Caríssimos, essa é a segunda parte da entrevista feita por um jornalista do Jornal do Commercio com D. José Cardoso Sobrinho, Arcebispo de Olinda e Recife, em 1990. Desta feita os destaques são para o esclarecimento dos  temas polêmicos da época: fechamento do Instituo Teológico do Recife (ITER), o caso do Padre Reginaldo Veloso (já entrevistado por mim aqui), e outras situações próprias daquele momento da vida da Igreja em Olinda e Recife. Creio que seja importante conhecer a história tal como ela ocorreu, e não como contam uns e outros…

 

            JC: O senhor poderia citar um exemplo de versões que foram passadas aos jornais e que não correspondem à verdade?

             Dom José: O caso mais clamoroso é o da invasão do Palácio dos Manguinhos. Uma típica invasão de domicílio. Veja você que, na hora do almoço, eu sou surpreendido por um grupo de pessoas arrogantes, que chegaram de surpresa e foram logo avisando que chegaram para ficar. Iam acampar no Palácio. Em cada uma das portas do prédio, sentaram três homens ao chão. Eu tentei dialogar e não consegui. O pessoal da casa, que trabalha comigo, foi insultado e agredido com palavrões. O objetivo dos invasores, que usavam a mesma arma de chantagem usada por terroristas e seqüestradores, era coagir o Arcebispo a revogar uma decisão tomada (a transferência de um padre). Como a minha casa, o meu domicílio foi ocupado pela força, eu tive que pedir à polícia que retirasse os invasores. A versão da então diretoria da Comissão de Justiça e Paz, passada para o mundo inteiro, é falsa e caluniosa. Diz que “um grupo de humildes camponeses que desejava apenas falar com o Arcebispo foi repelido pela Polícia”. Essa versão – infamante, falsa, caluniosa – foi mandada, através de circular, para várias partes do mundo, acrescentando que “o Arcebispo não gosta de pobres”. Isso é uma mentira, uma indignidade. Tenho recebido cartas de religiosos, de leigos do mundo inteiro, protestando contra a minha suposta atitude, baseando-se na informação mentirosa e distorcida que a antiga diretoria da Comissão de Justiça e Paz se encarregou de divulgar pelo mundo.

 

            JC: Que medidas o senhor tomou contra a Comissão?

             Dom José: Destituí a sua diretoria. Um órgão da Arquidiocese, que deveria atuar sob responsabilidade do Arcebispo, não pode trabalhar contra o Arcebsipo. É como se, no seu jornal, houvesse um grupo trabalhando contra a diretoria da empresa. É uma inversão de valores. A Comissão de Justiça e Paz tem por objetivo expor, defender e ilustrar a doutrina social da Igreja e a aplicação prática dessa doutrina na defesa dos direitos humanos. A antiga diretoria estava muito mais preocupada em fazer política partidária.

 

            JC: Por falar em política partidária, houve um engajamento muito grande da ala progressista do clero nas últimas eleições. Como o senhor viu isso?

             Dom José: Atribui-se a João XXIII uma frase que diz o seguinte: “Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere”. Ou seja, “ver tudo, dissimular muito, corrigir pouco”. Houve realmente, um envolvimento político-partidário muito grande por parte de padres, freiras, religiosos nessas últimas eleições. Na eleição anterior, os Bispos de Pernambuco redigiram um documento, assinado por unanimidade, no qual eram citadas fontes da Igreja, da CNBB, de Puebla, etc. proibindo aos padres o envolvimento político-partidário. Nas últimas eleições, para escolha do Presidente da República, o decreto foi emitido novamente. Mas, muitos desobedeceram a esse Decreto. E o que fez o Arcebispo? Tolerou. Fechou os olhos. Seguiu o conselho de João XXIII. Não é possível nem é prudente corrigir sempre todos os erros. Muitas vezes é melhor tolerar. Se eu fosse corrigir todos os erros dos quais tenho conhecimento a vida se tornaria impossível. Mas houve um forte envolvimento político-partidário por parte de padres, freiras e agentes pastorais nas últimas eleições.

 

            JC: Dom José, atribuem também ao senhor a responsabilidade pelo fechamento do Seminário Regional Nordeste II (SERENE) e do Instituto Teológico do Recife (ITER). É verdade que a decisão do fechamento foi sua?

             Dom José: Essa é outra história parecida com aquela dos camponeses. A primeira visita apostólica recebida pelas duas instituições data de 1981 e foi feita pelo bispo Dom Oscar Scheid. Esses visitadores são uma espécie de auditores, designados diretamente pelo Vaticano para ver como funcionam suas instituições pelo mundo. Pois bem, já em 1981 – quando eu sequer sonhava em vir a ser um dia o Arcebispo de Olinda e Recife – o visitador dom Oscar Scheid mostrava preocupação com o Serene II. Em 1986, Roma enviou uma carta ao Regional Nordeste II. Essa carta, remetida pela Congregação da Educação Católica, depois de descrever o que o Concílio entende por Seminário Maior, convida os bispos a instituir um Seminário Maior propriamente dito e diz: “Nutrimos viva esperança de que o Serene II se converta dentro de pouco tempo num centro de formação eclesial segundo o Concílio Vaticano II”. Em novembro daquele ano, 1986, foi realizada uma Assembléia Extraordinária dos Bispos do Nordeste II, no Seminário de Olinda, com a presença de 18 bispos, para tratar do assunto mencionado na carta enviada pela Santa Sé. Em Março de 1988 foi celebrada outra Assembléia dos Bispos, em Lagoa Seca, diocese de Campina Grande, na qual, por unanimidade, os Bispos declararam que estavam dispostos a acatar qualquer decisão da Santa Sé, a respeito do Serene e do ITER. No segundo semestre de 1988, foi realizada nova visita apostólica, pelo Arcebispo Coadjutor de Belém do Pará, dom Vicente Joaquim Zico. O relatório do visitador à Santa Sé foi sigiloso. Em julho de 1989, as principais autoridades da Congregação da Educação Católica vieram à Brasília e realizaram um encontro de dois dias, na sede da CNBB nacional, com todos os visitadores dos Seminários no Brasil. Os assuntos tratados nesse encontro permaneceram em sigilo. Em 12 de agosto de 1989, a Congregação da Educação Católica expediu documento no qual se determina o fechamento do ITER e do Serene II. Assim, não se pode atribuir ao Arcebispo de Olinda e Recife a responsabilidade pelo fechamento das duas instituições.

 

            JC: A decisão não foi do senhor, foi da Santa Sé. Mas, o senhor concorda com a decisão?

             Dom José: Sim, concordo. Demonstrei meu pensamento a esse respeito em 1986, ou seja, três anos antes do fechamento, quando retirei os alunos da Arquidiocese de ambas as instituições e reabri o Seminário de Olinda.

 

            JC: E o problema da Igreja do Morro da Conceição? Como está sendo conduzido o caso do Padre Reginaldo Veloso?

             Dom José: O padre Reginaldo se encontra entre aqueles que citei no início da entrevista. Foi um dos primeiros a ser convidado pelo Arcebispo para um colóquio aqui na Arquidiocese. Conversamos reservadamente sobre os problemas de sua Igreja. Mas o padre Reginaldo é daqueles que escrevem ao seu arcebispo através dos jornais. Ele me envia uma carta e os leitores dos jornais têm conhecimento do teor dessa carta primeiro do que eu, que sou o destinatário. E isso eu não posso aceitar. Aliás, no momento está acontecendo um fenômeno anômalo em relação à Igreja do Morro da Conceição. Um grupo de integrantes do Conselho Paroquial apossou-se da chave da Igreja e não quer permitir a posse do novo vigário. Eu poderia invocar a lei para reintegração de posse. Não o fiz ainda porque não quero acirrar ânimos.