Estava planejando postar esta entrevista em, no máximo, 3 partes; contudo, não será possível: é muito extensa! Então adianto mais duas perguntas feitas ao senhor Arcebispo pelo jornalista do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio. Tratam da questão da “opção preferencial pelos pobres”, e do termo “Igreja do povo”. Esta última argüição feita a Dom José é de <<fundamental importância>> para que nós, católicos, [re]formulemos a nossa visão a respeito da Igreja. São palavras realmente esclarecedoras!

 

            JC: O senhor foi apresentado perante a opinião pública como inimigo dos pobres… aceita a “opção preferencial pelos pobres”?

             Dom José: Uma das ofensas mais graves que se pode dirigir a um bispo é acusá-lo de ser inimigo dos pobres. No dia da minha sagração episcopal, jurei solenemente sobre o túmulo do Apóstolo Pedro, “mostrar-me sempre afável e misericordioso para com os pobres e peregrinos e todos os necessitados” (Ritual da sagração). Tanto na primeira diocese que me foi confiada, como nesta Arquidiocese, tenho procurado cumprir fielmente este grave dever de consciência. Ao chegar aqui, recomendei imediatamente aos meus assessores que dispensassem sempre a todos aqueles que nos procurassem um tratamento cordial e caridoso. Esta tem sido sempre minha atitude pessoal. Tenho acolhido sem qualquer protocolo as inúmeras pessoas que me procuram. Na mesma sala de audiências tenho recebido, indistintamente, pobre, ricos, ministros e governantes, e, habitualmente, os irmãos carentes do “Banco da Providência”. A este mesmo “Banco” – que é o centro arquidiocesano de atendimento aos pobres e de promoção humana – já encaminhei através de um grupo de amigos do Canadá. Tenho feito tudo isso sem alarde, sem convocar a televisão para registrar o evento. A acusação a que você se refere teve origem em 1988, quando a presidência do Regional Nordeste II aprovou a exoneração de uma equipe que estava encarregada da Pastoral Rural. Quando o assunto foi levado aos jornais com uma versão distorcida, publiquei uma nota declarando à opinião pública que os motivos daquela exoneração eram de ordem disciplinar, isto é, irregularidades na administração financeira, independência na elaboração e execução de projetos, etc. Então meus opositores se encarregaram de divulgar, nacional e internacionalmente, aquela versão falsa e inverossímil de que eu não aceito a opção pelos pobres e teria destituído aquelas pessoas precisamente porque estavam engajadas nas atividades de defesa dos pobres. O resultado desta campanha difamatória foi uma verdadeira avalanche de mensagens de protestos provenientes do Brasil e de vários outros países. Os responsáveis por esta infâmia haverão de prestar contas a Deus. Nenhuma pessoa de bom senso haverá de acreditar que alguém foi punido porque estava defendendo os pobres ou simplesmente porque era fiel aos apelos do Vaticano II, de Medellín e Puebla. Repito ainda o que já declarei em mais de uma ocasião: a defesa da dignidade humana dos deserdados, dos oprimidos e perseguidos, não é e não pode ser uma mera “opção preferencial”; é dever grave de justiça que pesa sobre toda consciência humana e cristã; é fundamental empenho da nossa Arquidiocese.

 

            JC: Hoje se fala muito em diversos modelos de Igreja. Qual o modelo que o senhor aceita? Por que o senhor não aceita a Igreja que, como se diz na atualidade, vem do povo?

             Dom José: Hoje se fala muito de modelos de Igreja. É uma expressão infeliz. A Igreja é um mistério de graça e liberdade. A palavra “modelo” designa uma realidade física necessária. Ora, a Igreja não é uma realidade natural, é um mistério histórico-salvífico e como tal se situa num horizonte de liberdade onde entram tantos fatores aleatórios, desde a liberdade do Espírito de Deus agindo na história e na liberdade do homem respondendo livremente os apelos da graça, até a riqueza imensa das conjunturas imprevisíveis e dos choques das culturas com as variações quase ilimitadas das aculturações que marcam a história das civilizações nas quais se encarnou a Igreja por dois mil anos. Seria mais acertado usar a metáfora “estilo” em vez de “modelo”. A expressão “Igreja popular”, que “nasce do povo”, foi criticada pela primeira vez pelo Papa João Paulo II, no discurso inaugural de Puebla: “Percebe-se um certo mal-estar com respeito à interpretação da natureza e missão da Igreja institucional ou oficial, qualificada como alienante, à qual se oporia outra Igreja popular, que nasce do povo e se concretiza nos pobres. Esta concepção de Igreja é ideológica e fruto dos magistérios paralelos”, disse o Papa. Os bispos de Puebla retomaram e aprofundaram a questão. O Documento de Puebla distingue dois sentidos da expressão “Igreja que nasce do povo”. O problema da Igreja popular, que nasce do povo, apresenta diversos aspectos. Se se entende Igreja popular como aquela que procura encarnar-se nos meios populares do nosso Continente e que, por isso mesmo, surge da resposta de fé que os grupos do povo dão ao Senhor, evita-se o grande obstáculo: a negação da verdade fundamental, que ensina que a Igreja sempre nasce de uma primeira iniciativa que “vem do Alto”, isto é, do Espírito Santo. Mesmo assim esta expressão é pouco feliz. Muitas vezes a Igreja popular aparece como distinta de outra identificada como a Igreja “oficial” acusada de “alienante”. Isso implicaria uma divisão no interior da Igreja e uma negação inaceitável da função da hierarquia. Tais posições, de acordo, com João Paulo II, poderiam ser inspiradas por conhecidos condicionamentos ideológicos.

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