“Vemos avançarem diariamente apoiadas pelas legislações maléficas e arbitrárias, que destroem a reta consciência e a fundamental dignidade do homem, causas tão repugnantes como o aborto, a eutanásia, o divórcio, o matrimônio entre homossexuais, a libertinagem sexual, o racismo, a intolerância contra os velhos, etc., etc. Não assistimos somente a um processo de degradação, de autodestruição da civilização ocidental. Gradualmente se impõe o que o Papa chama de cultura da morte.

[…]

Eu não sei se todos vocês percebem o dano tão grande que tem se feito às famílias com essa campanha mundial, que pretende cortar drasticamente o crescimento populacional, com todos os meios possíveis, sem excluir os mais indignos e arbitrários, como o aborto e a esterilização. À base de mentira e desinformação, certos grupos movidos por interesses perversos – tão mesquinhos como não querer compartilhar os recursos naturais com as populações em desenvolvimento – têm propagado um alarme falso, apresentando um futuro apocalíptico na hipótese, para eles abominável, de que a humanidade continue crescendo em seu ritmo natural. De nada têm servido os estudos muito sérios que desmentem ou pelo menos abrandam bastante os temores e prevenções contra a assim chamada explosão demográfica. Qual a “brilhante solução” que propõem e impõem abusivamente? Diminuir os nascimentos. Daí surge o rentabilíssimo comércio de artifícios mecânicos ou bioquímicos e outras técnicas contraceptivas ou abortivas. É preciso dizer que, paralelamente, esta indústria promove também a “liberalização do sexo”, com as manifestações aberrantes que conhecemos.

O amor cristão […] é difusivo, procura se expandir, quer gerar vida. Por isso, essa mentalidade que se fecha à vida não pode caber num matrimônio cristão. Não cabe o recurso a meios moralmente ilícitos para evitar novos nascimentos. Por isso, apesar de ser tão óbvio, é necessário afirmar com a máxima energia que não cabe absolutamente o recurso a um meio tão repugnante como o aborto. Gostaria de ir além, e dizer que num matrimônio cristão não cabe a limitação do número da família por motivos meramente egoístas e arbitrários.

Obviamente que o que disse não implica de maneira nenhuma que não exista o gravíssimo dever de exercer a paternidade de modo eminentemente responsável. Isso é claro. Eu me refiro a essa mentalidade gratuitamente aceita de que a prole de uma família não deve exceder a um ou dois filhos, inclusive quando as possibilidades da família poderiam permitir, por exemplo, três ou quatro, ou mais. Por que negar os bens da vida, e sobretudo os bens da vida eterna, a outros que vocês poderiam chamar à existência?Certamente não se pode apelar a um suposto “direito” do filho ainda não gerado, pois somente quem já existe possui direitos. Mas a lógica do amor ultrapassa a lógica estreita do legalismo, que fundamenta tudo em direitos e deveres. O homem, com todo o universo a seu serviço, não teria nenhuma direito a existir; porém o amor de Deus foi tamanho, que quis chamá-lo à existência, para ter com quem partilhar a sua vida e a sua felicidade. Essa é a lógica do amor. E, portanto, é também a lógica do amor conjugal.

Os grupos propagadores da mentalidade contrária à vida (da cultura da morte, como diria o Papa), conseqüentes com seu programa, há vários anos abriram uma nova frente de batalha. Primeiro consistia em acabar com a vida em sua concepção. Agora procuram acabar com a vida em sua etapa final. Apresentam pretextos, como evitar o sofrimento do enfermo que se encontra em fase terminal, libertá-lo de uma vida que chegou a ser desumana, ajudá-lo a morrer com dignidade, etc., etc. Seu objetivo é alcançar um amparo legal para praticar impunemente uma forma de homicídio que eufemisticamente denominam “eutanásia”, “morte doce”. Com programas de mentalização muito bem orquestrados, vão conseguindo, pouco a pouco, a aquiescência e a aprovação das pessoas. Se os homens retos, começando pelos cristãos, com um mínimo de senso de humanidade não se moverem para colocar um freio drástico a essa campanha, podemos esperar que, em data não muito distante, as diversas legislações dêem luz verde a esta prática monstruosa. Naturalmente, à frente do desfile veremos os países “desenvolvidos”, que serão seguidos pelos outros”.

 

Fonte: “A Caridade Evangélica”. Pe. Marcial Maciel, LC, Roma – 22/10/1993.

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