos os textos de quase todos os livros da Bíblia copiados de dois a um século antes de Jesus e perfeitamente coincidentes com os que são usados hoje pelos hebreus e pelos cristãos(cfr. Hipóteses sobre Jesus, Porto, Edições Salesianas, 1987, p. 101

 

 

            “Em uma época em que movimentos missionários cristãos das mais variadas estirpes lançam campanhas de conversão de judeus, é importante conhecer as diferenças entre nós e os cristãos para termos claras as linhas vermelhas que separam cada religião”. (trecho do artigo intitulado “Jesus, é detalhe!”, disponível aqui neste link. Grifos meus).

 

             Ao me deparar com este artigo, fiquei profundamente irritado. A começar pelo título desaforado que puseram. Tenho certeza que se eu escrevesse que o Shabat era um detalhe (e, de fato, o Shabat é uma coisa irrelevante, sem nenhuma importância) seria taxado de anti-semita. Mas, como não são os cristãos que estão escrevendo, então pode…

            Bom, deixando um pouco de lado algumas discussões importantes suscitadas por este artigo dos judeus (como, por exemplo, a discussão sobre a cruzada anticristã que tem se instaurado na nossa sociedade), quero chamar a atenção para aquilo que está por trás do texto, bem como aquilo que se encontra nas suas entrelinhas.

            Percebi, através do tal artigo, que os judeus sabem definir com clareza qual é a medida e quais são as regras do seu relacionamento com as demais religiões (notadamente o cristianismo). Não vou julgar o mérito dos argumentos deles (porque é óbvio que eles estão redondamente enganados quanto a sua interpretação das escrituras), mas devo reconhecer que o modo como eles transmitem as suas convicções e defendem a sua essência ante a multiplicidade religiosa vigente, é admirável. Eles fazem apologética! Nós, católicos, infelizmente – por conta do maldito espírito do “politicamente correto” -, há muito abandonamos esta forma de debate. Os judeus sabem se relacionar porque têm a exata noção da sua identidade (da qual se orgulham bastante) e procuram defender, com unhas e dentes, aquilo que são os pilares da sua fé. Em resumo: eles sabem determinar até que ponto as coisas são discutíveis. Sabem quais são aquelas “verdades inegociáveis” das quais não se deve abrir mão para não correr o risco de falsear a fé.

            É inadmissível que os judeus [que – como dizia o Padre Antônio Vieira“têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés] enxerguem a importância de delinear a própria identidade e nós, católicos, não o percebamos!

            Não é preciso consultar o Ibope para saber que a maioria dos católicos não sabe “fazer ecumenismo”. Acham que ecumenismo é viver uma paz de cemitério em que cada um permanece no seu canto e, assim, ninguém incomoda ninguém.  É a proposta, e a conseqüência, do relativismo em voga: cada um fica com a “sua” verdade. Cada um fica com o “seu” Deus – fabricado sob encomenda – e, assim, cada um trilha o caminho que o próprio nariz aponta. É uma pena. Morreu, em muitas pessoas, o anseio por conhecer a verdade. Os conceitos de “falso” e “verdadeiro” foram relegados, exclusivamente, às provas de concurso… O “sim, sim; não, não” (Mt 5, 37) foi substituído por um “depende”…

            Estou convencido de que a origem de tanta confusão em torno do relacionamento com as outras religiões cristãs, está no fato de que nós, católicos, não sabemos quem somos. Perdemos muito da nossa identidade, e já não nos enxergamos mais como “uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa” (1 Pd 2,9). É como se tivéssemos deixado de ser um povo, para ser “um grupo religioso que tem uma visão diferente”. Os judeus, porém, não admitem que a unidade da fé ceda lugar à multiplicidade das opiniões.

            Ah se nós católicos fizéssemos o mesmo!

            Se soubéssemos que nenhum templo de outra religião é tão digno quanto o interior de nossas igrejas: porque nelas está Deus mesmo, em sua totalidade (corpo, sangue, alma e divindade)!

            Se soubéssemos que nenhum líder religioso de outra religião tem a autoridade de um sacerdote católico: porque este, unindo sua voz à Palavra d’Ele, traz ao altar o Filho de Deus.

            Se defendêssemos, ainda que ao custo da própria vida, a Mãe de Deus – tão vilipendiada pelos hereges e descrentes.

            É lamentável dizer isso, mas parece que alguns católicos estão precisando ouvir o Shemá, Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor(Dt 6,4).