Ontem, em Copacabana (RJ) aconteceu a II Caminhada contra a Intolerância Religiosa. 80.000 pessoas participaram do evento (eu nunca confio nesses números, mas vá lá que seja verdade). Foi noticiado que ateus participaram do evento, reivindicando o direito de não crer. Então eu me pergunto: será que todos os que participaram desta caminhada lutam por um mesmo ideal? Será que a liberdade religiosa que um católico reivindica é a mesmo que liberdade religiosa requerida por um ateu?

            O primeiro ponto a ser comentado, creio eu, é que a caminhada está com o nome errado. Na verdade, as pessoas ali estão lutando pela liberdade de culto, e não a religiosa. Ora, o Brasil é internacionalmente conhecido por ser um país “plural”, aberto a todo o tipo de cultura religiosa.  Aqui todo mundo acredita no que quiser. E o fundamento disso é que o “crer” é uma questão de foro íntimo que, por natureza, é inviolável. O Brasil parece que não só respeita isso, como até incentiva: aqui tem mais templo protestante que posto de saúde!

             A outra questão é com relação ao uso indistinto, e logo infeliz da palavra liberdade. A liberdade, segundo a Doutrina da Igreja, está orientada para o bem. Logo, nem todos são livres quanto ao credo porque nem todos os credos não se orientam ao bem. Doa a quem doer. O que todos têm é livre arbítrio – que, em termos de religião, no Brasil – significa poder fazer o “self service” religioso: cada um vai à religião que quer e escolhe o deus que quer…

             O problema, portanto, está na questão do culto. Protestantes querem ter o direito de fazer os seus cultos barulhentos na rua; nós, católicos, queremos poder manter a tradição medieval das procissões; umbandistas lutam ainda por manter a imagem de seus orixás naquela lagoa de Salvador [cujo nome eu esqueci]. Enfim, cada um tem os seus motivos para brigar. E é aí que eu retomo à questão da presença dos ateus na caminhada de ontem: a quem os ateus cultuam? Se eles não têm nenhuma cerimônia própria de culto, nenhuma cultura nem tradição próprias a serem mantidas, que raios estavam fazendo ontem em Copacabana?

             Mas, isto aqui é Brasil e todo mundo gosta é de sair na TV mesmo…

            Ah, se todos os caminhos realmente levassem a Roma… O mundo estaria a salvo!

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