Para os que não tiveram acesso ou oportunidade de ler, reproduzo aqui um artigo de autoria do Prof. José Luiz Delgado, publicado no Jornal do Commercio há dois dias (01/09). A meu ver, o texto de Delgado expõe de maneira muito feliz quais as principais “forças atuantes” na Arquidiocese de Olinda e Recife, e quais as suas reais motivações. Leiam:

 

 Via dolorosa

Publicado em 01.09.2009

José Luiz Delgado

jlmdelgado@terra.com.br

 

             Do livro que Elcias Ferreira da Costa acaba de publicar, D. José Cardoso – a vitória da fé, o mínimo a dizer é que é impressionante. Pelo conjunto de informações que apresenta. Pela vasta, quase absolutamente completa, documentação. E mais ainda: como retrato dolorido da página que estivemos a viver nesta Arquidiocese de Olinda e Recife.

            Tensões, divergências, fricções terão sido talvez constantes na história da Igreja. Basta lembrar a crise do modernismo, condenado por sucessivos papas, sobretudo Pio IX e Pio X. Um modernismo latente teria sido contido, nos tempos de Pio XII, pela sabedoria e pela nitidez do grande papa. Pode ser que alguma coisa das tendências reprimidas se tenha soltado durante o formidável e recente Concílio. Em decorrência do qual, muitas “aberturas” se verificaram, e até chegaram a cardeal alguns dos teólogos antes “suspeitos”. Mas as tensões e divergências continuaram, falando-se, numa má terminologia, de divisão entre “progressistas” e “conservadores”.

            Em nenhum outro lugar, porém, as fricções terão atingido os extremos a que chegaram entre nós. Elcias Ferreira da Costa dá, desses extremos, a descrição exata, com documentos, escândalos, absurdos, que tanto horrorizaram o pequenino povo fiel. Leigos ilustres agredindo o bispo? Órgãos oficiais diocesanos voltando-se contra seu próprio superior? Até sacerdotes, pastores, detratando o pastor, no entanto aprovado por Roma? Insubordinando-se contra o arcebispo legítimo? Inventando uma igreja “nascida das bases”, de tal sorte que só valeriam – na Igreja católica?? – as opções tomadas por assembléias populares? O quadro, trágico, dantesco, evidencia somente o grau de decomposição do senso católico e do sentimento religioso que se instalou na arquidiocese antes do governo do bispo que acaba de se aposentar, após 24 anos de heroísmo e martírio.

            Quadro, é claro, instalado aqui à sombra de dom Helder, mas à revelia de dom Helder. Não era, de forma alguma lição de dom Helder, mas foi infelizmente a mentalidade que se engendrou sob seu pastoreio. Veja-se episódio ao mesmo tempo edificante e expressivo da alma católica do famoso arcebispo, que leio numa de suas circulares conciliares. Não saindo vitorioso certo ponto de vista, numa das primeiras votações do Concílio, seus defensores ficaram cabisbaixos e arrasados. E assim continuavam, ao se reunirem em seguida, quando justamente dom Helder levantou o ânimo de todos provocando-os com indagação esplendidamente católica: “Que história é esta de proclamar que o Espírito Santo dirige o Concílio só quando tudo corre do nosso agrado?” Essa docilidade a Deus, e, portanto, à Igreja, era a marca do ser mais profundo de Dom Helder – jamais a subversão que se alojou aqui e iria explodir contra o seu sucessor.

            Se dom Cardoso tiver conseguido conter, ou ao menos substancialmente reduzir, aquela mentalidade de autonomia, de desconhecimento e até afronta à autoridade diocesana, não apenas de eventuais divergências silenciosas e respeitosas, mas agressões virulentas, primeiro pressões para revogar as determinações do bispo, depois acintes e injúrias para afastá-lo da diocese, – se Dom Cardoso tiver conseguido recompor o catolicismo nestas terras, terá aplainado magnificamente o caminho para que Dom Fernando possa exercer o seu múnus episcopal da forma tranquila e feliz como todos esperamos. Ou seja, no autêntico espírito de Dom Helder, que nunca foi o de achar que a Igreja só estaria certa quando adotasse minhas opiniões e meus caprichos individuais.

  

» José Luiz Delgado é professor universitário

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