Há alguns dias participei de uma breve discussão sobre “o escândalo”. Resolvi então compilar e aprofundar um pouco daquela rica conversa em que se divagou sobre esta realidade tão presente no nosso dia a dia.

            Provar que o escândalo é uma coisa presente na vida da sociedade não é das coisas mais difíceis. Os escândalos acontecem em todos os ambientes. O curioso é que às vezes a proporção do escândalo é avaliada mais pelo grau de “idoneidade” (presumida) das pessoas envolvidas do que pela gravidade mesma do ato escandaloso. Por exemplo: se um adolescente rebelde entra em uma loja de gravatas e furta algumas peças, isso não causa o mesmo impacto que se fosse um rabino judeu… O crime do rabino é mais grave que o do garoto, porque do rabino se esperava mais equilíbrio e integridade. Na medida em que ele não corresponde a essa expectativa, este seu comportamento se torna mais escandaloso que o do adolescente. O elemento “surpresa” faz parte do escândalo. Escandaliza-se é sempre surpreender-se. E nós nos surpreendemos com aquilo que é inusitado, imprevisível, improvável, inesperado: como, por exemplo, ver um rabino furtando gravatas…

            O complicado é que, numa sociedade em crise moral como a nossa, muitas vezes nos acostumamos ao escândalo. Aquilo que outrora nos causava repulsa, hoje parece ser ‘a coisa mais natural do mundo’. É o caso das demonstrações públicas de afeto entre homossexuais. Ver dois homens se beijando é uma coisa escandalosa (porque de um homem se espera que beije uma mulher), mas que, em virtude da decadência da decência (perdoem-me a cacofonia), “virou normal” para a maior parte das pessoas.

            O vocábulo escândalo deriva do grego skandalon, que significa obstáculo. Não sei exatamente qual a relação do termo “obstáculo” com o emprego atual, em português, da palavra escândalo. Todavia, consigo entrever uma relação com a etimologia deste verbete quando penso nas conseqüências que, normalmente, derivam do escândalo: ele cria obstáculos, verdadeiros entraves aos relacionamentos. Se, a título de exemplo, alguém descobrir que fulano (pessoa de reputação, até então, ilibada) é um serial killer, dificilmente esse alguém quererá continuar mantendo relações com o tal fulano. Se um determinado autor, de quem eu gosto muitíssimo, disser uma grande bobagem – diante da a qual eu me escandalize -, certamente pensarei duas vezes antes de comprar o próximo livro dele: o escândalo gera um bloqueio, um temor de que naquele ouro livro eu encontre novamente as ideías e palavras que outrora me causaram escândalo. Ao limiar do escândalo, o natural é esquivar-se ou recuar: como se faz diante de um obstáculo.  Poucos são os que estão dispostos a ultrapassá-lo, como aquele sacerdote que ia à zona de prostituição falar de Deus às prostitutas, ainda que – aos olhos de muitos – fosse escandaloso ao extremo ver um padre percorrendo as ruas onde se instalava o baixo meretrício…

            O mais difícil, contudo, é saber como portar-se de modo caridoso ante o escândalo. Como ser benedicentes com alguém que provoca-nos repulsa por suas atitudes escandalosas? Se nos calamos, somos omissos. Mas, por outro lado, em muitos casos – senão em todos – convém que sejamos discretos para que o fato escandaloso não tome proporções ainda maiores. E aí? Como fazer?

            Bom, creio que aqui convenha fazer uma importante distinção: omissão e discrição não são a mesma coisa. Omissão é quando deixamos de fazer a nossa parte para que, no contexto que estamos analisando, o escândalo não torne a se repetir; se podemos fazer algo, no sentido de prevenir e/ou remediar uma situação, e não a fazemos, estamos sendo omissos. A discrição, porém, significa fazer a nossa parte sem chamar a atenção, isto é, denunciar o escândalos às pessoas certas, no momento, da forma certa. O discreto sabe o que e como convém fazer.

             O ensino de Jesus a respeito do escândalo foi bem preciso e severo: “É impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm!” (Lc 17,1). E: “O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal” (Mt 13,41). São Paulo, diligente e zeloso para com as comunidades cristãs primitivas, aconselha: “Não vos torneis causa de escândalo, nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus” (1 Cor 10,32). E recomenda: Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os!”(Rm 16,17). O Apóstolo explica o porquê de “evitar” o escândalo noutra passagem: “A ninguém damos qualquer motivo de escândalo, para que o nosso ministério não seja criticado” (2 Cor 6, 3).

            O mesmo São Paulo, porém, afirma: “nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23). Podemos, de repente, nos perguntar: “como conciliar a doutrina de Cristo e também as orientações paulinas com o fato de que a própria cruz de Cristo é motivo de escândalo?” Acontece que aí há uma questão de foco: Jesus não provocou o escândalo da cruz. O problema, a raiz, do escândalo estava naqueles que não conseguiram compreender uma prova de amor, digamos, tão contundente. O crucificado não tem culpa de nada, não buscou ser causa de escândalo. Em audiência geral, concedida em 29 de outubro de 2008, o Santo Padre tratou do aspecto do escândalo no contexto da Teologia da Cruz: “O “escândalo” e a “loucura” da Cruz encontram-se precisamente no fato de que onde parece existir somente falência, dor e derrota, exatamente ali está todo o poder do Amor ilimitado de Deus, porque a cruz é expressão de amor, e o amor é o verdadeiro poder que se revela precisamente nesta aparente debilidade. Para os judeus, a Cruz é skandalon, ou seja, armadilha ou pedra de tropeço (obstáculo): ela parece impedir a fé do israelita piedoso, que tem dificuldade de encontrar algo de semelhante nas Sagradas Escrituras. Aqui, com não pouca coragem, Paulo parece dizer que a aposta é extremamente elevada: para os judeus, a Cruz contradiz a própria essência de Deus, que se manifestou mediante sinais prodigiosos. Portanto, aceitar a Cruz de Cristo significa realizar uma profunda conversão no modo de se relacionar com Deus”.

            Com estas palavras do Sumo Pontífice, encerro este breve estudo sobre o escândalo. Que Deus nos ajude a lidar com o escândalo com caridade e discrição, e nos conserve distantes da maldição do escândalo que tantas feridas tem causado à Igreja de Deus.

 

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