[Continuando a série Virtudes, apresento-lhes o segundo ensaio sobre a Caridade. Desta vez, busquei apresentar uma pouco mais da Doutrina concernente à Virtude das Virtudes].

 

            É bem verdade que muitos – entre os quais se contam muitos poetas e santos – tentaram descrever o que é o amor. Falharam todos. Muitos até acertaram alguns pontos; mas nenhum conseguiu – em completude – revelar a essência da Caridade. Portanto, conceitos e definições sobre este tema são imprecisos. O Catecismo da Igreja Católica, porém, resume esse “tudo que poderia ser dito” com as seguintes palavras:

            §1822 A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.

            Desta colocação, e também a partir daquilo que São Paulo descreveu na sua Carta aos Coríntios (Cap. 13 – cujo texto já foi apresentado no fim artigo anterior), fica claríssimo que a Caridade é a principal, maior e mais excelente entre as virtudes. A cada proposição, o Apóstolo reafirma: “se não tivesse a caridade, nada seria”. Ou seja: nenhum dos esforços que o homem empreenda – *ainda que para nobres fins* – tem valor diante de Deus, se este homem não estiver motivado [imbuído] pela Caridade. Atitudes belas, mas sem Caridade, valem tanto quanto uma nota de 3 reais… A Caridade é, portanto, o princípio fundamental da nossa existência: Deus nos criou por amor e para o amor. Sem a vivência deste amor [caritas], perdemos a nossa razão de ser e deixamos de cumprir o 1º [e maior] Mandamento: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito” (Dt 6,5).

             Aliás, falando em descumprir mandamentos, cabe consignar uma coisa: quando abordei, nos comentários acerca da Esperança, – os pecados contra esta virtude, falei do desespero e da presunção. Agora, porém, ao falar da Caridade, causa-me certo choque o perceber que – em última análise – todo e qualquer pecado que cometemos atenta contra a Caridade:

 §1855 O pecado mortal **destrói** a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus; desvia o homem de Deus, que é seu fim último e sua bem-aventurança, preferindo um bem inferior. O pecado venial deixa subsistir a caridade, embora a **ofenda e fira** (grifos nossos).

De fato, São Francisco de Assis estava certo quando dizia: “O amor não é amado”… Lamentável!

            A Caridade é o distintivo do cristão: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). É imperativo que o cristão aja com Caridade: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Se, pois, o cristão decide agir contra a Caridade [e ele pode fazê-lo em virtude do livre-arbítrio que Deus lhe concedeu] ele está renunciando à sua própria essência.

            E continua de forma brilhante o Santo Catecismo:

            §1827 O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade, que é o “vinculo da perfeição” (Cl 3,14); é a forma das virtudes, articulando-as e ordenando-as entre si; é fonte e termo de sua prática cristã. A caridade assegura purifica nossa capacidade humana de amar, elevando-a à feição sobrenatural do amor divino.

[…]

            §1829 A caridade tem como frutos a alegria, a paz e a misericórdia exige a beneficência e a correção fraterna; é benevolência; suscita a reciprocidade; é desinteressada e liberal; é amizade e comunhão.

           Um parágrafo que, creio eu, merece especial atenção é o seguinte:

           §1853 […] No coração reside (…) a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado fere.

            O coração – como sede da inteligência e da vontade – é o locus próprio da Caridade. Destarte, o homem que ama, assim o faz porque entende que é melhor agir com Caridade. Concomitantemente, àquilo que depreendeu por sua inteligência, este homem une uma decisão livre e consciente.

           Parafraseando São João Evangelista, “muita coisa ainda poderia ser dita”; contudo, parece-me de bom grado concluir com duas citações que – a meu ver – são de uma lucidez e um esplendor magníficos. A primeira trata-se de um trecho de “História de uma Alma” (a autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus). Neste excerto, pode-se dizer, encontra-se a grande descoberta de Santa Terezinha: como ela percebeu que é a Caridade que “move” todas as coisas:

            “A caridade a chave de minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha coração, e que o coração era ARDENTE DE AMOR. Compreendi que só o amor fazia os membros da Igreja atuarem, e que se o Amor se extinguisse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho e os Mártires se recusariam a derramar seu sangue… Compreendi que O AMOR ABRANGE TODAS AS VOCAÇÕES, ALCANÇANDO TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES… NUMA PALAVRA, É ETERNO!” (Histoire d’une Ame, pg. 213. Ed. Paulus)

            A segunda citação é extraída da Imitação de Cristo, na qual se diz:

            “A obra exterior, sem caridade, de nada vale, mas tudo o que se faz com caridade, por pouco e desprezível que seja, produz abundantes frutos, porque Deus olha mais para a intenção do que para a ação. Muito faz quem muito ama. Faz muito quem faz bem aquilo que faz. Bem faz quem serve mais ao bem comum que à sua vontade própria. Muitas vezes parece caridade o que é amor próprio; porque a propensão de nossa natureza, a própria vontade, a esperança de recompensa, o gosto da comodidade, raras vezes no deixam. Quem tem verdadeira e perfeita caridade em nenhuma coisa se busca a si mesmo, mas deseja que em todas Deus seja glorificado. A ninguém tem, inveja, porque não ama particularmente nenhuma prazer, mas deseja sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus. A ninguém atribui bem algum, mas refere tudo a Deus, do qual, como de fonte perene, manam todas as coisas, no qual, como em fim último, descansam em sumo gozo todos os santos. Oh! Quem tiver uma centelha de verdadeira caridade! Por certo avaliaria por vaidade todas as coisas da terra! (Imitação de Cristo, Livro I, Capítulo XV. Pg. 66-67. Editora Ave Maria).

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