CAPÍTULO II


A razão humana confirma a existência do inferno

Quem são afinal, os que negam a existência do inferno? Talvez pessoas honestas? Ao contrário! São os libertinos que espezinham todo o ditame da consciência para viverem à solta, aqueles aos quais repugna crer em um Deus vingador, por bem saberem que merecem seus castigos.

Conseguem êles persuadir-se de que não há uma justiça que vela sôbre os homens, e que punirá seus pecados? Jamais! Enquanto negam com os lábios a existência do inferno, sentem no âmago da consciência o remorso e uma voz que lhes anuncia terrível vingança.

O próprio Voltaire, o corifeu da impiedade, não conseguiu convencer-se de que não há nada depois do túmulo; tanto assim que, quando adoecia gravemente, apressava-se para em chamar o padre para se retratar de suas máximas tão ímpias!

Deus imprimiu em nosso coração noções imutáveis de justiça, e a idéia de um prêmio à virtude, de um castigo ao vício. Certo ímpio se vangloriava, numa roda, de não acreditar no inferno; entre os que ouviam estava um homem de bom senso e modesto, mas que julgou seu dever tapar a bôca ao estulto interlocutor, e o fez com êste simplicíssimo argumento:

– “Senhor, disse-lhe, os reis da terra têm cárceres para punir rebeldes; o Deus, Rei do universo, não há de ter cárceres para os que ultrajam a sua majestade?” O ímpio não soube que responder, pois o mesmo lume da razão lhe fazia ver que se os reis têm prisões, Deus deve ter um inferno.

Da negação do castigo e do prêmio ia outra vida, seguir-se-ia que Deus não existe, ou se existe, não cuida dos homens; e não haveria nenhuma diferença entre virtude e vício, entre justiça e injustiça. Morre um ladrão, carregado de delitos, e morre um inocente que durante a vida praticou virtude e fez o bem ao próximo; quereis que tenham a mesma sorte? Deus, infinitamente justo, não há de punir os crimes do primeiro e recompensar as boas obras do segundo? Morre São Paulo no deserto, depois de ter vivido quase um século no jejum, na penitência, louvando e servindo a Deus; e morre Nero, depois de ter cometido tôda espécie de crueldade; quereis que tenham igual sorte? Portanto, a mesma razão, o bom senso nos fala de um lugar onde serão castigadas as transgressões da lei divina.

Nem mesmo a eternidade das penas repugna aos ditames da reta razão.

Um dia, uma alma santa meditava no inferno, e considerando a eternidade dos suplícios, aquêle terrível nunca e o terrível sempre, ficou bastante impressionada, porque não compreendia como se pudesse conciliar esta severidade sem medida com a bondade e outras perfeições divinas.

– Senhor, dizia ela, eu me submeto aos vossos juízos, mas, permití-me, não sejais demasiado rigoroso.

– Compreendes, foi a resposta, o que seja o pecado? Pecar é dizer a Deus: não Vos obedecerei; pouco se me dá da vossa lei; rio-me das vossas ameaças!

– Vejo, Senhor, como o pecado é um monstruoso ultraja à vossa divina majestade.

– Pois bem, mede, se podes a grandeza dêsse ultraje.

– Compreendo, Senhor, que êsse ultraje é infinito, porque vai contra a majestade infinita.

– Não se exige então um castigo infinito? quanto à intensidade, sendo a criatura limitada, requer a justiça que seja infinito ao menos quanto à duração: portanto, é a mesma justiça divina que exige o terrível sempre e o terrível nunca. Os próprios condenados serão obrigados a prestar homenagens, mau grado seu, a esta justiça e exclamar em meio aos tormentos: “Vós sois justo, Senhor, e retos os vossos juízos.” (1)

Mas, replicam os incrédulos, Deus é tão misericordioso que não castigará eternamente um pecado mortal só, o qual às vezes dura um instante. Que proporção há entre a breve duração da culpa e a eternidade da pena?

A isto responderemos, que a misericórdia não é nada contrária à justiça, a qual exige seja eternamente castigado o pecado de uma pessoa que tenha morrido impenitente; visto que o pecado de tal pessoa é de certo modo eterno, segundo a sua voluntária disposição presente, querendo morrer no pecado: o que merece uma pena eterna. Até a justiça humana, imagem da justiça divina, castiga por vezes a falta passageira com a pena, a seu modo, eterna, como é o exílio perpétuo; de modo que, se o exilado vivesse sempre, para sempre seria banido da sua pátria. E por que a divina justiça não poderá banir eternamente da pátria celeste um pecador impenitente, que por si mesmo se exclui dessa pátria, morrendo voluntàriamente na impenitência final? De resto, eterno é o prêmio que Deus prepara a quem o serve, e por isso eterno deve ser também o castigo para aqueles que se rebelam contra sua santa lei.

Afinal, quem somos nós que ousamos levantar a fronte e pedir a Deus a razão de seus justos decretos?

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