“Em uma época em que movimentos missionários cristãos das mais variadas estirpes lançam campanhas de conversão de judeus, é importante conhecer as diferenças entre nós e os cristãos para termos claras as linhas vermelhas que separam cada religião”. (trecho do artigo intitulado “Jesus, é detalhe!”, disponível aqui neste link. Grifos meus).

 

             Ao me deparar com este artigo, fiquei profundamente irritado. A começar pelo título desaforado que puseram. Tenho certeza que se eu escrevesse que o Shabat era um detalhe (e, de fato, o Shabat é uma coisa irrelevante, sem nenhuma importância) seria taxado de anti-semita. Mas, como não são os cristãos que estão escrevendo, então pode…

            Bom, deixando um pouco de lado algumas discussões importantes suscitadas por este artigo dos judeus (como, por exemplo, a discussão sobre a cruzada anticristã que tem se instaurado na nossa sociedade), quero chamar a atenção para aquilo que está por trás do texto, bem como aquilo que se encontra nas suas entrelinhas.

            Percebi, através do tal artigo, que os judeus sabem definir com clareza qual é a medida e quais são as regras do seu relacionamento com as demais religiões (notadamente o cristianismo). Não vou julgar o mérito dos argumentos deles (porque é óbvio que eles estão redondamente enganados quanto a sua interpretação das escrituras), mas devo reconhecer que o modo como eles transmitem as suas convicções e defendem a sua essência ante a multiplicidade religiosa vigente, é admirável. Eles fazem apologética! Nós, católicos, infelizmente – por conta do maldito espírito do “politicamente correto” -, há muito abandonamos esta forma de debate. Os judeus sabem se relacionar porque têm a exata noção da sua identidade (da qual se orgulham bastante) e procuram defender, com unhas e dentes, aquilo que são os pilares da sua fé. Em resumo: eles sabem determinar até que ponto as coisas são discutíveis. Sabem quais são aquelas “verdades inegociáveis” das quais não se deve abrir mão para não correr o risco de falsear a fé.

            É inadmissível que os judeus [que – como dizia o Padre Antônio Vieira“têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés] enxerguem a importância de delinear a própria identidade e nós, católicos, não o percebamos!

            Não é preciso consultar o Ibope para saber que a maioria dos católicos não sabe “fazer ecumenismo”. Acham que ecumenismo é viver uma paz de cemitério em que cada um permanece no seu canto e, assim, ninguém incomoda ninguém.  É a proposta, e a conseqüência, do relativismo em voga: cada um fica com a “sua” verdade. Cada um fica com o “seu” Deus – fabricado sob encomenda – e, assim, cada um trilha o caminho que o próprio nariz aponta. É uma pena. Morreu, em muitas pessoas, o anseio por conhecer a verdade. Os conceitos de “falso” e “verdadeiro” foram relegados, exclusivamente, às provas de concurso… O “sim, sim; não, não” (Mt 5, 37) foi substituído por um “depende”…

            Estou convencido de que a origem de tanta confusão em torno do relacionamento com as outras religiões cristãs, está no fato de que nós, católicos, não sabemos quem somos. Perdemos muito da nossa identidade, e já não nos enxergamos mais como “uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa” (1 Pd 2,9). É como se tivéssemos deixado de ser um povo, para ser “um grupo religioso que tem uma visão diferente”. Os judeus, porém, não admitem que a unidade da fé ceda lugar à multiplicidade das opiniões.

            Ah se nós católicos fizéssemos o mesmo!

            Se soubéssemos que nenhum templo de outra religião é tão digno quanto o interior de nossas igrejas: porque nelas está Deus mesmo, em sua totalidade (corpo, sangue, alma e divindade)!

            Se soubéssemos que nenhum líder religioso de outra religião tem a autoridade de um sacerdote católico: porque este, unindo sua voz à Palavra d’Ele, traz ao altar o Filho de Deus.

            Se defendêssemos, ainda que ao custo da própria vida, a Mãe de Deus – tão vilipendiada pelos hereges e descrentes.

            É lamentável dizer isso, mas parece que alguns católicos estão precisando ouvir o Shemá, Israel: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor(Dt 6,4).