1 – No Fratres in Unum encontra-se uma carta absurda escrita por um padre da Diocese de Limeira em defesa da  Missa de Paulo VI e contrária ao Rito de São Pio V. O reverendíssimo sacerdote a chega a dizer a seguinte bobagem: “O excesso de ritualismos, que acabava tirando a atenção da essência (que dá o ser a uma realidade) deveria dar lugar a uma liturgia mais envolvente, participativa e ligada à vida do povo”. Como não bastasse esse comentário infeliz do Padre Marcos Radaéllii, a Coordenação das CEB’s (sim, infelizmente elas ainda da existem!) da Diocese de Limeira complementou, e piorou, a asneira do padre. Em Nota Oficial de apoio a D. Vilson Dias, bispo daquela diocese, a organização TL diz (grifos e comentários entre parêntesis meus):

                   (…) As CEB’s, fiel aos ensinamentos do Cristo (piada, né?) e assumindo sua missão profética contemporânea quer colaborar nesta reflexão. Embora respeitemos o direito de expressão e organização dos aludidos cidadãos e cidadãs, estamos convencidos que a Santa Missa deve continuar sendo celebrada no idioma de cada comunidade. E mais: ao contrário do que defendem os referidos cidadãos, a catequese de nossa santa igreja evoluiu consideravelmente ao incluir elementos culturais dos nossos irmãos indígenas e afro-descendentes (afirmação gratuita de quem não tem a mínima noção da realidade em que a Igreja vive).

                   Embora a Missa celebrada em latim resgate a tradição tridentina, objetivo maior dos seus defensores, certamente seu ritual distanciará nossos irmãos da compreensão do amor salvífico do Pai e de nosso compromisso com seu reino (afirmação blasfema e herética! Quanta petulância!). É na Santa Missa que nos encontramos para, ao redor do altar, celebrarmos o amor de Deus por nós. No ritual, oferecemos a Deus o fruto do trabalho humano, para em seguida, consagrado no corpo de cristo, partilharmos o pão/corpo de cristo. Esta aí a catequese máxima: Se partilharmos anteciparemos o Reino de Deus (que visão medíocre do Evangelho… é lamentável!). É necessário que esta mensagem seja assimilada pelos nossos irmãos, caso aspiremos de fato o Reino de Deus entre nós. Agora, para que possamos compreender a mensagem é necessário que ela nos seja clara, perfeitamente audível e compreensível para o nosso irmão mais simples que não pode sequer freqüentar uma escola, que dirá conhecer outro idioma.

               Cabe ao profeta a missão de evangelizar. Para evangelizar é necessária uma comunicação eficiente, a exemplo de Paulo, o arauto do Evangelho. Agora, somente haverá comunicação eficiente quando nos despirmos de uma pseudo-erudição extemporânea, para falar a língua que todos possamos compreender. (tsc, tsc, tsc) (…)

 

            2 – No site da Montfort uma curiosa entrevista com o padre Héry que, segundo a própria Montfort é “uma das figuras das mais significativas do Instituto do Bom Pastor, do qual ele  é um dos fundadores, protagonista dos acordos com a Santa-Sé e da convenção entre o IBP e o Cardeal Ricard em Bordeaux”

Da entrevista destaco o seguinte trecho:

 

D.T. –Como uma tal «crítica construtiva » do Concílio será possível, já que o Vaticano II é um ato do magistério autêntico, na prática intocável?  

 

Abbé Hery – Certamente, o Concílio é um ato do magistério autêntico. Mas ele não é intocável, visto que a «autêntica recepção» do Concílio, conforme o Santo Padre, ainda não aconteceu, ou não é ainda satisfatória; portanto, ele é retocável, por via do processo de interpretação. Há um espaço de liberdade deixado à controvérsia teológica sobre o texto do magistério conciliar, mantendo salva a Tradição dogmática e apostólica…

 

D.T. –Isso não é colocar a Tradição acima do magistério? 

 

Abbé Hery — A Tradição não está nem acima, nem abaixo do Magistério. Nesse mesmo discurso de 25/12/2005, nosso Papa fustigou «a hermenêutica da descontinuidade», que opõe o magistério conciliar à  Tradição. Com efeito, o magistério autêntico não utiliza jamais a Tradição a seu capricho e não está acima dela: quando ele estatue de modo infalível, ele é o que chamo a Tradição «em ato». Quando ele não estatue de modo infalível, como a maior parte do Vaticano II faz, o magistério (ainda que autêntico) deve ser interpretado e recebido, sem ruptura com a Tradição, portanto à  luz dela.

 

D.T.– O senhor pode precisar em que a recepção de um Concílio permite fazer dele uma crítica construtiva?

 

Abbé Hery — O problema posto pelo Vaticano II é que ele não se parece em nada com os Concílios precedentes. Estes apresentavam ensinamentos, definições do dogma, condenações de erros opostos, que obrigavam a fé. Ao contrário, renunciando por princípio pastoral à toda pretensão dogmática (exceto a repetição de alguns pontos anteriormente definidos pelo magistério solene), o Vaticano II não se impõe à Igreja como objeto de obediência absoluta para a fé (cfr. Cânon 749), mas como objeto de «recepção».

Ora, a recepção induz a um processo de interpretação. Para um tal corpus de textos, a recepção exige trabalho, e sobretudo tempo. O Cardeal Jean-Pierre Ricard, em Lourdes, em 4 de Novembro de 2006, notou: «O Concílio está ainda para ser recebido» (isto é, para ser reinterpretado). E ele indicou a direção a seguir: aplicar-se à «uma releitura calma de nossa recepção do Concílio» e não «uma leitura ideológica», notadamente para «verificar os pontos que merecem ainda ser levados em conta.» O que significa uma vasta operação de colocar em questão (no sentido escolástico) de esclarecimento (no sentido de triagem) entre o que precisa ser salvo e o que não deve ser salvo; e, mais ainda, uma interpretação correta do que pode ou deve ser guardado.

 

 

            3 – Ainda sobre Anjos e Demônios, o Márcio Campos escreveu alguns comentários. No Tubo de Ensaio ele escreveu:

 

            “(…) Meu maior problema com livros e filmes do tipo Anjos e Demônios é que, ao misturar ficção e realidade, a tendência é que tudo seja absorvido pelo público como realidade. Não é como os livros do Jô Soares, que são comédias usando personagens históricos. Dan Brown se pretende sério; coloca “listas de fatos” no começo de seus livros. A pessoa vai ao cinema ver Anjos e Demônios e sai realmente achando que Galileu e Bernini eram Illuminati, que Copérnico morreu assassinado, que a Igreja atrapalha a ciência, que Pio IX era um maníaco que atravessava o Vaticano de martelo na mão, que a Igreja “marcou” quatro Illuminati (Langdon reprova o chefe da Guarda Suíça, perguntando se os católicos não lêem sua própria história. Bom, nós lemos; é que La purga não é história, é invenção de Dan Brown), que os cientistas querem refazer o momento da criação, que Galileu escreveu o tal Diagramma e por aí vai. Isso é um desserviço considerável à verdade histórica, e também à ciência”.

 

            No Blog do Veritatis, o mesmo Márcio Campos complementou:

 

            “Fora essa tentativa absurda de jogar lama na reputação da Igreja, o filme ainda tem um punhado de erros. Pelamordedeus, tivemos um conclave real em 2005! Nunca se escreveu tanto, nunca se explicou tanto na imprensa como funciona a eleição de um Papa. E conseguem fazer um zilhão de coisas erradas. Tudo bem que o livro foi escrito em 2000, mas ainda assim temos uma série de aberrações. Tem cardeal citando a Romano Pontifice Eligendo, de Paulo VI, que foi abolida em 1996 pela Universi Dominici Gregis, de João Paulo II; tem cardeal propondo eleição por aclamação, quando ela foi abolida por João Paulo II no mesmo documento; o filme coloca muito mais de 120 cardeais na Capela Sistina; inventa um cargo de “cardeal grande eleitor”, inelegível, que não existe. Será que Dan Brown não sabia que o camerlengo é necessariamente um cardeal? Que não existe restrição à eleição de não-cardeais ao papado? O pior é que dá para perceber que foi, sim, feita pesquisa. Há detalhes como as cédulas sendo costuradas depois da votação, o “extra omnes”, coisa que só quem estudou o assunto conhece. E ainda assim cometem essas barbaridades.

            Mas isso é o de menos comparado à difamação da Igreja, retratada como cruel adversária da ciência, quando na verdade ela foi uma grande incentivadora da pesquisa científica. De fato, só por isso não valeria a pena gastar dinheiro com o filme. Se um ingresso cair do céu, ou se um dia passar na televisão, até seria uma oportunidade para evangelizar alguém, explicar o que está errado. Mas financiar a calúnia, aí não sei não…”

            Ontem fui ao cinema assistir Anjos e Demônios. A princípio eu estava com receio de ir por achar que estava desobedecendo às orientações da Igreja – que propôs boicote a esse filme. Contudo, ao perceber que aquilo não iria abalar – de modo algum – a minha fé; e com o aval do meu diretor espiritual, fui com uns amigos ver Tom Hanks protagonizar mais uma asneira de Dan Brown.

            Nunca fiz crítica de cinema e, portanto, não vou sistematizar uma análise do filme. Não vou julgar o trabalho de Tom Hanks e sua equipe abordando, pontualmente, os critérios observados na concessão de um Oscar, por exemplo. Roteiro, figurino, efeitos especiais, atuação, historicidade, consistência, etc. Todos esses elementos devem ser tratados por profissionais da área. Contudo, não posso me abster de fazer observações no que tange a imagem que o filme transmite da Igreja. Sem contar o fim do filme, para não tirar-lhe a “graça”, façamos algumas considerações:       

            1º – O filme procura – o tempo inteiro – apresentar uma Igreja em conflito, na qual existe uma acirrada briga por poder. Por mais que isso possa existir (e, eu creio que não há na proporção que o cineasta apresenta no filme), a luta por poder é inerente aos homens e não à Igreja. Se alguém quer ser o “primeiro” na Igreja, atribua-se sua ganância e ambição a um desvio de conduta seu e não a uma práxis da Igreja. É lamentável ver que Anjos e Demônios retrata o Colégio Cardinalício como um antro de perdição onde só se encontra homens avarentos, viciados, orgulhosos, ambiciosos, intransigentes, puritanos, teimosos, retrógrados e tudo mais que se possa usar para denegrir a imagem de alguém. Nesse ponto, o filme é uma afronta aos príncipes da Santa Igreja Romana.

            2º – Uma rápida consulta à Constituição Apostólica Romano Pontifici Eligendo e a Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, evitaria que se cometesse o erro de atribuir a um padre, não pertencente ao colégio dos cardeais, o título de Camerlengo. As Constituições se referem sempre ao Cardeal Camerlengo. Ainda que a intenção da produção do filme tenha sido apresentar uma situação inusitada – em que um presbítero exercesse tal ofício –, penso que essa intenção deveria ter ficado mais clara. Passou-me a impressão de que quem elaborou o filme não sabia exatamente quem é e o que faz o Camerlengo quando a Santa Sé está Vacante…

            3º – Gostaria muito de saber quais as fontes em que se basearam o(s) roteirista(s) de Anjos e Demônios para afirmar que as imagens religiosas da Basílica de São Pedro foram castradas por ordem, salvo engano, do Papa Pio IX. Obviamente, as imagens (sobretudo as barrocas, que são carregadas de realismo) tornam-se inconvenientes e inadequadas a um ambiente sacro, quando apresentam figuras com a genitália à mostra. Não é esse o propósito da Igreja quando aloca imagens num templo. Por outro lado, como revestir dignamente seres espirituais? Assim sendo, adotou-se o costume de cobrir a nudez das imagens (normalmente anjos) ou mesmo de esculpi-las com uma genitália discreta que, de modo algum, remeta a imaginação das pessoas a pensamentos luxuriosos. Até onde sei, era (e é) esse o tratamento dispensado às esculturas sagradas. Foi a primeira vez que ouvi essa história de “castração de imagens”. Repito: adoraria saber se essa informação procede… No fundo, ainda que proceda, é capcioso da parte dos roteiristas ter mencionado isso: não contentes em apresentar uma Igreja inimiga da ciência, querem também taxá-la de inimiga da arte; querem mostrar que ela é ‘aquela que tolhe a liberdade de expressão em todas as suas formas’.

            4º – Ridículo o comentário do personagem Cardeal Strauss que, dirigindo-se ao professor Langdon (Tom Hanks) diz: “Quando falar de nós (cardeais) procure falar bem”. Ao que o professor responde: “Vou tentar”. Desde quando a Igreja precise do aval e dos elogios de quem está fora dela? Pior: de seus inimigos! Desde quando o Colégio Cardinalício, por mais que seja constituído de homens pecadores, imploraria os aplausos do mundo? Seria patético…

            5º – Não sei se minha associação está correta mas é muito provável que o título do filme seja um insulto direto aos cardeais da Igreja: no meu entendimento os “Anjos” seriam os que apontavam as pistas para o desenrolar da trama policial; ao passo que os “Demônios” seriam os próprios prelados que, agindo em busca de poder, cediam à tentação demoníaca do orgulho e da vaidade! Espero estar errado. Espero que os “Demônios” sejam os “Iluminatti”. Mas quero ser benedicente ser ser ingênuo…

            6º – A bem da verdade, diga-se que a trama policial é bem construída. Às vezes é um pouco forçada. Mas, paciência…

             Em resumo, o filme retrata pessimamente a Igreja. São totalmente parciais. Mas, por incrível que pareça, me pareceu menos nocivo do que imaginei. O Código da Vinci, com suas insinuações a respeito de Jesus e Maria Madalena, é bem pior…

            P.S.: A quem interessar: encontrei esta entrevista com Dan Brown no site da Sextante (uma editora que me parece maçon…)

Aos que não assistiram:

A ACI Noticiou que Tom Hanks “recomendou que as pessoas que se sintam ofendidas pelas mentiras do romance e do filme não vão aos cinemas para vê-lo”. A respeito disso Jorge comentou: Não sei se é um bom sinal porque o ator, ao menos, reconhece que há “mentiras” no filme, ou se a frase como foi dita é do órgão de imprensa e não de Tom Hanks, ou ainda se não é muita cara de pau produzir uma obra que se sabe cheia de “mentiras” e não ver problema nenhum com isso, bastando que os descontentes “não assistam”. Depois de um dos bispos mais idosos do mundo ter criticado a película e convidado os bispos a “a denunciar o filme por atacar a fé de milhões de pessoas e difundir espetáculos obscenos”, parece que os responsáveis pelo monstro estão já se preocupando em arranjar alguma forma de livrar a própria pele e fugir da responsabilidade pela obra de ficção caluniosa”.