[Trechos de uma locução do Venerável João Paulo II, de feliz memória, durante o Jubileu dos Bispos, em Roma (2000). Os grifos são meus. Notem que todo o comentário de Sua Santidade se dá num contexto de busca da própria santidade do bispo, bem como do esforço pela santificação dos fiéis. Nenhuma menção ao “dever” do bispo de lutar por justiça social, de fazer politicagem, nem de atuar como comentarista econômico… Ah, se todos os bispos ouvissem o sucessor de Pedro…]

 

[…] Podemos experimentar juntos toda a consolação da verdade enunciada por Santo Agostinho:  “Para vós, sou bispo; convosco, sou cristão. O primeiro é o nome de um cargo assumido; o segundo, de uma graça. Aquele é o nome de um perigo; este, de salvação” (Sermão 340, 1:  PL 38, 1483). São palavras fortes!

Caríssimos Irmãos no Episcopado, como pessoas sacramentalmente configuradas com Cristo, Pastor e Esposo da Igreja, somos chamados a “reviver” nos nossos pensamentos, sentimentos e opções o amor e a abnegação total de Jesus Cristo pela sua Igreja.

O Apóstolo indica de forma luminosa a finalidade suprema do dilexit Ecclesiam:  “Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela… e santificou-a” (Ef 5, 25-26). Assim é também o nosso múnus episcopal:  ele está ao serviço da santidade da Igreja.

Cada uma das nossas actividades pastorais tem como objectivo último a santificação dos fiéis, a começar pelos sacerdotes, nossos directos colaboradores. Por conseguinte, deve ter em vista suscitar neles o compromisso de responder ao chamamento do Senhor com prontidão e generosidade. E não é acaso o nosso próprio testemunho de santidade pessoal o apelo mais credível e mais persuasivo que os leigos e o clero têm direito a esperar no seu caminho rumo à santidade? Proclamou-se o Jubileu precisamente para “suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade” (Tertio millennio adveniente, 42).

É necessário redescobrir aquilo que o Concílio Vaticano II diz sobre a vocação universal à santidade. Não é por acaso que o Concílio se dirige em primeiro lugar aos Bispos, recordando que devem “desempenhar o seu ministério santamente e com entusiasmo, com humildade e fortaleza; assim, encontrarão nele um magnífico meio da santificação própria” (Lumen gentium, 41). Como se vê, é a imagem de uma santidade que cresce ao lado do ministério, mas através do mesmo ministério. Uma santidade que se desenvolve como caridade pastoral, encontrando o seu paradigma em Cristo Bom Pastor e impelindo cada pastor a tornar-se o “modelo da grei” (cf. 1 Pd 5, 3).

5. Esta caridade pastoral deve vivificar os tria munera em que se articula o nosso ministério. Em primeiro lugar o munus docendi, ou seja, o serviço do ensino. Quando relemos os Actos dos Apóstolos, ficamos impressionados perante o fervor com que o primeiro núcleo apostólico semeava a mãos-cheias, com a força do Espírito, a semente da Palavra. Devemos encontrar de novo o entusiasmo pentecostal do anúncio. Em um mundo que, através dos mass media, conhece uma espécie de inflação das palavras, o verbo do Apóstolo só pode distinguir-se e progredir apresentando-se, com toda a luminosidade evangélica, como palavra repleta de vida. Não tenhamos medo de anunciar o Evangelho, “opportune et importune” (2 Tm 4, 2).

Sobretudo hoje, no meio de muitas vozes discordantes que criam confusão e perplexidade na mente dos fiéis, o Bispo tem a grave responsabilidade de esclarecer. O anúncio do Evangelho é o acto de amor mais excelso em relação ao homem, à sua liberdade e à sua sede de felicidade. Através da Liturgia, fonte e ápice da vida eclesial (cf. Sacrosanctum concilium, 10), esta mesma caridade torna-se sinal, celebração e acção orante. Aqui, o dilexit Ecclesiam de Cristo faz-se memória viva e presença eficaz. Nesta obra, mais que em qualquer outra, o papel do Bispo delineia-se como munus sanctificandi, ministério de santificação, graças à presença operosa d’Aquele que é o Santo por excelência.

Enfim, a caridade do Bispo deve brilhar no vasto âmbito da orientação pastoral:  no munus regendi. Exige-se muito de nós. Em tudo devemos trabalhar “como bons pastores que conhecem as suas ovelhas e por elas são conhecidos, como verdadeiros pais que se distinguem pelo espírito de amor e solicitude por todos” (Christus Dominus, 16).

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