Ontem fui ao cinema assistir Anjos e Demônios. A princípio eu estava com receio de ir por achar que estava desobedecendo às orientações da Igreja – que propôs boicote a esse filme. Contudo, ao perceber que aquilo não iria abalar – de modo algum – a minha fé; e com o aval do meu diretor espiritual, fui com uns amigos ver Tom Hanks protagonizar mais uma asneira de Dan Brown.

            Nunca fiz crítica de cinema e, portanto, não vou sistematizar uma análise do filme. Não vou julgar o trabalho de Tom Hanks e sua equipe abordando, pontualmente, os critérios observados na concessão de um Oscar, por exemplo. Roteiro, figurino, efeitos especiais, atuação, historicidade, consistência, etc. Todos esses elementos devem ser tratados por profissionais da área. Contudo, não posso me abster de fazer observações no que tange a imagem que o filme transmite da Igreja. Sem contar o fim do filme, para não tirar-lhe a “graça”, façamos algumas considerações:       

            1º – O filme procura – o tempo inteiro – apresentar uma Igreja em conflito, na qual existe uma acirrada briga por poder. Por mais que isso possa existir (e, eu creio que não há na proporção que o cineasta apresenta no filme), a luta por poder é inerente aos homens e não à Igreja. Se alguém quer ser o “primeiro” na Igreja, atribua-se sua ganância e ambição a um desvio de conduta seu e não a uma práxis da Igreja. É lamentável ver que Anjos e Demônios retrata o Colégio Cardinalício como um antro de perdição onde só se encontra homens avarentos, viciados, orgulhosos, ambiciosos, intransigentes, puritanos, teimosos, retrógrados e tudo mais que se possa usar para denegrir a imagem de alguém. Nesse ponto, o filme é uma afronta aos príncipes da Santa Igreja Romana.

            2º – Uma rápida consulta à Constituição Apostólica Romano Pontifici Eligendo e a Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, evitaria que se cometesse o erro de atribuir a um padre, não pertencente ao colégio dos cardeais, o título de Camerlengo. As Constituições se referem sempre ao Cardeal Camerlengo. Ainda que a intenção da produção do filme tenha sido apresentar uma situação inusitada – em que um presbítero exercesse tal ofício –, penso que essa intenção deveria ter ficado mais clara. Passou-me a impressão de que quem elaborou o filme não sabia exatamente quem é e o que faz o Camerlengo quando a Santa Sé está Vacante…

            3º – Gostaria muito de saber quais as fontes em que se basearam o(s) roteirista(s) de Anjos e Demônios para afirmar que as imagens religiosas da Basílica de São Pedro foram castradas por ordem, salvo engano, do Papa Pio IX. Obviamente, as imagens (sobretudo as barrocas, que são carregadas de realismo) tornam-se inconvenientes e inadequadas a um ambiente sacro, quando apresentam figuras com a genitália à mostra. Não é esse o propósito da Igreja quando aloca imagens num templo. Por outro lado, como revestir dignamente seres espirituais? Assim sendo, adotou-se o costume de cobrir a nudez das imagens (normalmente anjos) ou mesmo de esculpi-las com uma genitália discreta que, de modo algum, remeta a imaginação das pessoas a pensamentos luxuriosos. Até onde sei, era (e é) esse o tratamento dispensado às esculturas sagradas. Foi a primeira vez que ouvi essa história de “castração de imagens”. Repito: adoraria saber se essa informação procede… No fundo, ainda que proceda, é capcioso da parte dos roteiristas ter mencionado isso: não contentes em apresentar uma Igreja inimiga da ciência, querem também taxá-la de inimiga da arte; querem mostrar que ela é ‘aquela que tolhe a liberdade de expressão em todas as suas formas’.

            4º – Ridículo o comentário do personagem Cardeal Strauss que, dirigindo-se ao professor Langdon (Tom Hanks) diz: “Quando falar de nós (cardeais) procure falar bem”. Ao que o professor responde: “Vou tentar”. Desde quando a Igreja precise do aval e dos elogios de quem está fora dela? Pior: de seus inimigos! Desde quando o Colégio Cardinalício, por mais que seja constituído de homens pecadores, imploraria os aplausos do mundo? Seria patético…

            5º – Não sei se minha associação está correta mas é muito provável que o título do filme seja um insulto direto aos cardeais da Igreja: no meu entendimento os “Anjos” seriam os que apontavam as pistas para o desenrolar da trama policial; ao passo que os “Demônios” seriam os próprios prelados que, agindo em busca de poder, cediam à tentação demoníaca do orgulho e da vaidade! Espero estar errado. Espero que os “Demônios” sejam os “Iluminatti”. Mas quero ser benedicente ser ser ingênuo…

            6º – A bem da verdade, diga-se que a trama policial é bem construída. Às vezes é um pouco forçada. Mas, paciência…

             Em resumo, o filme retrata pessimamente a Igreja. São totalmente parciais. Mas, por incrível que pareça, me pareceu menos nocivo do que imaginei. O Código da Vinci, com suas insinuações a respeito de Jesus e Maria Madalena, é bem pior…

            P.S.: A quem interessar: encontrei esta entrevista com Dan Brown no site da Sextante (uma editora que me parece maçon…)

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