A SABEDORIA DA CRUZ

FRANCISCO FAUS

A LOUCURA DA CRUZ

A DOR QUE SORRI

Nunca me esquecerei de um pequeno episódio da vida real, que pode ser contado em poucas linhas. Faz bastantes anos, alguém visitou no hospital um colega de trabalho, jovem, atacado por uma doença incurável e muito dolorosa. Mesmo sem poder disfarçar algum trejeito de dor, o doente sorria sempre, estava alegre e falava de maneira serena e otimista, de tal modo que confortava e reanimava os que o iam visitar. Comentou-lhe o amigo:

– Fico contente de ver que os médicos conseguiram aliviar um pouco a sua dor…

– Não conseguiram – respondeu o outro com simplicidade –. Mas eu rezo sempre, e digo a Deus: Sofro porque me dói, sorrio porque Te amo.

Esta frase tão breve parece-me que encerra uma sabedoria mais profunda –sabedoria da cruz – do que as páginas de muitos livros. E é preciso reconhecer que há livros excelentes que abordam com seriedade e altura o sentido humano e cristão do sofrimento; em horas em que as dores físicas ou morais apertam, podem trazer-nos luz e consolo. Mas, se queremos aprender a fundo a ciência da cruz, creio que só existem duas cátedras que no-la podem ensinar, na prática, e metê-la no coração: a cátedra da experiência cristã – da própria e da alheia, sobretudo a dos santos – e a cátedra divina da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus.

O QUE JÓ APRENDEU

Jó é o máximo sofredor do Antigo Testamento. Desde o começo do Livro de Jó, aparece-nos como um homem de fé forte e integridade de conduta. A dor abate-se sobre ele como uma montanha que desaba: perde todos os filhos e todos os bens, perde a saúde e a honra, fica como um mendigo leproso que apodrece solitário no monturo.

E qual foi a reação de Jó? Não foi uma. Foram duas, uma após a outra.

A primeira foi a reação de um autêntico adorador de Deus, de um homem de fé inabalável, que nos deixa boquiabertos: O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor […]. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? (Jó 1, 21 e 2, 10).

A segunda reação foi a própria de um homem sincero, acostumado a falar com Deus de coração aberto. Reduzido a um trapo, Jó recebe a visita de três amigos, penalizados, aos quais se une depois um quarto. Todos eles tentam “explicar-lhe” com muitos argumentos o porquê da avalanche brutal dos seus sofrimentos, interpretando-os fundamentalmente como um ato de justiça de Deus, que estaria assim punindo Jó por culpas que ele não percebeu ou não reconhece. Assumem, assim, a função de “advogados defensores de Deus”, um papel que o Senhor Deus não lhes havia confiado.

Diante dessa interpretação simplista e distorcida, Jó se insurge: revolta-se, brada, prorrompe em lamentos dilacerantes, increpa Deus e convoca-o para “discutir” com ele; seus gritos chegam a raiar a blasfêmia. Mas, na realidade, são os brados sinceros e agoniados de um homem de fé absoluta, que não entende o que está acontecendo. Jó crê em Deus acima de tudo no mundo, e não pode imaginar que Ele seja injusto e o castigue como se fosse culpado por crimes que não cometeu. Os amigos escandalizam-se da sua fala. Mas Jó insiste. E, no fim, quando a discussão atinge o clímax, Deus em pessoa intervém. E o que faz o Senhor? Depois de repreender Jó pelos seus excessos verbais, dá-lhe razão, concorda commeu servo Jó e indigna-se contra os amigos sabichões, que se metem a dar lições sobre o que não sabem.

Com palavras faiscantes de poesia, Deus mostra a Jó e aos amigos indiscretos quão longe estão de compreender os planos da sabedoria, da justiça e da bondade de Deus:

Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra? […]

Quem fechou com portas o mar,

quando brotou do seio maternal,

quando lhe dei as nuvens por vestimenta

e o enfaixava com névoas tenebrosas? […]

Algum dia na vida deste ordens à manhã?

(Jó 38, 4 e segs.)

Indicaste à aurora o seu lugar?

Também Jesus teve que desfazer certa vez as interpretações erradas que os seus Apóstolos faziam sobre o sofrimento. São João conta-nos uma cena que presenciou em Jerusalém: Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: – Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: – Nem este pecou, nem seus pais, mas foi assim para que nele se manifestassem as obras de Deus. Logo a seguir, fez o milagre de abrir os olhos àquele homem (Jo 8, 1-7).

A primeira coisa que os discípulos pensaram foi que o sofrimento era um castigo, como os amigos de Jó. Nós também. Aparece um sofrimento inesperado, uma doença, um revés, e logo nos queixamos: “Por que Deus faz isto comigo? Por que me castiga? Eu não mereço este sofrimento!”

Sempre que pensamos assim, não entendemos que, em muitíssimos casos, a dor, nesta terra, não é um castigo de Deus, mas tem outra finalidade, mais profunda, divina e positiva: É para que se manifestem as obras de Deus. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos: Meus pensamentos não são os vossos (Is 55, 8). Nós partimos do preconceito de que a dor é um mal e só pode ser castigo, e Deus não pensa assim.

Sim, a dor tem um papel misterioso e altíssimo nos planos divinos, é algo que ultrapassa de longe os esquemas mentais e as perspectivas dos humanos. Foi por isso que Deus deu razão a Jó, o homem reto que não aceitava explicações baratas nem lógicas surradas. Jó acabou percebendo o que Deus queria dizer, e por isso calou-se, pôs a mão na boca, e reconheceu: Falei, sem compreendê-las, maravilhas que me superam e que não conheço (Jó 39, 34 e 42, 3).

Em matéria de dor, a atitude mais sábia é a de Jó: calar-se, ser humilde e ouvir a Deus.