“O que nada custa, nada vale”. Ouvi esta frase da boca de D. José Cardoso Sobrinho, Arcebispo Emérito da Arquidiocese de Olinda e Recife. Guardei-a comigo porque achei verdadeira e profunda.

               O homem, enquanto criatura predileta de Deus, tem – em sium valor [ao qual chamamos dignidade humana]. Mas, nem tudo que existe tem valor intrínseco, perene, imutável [para total desespero dos economistas que sonham com o fim da inflação e da deflação…]. Algumas coisas [não todas] valem o quanto nós, seres humanos, julgamos que elas valem. Deus, em Sua Liberdade e Bondade, quis compartilhar com o homem este seu poder de atribuir sentido e valor às coisas. Isso está bem configurado no Livro do Gênesis – quando é dito que o homem é que deu “nome” aos animais. O “nome” é este “valor” que o homem, sendo superior, atribui àqueles que lhe foram submetidos pela autoridade divina.

              Posto isso, o que quero dizer – objetivamente – é que ao “valor” está sempre atrelado o “sacrifício”. E vice-versa [porque só nos dispomos a fazer um sacrifício por algo – ou alguém – que consideramos “valioso”]. Assim, se eu tivesse que resumir este texto em uma frase [diferente da que usei como título do post], ela seria: “O valor do sacrifício”. Ou: “O mérito do nosso suor”. Tudo para recordar a Doutrina e a Tradição da Igreja que tantas vezes fez [e faz] menção aos sacrifícios e aos méritos a eles vinculados. Não podemos perder isso de vista uma vez que nesse tesouro que nos é apontado pela Igreja há um grande  proveito espiritual a ser obtido para as nossas almas. O mundo detesta este discurso. E nós detestamos o mundo.

              Os insensatos não valorizam o sacrifício. Acham que sacrificar-se é perda de tempo, é para fracos [ou, como dizem os americanos, é para “losers”]. O mundo não deseja a lógica do sacrifício. O mundo acha que Deus não merece um esforço sequer do homem. O mundo rejeita a Cruz porque nunca compreendeu a loucura n’Ela embutida. O mundo nunca entendeu a genialidade de Deus escondida em cada uma de Suas ações. Entretanto, não obstante essa rejeição do mundo, os justos continuam a praticar seus sacrifícios, penitências, mortificações e exercícios de vontade. E tudo isto continua sendo válido aos olhos do Altíssimo. Deus continua a olhar o mérito dos que por Ele dão o seu mínimo e continua a multiplicar o valor de suas obras.

              Quem já passou em um vestibular muito concorrido sabe que uma vitória como esta é bem mais saborosa que a aprovação em uma universidade particular qualquer que oferece a possibilidade de vestibular on line [i.e.: feito em casa, pela internet], sendo 2,0 [dois!] a nota mínima exigida… Quem já passou em um concurso público sabe que ler o próprio nome do Diário Oficial traz muito mais satisfação do que acordar e ir trabalhar no “mercadinho da família”… Passar em um vestibular ou concurso público custa. Mas vale. E quanto mais custa, mais vale. O sacrifício traz uma satisfação toda especial para quem o pratica.

             Algumas pessoas acham abominável o fato de um religioso usar o cilício. O cilício é um artefato de tecido ou metal usado para mortificação e penitência. Ele nos remete à recordação da Paixão do Senhor – que tanto sofreu por nós. É uma forma de nos unirmos ao Seu sofrimento. Certa vez, alguém – que trazia por sobre as vestes o cilício – comentou comigo que ele provocava mais incômodo que dor… É interessante notar que as mesmas pessoas que criticam as formas clássicas de mortificação [palavra que para elas soa assustadora] submetem-se horas e horas às mãos de um tatuador – a ferir-lhes a pele, a derramar-lhes o sangue. Que incoerência! Nada contra as tatuagens [calma, carismáticos, não me amaldiçoem!], mas elas ferem muito mais que o silício. E convenhamos: a tatuagem, em geral, é feita por motivo totalmente fútil. Que proveito espiritual [ou mesmo humano] se tira dela? Nenhum.

             Um sacrifício [não posso esquecer-me de dizer] deve ser sempre oferecido a Deus – oferecimento este que deve estar atrelado a uma intenção especial. Passar por um sofrimento [que pode ser uma enfermidade ou mesmo uma grande humilhação pela qual tenhamos passado] e não oferecê-lo a Deus [pelas almas do purgatório, pelas intenções do Santo Padre, pela conversão dos pecadores, ou por uma intenção particular qualquer] é deixar a graça passar sem que d’Ela nos apercebamos.

              Enfim, o grande problema [que faz com que algumas pessoas não entendam esse discurso todo que eu expus aqui] é que, para a Igreja, a “lei do menor esforço” não faz nenhum sentido. Ora, se fizesse Jesus a teria reivindicado para morrer de modo, digamos, “mais agradável”. Jesus não fez o “menor esforço”. Pelo contrário, fez o máximo esforço. Fez o que homem algum jamais fez. Portanto, como dizia São Paulo, “esforcemo-nos por transformar este mundo pela renovação de nossa mentalidade”. Procuremos buscar não “o mais fácil”, mas sim “o mais agradável a Deus”. Sacrifiquemo-nos por Quem merece realmente o nosso esforço. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Não foi assim que nos ensinou o poeta português? Pois bem. Ouçamo-lo. Afinal, a Quaresma vem aí e chocolate não é tão gostoso assim ;)…

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