Há alguns dias – quando da nomeação de D. Antônio Fernando Saburido, OSB, para a Arquidiocese de Olinda e Recife, em substituição a D. José Cardoso Sobrinho, O. Carm, – pude perceber o quanto de, usando os termos do Pe. Paulo Ricardo, “desonestidade intelectual” há naqueles que fazem a mídia secular no nosso país.

            Para ilustrar: um dos jornalecos aqui de Recife (não lembro exatamente qual foi) publicou que Dom José iria “se refugiar” num convento carmelita do interior do Estado. Ora, no meio jornalístico, a escolha dos termos é muito bem estudada, é premeditada. O uso de um termo dessa natureza implica que – entre as muitas expressões que poderiam ter sido usadas para dar a notícia – a palavra que mais se encaixava nos propósitos dos redatores era essa: “se refugiou”. Por quê? Porque na cabeça dessa gente o arcebispo, se não é um criminoso, merece ser tratado como tal. Quando leio esse tipo de materiazinha, sinto-me obrigado a concordar com o parecer do Supremo Tribunal Federal: para escrever besteira não é preciso diploma!…

            Contudo, não é esta a motivação principal deste post. Gostaria de fazer uma reflexão sobre o papel dos jornalistas; sobre o compromisso ético que eles, em tese, deveriam assumir; e sobre o que está por trás da manipulação da informação no nosso país. Tudo isso, embora possamos muitas vezes não nos dar conta, envolve uma questão ética e moral muito séria. Lidar com a informação exige uma conduta moral íntegra.

            Dentro dessa perspectiva, o primeiro ponto que eu destacaria seria a questão da VERDADE. Parece-me que os jornalistas de hoje em dia não estão nem aí para a divulgação da verdade. Estão pouco se lixando para se a notícia que vão publicar é veraz ou não. Não se dão conta de quão nobre é o ofício de ser portadores e mensageiros da verdade. Infelizmente parece que a lógica da verdade deu lugar à lógica do comércio de notícias: importa vender, e nada mais! As convicções morais de alguns profissionais da mídia parecem ter ido por água a baixo. Não se tem mais o interesse, puro e simples, de narrar os fatos tal e qual eles aconteceram (ainda que a fidelidade perfeita aos acontecimentos seja uma coisa muito difícil). Não se vê nem o interesse nem a boa-vontade de apurar a informação para fornecê-la de modo afinado à verdade.

            O segundo ponto é a CARIDADE. Hoje, muitos “fazedores de matéria” não se dão conta de que as notícias que publicam têm **seres humanos** como protagonistas. Exemplo: No caso Isabella Nardone, quantos jornalistas estavam de fato preocupados em colaborar na elucidação do crime descobrindo a verdade e fazendo justiça? Nenhum! Queriam ibope, e só. O respeito para com a memória da menina falecida, a benedicência para com aqueles que – embora fossem fortemente suspeitos – ainda não haviam sido julgados, e muitas outras coisas que permeiam o caso, demonstram a  grande falta de caridade cometida por parte daqueles que trouxeram os fatos ao conhecimento do grande público. O mesmo aconteceu no caso da adolescente Eloá. Também não havia ninguém interessado na vida da garota. A preocupação era uma só: despertar a curiosidade da população acerca do porvir (e, desse modo, garantir ibope). O jornalismo, sobretudo o televisivo, conseguiu a proeza de produzir sensacionalismo em série! Sempre tem algum escândalo que choca a população de tal modo que aquela fica sendo “a notícia da vez”. Daí, quando as pessoas (telespectadores e leitores) estão naquela fase de “não agüento mais esse assunto”, troca-se de roupa, isto é, inventam outro acontecimento chocante que prenda a atenção da população.

            O problema é que esse modus operandi tem um custo muito alto: sacrifica-se a verdade em prol da audiência; falta-se com a caridade desde que se atraia o público; prescinde-se da justiça para produzir notícia. É, então, que cabe a reflexão: onde está a ética dos jornalistas? Isso é curioso: tem jornalista que se enxerga acima da ética! Todos os profissionais têm que agir com integridade obedecendo a determinadas normas de conduta que garantem um exercício sadio da profissão. “Os jornalistas, porém, estão imunes a isso”, pensam eles. Essa ideologia, não fosse trágica, era cômica. É esse tipo de pensamente “torto” que leva muitos a usarem a liberdade de expressão como desculpa para a mentira. Procedem de modo falso, cretino, mentiroso, tendencioso, libertino… E, mesmo assim, se forem criticados, defendem-se como um ouriço: “estou sendo tolhido”. Francamente!  Talvez isso seja reflexo da censura demasiada que sofreram nos tempos da ditadura. Mesmo assim, não se justifica que os traumas decorrentes do regime militar não tenham sido sanados ainda…

            Aqui, faço uma ressalva: não estou dizendo que os jornalistas não possam opinar sobre as matérias que escrevem. Eles podem… se forem colunistas ou articulistas. Do contrário, acho um abuso. Ora, já imaginou pegar um jornal para ler a respeito de como andam as relações comerciais da China com o exterior e deparar-se com uma apologia ao comunismo vigente naquele país? “Ah, deve-se levar em consideração que o jornalista que escreveu a matéria era ‘vermelho’“? Negativo. Se ele gosta de Marx e sua trupe, problema dele!  Se o jornalista quer expor suas convicções pessoais – que estão para além dos *fatos* que acontecem no mundo – que o façam no lugar próprio para isso: numa coluna, num livro, num artigo, num post de blog, etc. O que não acho correto é que o façam na seção de “Economia” – aonde eu vou esperando encontrar notícias e não achismos!

            Tem muito jornalista que não se contenta em relatar a história – com verdade e honestidade; querem, eles mesmos, escrever a história, como gostariam que ela acontecesse. E é aí que eu volto ao caso Dom José: tem muito jornalistazinho de quinta categoria querendo que Dom José “saísse por baixo”, que partisse da arquidiocese como um fugitivo, à surdina. Mas, para sua infelicidade e desespero, D. José sai não como vilão, mas como herói. Não de cabeça baixa, mas erguida. Não se despede da Cátedra de Olinda e Recife com a sensação de que “poderia ter feito diferente”, mas com a alegria daqueles que sabem que fizeram o máximo e, portanto, trazem no coração a satisfação pelo dever cumprido. É assim que ele sai. Pena que nenhum jornalista teve a audácia de mostrar essa verdade. É uma pena que a mídia no nosso país, tem informado menos e deformado mais…

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