Segue a homilia do Padre Antoine, LC, sobre a Solenidade de Pentecostes – que celebraremos no próximo domingo. O texto foi publicado aqui. Recomendo que, antes de lerem, rezem ou cantem a belíssima invocação da Igreja ao Espírito Santo: Veni, Creator Spiritus! Escutem, vejam, saboreiem o canto em preparação para esse momento tão especial que o calendário litúrgico nos reserva.

Quem nunca teve a experiência de ser invadido com força pelo Espírito Santo dificilmente poderá entender o que experimentaram os Apóstolos no dia de Pentecostes. O que não foi conseguido depois de três anos com o Senhor, depois de serem testemunhas de Sua morte e Ressurreição, foi conseguido por este fogo divino que lhes encheu os corações, liberando-os do seu medo, dos bloqueios interiores e sobretudo de uma existência centrada sobre si mesmos.

Conta são Lucas que ouviram primeiro um rumor como uma forte rajada de vento, que encheu toda a casa, e depois viram línguas como de fogo, pousando-se sobre cada um deles. Invadiu-os uma alegria inimaginável e uma força ardente. Por momentos o céu inclinou-se para eles, dando-lhes a entender com mais nitidez o que significa viver em Deus.

Depois, sabemos o que ocorreu: “saturados” de Deus, sairam a anunciá-lo. Era quase mais forte que eles, como Jeremias, que até chegava a desejar não mais pronunciar oráculos de Iahweh, a causa da perseguição que padecia: “E eu dizia, “não voltarei a recordá-lo [Deus], nem já falarei em seu Nome”. Mas havia no meu coração algo parecido a um fogo ardente, aceso nos meus ossos, e ainda que eu tentasse afogá-lo, não podia”.

Depois de dois mil anos, esta experiência é ainda possível, ou pertence irremediavelmente aos tempos fundacionais da Igreja? É uma vivência que estamos condenados a contemplar, ou podemos também tomar parte dela? A minha experiência pessoal é esta: quem busca Pentecostes, encontrará Pentecostes e na medida em que o desejará.

Diversos elementos são necessários para que se produza esta experiência transformante, na qual Deus começa realmente a tomar as rédeas das nossas vidas, na qual sentimos que já deixamos de recolher nas nossas redes alguns peixes e que a pesca começa a ser miraculosa.

Em primeiro lugar, Cristo tem de ser realmente o centro das nossas vidas. O Espírito vem de Cristo. De facto, o Evangelho deste domingo mostra-nos claramente que Cristo sopra sobre os Apóstolos. É Ele também que lhes promete Pentecostes. Noto que, com certa frequência, podemos ter a impressão que damos o primeiro lugar a Deus, mas não sempre este sentimento é real. Inclusive pessoas que praticamente não pensam em Deus durante o dia, estão convencidos de que realmente lhe dão o primeiro lugar, simplesmente porque lhes parece que não fazem nada errado.

Então, como saber se Cristo é o nosso centro de gravidade? Normalmente quem ama a Cristo com todo o coração, dará uma clara prioridade à vida de oração durante o dia. “Mas não posso rezar enquanto trabalho!”, podemos objetar. Certamente não podemos sempre pensar em Deus quando trabalhamos, mas todo o nosso trabalho tem de ser uma oração, uma oferenda a Deus. Por outro lado, quem vive realmente da oração, buscará rezar o mais possível, viverá com este profundo desejo, porque entendeu que a oração é tão necessária à alma quanto o oxigênio ao corpo. Se pequenas orações não alimentam com frequência o nosso espírito, é muito fácil que os desejos e impulsos do mundo comecem a corroê-lo.

Se queremos que venha o Espírito com força divina transformadora, que nos leve onde as nossas forças humanas nunca poderão levantar-nos, não nos façamos ilusões, devemos seguir o exemplo dos apóstolos que nos dias imediatamente anteriores a Pentecostes “estavam continuamente no templo”, ou seja, e aplicando-o às nossas situações concretas, rezavam tudo o que podiam para que Ele viesse.

Há uma terceira condição fundamental, para além de colocar Cristo no centro da vida e de ter um hábito de oração realmente vigorosa: viver o abandono nas mãos de Deus. Ou seja, temos de começar a tomar seriamente em conta esta verdade evangélica: se nós nos ocuparmos das coisas de Deus, Ele se ocupará dos nossos problemas. Israel nunca foi a nenhum lado enquanto seguia o seu próprio juízo. A Bíblia não se cansa de repeti-lo.

Especialmente significativa neste sentido, é a guerra, narrada pela Bíblia, de Josafá contra um exército claramente superior de moabitas e amonitas. Quando os numerosos adversários estavam já aproximando-se da capital, o profeta recorda ao povo: “Prestai atenção, vós todos de Judá e habitantes de Jerusalém, e tu ó rei Josafá! Assim fala Iahweh: “não temais, não vos deixeis atemorizar diante desta imensa multidão; pois esta guerra não é vossa mas de Deus”. Então o próprio Josafá toma a palavra e exorta os seus súbditos: “Ouvi-me, Judá e habitantes de Jerusalém! Crede em Yahweh vosso Deus e estareis seguros; crede em seus profetas e sereis bem sucedidos”.

Mas Josafá não se limitou a proclamar a sua fé com os lábios. Abandonou-se completamente nas mãos de Deus, até ao ponto de designar cantores que marchariam diante dos guerreiros, louvando Yahweh. Ele era consciente de que o elemento decisivo para a vitória era a fé que se abandona nas mãos de Deus e a oração dos cantores. E, de facto, sem sequer terem necessidade de travar o combate, os inimigos tiveram que se retirar por uma providência especial de Deus. Assim vencem-se todas as batalhas no terreno espiritual, sabendo que o adversário é muito mais forte que nós, como nos recorda são Paulo: “Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais. Por isso deveis vestir a armadura de Deus, para poderdes resistir no dia mau e sair firmes de todo combate”.

Quem se abandona nas mãos de Deus, faz um acto de fé extraordinário, mostra que realmente acredita que Deus é Deus, que Ele é um Pai bondoso, de confiança…E por isso o Espírito Santo derrama-se com abundância. Abandonar-se é fundamentalmente aceitar que Deus conduza a minha vida, aceitar que Ele tenha o volante da mesma. É um acto muito difícil, mas muito profundo e comprometedor, e por isso extraordinariamente potente do ponto de vista espiritual. É realmente difícil, é talvez até o que mais nos custa: retirar as nossas mãos que agarram tensamente o volante, deixando que o plano de Deus nos invada e guie os nossos passos. Então entra em plenitude a força de Deus, a nossa vida torna-se sobrenatural, as pessoas ao redor de nós começam a mudar, o poder de Deus vai espalhando-se sem limites porque finalmente Deus encontrou alguém em quem pode residir sem barreiras. Mas para chegar ao abandono e para abandonar-se cada dia, é preciso muita oração. Quem não vive imerso em Deus fatidicamente cairá na tentação de tomar de novo as rédeas, de sentir que tem a vida controlada, mais segura, porque ele mesmo a controla. Quando, na verdade, é exactamente o oposto que se produz.

Pensemos em Jonatá: ter-lhe-ia assaltado muitas vezes a tentação de pôr os guerreiros na frente de combate, de começar a actuar como se tudo dependesse dele. Ao fim de contas, nesta batalha estava em jogo a sua vida. Teve de rezar muito, de recordar muitas vezes que Deus é fiel, que Deus cumpre as suas promessas, que Deus existe realmente…

Esse é pois o caminho: que nada seja mais importante que Cristo, nada mais prioritário do que a oração e que a nossa vida seja um aceitar ser guiado por Cristo. A primeira comunidade cristã soube integrar muito bem estes elementos. Por isso Pentecostes foi realmente para ela uma revolução, uma força de irradiação que, logo na primeira pregação da história cristã, conseguiu 3 mil conversões!! Mas como dizíamos ao início, não o vejamos como um acontecimento exclusivo dos primeiros tempos. Seria um grave erro. “Farão obras maiores que as minhas”, diz Cristo no Evangelho. Isso aplica-se aos cristãos de todos os tempos, a todos os que querem lançar-se com seriedade e radicalidade na aventura cristã.

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