[O artigo abaixo é da lavra de D. Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife. Foi publicado no Jornal do Commércio, em sua edição de 18.04.2010. Tendo sido interpelado pela imprensa e pelos católicos por sua “falta de clareza” em uma entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, D. Fernando procurou – com este artigo – corroborar o seu posicionamento [já destacado em Nota de Esclarecimento] acerca do aborto e da pedofilia. Sua Excelência demonstra total adesão à Doutrina Moral da Igreja que, como todos sabem, é veementemente contra o aborto e a pedofilia].


Dois assuntos polêmicos têm aparecido na mídia nos últimos dias: aborto e pedofilia na Igreja. Aborto, por conta da menina de 10 anos, grávida do seu padrasto que vinha mantendo relações sexuais com a criança. Pedofilia, devido aos escândalos internacionais e nacionais publicados nos últimos meses.

Com relação ao primeiro caso, que também é conseqüência de pedofilia, é do conhecimento de todos a posição da Igreja que, em hipótese alguma, aceita o aborto, posição esta com o que estou de acordo plena e incondicionalmente. Em nosso País, é legalmente permitido o aborto em casos específicos. A Igreja não concorda com essa lei, pois vai de encontro à suprema lei de Deus, que é o autor da vida e somente a Ele cabe tirá-la.

Fui, insistentemente, procurado pela imprensa local, para falar sobre o pensamento da Igreja, no caso da menina de Jaboatão dos Guararapes, grávida aos 10 anos de idade. Como bispo, expressei então o meu pensamento em defesa da vida, não admitindo o aborto, em nenhuma circunstância. No caso específico desta criança, a gravidez poderia ter sido levada adiante, com os devidos cuidados médicos, até o momento do parto cesariano, no esforço de preservar a vida do bebê e da mãe. Certamente, não faltaria família que adotasse a criança, caso a avó e a mãe assim desejassem. Lamentei, profundamente, o desfecho do caso.

Quanto à questão da presença da pedofilia na Igreja, parece até que está havendo uma orquestração com o intuito de manchar a imagem de uma milenar instituição de grande confiança popular. É claro que nos envergonham os fatos vindos à tona, mesmo sendo, a maioria deles, “requentados” como dizia nosso irmão Frei Aloísio Fragoso, em artigo recente.

A pedofilia na Igreja, uma vez comprovada, deverá ser combatida com urgência e determinação para evitar maiores prejuízos. O que não se admite é querer colocar como causa o celibato religioso e sacerdotal, exigido pela Igreja para os que se consagram. O celibato é uma vocação, dom de Deus, assumido espontaneamente para que haja total disponibilidade para o serviço do reino. Não é a Igreja que acolhe pedófilos. Estas pessoas com disfunções psicológicas ingressam na Igreja e, no celibato, tentam encobrir suas tendências e maus hábitos.

É sabido que apenas 0,6% do total dos padres, em todo o mundo, estão envolvidos em problemas desta natureza. É preciso render graças a Deus pela grande maioria de presbíteros que edificam a Igreja por uma vida santa. Por outro lado, é necessário entender que este problema não está apenas na Igreja Católica. É um problema social muito grave que se encontra em todas as esferas da sociedade. Com isto, não desejamos absolutamente amenizar nossa culpa.

Os padres são líderes espirituais e, como tal, deveriam dar o bom exemplo e não escandalizar. É lamentável, sobretudo, a pressão que tem sido feita à pessoa do santo padre, acusando-o de acobertar casos de pedofilia, quando arcebispo na Alemanha ou presidente da Congregação da Doutrina da Fé em Roma. Exatamente Bento XVI, que tem demonstrado grande sensibilidade para estas questões, escrevendo orientações para as Igrejas em todo o mundo ou dialogando e indo ao encontro das mais envolvidas, como Estados Unidos e Irlanda.

A Igreja tem passado, ao longo da história, por muitas tribulações e esta não será a última. Ela é formada por homens e mulheres cheios de virtudes e também de pecados. Acima de tudo, porém, está a graça de Deus que a guia pela ação do Espírito Santo. É preciso, então, levantar a cabeça e seguir adiante, esforçando-se para corrigir os erros e crescer na santidade, dom mais precioso de Deus, que recebemos no batismo.

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