Hoje quero abordar a Esperança – como continuação da série Virtudes.

            Assim como a , a Esperança é classificada pela Doutrina como uma virtude teologal. Portanto, ela tem origem sobrenatural, é infundida por Deus na alma e não pertence ao rol das virtudes humanas (ou morais).

            Encontrei neste site uma belíssima exposição sobre a “razão de ser” da virtude da Esperança. Um dos trechos mais instrutivos do texto é este:

 

            “Sabemos que a Fé nos traz um conhecimento certo de Deus. Mas este conhecimento é obscuro, ou seja, conhecemos a Deus mas não podemos ainda vê-Lo. Sabemos também que a virtude da Caridade nos traz o verdadeiro amor de Deus, que esse amor já é um começo da vida eterna, e que no céu, esse amor será eterno e nos encherá de uma alegria e felicidade extrema. Mas sabemos também o quanto é difícil manter nossas almas longe do pecado, como nós abandonamos a Deus com facilidade, perdendo o seu amor. Por isso, poderia surgir em nós uma dúvida sobre nossas possibilidades de alcançar o céu e a vida eterna. Se essa dúvida fosse muito forte, nós desanimaríamos no combate contra nossas imperfeições e contra nossos pecados.

            É justamente por isso que Deus nos dá a virtude da Esperança. Com ela sabemos que Deus nunca deixará de nos ajudar com suas graças e por isso estaremos sempre prontos para lutar contra as tentações e contra nossos pecados. Estaremos sempre prontos a pedir perdão no confessionário, pois temos certeza que Deus nos perdoará e nos trará novas forças para não mais pecar. Com isso fica claro que nossa vida de virtudes nos ajuda a conquistar o céu, pois quando praticamos o bem e fugimos do mal, recebemos a recompensa de Deus”.

 

            Do Dicionário Bíblico constante na Bíblia Clerus, extraímos que:

 

            “No AT Deus é a essência, meta final e garantia da esperança (Sl 130,5-7) do indivíduo (71,5) e do povo em geral (Jr 14,8 Jr 17,13). Espera-se no poder do braço do Senhor (Is 51,5), do qual vem a salvação (Gn 49,18). Espera-se a vinda da glória do Senhor (At 1,11 1Ts 4,13-5,11), a conversão de Israel e das nações, a nova aliança baseada no perdão dos pecados (Eclo 2,11; Mt 18,11; Hb 2,17; Hb 4,16 2Pd 3,9).

             Apesar de sua história cheia de contradições e infidelidades, Israel conservou a esperança na graça divina (Os 12,7; Jr 29,11; Jr 31,17; Is 40,31). Foram os profetas que ergueram a bandeira da esperança nos momentos críticos da história, apontando a renovação dos tempos messiânicos (Os 2; Is 40-66; Ez 36-37).

             No NT a salvação prometida torna-se de certo modo já presente pela fé: a justificação, a filiação divina, o dom do Espírito e o novo Israel, composto de judeus e pagãos convertidos a Cristo. Por isso muda também o conteúdo e a motivação da esperança. A esperança do cristão é uma “viva esperança” (1Pd 1,3), que liberta do temor da morte (Ef 2,12 1Ts 4,13), pois ela está unida ao amor (1Co 13,13) e à fé em Cristo. O cristão espera a salvação (1Ts 5,8), a justiça (Gl 5,5), a ressurreição (1Co 15), a vida eterna (Tt 1,2; Tt 3,7), a visão de Deus e sua glória (Rm 5,2). Sua esperança é alegre e corajosa (Rm 12,12 1Ts 5,8), pois está firmemente ancorada em Cristo” (Hb 6,18s).

 

            O Novo Catecismo da Igreja Católica define Esperança em dois momentos, a saber:

 

            §1817 A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. “Continuemos a afirmar nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa” (Hb 10,23). “Este Espírito que ele ricamente derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que fôssemos justificados por sua graça e nos tornássemos herdeiros da esperança da vida eterna” (Tt 3,6-7).

            §2090 Quando Deus se revela e chama o homem, este não pode responder plenamente ao amor divino por suas próprias forças. Deve esperar que Deus lhe dê a capacidade de corresponder a este amor e de agir de acordo com os mandamentos da caridade. A esperança é o aguardar confiante da bênção divina e da visão beatifica de Deus; é também o temor de ofender c amor de Deus e de provocar o castigo.

 

            E, citando Santa Teresinha, continua o CIC (§1821):

             […]

            “Espera, ó minha alma, espera. Ignoras o dia e a hora. Vigia cuidadosamente, tudo passa com rapidez, ainda que tua impaciência torne duvidoso o que é certo, e longo um tempo bem curto. Considera que, quanto mais pelejares, mais provarás o amor que tens a teu Deus e mais te alegrarás um dia com teu Bem-Amado numa felicidade e num êxtase que não poderão jamais terminar”.

 

            Uma diferença essencial entre a compreensão católica e a protestante acerca da Esperança é a questão da salvação. Os protestantes acham que basta erguer o braço e confessar Cristo como senhor e, com isto, granjearão o Reino dos Céus para si. Acaso não ouviram Nosso Senhor dizer: “nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ será salvo”? (Mt 1,7) No fundo o problema é que os protestantes não compreendem que a graça de Deus é, sim, conferida aos homens. Mas, para que se esta graça se torne eficaz, é preciso que haja correspondência a ela. Cristo, ao morrer na cruz, deu aos homens a possibilidade de salvar-se: ofereceu a todos a Misericórdia Divina (objetivamente falando). Contudo, os méritos de Sua paixão e Morte só serão aplicados àqueles que corresponderem à graça da Redenção por meio de uma vida virtuosa. É aí que a salvação objetiva se torna subjetiva: quando o sujeito a assume (na prática). Em outras palavras: só alcançará o Paraíso quem colaborar com o desejo salvífico de Deus Pai obedecendo aos mandamentos e buscando estar sempre em estado de graça. Como nós, católicos, não sabemos se estamos fazendo isto a contento, esperamos que a Misericórdia de Deus considere os nossos esforços. Os protestantes, pelo contrário, não esperam nada: porque, afinal, eles têm certeza de que estão no caminho certo; julgam ter alcançado a perfeição ao “aceitar Jesus”. Se houvesse um selo ISO para aqueles que atingiram a excelência em santidade, eles – os protestantes – andariam com uma plaquetinha nas costas na qual estaria escrito: “já ganhei!”. Argh! É muita pretensão. A virtude da esperança, tal como ensina a Igreja, não é de maneira nenhuma presunçosa.

            Uma outra diferença – bastante curiosa – entre a Doutrina da Igreja e a tese protestante está refletida na maneira como católicos e protestantes buscam a prosperidade. O católico reza a Deus – fonte de todos os dons – que lhe conceda seus favores e, se lhe aprouver, dê-lhe prosperidade. O católico espera que Deus atenda as suas preces, mas compreende, aceita e considera a possibilidade de que aquele pedido não esteja em conformidade com a vontade soberana de Deus. O protestante, porém, está seguro de que Deus lhe garantirá a prosperidade (que para ele é abundância de bens e riquezas). É como se Deus fosse escravo de seus desejos. Os protestantes acham que, se cumprirem suas obrigações para com Deus, Deus terá que cumprir [aquilo que eles julgam ser] Suas obrigações para com os Seus fiéis dizimistas. Isso está errado. Isto é querer barganhar com Deus. É querer brincar de “toma lá, dá cá” com o Criador de todas as coisas.

            A Esperança, para a Igreja, transcende este mundo. Em virtude disto, podemos afirmar que não queremos apenas uma nova terra: desejamos e “esperamos novos céus e nova terra” (2 Pd 3,13). Esperamos não só contar com os favores e graças do alto aqui neste mundo, mas também (e principalmente!) alcançar o Céu, nossa cara Pátria. O fim último da Esperança cristã é a salvação eterna, é desfrutar da Visão Beatífica e da Presença Santíssima de Deus. Assim sendo, no céu, os bem-aventurados não carecem mais desta virtude: eles já não esperam porque (enfim!) alcançaram. “O Esperado” agora se encontra diante deles!

 

            Em consonância com o que comentei nos dois parágrafos acima aquele site que mencionei no início deste artigo, comenta:

 

            “Existem dois tipos de pecados contra a virtude da Esperança: a presunção e o desespero.

            A presunção consiste em acharmos que podemos possuir a Deus, tanto pela graça (na vida terrena) quanto na vida eterna, sem a ajuda de Deus. Isso acontece muito em pessoas que levam uma vida longe de Deus, sem corrigir seus pecados, sem confissão e comunhão, e que acham que, apesar disso, Deus lhes dará a salvação.

            O desespero consiste em achar que nunca poderemos alcançar a vida eterna, ou que Deus nunca nos perdoará dos nossos pecados. Isso acontece com freqüência em pessoas que passam por muitos sofrimentos e não têm confiança no socorro de Deus. Quando sofremos muito, devemos nos voltar para Deus na oração, com firme certeza da ajuda de Deus que, infinitamente misericordioso, nos ajudará a nos levantar da queda do pecado”.

 

           Uma grande inimiga da Esperança é a impaciência. A tendência ao imediatismo – tão presente no mundo moderno – arrefece a nossa Esperança. Aqui no Nordeste é muito comum ouvir as pessoas repetirem um antigo ditado segundo o qual “quem não tem paciência, não se salva”. A mim parece muito sensata tal colocação. O cristão deve saber esperar o tempo de Deus. E, já que estamos na seara dos ditos populares, lembrei-me de um que o meu pai sempre repete: “as coisas só acontecem de acordo com o rígido e sábio calendário do Todo-Poderoso”. Nesse caso, a voz do povo é a voz de Deus porque a Escritura diz: “Existe um tempo para cada coisa, para tudo há um momento debaixo do céu”. [Ecl 1,3] 😉

            Rezemos um ato de Esperança:

            Meu Deus, espero com firme confiança, que me concederás, pelo mérito de Jesus Cristo, tua graça neste mundo e a felicidade eterna no outro, porque assim o prometeste e sempre és fiel a tuas promessas.

 

            “Spera in Deo, quoniam adhuc confitébor illi: salutáre vultus mei, et Deus meus” (“Espera em Deus, que uma vez mais o quero enaltecer, a Ele, salvação minha e meu Deus”) – Extraído das rubricas para celebração da Missa segundo a sua forma extraordinária.

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