O periódico espanhol EL PAÍS publicou uma matéria intitulada “Libros que burlaron a la Inquisición” comentando sobre uns escritos muçulmanos recém-descobertos. Segundo o jornal, os islamitas que viviam em terras espanholas no início do século XVII foram expulsos pelo Rei Felipe III, por meio de um decreto expedido entre os anos 1609 e 1610. Após a expulsão, eles foram perseguidos e mortos no norte da África. Na época da perseguição, porém, os filhos de Maomé quiseram preservar o máximo de sua cultura – sobretudo a sua língua. Por esta razão, começaram a escrever textos em espanhol utilizando-se para isto dos caracteres árabes. A esta escrita deu-se o nome de escrita aljamiada.

O motivo de eu estar descrevendo tudo isso, o leitor – se perspicaz – já deve ter percebido: o título da matéria é incoerente com o fato histórico nela narrado. Quem expulsou os muçulmanos foi o Rei e não a Igreja! O próprio texto da reportagem diz isso. A origem dessa perseguição aos mouros é muito mais política que religiosa [embora seja evidente que a divergência em matéria de fé existia, e existe].

O que me impressiona é que essa associação entre a Inquisição e tudo quanto é morte e perseguição que ocorreu durante a idade média é recorrente, insistente e – porque não dizer? – petulante. Parece que a única causa mortis que existia à época chamava-se “inquisição”. É como se todas as variantes de perseguição se condensassem sob o gênero de “perseguição religiosa perpetrada pelo tribunal da Inquisição”. A tática de distorção dos fatos é a seguinte: se se está falando da morte de uma mulher não-cristã, imediatamente ela é inclusa no rol das centenas de mulheres que a Igreja condenou injustamente sob acusação de serem bruxas [“centenas” é bondade minha; os inimigos da Igreja afirmam que foram condenadas “milhares”, “milhões”].  Se alguém era expulso de casa ou do território em que vivia, credita-se à conta  da Inquisição. Se a pessoa permanecia onde estava, é porque estava “oferecendo resistência” à Inquisição. Quase um mártir. E por aí vai. Não importa o que realmente aconteceu, importa fantasiar para iludir e, assim, consolidar a mentira por meio de repetições contínuas.

Agora eu pergunto: o EL PAÍS sabe, realmente, de que está falando? Entende o que era a Inquisição ou acha que se tratou de um projeto de politicagem eclesiástica? Entende pelo menos de história? Se sim, então agiu de má-fé. Se não, foi imprudente. A ignorância, a desinformação, nos põem em risco de contaminação com heresias;  mas também nos dão a incrível oportunidade de encontrar-se com a Verdade. A má-fé, porém, leva a consequências muito mais graves…

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