Desde que escrevi a carta aberta ao Padre Fábio de Melo, tenho me impressionado com os comentários de algumas pessoas. A argumentação que mais me deixa estupefato é a que pretende partir de um testemunho positivo (em favor do Pe. Fábio), para tentar desmontar uma verdade objetiva demonstrada (no caso, a incompatibilidade das declarações do reverendo em relação todo um cabedal de ensinamentos católicos). É a velha tentativa de abonar o mal com bem; tentar fazer com que as coisas erradas se tornem certas porque ‘gostamos das coisas como estão’, porque ‘ele mudou minha vida e a vida da minha família, porque ‘ele está fazendo um excelente trabalho’, etc.; A meu ver isso reflete o desejo de fazer vista grossa ao erro quando nos é conveniente. O que algumas pessoas parecem fazer questão de não entender é que por mais que todos os testemunhos positivos sejam verdadeiros, e por mais que haja inúmeros “bons frutos” produzidos pelo Pe. Fábio, isto não o isenta de errar; não o desobriga de desculpar-se (quando couberem desculpas); e, por fim, não o abona – de modo algum – do testemunho negativo que, em algumas ocasiões, ele deu.

            A questão fundamental é entender a moralidade dos atos segundo a doutrina católica. Compreender que um mal – por mais que quem o produza esteja imbuído de boas intenções – não pode se converte em bem apenas em virtude da índole de quem o praticou. Padre Fábio, como professor de Teologia, seguramente conhece esse princípio da moral católica. E, ao contrário de alguns de seus fã[nático]s, jamais agiria, nem pensaria, em contradição com este ensinamento tão caro aos Padres da Igreja. Além disso, jamais seria postura sua inventar desculpas para justificar seus erros. Se ‘errar é humano’, e ele canta “sou humano demais”, então é natural que também ele, mesmo sendo sacerdote, erre.

            Não quero aqui combater cada um das críticas que me foram feitas por tentar, no dizer de alguns, “converter um sacerdote”. Entretanto, as críticas – sempre enriquecedoras e bem-vindas, neste blog – me levaram a um outro tipo de reflexão: Qual a real capacidade do ser humano de diferenciar o certo do errado? Até que ponto temos o dever de apontar o erro? Com qual objetivo devemos proceder à correção fraterna? E quando o “corrigido” e o “corretor” não estão num mesmo nível dentro da hierarquia da Igreja? É-nos permitido fazer juízo das ações de outrem? Se é, como julgar o próximo sem, contudo, condená-lo? E como condenar o erro sendo misericordioso com a pessoa que o cometeu? São questões muito importantes para a nossa vida cristã (sobretudo para a condução dos nossos relacionamentos dentro da própria Igreja). Não pretendo dar a resposta a todas estas perguntas (mesmo porque, algumas dessas respostas eu não saberia dar de maneira precisa), mas gostaria que os meus caros leitores parassem um pouco para pensar nelas.

            Depreendi – de alguns comentários feitos neste blog – que muitas pessoas alegam que todos estão sujeitos a cometer erros (o que é verdade); O problema é que a este tipo de comentário normalmente se segue uma distorção lógica inaceitável: “se todos erram, então ninguém tem envergadura moral par corrigir quem quer que seja”; afinal, “é só mais um erro de percalço”, “poderia acontecer com qualquer um”, “é natural”, “vamos deixar para lá”; de modo algum isto se coaduna com a postura cristã perante o erro! Provo:

 

            “(…) pela correção fraterna freqüentemente se perturba a caridade e a paz, segundo Terêncio: A verdade gera o ódio

Ademais, no preenchimento do preceito da caridade, devemos confirmar a Deus, segundo Ef V, 1: Sede imitadores de Deus, como seus filhos caríssimos. Entretanto, como se diz em Prov III, 12: Deus ama aqueles que repreende. Logo, como estamos unidos a partir do preceito do Senhor de amar, parece que, a partir do preceito, devemos corrigir os irmãos.

Além disso, em Ecl. XVII, 12, diz-se que Deus ordenou a cada um cuidar do próximo. Logo, [correção fraterna] está subordinada ao preceito, a fim de que o homem tenha à frente o cuidado para a salvação do próximo, corrigindo-o”.

 

Fonte: AQUINO, Santo Tomás de. Apostolado Veritatis Splendor: SOBRE A CORREÇÃO FRATERNA – 1ª PARTE – OBJEÇÕES. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1987. Desde 08/09/2003.

 

 

            “A prática da correção fraterna – que tem raiz evangélica – é uma prova de carinho sobrenatural e de confiança. Agradece-a quando a receberes, e não deixes de praticá-la com aqueles com quem convives”. (São Josemaría Escrivá, in: Forja, nº. 566).

 

            Outra coisa que pude compreender, a partir de alguns comentários, é que – para alguns – o diálogo saudável e bem construído perdeu totalmente o seu valor. Se alguém tenta resolver algo conversando, imediatamente é taxado de excessivamente teórico. Algo do tipo: se seu filho é problemático, ou você dá uma surra nele e o expulsa de casa, ou o deixa agir irresponsavelmente e se adapta a ele; conversar não vale. Tem coisa mais absurda que isso? Tentar dialogar com alguém sobre um erro cometido passou a ser uma manifestação de “rebeldia sem causa que parte de pessoas desprendidas da realidade humana”! Só vale o fazer; o dialogar foi esquecido. Parece-me que algumas pessoas se esqueceram de que quem age sem antes refletir são os animais: porque agem por instinto e não por intelecção. O discutir, o argumentar é uma parte prévia essencial que faz parte de todos os relacionamentos humanos.

            Ainda em meio a tantos comentários, vi que havia alguns agnósticos. Gente que acha que a verdade existe, mas não está ao alcance dos homens. Ou seja: eu posso estar errado e você certo; mas como nós não podemos provar nenhuma coisa nem outra, então os dois estão certos, já que estão seguindo a sua consciência. Aqui cabe uma magnífica colocação do Papa João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor, a respeito da consciência reta e da consciência errônea:

 

            “Nunca é aceitável confundir um erro «subjetivo» acerca do bem moral com a verdade «objetiva», racionalmente proposta ao homem em virtude do seu fim, nem equiparar o valor moral do ato cumprido com uma consciência verdadeira e reta, àquele realizado seguindo o juízo de uma consciência errônea. O mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou de um erro de juízo não culpável, pode não ser imputado à pessoa que o realiza; mas, também neste caso, aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face à verdade do bem”. (Encíclica Veritatis Splendor, nº. 63).

 

            Por esta declaração do Papa João Paulo II, pode-se ver que há consciências e consciências… Acontece que: uma (a reta) conta com a verdade, ou seja, está certa; e a outra, sendo errônea, está objetivamente equivocada. Em resumo: certo e errado são coisas distintas, mas ambas existem! E é obrigação moral de quem está certo corrigir quem está errado. Do contrário, seria o caos. Imaginem, se os pais não puderem mais corrigir os filhos quando estes enveredarem pelas sendas do erro, então de que servem os pais? Se a responsabilidade pela educação e orientação moral dos filhos for mitigada, ou mesmo eliminada, com a desculpa de que apontar o erro dos filhos seria exercer um juízo temerário, então – repito – de que servem os pais? Como nós, cristãos, queremos chegar juntos ao reino dos céus se a cada um é permitido seguir o caminho que desejar? Todos os caminhos levam a Deus? Acaso o caminho apertado e o espaçoso, aos quais se refere Jesus no evangelho (Mt 7,13), conduzem – ambos – ao mesmo lugar? Se ninguém pode julgar ninguém, para quê a Lei? Deus já a conhece plenamente (porque, afinal, ela é a expressão da sua vontade), e os homens – pobres homens! – não podem fazer uso dela como parâmetro moral de suas atitudes. Então, repito, para que a Lei?

            É coisa importantíssima sempre estarmos revisando os nossos conceitos morais para não cairmos na idéia distorcida de que a moral está sujeita a nossa interpretação e conveniência. Aos que se sentem inquietos com o uso da palavra “verdade”, recomendo refletir sobre a definição desta dada por São Tomás de Aquino: “A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência”. A perguntas inteligentes, se deve dar respostas inteligentes. Caso contrário, não haverá “conformidade da coisa com a inteligência” e a verdade acabará por ser sacrificada…         

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