Antes de abordarmos a primeira virtude desta série que pretendo desenvolver, julgo que seja necessário rever e aprofundar um pouco o conceito de virtude:

 

            “A virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não somente praticar atos bons, mas dar o melhor de si. Com todas as suas forças sensíveis e espirituais, a pessoa virtuosa tende ao bem, procura-o e escolhe-o na prática” (CIC 1803).

 

            Desta definição podemos inferir que a virtude não se confunde com um “ato virtuoso”. O ato virtuoso pode ser casual, a virtude, porém, é uma disposição habitual.  Vale também chamar a atenção para o emprego do termo disposição”. Ela nos transmite a idéia de que o homem virtuoso é, por conseguinte, livre: ele se dispõe, sem ser de modo algum coagido, a fazer o bem. Além disso, esta definição também faz descobrir qual é o fim e qual é a origem de todas as virtudes: o bem. Todas as virtudes estão ordenadas para o bem. A constância [firmeza] da sua decisão pelo bem marca a vida do homem virtuoso. Ele não oscila nem vacila quanto à sua opção pelo Belo, pelo Justo, pelo Bom e pelo Verdadeiro.

            A virtude não só permite que o homem se torne “bom por fora”, mas íntegro e reto em suas intenções. A virtude melhora o homem por dentro, de modo que os atos virtuosos que ele pratica são apenas conseqüência de sua vivência interior. O homem virtuoso transborda em bondade. O homem virtuoso tenciona ao bem, promovendo-o e realizando-o em todas as circunstâncias de sua vida.

            Na Summa Theologica Santo Tomás de Aquino dá uma definição quase poética de virtude: “A virtude chama-se uma ordem ou ordenação do amor, como aquilo ao que ela é relativa; pois, pela virtude o amor é ordenado em nós”.

            A virtude, portanto, segundo o Aquinate, tem a característica de “ordenar para o amor”. É ela, portanto, que nos liberta das “paixões desordenadas” (ou “instintos egoístas”, em algumas traduções) – tão combatidas por São Paulo em suas epístolas.

 

            Feitas estas considerações iniciais, passemos à abordagem específica da virtude da Fé:

            Antes de mais nada é preciso que se diga que – dentro da categorização clássica das virtudes – a se encontra entre as chamadas virtudes teologais. Estas, segundo o Pequeno Catecismo Católico (p. 166) “são virtudes sobrenaturais, infundidas por Deus na nossa alma”. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica complementa esta afirmação ao dizer que as virtudes teologais “têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus”. Distinguem-se portanto das virtudes humanas pelo objeto a que se referem.

            No Veritatis Splendor há um artigo bastante interessante sobre as virtudes morais e as virtude teologais. Recomendo a leitura.

            A respeito do “conceito” de dentro da Doutrina Católica podemos iniciar apresentando aquilo que a própria Sagrada Escritura nos coloca na Carta aos Hebreus: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). 

            Ainda percorrendo as páginas sagradas, com o auxílio do Dicionário Bíblico constante no programa Bíblia Clerus (disponível aqui), podemos afirmar que:

 

            No AT a fé é raramente mencionada (cf. Ha 2,4 e nota). Mas crer é a atitude característica do homem perante Deus. Ela implica numa adesão da inteligência em reconhecer a Deus em todas as suas manifestações de amor e suas exigências para com o seu povo. A atitude de Abraão é o modelo da verdadeira fé que salva (Ga 3,6): ele jogou a sua vida, confiando na Palavra de Deus (Gn 12,1-2 Gn 13,14-18 Ez 33,23-24 Si 44,19-21 Jn 8,56 Rm 4,1s; He 11,8-12).

 

            […]

 

            No NT acreditar é prestar fé à Palavra de Deus em Cristo (At 24,14 Lc 24,25-27); é obedecer a Deus (He 11,1s; Rm 1,5 10,16s; Rm 15,18 16,19 16,26 2Co 5,5s); é confiar nele (Mc 11,22-24 At 3,16 1Co 13,2); é converter-se, aceitando o Evangelho (1Tg 1,8-9 Rm 10,17 2Co 5,18s; At 3,12-16).

            Jesus exige fé em sua pessoa (Jn 6,29-40). O coração da fé é a obra salvífica de Cristo, sobretudo a sua morte e ressurreição (1Co 15,1-20 Rm 4,24 Rm 10,9).

            Paulo coloca a fé em Cristo como indispensável para a salvação (Rm 1,16). Mas quando opõe fé a obras, fala das obras da Lei mosaica e não dos frutos da fé cristã (Rm 4,13-25 Jl 3,1s; Ef 2,8-10 Mt 7,16-27 Jo 15,1-3 15,6-8 Tg 2,16-26).

            Alguns textos de primitivas profissões de fé: Lc 24,34; 1Co 15,3-5; 1Tg 4,4; 2Co 5,15; Rm 4,25; 6,4 6,9; Fp 2,6-11.

            A Igreja é a depositária da fé: Mt 16,16-19; 18,17s; Mt 28,20; Mc 16,15; Lc 22,31s; Jo 21,15-17; At 1,24s; At 15,7s; At 20,28; 1Co 1,10; 1Tm 6,20s; 2Tm 4,2-5; Tt 3,10s; 2Jo 1,10

           

            Além das conceituações bíblicas de , podemos tomar por orientação básica aquilo que nos ensina o Catecismo Romano: é a “virtude pela qual assentimos plenamente a tudo quanto nos foi revelado por Deus” (Catecismo de Trento, I, I, 1).

            Nestes tempos em que um sentimentalismo exacerbado instiga as pessoas a crer que a se resume à experiências emotivas e locuções interiores (supostas inspirações), creio que merece especial destaque o parágrafo 155 do Novo Catecismo, o qual afirma:

 

            §155 Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina: “Credere est actus intellectus assentientis veritati divinae ex imperio voluntatis a Deo motae per gratiam – Crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça”.

 

            Uma vez que só ao ser humano foram concedidas as faculdades da inteligência e da vontade, podemos afirmar (embora seja óbvio ululante) que *crer é um ato eminentemente humano*. Animais não têm fé [pensando bem, talvez seja útil relembrar isso, já que nos nossos dias há tanto gente querendo equiparar animais a seres humanos, ao passo que – contraditoriamente – tratam bebês humanos não nascidos como se fosse um bicho vil e asqueroso do qual devemos fazer tudo para nos livrar…].

 

            O Novo Catecismo relaciona, ainda, uma série de características da virtude da :

 

            É uma graça, um dom gratuito (§ 153e § 162)), é certa (§ 157), procura compreender (§ 158), não entra em conflito com a ciência (§ 159), deve ser livre (§ 160), é necessária à salvação (§ 161), é um ato pessoal (§ 166), é única (§172 a 175), é como que uma antecipação da glória vindoura, o “começo da vida eterna” (§ 163).

            De todas as afirmações do Catecismo acerca da , porém, creio que a que mais simples, mais peremptória e mais significativa seja a que consta no parágrafo 150: a é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus”. O termo “adesão pessoal” é deveras significativo. Ao utilizá-lo a Igreja deixa claro que a *não é uma realidade que eu construo*, mas um molde ao qual eu me adapto. Como nos contratos de adesão formalizados segundo o Direito Civil, aderir à é *aceitar* um conjunto de crenças (mais que isso: aceitar uma Pessoa!) do jeito que me é apresentado. não é, simplesmente, crer em algo, mas em Alguém. Eu não tenho o direito de opinar sobre O que é Imutável. Não tenho como melhorar aquilo (e Aquele) que é perfeito. Por isso, apenas adiro a Ele e a Sua Igreja. Eu, como o mais indigno de seus súditos, me coloco à Sua inteira disposição e dou total assentimento a quaisquer que sejam as Suas decisões a meu respeito. A , portanto, enquanto virtude, me “melhora” porque me aproxima do criador. não se confunde com Doutrina. Passa, sim, por uma adesão *a todos e a cada um* dos pontos doutrinários que constituem o arcabouço da Teologia Católica; contudo, é mais que isso: é Crer no Mestre, n’Aquele que ensina!

            Concluo com uma frase que, embora bíblica, têm sido muito evitada em nome do “politicamente correto” para agradar a hereges e descrentes:

 

“Sine fide impossibile est placere Deo” (He 11,6)

(Sem fé é impossível agradar a Deus)

 

 Pensem nisso!

Que Deus nos dê – cada dia mais – Fé!

Ouçamos, ainda, o alerta dado por São Josemaría Escrivá de Balaguer:

 

            “Alguns passam pela vida como por um túnel, e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé”. (Caminho, 575).

 

 

 

[P.S.: Por curiosidade, pesquisei sobre os Atos de Fé – que outrora eram ensinados nas aulas de Catecismo. Encontrei três (um aqui, outro aqui e outro aqui). Todos se parecem. Entretanto, cada um tem a sua peculiaridade quanto à linguagem utilizada. Comparem e vejam que interessante!]

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