Ontem (29), a convite de uma amiga, fui assistir a um espetáculo teatral. Eu não sabia exatamente qual era o espetáculo, mas pensava se tratar de uma peça. Ao chegar ao Teatro Apolo, fui informado que ocorreria uma apresentação de dança contemporânea (algo que eu não fazia a mínima idéia do que se tratava) intitulada: Cultura bovina?

            Cinco bailarinos dançaram durante cerca de 45 minutos. O grupo de dança, chamado Ginga, nasceu, cresceu e desenvolve suas atividades no Mato Grosso do Sul.  

            Em geral, posso dizer que é notória a competência técnica dos bailarinos: dançam muito bem. Além disso, o garoto que os acompanha na percussão (que é também fagotista da Orquestra Sinfônica de Campo Grande) é um músico muito versátil. Um verdadeiro virtuosi. Ele produz um espetáculo à parte que realmente dá gosto de ver. De resto, descobri que dança contemporânea nada mais é que uma coreografia composta de gestos desconexos feita por quem quer dizer: “vejam o que sou capaz de fazer com meu corpo!” A noção do “belo”, como transcendental presente na arte, passa longe da tal dança contemporânea.

            Ao final da apresentação houve um pequeno debate. Pensei comigo mesmo: “bom, agora eles – os atores, produtores, coreógrafos, etc. – vão explicar a Cultura bovina? O que é que isso que foi apresentado no palco tem a ver com o tema proposto?” Mas, para minha decepção… Nada. Nenhum comentário sobre a relação tema-coreografia!

            Não faz muito tempo que eu fui assistir a uma peça em que, ao final, também houve esse espaço para debate. Expus o que eu tinha entendido da peça. E, para minha completa frustração, disseram-me que aquela visão que eu tive era bastante interessante; e que, de fato, aquela era uma leitura que também poderia ser feita. Afinal, cada um – dentro da sua realidade – entende de um modo. Argh!!! Essa linguagem dúbia virou padrão para os artistas. Aliás, no meio artístico, é feio não falar assim! Resultado: fiquei sem saber se a proposta da peça era aquela ou não; se eu tinha entendido corretamente ou não; se a minha visão “interessante” estava certa ou errada; se a pessoa que idealizou a peça queria realmente transmitir aquela mensagem. Ora, se a opinião do artista não vale de nada, se as intenções que ele quis expor não puderem ser captadas, então para que prestigiá-lo? Aliás, creio que essa coisa de “cada um atribui um sentido” é mais que inapropriada: na maioria das vezes é uma deturpação ao pensamento do artista e, em alguns casos, até mesmo uma afronta.

            É frustrante que a arte contemporânea seja marcada por um completo vazio de significado. Parece que ela arte perdeu sua capacidade inigualável de mostrar, de manifestar, de expor. As intenções do artista acabam ficando no seu íntimo, de modo que ninguém consegue perceber o que ele quis expressar através daquela obra de arte. Daí, cada espectador atribui um sentido aquilo, de forma que pode ser que ninguém esteja certo, mas também ninguém está errado. A mensagem contida naquele projeto artístico permanece inacessível, impenetrável. Todos apresentam sua visão a respeito daquilo, sem que essa visão precise estar atrelada ao pensamento do artista. O que ele, o artista, quis dizer, não interessa. Importa o que se quis entender. E esse é o absurdo que para mim ficou patente no dia de ontem.

            Tudo isso por influência da ditadura do relativismo. Tudo isso porque hoje a verdade e a clareza não valem mais nada. O mundo moderno perdeu a noção da importância dos conceitos de “certo” e “errado”.  Pior: gosta disso!  Ser relativista é “elegante”!

            Esse mesmo pensamento se traz para a religião. Não importa mais as coisas tal e qual elas são. Não interessa se isso ou aquilo é pecado. O corolário é: “em essência, nada é dotado de moralidade e de sentido próprio. O sentido das coisas encontra-se no sujeito e não no objeto”. O relativismo ensina que se o adulto acha que embaixo da cama estão os chinelos e a criança acha que há um monstro terrível, ambos estão corretos! Talvez até o monstro use os chinelos…

             E assim, ninguém ousa olhar embaixo da cama para descobrir o que há. Pelo amor de Deus! Onde vamos parar? Alguém tem que ter a coragem de dizer à criança que o monstro não existe, e que embaixo da cama não há nada além de chinelos e poeira!

            Além dessa questão do relativismo, não posso deixar de comentar outra coisa: em dado momento do espetáculo, duas bailarinas e um bailarino começaram a se despir. Começaram e terminaram: ficaram nus (é isso mesmo, caro leitor, completamente nus!).

            O apelo à nudez “artística” é a completa prostituição da arte. Vender aquilo que se tem de mais sagrado para atrair público é imoral e desnecessário. Isso me entristece e irrita. Ponho nudez artística entre aspas porque, na realidade, ela não existe. Nudez é nudez e ponto. A arte não pode eliminar o pudor. Por que recorrer à nudez? A competência não substitui à altura o colo desnudo de uma mulher? Acaso é impossível produzir um espetáculo com os atores vestidos? Vai-se começar a aplicar à arte a mesma política dos comerciais de cerveja? Desse modo não demora muito a que as peças de teatro e outras mostras artísticas estejam seguindo a filosofia do “não precisa ser inteligente, basta ter mulher pelada”…

            Se não tomarmos cuidado, o relativismo e a imoralidade vão destruir – ainda mais – a arte e o ser humano…

 

Exsurge, Domine!

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