Detesto ter que admitir que há, na Igreja, um conflito entre a mentalidade tradicionalista e a progressista. Na verdade, com esses dois grupos, em si, não há problemas. O problema é o excesso. O problema resume-se aos rad-trads e aos modernistas. Ambas as mentalidades são nocivas, porque extremistas. Sabiamente diziam os Santos Padres: Virtus in medio (“a virtude está no meio”). Pena que muitas pessoas não buscam este equilíbrio. Tradicionalistas exagerados,  por não serem sensíveis às mudanças do mundo, tornam-se alienados:  passam a achar que a realidade é puramente filosófica e não material; arvoram-se em censores da Santa Sé como se todo documento ou publicação da Igreja devesse passar pelo crivo de suas análises. Pobres rad-trad’s! Por outro lado, progressistas exagerados acham que a Igreja “precisa se adaptar” ao tempo presente; acabam se conformando (se amoldando) ao mundo; acabam achando que as questões de fé podem ser decididas “democraticamente”; acabam caindo na heresia e no relativismo; acabam, enfim, aderindo ao modernismo (que é ateísmo disfarçado) e, não raro, cometem o pecado de apostasia. Pobres modernistas!

              Mais que defender os verdadeiros tradicionalistas, bem como os verdadeiros progressistas, quero aqui defender a virtude da Prudência: virtude esta que nos ajuda a conservar em nós o que é bom e a progredir no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. É ela – a Prudência – que nos permite viver um catolicismo sadio e equilibrado, isto é, desprovido de excessos (quaisquer que sejam eles). Creio que assim pensem os prudentes:

             Não somos inimigos do Concílio Vaticano II. Os rad-trad’s é que o são! Consideramo-lo válido e útil. Como válidos e úteis foram os Concílios de Trento,  de Nicéia, de Éfeso, etc. Todos tiveram a sua importância. Não significa que uns sejam melhores que outros. Quem pensa assim são os modernistas! Eles acham que o Vaticano II é ponto de partida para tudo – como se fosse mais que os concílios anteriores; pior: é como se o Vaticano II revogasse os anteriores! Isto nós não aceitamos. A Suprema Autoridade da Igreja que redigiu e aprovou a Lumen Gentium, por ex., é a mesma que compôs cada um dos anátemas do Concílio de Trento. Ambas as coisas são válidas e não contraditórias. 

            Quando chamamos o padre de “Reverendíssimo”, o bispo de “Excelência”, os Cardeais de “Eminência” e o Santo Padre de “Santidade” não estamos querendo, simplesmente, fazer “discurso bonito” para impressionar, muito menos adular ninguém. Estamos apenas tratando-os como merecem; em plena conformidade com a dignidade e a responsabilidade que assumiram como servos do Deus Altíssimo. Agir com o devido decoro é uma questão de educação. Quem age e fala sem a mínima noção de respeito ou é modernista ou é rad-trad! Como fautores do processo de laicização do clero e clericalização do laicato, dispensam o tratamento devido aos autênticos ministros de Deus.

            Quando gostamos de ver os padres vestidos de batina, não estamos dizendo que a eles seja proibido usar outro tipo de veste. Não estamos querendo que assumam e conservem uma aparência que não corresponde à sua vida de sacerdote. Sabemos que a batina não é sinal de ostentação, mas de pertença a Deus. Sabemos que “o hábito não faz o monge, mas o distingue de longe”. Cremos firmemente na boa intenção dos sacerdotes que usam batina, isto é, acreditamos que usar uma batina não significa usar uma máscara: o padre que usa as vestes clericais não está, necessariamente, querendo com elas esconder uma vida de pecado. O problema é que nós somos mais ousados: queremos padres santos e de batina (por que não?)!

            Quando preferimos receber a comunhão diretamente na boca não estamos discordando de que ela possa ser distribuída na mão dos fiéis. A autoridade da Igreja assim o permitiu e declarou e nós acatamos tal decisão. Nós não achamos que a boca (muitas vezes maledicente e impura) é mais digna que a mão para receber Nosso Senhor. A questão não é essa. Não estamos olhando a coisa sob a ótica da nossa dignidade, mas da dignidade d’Ele! Sabemos que nem a boca, nem a mão, nem parte alguma do nosso corpo é digna de receber o Santíssimo Corpo do Filho de Deus. Apenas achamos (dentro do campo das discordâncias legítimas) que a atitude mais reverente para receber a Sagrada Comunhão é, como fizeram um sem-número de santos, diretamente na boca e, se possível, de joelhos. Que mal há nisso? Donde procede que, com tal atitude, queiramos demonstrar que somos mais piedosos que outros?

            Não somos “rubricistas”. Ao contrário dos rad-trad’s. Não somos dotados de um preciosismo literário que só enxerga a letra e não o espírito dela. Pelo contrário – queremos mais! – queremos que a letra e o espírito unam-se numa mesma finalidade: o louvor de Deus Onipotente. Buscamos obedecer à Igreja. Ao contrário dos modernistas, que – na sua jactância – acham que são mais que a Esposa de Cristo, e, por isso, têm o direito de sair por aí compondo ou editando orações eucarísticas (por ex.) a seu bel-prazer, desde que se mantenha o “espírito da letra”.  Não fazemos acomchambrado litúrgico para justificar os nossos excessos, nem tampouco rejeitamos o Missal de Paulo VI. Aceitamos tudo tal e qual a Igreja nos coloca.

            Não somos “espiritualóides”. Sabemos que a fé não é pregada a anjos (que são só espírito), mas a homens – de carne e osso. Não é porque falamos em “almas” que a nossa pregação é “desencarnada”. Os modernistas é que – refugiando-se numa linguagem sentimentalista – querem fazer com que a emoção sobrepuje a razão. Querem dar mais importância às experiências espirituais que às experiências de vida e de fé. Esquecem-se eles de que “a Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade (Fides et Ratio).  Esquecem-se eles da argüição de Nosso Senhor no Evangelho: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8, 36). Esquecem-se eles de que São João Bosco não tinha como lema “dai-me almas (com corpos)”, mas simplesmente “dai-me almas”. Sabemos que é impossível que uma alma amiga de Deus seja humanamente desequilibrada: quem está perto de Deus consegue driblar toda e qualquer situação fática de ordem material. Mas também não pensamos como os rad-trad’s que muitas vezes, num acesso de estoicismo, querem arrancar dos homens o componente emocional: as paixões, as emoções, etc. Sabemos que os sentimentos fazem parte de nós, mas devemos discernir bem quais são eles, bem como dominar os que podem nos conduzir à perdição.

            Não nos sentimos “donos da Verdade”. Muito pelo contrário: sabemos que a custódia da Verdade é de responsabilidade da Igreja Católica Apostólica Romana, nossa Mãe, aos pés de quem desejamos aprender cada vez mais. Quem pensa diferente ou é modernista ou é rad-trad! Eles, com a sua teologia barata, querem superar a Sã Doutrina. Preferimos seguir os pronunciamentos do Santo Padre e do Magistério Autêntico da Igreja a aderir à teologia barata de um “Zé ninguém“. As ideologias passam; o ensino catequético da Igreja, porém, permanece.

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