Os mestres de espiritualidade (sobretudo os santos místicos) sempre procuraram nos alertar quanto a dois comportamentos extremamente nocivos para qualquer relação humana. São eles: o apego e o desprezo.

            O apego demasiado às criaturas nos leva a menosprezar [ou até desprezar] o Criador. Trata-se de uma afeição desordenada que desencadeia ciúmes excessivos [decorrente de uma sensação de posse], dependência em relação ao outro, e uma profusão de atitudes egoístas. Santo Agostinho explicou resumidamente, e muito bem, as conseqüências deste apego exagerado, quando – na comparação das duas cidades – afirma que “a Cidade dos Homens ama tanto a si, que chega a desprezar Deus; ao passo que a Cidade de Deus ama tanto o Criador, que atinge o desprezo de si”. É o egoísmo contra o altruísmo. Queremos um lado, as somos constantemente arrastados para o outro.

            Às vezes este apego se dá em relação aos familiares [com quem – pelo menos em tese – temos uma relação mais próxima]. A experiência mística da Igreja nos mostra que mesmo o amor natural que há entre pais e filhos (que é intenso) deve ser moderado. Jesus fez esta exigência quando disse: “Se alguém ama mais o seu pai ou sua mãe que a mim, não é digno de Mim”. Urge, portanto, ter uma afeição “justa”, por assim dizer, para com todos os que nos rodeiam. Diz-se que “justiça é dar a cada um o que é seu” [cuíque suum]. Dar a devida “medida” de amor a cada uma das pessoas com as quais nos relacionamos é, portanto, um dever cristão, um serviço à justiça, que implica empreender uma luta contra as nossas tendências. Um dos efeitos benéficos dessa “moderação” para com os nossos afetos humanos [talvez o mais verificável] é a melhora na qualidade da nossa oração: quando nos “desligamos” daquilo que é terreno, mais facilmente conseguimos nos voltar para o que é “do alto”.

            A outra coisa que constitui uma grave falta para com o próximo é o desprezo. Ele é o oposto do apego. Desprezo é ser indiferente em relação ao outro; é não lhe dar atenção, não se importar com ele, viver como se ele não existisse.

            No mundo de hoje, o desprezo muitas vezes quer-se justificar usando como desculpa a “vida corrida”, a falta de tempo. As pessoas não têm mais tempo para dedicar aos outros. As relações virtuais [criadas e estimuladas por sites como Orkut, Gazzag, Twitter, Facebook, etc.], a meu ver, muito contribuíram para que isso acontecesse. Antes os amigos iam à casa uns dos outros, hoje enviam scraps… Os encontros pessoais ficaram “fora de moda”: é como se eles gerassem uma grande “perda” de tempo [“muito mais veloz é conectar-se e comunicar-se sem precisar sair de casa”]. Que triste!

            Aquela experiência que Jesus fez com o jovem rico – a de “fitá-lo nos olhos e amá-lo” – é muito enriquecedora e revela o grande interesse que Nosso Senhor tinha pelas pessoas. Precisamos aprender isso com Ele! A lição que Cristo nos dá – e que está narrada no final do Evangelho de São Mateus – é muito clara: “tudo que fizestes a um desses pequeninos, foi a Mim que o fizestes. A atenção dispensada ao outro reverte em interesse por Deus. Da mesma forma, o menosprezo, o desprezo, a indiferença para com o outro, implicam uma renúncia a Deus, um desinteresse por Aquele que nos criou.

            Que Deus nos ajude a alcançar a justa medida dos nossos afetos.

           

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